Em 2012, a modelo transexual brasileira Felipa Tavares afirmou em entrevista ao site Uol que a abertura à diversidade no mundo da moda é apenas uma fase. Três anos se passaram e, no entanto, mais conquistas significativas ocorreram, as quais mostram que as questões de gênero e sexualidade existem e são mais complexas do que muitos julgam.
Roberta Close é considerada a primeira modelo transexual do país, mas foi Lea T, filha do ex-jogador Toninho Cerezo, a primeira trans brasileira a ganhar destaque nas passarelas internacionais. Essa mineira alcançou um patamar no mundo da moda que, literalmente, quebra padrões e mexe com as estruturas tradicionais.
Antes mesmo de fazer a cirurgia para trocar de sexo na Tailândia – a qual muitos acreditam necessária para se tornar mulher – Lea tirou o seu nome do anonimato, em 2010, ao desfilar e fazer campanhas para a marca Givenchy, sem nunca esconder quem verdadeiramente era. No mesmo ano, a modelo pousou nua para a Vogue francesa, escondendo parcialmente o seu órgão masculino. Hoje, esse detalhe oculto do ensaio mudou. Um detalhe importante somente para a sociedade, como comentou em entrevista ao Fantástico um ano após a cirurgia. Um detalhe que não a torna mais ou menos mulher que a Naomi Campbell ou a Gisele Bündchen.
Dois acontecimentos, ao contrário, foram, sim, importantes na carreira da modelo e na luta pelos direitos transexuais em 2015. Em janeiro, Lea T estreou como nova embaixadora global da Redken. Com isso, seu rosto marcante e cabelos de dar inveja estarão à mostra em diversos países. Ela também foi eleita pela revista Forbes uma das doze mulheres que mais mudaram a moda italiana, sendo a primeira transgênero a entrar na lista.
Em relação às revistas de moda, é sempre muito fácil estampar a diversidade nas páginas de dentro – alô Elle com a edição da Ju Romano. Neste ano, contudo, a Vogue americana escolheu Andreja Pejic para o primeiro perfil de uma trans na revista. Além disso, a modelo assinou um contrato com a Make Up For Ever, tornando-se a terceira trangênero a participar de grandes campanhas de beleza. A primeira foi Lea T com a Redken e posteriormente a adolescente Jazz Jennings com a Clean & Clear.
Outra conquista ainda mais recente é a contratação da trans Hari Nef pela IMG Models. A primeira transexual a assinar com a agência foi a holandesa Valentijn De Hingh, porém ela é representada apenas em Paris, enquanto Hari Nef é globalmente. A modelo também abriu o desfile da VFiles no New York Fashion Week este ano vestindo um agasalho escrito Girl Power. Sim, girl.
Como se não bastasse essa avalanche de acontecimentos importantes, a capa de julho da Vanity Fair será com Bruce Jenner. Quer dizer, Bruce não. Call me Caitlyn diz a capa, ou seja, me chame de Caitlyn.
Bruce sempre contou uma mentira, viveu essa mentira. Todos os dias ele tinha um segredo. De manhã até à noite. Caitlyn não tem segredos. Assim que a capa da Vanity Fair sair, eu estou livre. Essas são algumas das palavras ditas por Caitlyn durante o vídeo com os bastidores do ensaio. Ela não é uma modelo, mas, ainda assim, seu rosto fotografado pela primeira vez como mulher estará em uma das principais revistas femininas. O que é a segunda gravidez de Kim Kardashian depois desse tapa na cara da sociedade?
Lea T, Andreja Pejic, Hari Nef e, agora, Caitlyn Jenner provocam alguns questionamentos por meio de suas trajetórias, como, por exemplo, o que é ser mulher? Será que no Brasil elas seriam reconhecidas da mesma forma que internacionalmente? O mercado se aproveita dessas histórias ou realmente as apoia? A moda – e o mundo – está de fato em transição ou, nas palavras de Felipa Tavares, essa é só uma fase? Ao menos, essas quatro mulheres nos lembram de que a diversidade existe e é, literalmente, linda. Pois, como descrito por Jazz Jennings no programa Out There, o que está no meio das suas orelhas te define, não o que está no meio das suas pernas.
*Texto publicado originalmente para a editoria de moda do site AreaM.