Me disseram que minha pomba gira não sabe se eu tenho ou não condições de ir para a gira e que ela tem que me cobrar porque não fui, e que deve ser por isso que ainda estou doente.
Sinto muito, mas eu não acredito nisso.
Não acredito que uma entidade de luz, seja ela qual for, vai me castigar por não ter estado na gira por estar doente. Ou quer dizer que, com gripe, dor de garganta e sem conseguir falar, eu tinha que estar lá? Gripe essa que por sinal havia pego na gira anterior de uma pessoa da assistência, porque embora eu saiba que não posso pegar a mão de uma pessoa tossindo e passar no rosto, as entidades não sabem. Gripe não é algo que eu vou incorporar e vai sarar como seria uma dor espiritual.
Então, não! Eu não acredito que ainda estou com dor de garganta por não ter ido num trabalho no meio do vento e do sereno, até porque entidade nenhuma é pastilha para garganta e muito menos xarope para tosse.
Eu não acredito que a entidade vá exigir minha presença se eu não estou bem ou não estou com vontade de ir. Alguém conta para mim o que eu vou fazer no terreiro sem nem conseguir falar? Vou ajudar quem assim? Alguém conta para mim que bem vai fazer para mim e para o outro estar lá pensando quanto tempo vai demorar para acabar porque eu estou com dor e preciso ir para debaixo de uma coberta quente?
Eu tenho um extremo respeito pelas minhas entidades. De verdade. Faço tudo o que está ao meu alcance. Cuido, acendo vela quando pedem e quando precisa, compro o material de trabalho deles, faço preceito, sigo os horários e respeito a presença deles. Mas eu não sou escrava de nenhum deles, e eu também quero que me respeitem. E respeitem meu corpo, afinal eles precisam do meu corpo para trabalhar, e eu não vou sair de casa doente para ficar ainda pior.
Umbanda e caridade deviam ser sinônimos, e até onde eu sei caridade não se faz por obrigação. Se virou obrigação estar lá, deixou de ser caridade.
Não sei vocês, outros umbandistas, mas eu não acredito em uma entidade que vai me fazer sair de casa no frio e no sereno, com dor de garganta, para fazer um trabalho, porque se eu não for serei castigada ficando mais doente e por mais tempo. Não consigo acreditar que um ser de luz mais evoluído do que eu e que deveria cuidar de mim vai me deixar doente porque eu estava doente. Essa lógica não faz sentido e ao menos há lógica alguma nisso.
Como eles querem que eu trabalhe se eles não puderam de alguma forma me ajudar a fazer isso? Seja dando saúde ou condição material par ir? Como a entidade vai querer um instrumento de trabalho se eu não tenho condição financeira de comprar?
Eu sei que em alguns momentos eles precisam dar um ou dois puxões de orelha. Eu sei que em alguns momentos eles precisam nos tirar coisas para que possamos aprender algo. Mas agora prejudicar um filho que já não estava se sentindo bem? Prejudicar um filho que não ia acrescentar em nada se fosse ao trabalho porque nem queria estar ali? Não. Eu acho que não.
Eu acredito que as entidades conhecem seus médiuns (se eles não conhecem, quem vai conhecer?) e sabem o que está acontecendo em sua vida. Sou médium 24 horas por dia, mas tenho uma vida cheia de responsabilidades fora do terreiro. Não deixo de ser carregar minha amada Guardiã em nenhum momento, e ela sabe como é minha rotina. Sabe que preciso levantar cedo e trabalhar. Sabe que eu preciso ir a faculdade e só chego em casa quase meia noite. Sabe que eu tenho sempre um milhão de coisas pra fazer. Como todas as outras entidades sabem. São os preto-velhos que dizem "Calma fia, faz uma coisa por vez que vai dar tempo." É de baixo da saia da minha pomba gira que eu choro porque acho que não aguento mais a loucura que é minha vida. Eles sabem que fico doente. Que não posso evitar de sair toda noite, porque se eu não for para a faculdade eu não me formo. Eles me ajudam, me indicam os caminhos que eu devo seguir para realizar meus sonhos, mas sou eu que tenho que levantar da cama e fazer minha coisas: trabalhar para ter condições de me sustentar, estudar para ser o que quero ser. Eles sabem.
E se eles sabem de tudo isso, sabem o porque eu deixei de ir numa gira. Se eu estava doente, sem vontade , porque tinha outra coisa para fazer, ou arrumei uma desculpa qualquer para fugir da minha responsabilidade. E entre todos esses possíveis motivos e entre tantos outros, a evolução deles deve possibilitar a ponderação entre o que é real ou não, entre o que é necessário ou não. E se essa ausência merece uma cobrança ou não.
Afinal, eu enxergo muita diferença entre "não fui na gira porque não parava de tossir e não aguentava de dor de garganta" e " apareceu um aniversário na hora do almoço e eu vou beber". E acho que a entidade vê também.
Mas quer saber, embora tenha diferença, pode muito bem ser que eu tivesse que ir no almoço para fazer qualquer coisa importante, como conseguir um contrato ou impedir que alguém que está bêbado caia na piscina ou conhecer o amor da minha vida. E a entidade vai saber disso se for o caso. Agora "vou nesse almoço porque quero encher a cara e dane-se a gira ou quem estiver precisando." São essas as diferenças que falo.
Bom senso. Responsabilidade.
É injusto dizerem que você é irresponsável e está doente ainda porque está tomando surra de entidade porque não foi na gira porque já estava doente e é o cúmulo pensar "vou beber mesmo e dane-se" e ser considerado normal.
Talvez ninguém concorde comigo.
Talvez vocês todos também digam que eu estou errada.
Que eu tinha que ir na gira doente e que agora é surra.
Mas eu não acredito.
Não consigo imaginar um ser de luz que me guarda, sendo meu algoz, sendo que nada fiz para merecer.
Não se fala tanto de livre arbítrio?
Dizem por ai que "filho de pemba não tem querer". Mas eu acho que tem sim.
Eu quis entrar na Umbanda. Eu quis desenvolver minha mediunidade. Eu quero continuar. Eu quero louvar meus orixás. Eu quero trabalhar e ajudar o próximo. E eu posso escolher cada dia se quero ou não tudo isso. Eu posso levantar amanhã e dizer "Cansei! Vou virar evangélica" ou "Não acredito em mais nada, a partir de agora sou ateia." E eles vão ter que respeitar e não podem destruir minha vida por isso. Já ouvi entidade falando coisas muito semelhantes a isso.
Eu não sei da onde vem essa mania de dizer que tudo é surra, que tudo é castigo. A pessoa sempre faz tudo certo e num deslize, as vezes por falta de conhecimento é julgada e condenada a "levar surra do exu". Outra pessoas, fazem e desfazem a seu bel prazer, e está tudo bem? Para mim isso não passa de conhecimento sendo usado por conveniência. Ou seja, ninguém te ensinou, você tá errado e teu exu vai te cobrar por isso. Eu to fazendo coisa errada, mas não vai acontecer nada porque eu tenho mais conhecimento, mais tempo ou tenho uma hierarquia superior a sua. De novo: Essa história de surra, as vezes parece mais conveniência.
REPITO: É claro que em alguns momentos as entidades precisam fazer alguma coisa, para tentar acordar seu filho que está se perdendo num caminho sem volta ou está fazendo algo muito errado. Conheço uma moça que perdeu seus dentes um tempo depois que jogou fora todas as coisas de sua pomba gira, porque ia se tornar evangélica, mas continuou e continua até hoje trabalhando com as entidades e não devolveu a rosa da pomba gira. Não sei se é verdade, mas ouvi por ai histórias de exu dizendo para seu médium alcoólatra que se esse colocasse mais uma gota de álcool na boca, ia leva-lo embora e de exu que parou de incorporar porque o médium estava aprontando muito.
São casos e casos. Nem tudo é surra. As vezes é só uma questão da vida terrena. As vezes é uma gripe forte, as vezes um obsessor que conseguiu ultrapassar sua guarda.
E de novo, eu não sei você que está lendo, mas eu nunca acreditei na entidades como pais punitivos e tiranos que vão castigar por tudo sem considerar nada e sem pensar no que é melhor para seus filhos. E eu sinceramente, fico extremamente irritada quando alguém me sugere isso.
Se Umbanda é caridade, é caridade também para os filhos-de-santo. Se Umbanda é amor, os filhos também merecem amor. Se Deus nos ama incondicionalmente, os orixás também. E as entidades também. E, mais uma vez, me desculpe, mas eu sinto muito de você enxerga orixás e entidades como seres tirânicos. Eu não os vejo assim e nunca verei. Se a Umbanda é paz e amor, seus mensageiros também são, e eu vou discordar de quem me disser o contrário.