Como lidar com a lgbtfobia de cada dia
Não sei até que ponto conseguirei não arrancar os cabelos da cabeça de alguém.
Antes de tudo, gostaria de expor meu amor à psicanálise – digo, ao que eu valorizo da psicanálise, pois tem muita merda SIM, da mesma forma como quase, se não todas, as teorias e abordagens. Jung era homofóbico pra caramba, socorro. Mas o cerne desse texto é: não estou sabendo lidar.
Já conciliei meus interesses na psicanálise com as merdas em suas imediações. Entendo quando as pessoas se utilizam de termos arcaicos, como “sexo biológico” e “identidade” – não tão arcaicos, mas espero que um dia sejam –, pois é difícil mudar de perspectiva, abnegar de velhos preceitos que sustentam toda uma lógica heterossexual obsessiva. No entanto, as pessoas vão longe demais.
Hoje, durante minha querida aula, essa aluna perguntou “hmmm, professora, diga-me... se as mulheres tendem à ser histéricas e os homens, neuróticos obsessivos, os gays não tenderiam a ser histéricos também, pelo comportamento de mulher?”
1) Que eu saiba, a prevalência da histeria em pessoas lidas e socializadas como mulheres e da neurose obsessiva em pessoas lidas e socializadas como homens, de acordo com as concepções de homem/mulher da nossa sociedadezinha, não é um fato, mas somente uma afirmativa sem estudos quantitativos. Contudo, podemos pensar que essas neuroses se desenvolvem com base nos tipos de recalcamento inferido às pessoas no sistema binário de sexo/gênero. Ou seja, pessoas designadas e socializadas como mulheres recebem tais e tais restrições e tendem a passar por tais e tais experiências generalistas (assédio, certas repressões, enfim, cultura) que possibilitam mais o desenvolvimento da histeria do que o da neurose obsessiva, o que não exclui as mulheres de desenvolverem essa última.
2) E pelo amor de Lulu, minha nossa senhora das trevas... Comportamento de mulher?
Percebe? É por isso que eu passo todos os dias com essas pessoas. Elas falam como se não houvesse gays no mundo dela, só num vale bem distante cheio de purpurina. E opa, olha só, os gays (refiro-me à comunidade lgbtqi+ com esse termo, pois é assim que essas pessoas alienadas pensam: gay = qualquer pessoa não cishetero. Na verdade, elas provavelmente não sabem o que cis, nem hetero, significam) estão bem aqui, do seu lado, no canto da sala, do lado esquerdo, sete cadeiras atrás. Sua anta.
Infelizmente, sinto que a professora, que eu admiro muito, não tem a bagagem de estudo sobre gênero, teoria queer, um estilo de vida (note a ironia) não falocêntrico heterossexual. Fico com medo de falar – seja pela ansiedade e pela timidez ou por uma provável defensiva da turma –, mas preciso fazer alguma coisa. Está ficando cada vez mais difícil, os comentários cada vez mais absurdos... Devo me pronunciar durante a apresentação de um trabalho lá pro começo de maio. Espero que me ouçam verdadeiramente e entendam, mudem de perspectiva, ou pelo menos comecem a se questionar sobre “hmmm... comportamento de mulher?”