i think you should definitely check "the iceberg method" and its sequel if you haven't. easily one of my faves!
Ok I’ve only heard great things about this one. I guess I’m kinda late on the newer fics y'all :/ but I’m trying! Haha. Thank you for the suggestion, check back soon!
The Iceberg Method is amazing. It didn't give u the intense heartache like Girl Is Like Sunburn but it gave you that longlasting warmth and impression. I love that the writer make me as a reader to see the characters as an independent character eventhough it's a fanfic. I didn't even think of the actual people that inspired the character because the character in the story is intriguing themselves.
Lauren olhou para mim e eu tentei o meu melhor para lhe oferecer meu sorriso mais inocente.
“Desculpa.” Eu digo.
Ela balança a cabeça. “Você não tem outro lugar para colocar esse negócio?”
Meu cavalete tem viajado pelo apartamento desde que nós montamos o berço. Eu realmente não tinha um lugar para colocá-lo a não ser no canto onde ele ficava anteriormente. Lauren tinha acabado de tropeçar nele pelo que pareceu ser a milionésima vez essa semana, não esperando que o objeto estivesse bem no meio de nosso quarto.
Mas quando a inspiração surgiu ontem tarde da noite, eu o retirei do armário e acho que simplesmente esqueci de guardá-lo. Fico contente que eu retirei a pintura do cavalete, porque do contrário, Lauren teria destruído meu trabalho completamente ao tropeçar no objeto.
“Na verdade, não.” Eu dou de ombros.
Eu volto a olhar a dashboard de meu Tumblr despretensiosamente em meu notebook enquanto estou sentada na cama com minhas costas apoiadas na cabeceira.
Porém meus olhos não conseguem evitar de desviar da tela do computador quando uma Lauren resmungona pega o cavalete e o coloca no canto infame antes de direcionar seu olhar para mim.
“Pronto.” Ela fala. “Fora do nosso caminho.”
Eu não acho que ela se dê conta do que acabou de fazer, talvez pelo fato de ela ter acabado de acordar, e então meus olhos alternam entre a figura de Lauren e o canto do quarto enquanto ela reúne suas coisas para fazer sua higiene matinal no banheiro.
Lauren fecha a porta com força e eu não consigo evitar de sorrir por ela ser tão fofa quando está de mau humor.
Eu tenho certeza de que ela não faz ideia do quanto foi significante esse pequeno gesto.
Ela sai do banheiro alguns minutos depois e a mudança em seu humor é evidente. Ela parece revigorada, e isso é notável pela respiração calma que ela libera enquanto está apoiada no batente da porta.
Seus olhos viajam para o canto do quarto e eu imagino se agora que ela está devidamente acorda ela vai tirar o cavalete de lá.
Eu quase consigo ver a batalha interna em seus olhos quando ela encara o canto por alguns minutos, mas para minha surpresa, ela deixa para lá.
Ela então olha para mim e me lança aquele sorriso maravilhoso que eu tanto amo. Ela me dá meu beijo de bom dia e me informa que vai preparar um café fresco para nós.
Assim que ela deixa o cômodo, meus olhos viajam do canto do quarto para a porta que ela acabou de sair e meu peito se enche de orgulho.
Em alguns minutos Lauren retorna com duas xícaras de café e eu a observo enquanto ela começa a andar de um lado para o outro ao pé da cama, que é o mesmo lugar onde eu estava quando ela jogou um copo de vidro em minha direção e eu me permiti chorar no chão por horas.
Eu tento expulsar a lembrança de minha mente e opto por me concentrar no presente, e nesse exato momento eu posso dizer que há algo em sua mente. Ela ocasionalmente bebe um gole de seu café e quando a xícara preta não está pressionada contra seus lábios, ela nervosamente morde a carne suave dali.
Eu decido não perguntar nada.
Ela está tentando pensar em um jeito de me dizer algo e eu não vou fazer nada para interferir.
Eu tenho um pressentimento que o que quer que ela queira me falar, tem a ver com a reunião que ela teve noite passada. Ela foi ver o homem da editora e ela ainda tem que me contar como foi.
Eu sabia que ela estava nervosa com a reunião, mas eu não via motivo. Eu já li seu material no passado e sei que ela é uma escritora maravilhosa. Porém ela não me deixou ler os capítulos que ela já havia escrito para seu livro, e eu não quero forçá-la a nada. Sei que ela irá me mostrar quando se sentir pronta.
“Lauren.” Eu digo ficando um pouco impaciente.
Ela para de andar e me encara com aqueles olhos que são a minha morte, parecendo um filhotinho perdido.
Eu tento não sorrir com isso, só porque eu quero ser compreensiva com seu nervosismo aparente, e deixo meu notebook de lado.
“Só me diga.” Eu falo. “Qualquer coisa que seja.” Eu digo enquanto gesticulo para que ela venha se sentar em meu colo.
Ela assente e deixa escapar um suspiro de alívio enquanto engatinha sobre a cama e sobe em meu colo de frente para mim.
Eu seguro em sua cintura e deixo um beijo suave em seus lábios, indicando que ela poderia me falar qualquer coisa que fosse.
A preocupação em seus olhos é evidente.
Eu acaricio sua bochecha e lhe ofereço um sorriso. “Até o para sempre, Laur.”
Essa pequena fala se tornou nosso jeito de assegurar uma à outra de que não importa o que aconteça, não importa o que nós façamos ou falemos, nós sempre ficaremos uma com a outra e passaremos por qualquer coisa que seja, juntas.
Ela precisa saber que não importa o que está prestes a sair de sua boca, isso não vai me espantar para longe dela ou qualquer coisa remotamente parecida com isso.
Seu olhar cai e ela o foca em seus dedos.
Ela os mexe nervosamente e alguns segundos se passam com ela agindo assim. Para tirá-la de seu transe, eu pego sua mão e deixo beijinhos em cada um de seus dedos.
Ela me observa fazer isso e sorri. Eu interpreto isso como um bom sinal, que ela está relaxada o suficiente para me dizer o que está havendo.
Eu a vejo inspirar profundamente antes de começar a falar. “Eu falei com o Senhor Lockward ontem.” Ela diz.
Eu assinto.
Eu já sabia sobre isso, e seu nervosismo me deixou ansiosa também, então eu só estava esperando ela falar logo de uma vez.
“Ele não gostou.” Sua voz soou baixinho, quase como se ela estivesse com vergonha.
Eu congelo. Eu não sabia o que dizer, levando em conta que Lauren era uma boa escritora.
“Não minha escrita, ele gostou do meu jeito de escrever.” Ela disse um pouco animada. “Ele não gostou do enredo, então ele pensou que nós tínhamos que tornar a história um pouco mais interessante.” Ela explicou.
“E como vocês vão fazer isso?” Eu perguntei.
“Adicionando alguns personagens.” Ela disse, não respondendo minha pergunta diretamente.
“Lauren.” Eu disse, perdendo a paciência.
“Hm?” Ela murmurou.
“Me diz onde você quer chegar;”
“Eu quero escrever sobre nós.” Ela finalmente diz. “Mas eu gostaria de ter a sua permissão.” Ela agora estava falando rápido e eu presumo que ela só quer resolver isso logo. “Considerando as circunstâncias em que nós nos conhecemos, eu queria me certificar de que você concordaria que eu escrevesse o livro sobre nós. Mas claro que nossos nomes seriam trocados e ninguém saberia que a história aconteceu de verdade e você poderia me ajudar a escolher seu nome se você quisesse, mas se você não concorda com tudo isso é só me falar que eu vou desistir dessa ideia a dizer a James que nós precisamos escolher outro enredo.”
Eu a observei com os olhos brilhando enquanto tentava não sorrir.
Meus lábios permaneceram fechados só porque eu acho fofo quando ela fica frustrada.
“Poxa, Camz, só diz alguma coisa, por favor?”
Aí está. Eu penso. Adorável.
“Ok.” Eu dou de ombros sorrindo.
“Ok?” Ela disse parecendo estar surpresa.
“Claro, amor.” Eu disse como se fosse óbvio, o que para mim é. “Eu prefiro mil vezes você escrevendo sobre mim do que sobre seu ex.” Eu rio abafado.
“Mas eu realmente quero escolher meu nome.” Eu digo. “Tem que ser um nome fodão, e você tem que me deixar ler os capítulos assim que você os escrever.”
Ela sorri e assente, claramente aliviada com minha reação. “Combinado.” Ela diz.
“Então, Princesa das Meias de Banana?” Eu falei como uma opção de nome em potencial.
Ela deu um tapa em meu ombro de brincadeira e eu fingi que machucou quando ela deu risada.
“Algum dia desses você vai acabar me machucando de verdade.” Eu falei.
“Vai sonhando.” Ela provocou.
Eu fingi estar ofendida, mas logo parei assim que ela pressionou seus lábios contra os meus.
“Você é a melhor, Camz.”
O sorriso em meus lábios é inevitável.
“Ei.” Eu digo tentando meu melhor para soar durona. “É Princesa das Meias de Banana para você.”
Ela dá risadinhas e sem dizer mais nada, coloca sua cabeça na curva de meu pescoço e eu envolvo meus braços ao seu redor, tentando lembrar da última vez que me senti tão feliz assim.
A lembrança se torna clara em minha mente.
--x--
Ela me deixou sozinha em meu quarto enquanto desaparecia pela sala de estar. Ela disse que queria que eu entendesse essa história por conta própria, uma vez que ela já havia explicado muitas histórias para mim enquanto me dava aula.
Eu era grata por sua confiança em mim, mas eu não conseguia entender essa história de jeito nenhum.
Eu me sentei ao pé da cama e li e reli a pequena história antes de desistir.
“Lauren!” Eu gritei como se minha vida dependesse disso.
Em segundos minha professora favorita passou pela porta desesperada.
“Está tudo bem?”
Eu dei um sorrisinho com a visão que ela me proporcionava. Ela estava usando apenas um de meus moletons grandes. Eu estava usando um também, mas de algum modo Lauren conseguia ficar extremamente sexy.
“Agora sim.” Eu respondi.
Seus olhos examinaram o quarto e ela se deu conta de que tudo estava perfeitamente bem, enquanto meus olhos exploravam seu corpo e eu tive o desejo repentino de arrancar aquele moletom dela.
Assim que ela notou que eu estava despindo-a com os olhos, ela balançou a cabeça.
“Eu achei que tinha algo errado, Camila.” Ela me repreendeu.
“Algo está errado.” Eu faço bico. “Eu estou com frio.”
Ela sorriu com meu jeito e se juntou a mim ao pé da cama.
Eu sempre gostei de sentar no chão enquanto fazia meus trabalhos da faculdade. Eu sinto como se eu conseguisse pensar melhor assim por alguma razão.
“E você não pensou que pegar as cobertas que estão bem atrás de você seria uma boa ideia?” Ela perguntou enquanto se sentava diretamente atrás de mim e envolvia seus braços ao redor de minha cintura.
“Você é muito mais confortável.” Eu argumento.
Ela então notou a garrafa de vinho meio vazia ao meu lado e me lançou um olhar preocupado.
“Não fui eu que bebi isso tudo.” Eu me defendi.
Ela me olhou curiosamente, esperando por minha confissão. Sob o olhar dessas duas esmeraldas é claro que eu estava fadada a me entregar.
“Ok, talvez tenha sido eu, mas não bebi tudo isso agora.” Eu respondi honestamente dessa vez.
Ela sorriu e deu de ombros, pegando a garrafa e tomando um gole direto dela.
Eu sorri. “Porra, Senhora Jauregui, você é tão sexy.” Eu disse em um tom de voz sedutor, porém brincalhão.
Nós duas rimos antes de ela direcionar sua atenção para o livro que estava em minha frente.
“Então, como está indo?” Ela perguntou.
Eu suspirei dramaticamente. “Bem.” Eu inicio. “Para começar, eu tenho uma professora muito gostosa.”
Ela sorriu e eu vi suas bochechas pálidas se tingirem de um leve tom rosado, então ela escondeu seu rosto na curva de meu pescoço.
“Mas eu não conseguiria entender essa história nem se minha vida dependesse disso.”
Ela riu abafado e deixou um beijo suave em minhas costas, o que imediatamente fez minha mente voltar para algumas horas atrás, quando esses lábios estavam viajando por todo o meu corpo. De repente, tudo o que ela fazia tinha certa conotação sexual em minha mente. O jeito que ela mordia seu lábio em concentração enquanto lia sobre meu ombro. O jeito que as pontas de seus dedos estavam passeando lentamente para cima e para baixo em meus antebraços, fazendo minha pele pegar fogo.
“Essa história é bem estranha se você não está acostumada com esse estilo de escrita.” Ela explicou, mas eu só estava observando seus lábios se moverem, precisando deles pressionados contra a parte mais íntima de meu corpo.
“Camz?” Ela perguntou. Ela deve ter notado onde minha mente estava porque ela deu um sorrisinho, porém balançou a cabeça.
“Não.” Ela disse.
“Por que não?” Eu perguntei, minha voz saindo mais baixa e rouca do que eu pretendia.
Ela ergueu a sobrancelha levemente enquanto contemplava a ideia por um momento.
Depois de alguns segundos ela balançou a cabeça novamente.
“Comporte-se.” Ela ordenou. Se ela apenas soubesse que seu jeito mandão só piorava minha situação... “Talvez depois que você termine seu trabalho. Se você se comportar, pense nisso como sua recompensa.”
A essa altura do campeonato eu daria cambalhotas se isso significasse que eu poderia tê-la mais tarde. Eu suspirei e concordei.
“Tudo bem.”
Ela sorriu e deixou um beijo suave em meu pescoço, o que fez com que a área entre minhas pernas começasse a latejar.
“Você realmente não quer facilitar as coisas para mim, não é?”
Ela riu e voltou sua atenção para o livro.
“Então, o que você entendeu sobre a história? Talvez eu possa complementar suas ideias.”
Eu suspirei. “Colinas, elefantes, miçangas, e algo sobre uma tal de Jig.”
Ela deu risadinhas e balançou a cabeça.
“Oh, e teve partes excitantes também.” Eu acrescentei.
Por alguma razão, isso fez Lauren rir ainda mais.
“Camila.” Ela disse de maneira incrédula.
“O quê?” Eu perguntei como se não fizesse ideia do motivo pelo qual ela estava surpresa com minha resposta. “Eu não faço a mínima ideia do que eles estão falando. Eles nunca falam.” Eu me defendi.
Ela conseguiu controlar sua risada antes de se inclinar e sussurrar em meu ouvido.
“Leia nas entrelinhas, Camz.” Ela disse, o que causou um arrepio em todo o meu corpo.
Acho bom que esse trabalho acabe logo.
Eu suspirei, liberando a frustração causada por essa tarefa, juntamente com outras frustações, se você sabe o eu quero dizer...
“Ler nas entrelinhas.” Eu repito.
Eu dou uma última lida na história e de algum modo absorvo as coisas de maneira diferente.
Palavras diversas se destacam. Não eram mais “colinas”, “elefantes” e “miçangas”. Eram “operação”, “procedimento” e “decisão”.
“Ele quer que ela faça um aborto.” Eu murmuro.
O orgulho é notável nas feições de Lauren quando ela assente.
“Isso mesmo.”
Eu zombei. “Por que ele simplesmente não fala isso?”
Ela aperta os braços ao meu redor suavemente. “O autor do livro ficou famoso por esse estilo de escrita. É chamado de ‘o método iceberg’. Hemingway foi o pioneiro desse método, e ninguém foi capaz de escrever igual ele desde então.”
“Por que um iceberg?”
Eu sinto a ponta de seus dedos deslizarem por meus cabelos, fazendo com que eu relaxasse e apoiasse minha cabeça em seu ombro.
“Você já viu alguma foto de um iceberg inteiro?” Ela perguntou retoricamente. “Nós só vemos a ponta, mas a maioria dele está escondida debaixo d’água.” Ela explicou.
“Eis o porquê. O autor te coloca no clímax da história, mas sua essência está abaixo da superfície.”
Eu sorri. “Ler nas entrelinhas.”
Ela assentiu com um sorriso orgulhoso em seus lábios. Nós permanecemos na mesma posição por alguns minutos antes de eu sentir seus lábios beijando meu pescoço de maneira suave. Eu senti seus dedos passando por minha pele debaixo do moletom e dei um sorrisinho.
Hora da minha recompensa.
--x--
“E então?” Eu pergunto. “Como foi?”
Eu vejo Lauren parar à minha frente enquanto eu estou sentada no lado direito do sofá.
“O quê?” Eu pergunto.
Ela não diz nada, apenas olha para mim de maneira expectante.
Então eu me dou conta de sua hesitação. “Sério mesmo?” Eu pergunto.
“Esse é o meu lado.” Ela diz.
Eu suspiro e me movo para o lado esquerdo, permitindo que ela se sente alegremente em seu lugar. Eu sorrio com o seu comportamento infantil e me sento de pernas cruzadas, esperando que ela me conte como foi a reunião com o homem da editora.
“Esse encontro foi muito melhor.” Ela começou. “Eu não senti vontade de dar um soco na cara dele dessa vez, o que foi um progresso.”
Eu dei uma risadinha e balancei a cabeça, permitindo que ela continuasse.
“Ele gostou das ideias que eu tenho para a história. Mas elas são apenas memórias, na verdade.” Ela sorri. “As minhas favoritas.”
Eu sorrio. “Sério?” Eu pergunto. “Quais?”
Ela dá de ombros e olha para baixo timidamente, como se ela tivesse treze anos de idade e estivesse conversando com sua crush, o que eu achei adorável.
“A primeira vez que você me mostrou o telhado do prédio da faculdade.” Ela diz. “Você é tão dramática que precisou me vendar.”
“Ei, você não pode me dizer que não valeu a pena.” Eu me defendo.
A lembrança era tão clara em minha mente. Parecia que se eu me concentrasse forte o bastante, eu poderia sentir como se estivesse revivendo o momento.
Ela sorriu. “Com certeza valeu.”
“O que mais?”
“As várias atividades inapropriadas em minha sala privada.” Ela sorriu. “O armário do zelador. Ou aquele dia antes do jogo que ia acontecer na faculdade.”
Eu ri. “Meu Deus, aquele dia do jogo.”
“Nós quase fomos pegas aquele dia, lembra?”
Eu dou risada. “Eu não poderia esquecer.”
Foram momentos de tensão, mas emocionantes ao mesmo tempo.
“Nosso primeiro beijo.” Ela continuou. “Nossa primeira vez.” Ela falou timidamente.
Eu sorri. “Você vai descrever?” Eu perguntei. “Ou vai ser uma coisa implícita?”
Ela sorriu. “Eu acho que vou descrever.”
Eu dei um sorrisinho. “Oh, eu definitivamente vou querer ler isso.”
Ela riu e jogou uma almofada em minha direção. “Pervertida.”
A expectativa de minha namorada escrever todas as suas memórias favoritas de nós é mais excitante para mim do que provavelmente deveria ser. Eu estou esperando ansiosamente para ler todas as nossas experiências a partir de sua perspectiva.
Eu não consigo nem lembrar quantas vezes eu olhei para esses olhos verdes misteriosos e imaginei o que se passava por trás deles. O que ela estava pensando? O que ela estava sentindo?
“Eles querem que eu use um novo método de escrita que supostamente traz sucesso para escritores de livros de ficção.” Ela disse.
“Ah é? Como o método se chama? Talvez eu tenha ouvido sobre ele, considerando que eu tive uma excelente professora de Inglês.”
Ela deu um sorrisinho e piscou para mim, deixando um beijo suave em meus lábios.
Eu sorri quando ela pegou seu celular para procurar pela informação.
Eu observei Lauren franzir suas sobrancelhas em concentração, olhando em seu celular, e eu não consigo evitar de pensar em tudo o que nós passamos.
Faz quase um ano desde o dia em que eu apareci naquela sala de aula da faculdade. Tem sido uma montanha-russa de sentimentos, mas eu passaria por tudo de novo se isso significasse que eu estaria aqui hoje.
Sentada ao lado da mulher que eu amo, com seus olhos brilhando com a perspectiva de escrever seu primeiro livro. Sentindo-me muito agradecia que ela decidiu escrevê-lo sobre nós, e pela primeira vez em um bom tempo me sentindo feliz por estar onde eu estou em minha vida.
“É chamado...” Ela interrompeu a fala e eu cheguei mais perto, tentando espiar o que estava escrito na tela de seu celular.
Ela afastou o objeto de mim, brincando, para que eu não pudesse ver, e eu cruzei os braços fingindo estar chateada.
Ela sorriu, não dando importância para minha raiva fingida, e então achou o que estava procurando.
“O método floco de neve.”
N/T: então é isso. espero que vocês tenham gostado de acompanhar essa história tanto quanto eu gostei de traduzi-la! e ah, a continuação da fic vocês encontram aqui: https://www.wattpad.com/story/91039642-the-snowflake-method-portugu%C3%AAs
Eu observei Lauren digitar furiosamente em seu notebook. Suas sobrancelhas estavam franzidas em concentração e seus dedos estavam se movendo o mais rápido que eu já vi.
Eu peguei uma folha de papel e me encaminhei para o lado oposto do sofá. Ela parecia estar encantada demais com seu trabalho para me notar ali amassando o papel. Eu sabia que ela precisava terminar o que estava fazendo, considerando que o homem da editora estava esperando o sumário da história, ou talvez ela estivesse escrevendo o rascunho de alguns capítulos.
Eu não sei exatamente o que era, mas de qualquer modo, estava tomando muito de seu tempo. Eu rapidamente peguei mais duas folhas para fazer bolinhas de papel antes de jogar a primeira em direção à cabeça de Lauren e ver o papel cair no chão.
“Ei.” Eu disse.
Sem resposta.
Eu tentei chamar sua atenção com a segunda bolinha de papel, o que fez Lauren parar de digitar momentaneamente, mas ela decidiu me ignorar mais uma vez.
“Ei.” Eu tentei de novo.
A terceira bolinha de papel pousou diretamente sobre seu teclado, então ela não pôde fazer nada além de parar de digitar, mas dessa vez ela foi simpática o bastante para colocar um sorriso forçado em seu rosto e perguntar em um tom excessivamente doce.
“Sim, meu amor?” Ela perguntou, claramente irritada com meu comportamento infantil.
“Preste atenção em mim.”
Lauren era bastante ciente do quão carente eu conseguia ser, então eu não sentia vergonha alguma em dizer coisas desse tipo. Na verdade, ao ouvir isso, suas feições suavizaram e ela suspirou.
“Que tal você me deixar terminar os próximos parágrafos e então eu serei só sua, pode ser?” Ela falou tentando fazer um acordo comigo.
“Talvez.” Eu disse sabendo que eu estava sendo mais difícil que o necessário, mas se eu tinha que esperar, eu estava determinada a conseguir algo com isso. “Você vai comprar sorvete para mim depois?”
Um sorriso apareceu nos lábios da garota de olhos verdes enquanto ela assentia. “Eu vou te levar para tomar sorvete depois.” Ela consentiu.
“Eba.” Eu bati palminhas rapidamente e tentei o meu melhor para esperar pacientemente.
Levou cerca de dez minutos para Lauren fechar seu notebook. Assim que ela o fez, eu peguei nossas bolsas e fiquei esperando ansiosamente perto da porta.
“Eu juro que você parece um filhotinho.” Ela disse com um sorriso.
Eu lati de brincadeira quando ela abriu a porta e nós demos de cara com Normani e Dinah.
“Bem, por que vocês não fazem isso toda vez que viemos aqui? Assim não teríamos que quase arrombar a porta.” Dinah disse com um sorriso largo.
Eu rapidamente me coloco ao lado de Lauren e olho para o casal de maneira expectante.
“E então?” Eu pergunto.
Normani então ergue sua mão esquerda com um sorriso brilhante, mostrando para nós o anel de noivado.
“Nós vamos nos casar!” Ela disse.
Lauren e eu demos gritinhos e eu puxei Dinah para um abraço enquanto Lauren fez o mesmo com Normani, depois eu abracei Normani e Lauren abraçou Dinah.
Nós trocamos uma série de “parabéns” e “eu estou feliz por você” antes de informarmos a elas nossos planos.
Todas nós decidimos ir tomar sorvete juntas e no caminho elas nos contaram sobre a noite anterior em detalhes. Desde a conversa durante o jantar, passando pelo discurso de Dinah sobre a primeira vez que ela se deu conta que amava Normani, o que quase me fez chorar – não que eu vá admitir isso algum dia – até o pedido de casamento.
Pareceu ser uma noite mágica e eu honestamente não podia acreditar que minhas duas melhores amigas estavam prestes a se casar.
Quando exatamente todas nós nos tornamos adultas?
“Quem diria que Dinah era tão sensível...” Lauren disse quando saímos do carro em direção à sorveteria.
“Cuidado, Jauregui, eu só sou sensível quando se trata de Normani. Eu ainda sou capaz de te dar uma surra.”
Lauren ergueu as mãos em derrota antes de envolver meu ombro com seu braço quando entramos na sorveteria.
Havia algumas crianças barulhentas correndo de um lado para o outro enquanto nós esperávamos na fila e Lauren sorriu ao olhar para a mãe das crianças, que simplesmente sentou em seu lugar, parecendo derrotada. A mulher esporadicamente dizia um “parem de correr” ou “não mexam nisso”, mas ela claramente não esperava que eles a dessem ouvidos.
Nós pedimos nossos sorvetes e nos sentamos.
“Então, depois do restaurante nós voltamos para casa e-“
Eu ergo minha mão e faço sinal para ela parar.
“Eu realmente não quero ouvir o que aconteceu quando vocês chegaram em casa.” Eu falei para Dinah depois de tomar um pouco do meu sorvete.
“Oh, não é nada de mal.” Normani disse.
“É, nós só tivemos o melhor sexo de nossas vidas.” Dinah terminou a fala da noiva.
Eu ouvi Lauren dar uma risadinha enquanto eu lançava olhares para minhas amigas, especificamente Normani. “Eu esperava mais de você.” Eu disse.
Eu olho para o lado onde minha namorada está e vejo que há um pouquinho de sorvete na ponta de seu lábio.
“Não faça nojeira.” Eu ouço Dinah dizer como se ela estivesse lendo meus pensamentos.
Isso fez com que Lauren se desse conta de que eu estava olhando para ela, então ela olhou para mim e sorriu.
“O quê?” Ela perguntou, levemente confusa.
Eu me inclino lentamente, deslizando minha língua em seu lábio e limpando o sorvete.
Eu ouço vários “que nojo” vindos do outro lado da mesa, o que eu prontamente ignorei quando senti Lauren pressionar seus lábios contra os meus.
Porra, eu amo essa garota.
Nós passamos o tempo conversando e com os dois casais em uma competição para deixar o outro com mais nojo. Eu devo admitir que o casal recém noivo estava ganhando e eu estava atingindo meu limite com as duas falando uma com a outra como se fossem bebês.
Eu olhei para minha namorada, que não havia falado nada por um tempo, e notei seu olhar sobre o menininho e a menininha que agora estavam sentados na mesa rindo e jogando sorvete um no outro quando a mãe não estava olhando.
Eu fiz sinal para Normani e Dinah, para que elas notassem para o que Lauren estava olhando.
“Laur.” Eu digo enquanto coloco minha mão suavemente em sua bochecha, virando seu rosto para mim.
“Você quer ir para casa?”
Ela assente lentamente com os olhos começando a lacrimejar, e todas nós nos levantamos dos nossos lugares.
A viagem de carro para casa foi silenciosa, o clima pesado era sentido no ar. Ninguém queria dizer nada de errado e eu comecei a imaginar o que eu poderia dizer para ela quando nós chegássemos em casa.
Talvez nós não precisássemos falar nada.
Nós nos despedimos, mas Lauren não falou nada. Ela deu um sorriso forçado e um pequeno aceno para nossas duas amigas antes de nós entrarmos em nosso apartamento.
Eu fico parada perto da porta e a observo se jogar no sofá. Eu não tenho certeza sobre o que fazer ou como eu devo lidar com a situação. Eu imaginava que algo assim aconteceria algum dia. Que ela veria algo que a lembraria sobre o que aconteceu, e eu tinha tanto medo que ela se afastasse de mim quando isso acontecesse. Mas nós não podemos nos trancar dentro de nosso apartamento porque há uma chance de vermos crianças do lado de fora de nossa casa. Embora eu deva admitir que se isso tivesse acontecido um mês atrás, ela provavelmente estaria naquele canto do quarto de novo e eu fico feliz que ela não esteja. Eu sinto como se qualquer coisa que eu dissesse pudesse fazê-la regredir.
A última coisa que eu quero é ver Lauren sentada no canto onde o berço costumava ficar. Eu não sinto falta da expressão vazia presente em seus olhos e eu certamente não sinto falta da distância que ela pôs entre nós.
“Você o viu?” Ela pergunta.
Eu olho para ela e decido me dirigir até o sofá e sentar ao seu lado cuidadosamente.
“O menininho?” Ela esclarece. “Ele é exatamente como eu imaginava que Logan seria.” Ela diz.
Agora que ela menciona isso eu posso ver por que ela pensou isso. O menininho tinha cabelo loiro médio que se assemelhava com o do seu pai e olhos verdes e brilhantes que ele teria sem dúvida herdado de sua mãe.
“Eu o vi.” Eu digo suavemente.
Ela olha para mim com os olhos lacrimejando antes de se pronunciar novamente.
“Você quer outro?” Ela pergunta.
Eu vejo as lágrimas caírem de seus olhos e não soube como respondê-la. Eu estava surpresa com sua pergunta, para dizer o mínimo.
A verdade é que sim, se eu tivesse a chance, eu amaria tentar ter um bebê com Lauren, mas eu não tenho certeza se essa é a resposta que ela quer. Eu não quero que ela pense, nem por um milésimo de segundo, que o fato de eu querer ter outra criança seja para substituir Logan, porque não é.
“Está tudo bem.” Ela sussurra, sentindo minha hesitação.
Eu assinto lentamente, vocalizo meus pensamentos e espero por sua reação, mas ela não tem nenhuma.
“Eu só...” Eu quero explicar a ela que falei isso com a melhor das intenções. “Quando for o tempo certo, o que não é agora.” Eu esclareço. Eu não podia imaginar Lauren e eu nos prendendo à ideia de ter outra criança nesse momento. Era muito cedo e isso nos deixaria muito ansiosas.
Eu vejo sua falta de reação e decido continuar.
“Eu amaria ter um bebê com você.” Eu digo de maneira mais firme dessa vez. “Uma criança que saiba que ele ou ela tem um irmão mais velho no céu que sempre olhará por ele ou por ela.”
Lauren assente e as lágrimas começam a escorrer sem parar enquanto ela apoia a cabeça em meu peito.
“Isso seria ótimo.” Ela diz quando eu envolvo meus braços ao seu redor fortemente.
Eu sabia que nós teríamos um momento desse tipo algum dia, em que nós falaríamos a respeito da perspectiva de termos outros filhos.
E eu estou honestamente muito orgulhosa de Lauren por não surtar comigo depois dos eventos de hoje.
Lágrimas eram esperadas, mas não houve gritos, não houve culpa sendo colocada em quem não merecia, não houve vidros quebrados.
Ela soluçou contra o meu peito e eu deslizei as mãos por seus cabelos e a embalei para frente e para trás suavemente. Eu fiz isso tantas vezes desde o acidente, e mesmo antes do acidente, e eu estou determinada a estar aqui para quando ela precisar disso de novo no futuro.
Eu não tenho certeza de quando tempo nós ficamos desse jeito, mas quando eu resolvi olhar para baixo, vejo que ela não está mais chorando. Nós agora estamos deitadas no sofá, com Lauren deitada diretamente em cima de mim. As pontas de seus dedos estão brincando com minha camiseta enquanto eu passo os dedos em seu cabelo.
Eu penso que talvez eu devesse tentar melhorar um pouco o clima. Nesse exato momento eu daria qualquer coisa para vê-la sorrindo de novo.
“Você sabe.” Eu digo suavemente, fazendo com ela se mexa um pouco, resultado do som inesperado.
“O que Dinah disse para Mani? Sobre a primeira vez em que ela se deu conta de que a amava?”
“Sim?” A voz rouca de Lauren foi ouvida.
“Eu tive isso com você.” Eu conto a ela.
Ela olha para mim e eu podia jurar que vi os cantos de seus lábios se erguerem levemente.
“Você teve?”
Eu assinto. “Tive.” Eu limpo minha garganta, me sentindo um pouco nervosa em divulgar essa informação, embora eu não saiba exatamente por quê.
“Você estava bem aqui nesse sofá.” Eu começo. “E você tinha adormecido lendo, então você tinha um livro sobre seu peito. E você estava murmurando algo enquanto dormia.”
“Eu não falo enquanto durmo.” Ela se defende rapidamente.
“Sim, você fala. Mas não tem problema, é fofo.” Eu dou uma risadinha. “E eu coloquei um cobertor em cima de você, eu não queria te mover para que você não acordasse, mas eu dormi no chão perto do sofá, já que não havia espaço para mim. Eu só não queria que você acordasse no meio da noite e ficasse confusa sobre onde você estava, então eu fiquei no chão mesmo. E eu me dei conta de que eu nunca me importei tanto com o conforto de alguém assim, então eu pensei ‘eu amo essa garota’”. Eu digo.
Eu suspiro dramaticamente. “E depois disso as coisas só desandaram.”
Ela bate em meu ombro de brincadeira, mas eu ouço sua risadinha mesmo assim.
“Bem.” Ela diz. “Eu não lembro o momento exato, mas o que eu lembro é a primeira vez que eu queria dizer que te amava, mas não disse.” Ela explicou.
Ela mexeu a cabeça, então seu queixo estava em suas mãos, as quais estavam apoiadas em meu peito.
“Você estava atrasada para a aula porque...” Ela deu um sorrisinho. “Bem, nós estávamos ocupadas com outras atividades.” Ela riu. “Então você estava com pressa.” Ela terminou.
“Você estava correndo pela cozinha com uma camisa de flanela que não estava completamente abotoada enquanto colocava sua calça e tentando achar algo para colocar o café que eu tinha acabado de fazer para você porque nós não tínhamos mais louças limpas.”
“Ah, a vida universitária.” Eu digo de maneira nostálgica com uma risadinha que Lauren retribuiu.
“Você acabou colocando o café em uma tigela de cereal.” Ela deu risada com a lembrança que eu mal conseguia recordar.
“E você tentou beber e o café acabou espirrando em seu peito, e você disse que era uma coisa boa que sua camisa não estava abotoada porque se estivesse, a camisa teria ficado suja e você teria que lavá-la, já que era sua última camisa limpa.” Ela sorri.
“Durante todo o desenrolar dessa cena, eu fiquei observando você enquanto estava sentada em um banquinho da bancada da cozinha.” Ela diz. “Então você abotoou sua camisa e veio em minha direção me dar um beijo.” Ela sorri. “E algo sobre aquele beijo dizia ‘eu não quero ir, mas eu preciso’ e naquele momento eu senti como se as três palavras tivessem brilhado em luzes neon em minha cabeça, implorando para serem ditas, mas eu não as disse. Em vez disso, eu vi você pegar sua mochila e suas chaves enquanto gritava um ‘até depois’ e sair para a faculdade.”
Eu não pude evitar de sorrir durante toda a duração da história. Eu amo ouvir essas coisas, os detalhes de nosso relacionamento que possam ter escapado de uma de nossas mentes, mas que de algum modo conseguiram permanecer relevantes e até mesmo importantes para a outra.
“Bem.” Eu digo. “Talvez você devesse dizê-las agora.” Eu provoco. “Sabe, para compensar pela oportunidade perdida.”
Ela sorri e se mexe, se encaixando em cima de mim, com nossos narizes se tocando e eu sentindo sua respiração em meus lábios.
“Karla Camila Cabello.” Ela diz em um tom de voz baixo.
“Sim?” Eu digo sentindo minha respiração ficar presa na garganta, resultado de nossa proximidade.
Ela se inclina e toca meus lábios com os seus, deixando-os ficarem ali mais tempo do que ela costuma deixar, simplesmente aproveitando a sensação de nossos lábios juntos.
Eu sinto sua testa encostar na minha, separando nossos lábios. “Eu amo você.” Ela finalmente diz.
Eu coloco minha mão em sua bochecha suavemente e sussurro em resposta. “Eu também amo você.”
“De agora em diante.”
“Até o para sempre.”
--x--
Lauren’s POV
“Nós não queremos isso.”
James Lockward deixou que a pilha de papéis caísse sobre sua mesa com força enquanto ele olhava para mim.
Era seguro dizer que eu estava tentando o meu melhor para conter minha frustração.
Eles me falaram que queriam os cinco primeiros capítulos do livro e pelas últimas duas semanas eu não tenho feito nada além de dar duro escrevendo o que me foi pedido.
Só para vir aqui e ter esse babaca praticamente jogando o que escrevi na minha cara.
“Você tem potencial, a sua escrita não é ruim.” Ele disse. “Na verdade, sua escrita é excelente, mas nós precisamos de um enredo mais consistente. Você pode ser a melhor escritora do mundo, mas as pessoas ainda precisam querer ler o que você está escrevendo.” Ele falou. “Todo mundo tem problemas matrimoniais, mas ninguém quer ler um livro inteiro sobre uma esposa chorona.”
Eu me mexi desconfortavelmente em minha cadeira, dando o meu melhor para me manter calma.
“Então o que mais você tem?” Ele perguntou.
“O que você quer dizer?”
“O que eu quero dizer, é o que mais você tem.” Ele repetiu, estalando os dedos enquanto se inclinava para frente e apoiava os braços em sua mesa.
“Além de uma história sobre um casamento em decadência. Nós precisamos de algo mais interessante, algo cativante. Se você quer continuar a escrever esse enredo, nós precisamos adicionar algo interessante a ele.” Ele explicou. “Uma morte.” Ele disse, não sabendo que o assunto era delicado para mim. “Uma doença, um-“
“Um affair?” Eu perguntei.
Ele assentiu. “Eu gostei disso.” Ele disse. “Embora eu ainda ache que nós precisamos de algo mais para que o livro faça sucesso.”
Eu pensei que escrever sobre meu relacionamento com Camila seria melhor do que escrever sobre Ronny, certo? Eu não sei como ela vai se sentir sobre eu expor tudo sobre nós para o mundo, mas não é como se as pessoas fossem saber que é sobre nós, de qualquer maneira.
Já que este é supostamente um livro de ficção.
“Um affair lésbico.” Eu digo.
Seus olhos brilham e um sorrisinho se forma em seus lábios. “Agora sim!”
Eu observo Dinah caminhar de um lado para o outro em minha sala de estar enquanto eu tento tratá-la de maneira rude – que é o jeito que ela me trata, que fique claro – mas isso não parece estar funcionando.
Lauren está sentada em seu lado favorito do sofá com as pernas cruzadas e aproveitando o entretenimento que Dinah e eu estamos fornecendo.
“Dá licença.” Dinah me enfrenta. “Você está pedindo o amor da sua vida em casamento hoje?” Ela quase grita.
Eu olho para Lauren, cujos olhos já estão em mim quando as palavras saem da boca de Dinah.
“Desculpa, amor.” Eu digo. “Não hoje, mas algum dia.”
“Awn, de verdade?” Lauren responde. “Eu queria ser a que te pede em casamento.”
Ela tem feito isso bastante ultimamente, largando comentários do tipo “quando nós estivermos casadas” aqui e ali, e eu certamente não me incomodo. Isso só me faz pensar no quão rápido ela quer que isso aconteça. Eu deixo o pensamento de lado e continuo a conversa, só para irritar Dinah.
“Awn, sério, amor?”
“Eu quero que vocês duas realmente me ouçam quando eu digo isso.” Dinah interrompe nosso diálogo e tanto Lauren quanto eu olhamos em sua direção tentando conter nossos sorrisos.
“Vocês duas.” Dinah começou com uma expressão séria demais para ela. “Vocês me fazem querer vomitar.” Ela terminou.
Isso fez com que Lauren e eu explodíssemos em gargalhada enquanto Dinah olhava fixamente para nós. Quando paramos de rir, começamos a dar selinhos uma nos lábios da outra usando frases que nós sabíamos que iriam aumentar ainda mais a repugnância de Dinah.
“Eu te amo, amoi.”
“Eu te amo mais, amoi.”
“Você é meu bebê.”
Nós continuamos a nos beijar entre essas frases até que Dinah nos interrompeu. “Eu juro que eu mesma vou me dar um tiro se vocês não pararem.”
Nós paramos com a provocação e decidimos ajudar Dinah a planejar a noite. A maioria das coisas já estava estabelecida, embora Normani ainda não fizesse ideia de que ela iria jantar fora hoje à noite, quanto mais ser pedida em casamento.
Normani tem verdadeira fascinação por um restaurante francês no centro da cidade que elas nunca puderam ir porque ele era demasiadamente caro. Ela é obcecada por Paris e pela cultura francesa, ela até fez uma matéria de francês na faculdade; apesar de que a maioria do que ela aprendeu ela já havia esquecido.
A única entre nós que já havia pisado em tal restaurante era Lauren. Quando ela estava com Ronny, eles eram amigos do dono do estabelecimento, então ela mexeu alguns pauzinhos. Ela conseguiu um cômodo privado para Dinah e Normani, em um restaurante cuja lista de espera para uma mesa simples era de seis meses, e quando o dono descobriu que era para um pedido de casamento ele insistiu que a refeição fosse por conta da casa; aparentemente, ele é um grande romântico.
No momento, Dinah estava decidindo o que vestir. Ela havia espalhado cerca de cinco vestidos em cima de minha pequena mesa de centro, mas apenas um deles parecia ser apropriado para a ocasião, em minha opinião.
“Você tem que usar o vestido branco.” Eu disse.
“E se eu derrubar comida nele? Eu não quero pedir Normani em casamento com um vestido manchado.”
“Você tem que usar o vestido branco.” Lauren disse, concordando comigo.
“Mas e se eu-“
“Você tem que usar o vestido branco.” Lauren e eu dissemos ao mesmo tempo, mas não pudemos rir de nossa sincronia porque Dinah forçadamente pegou o vestido branco de cima da mesinha e murmurou um “tudo bem” antes de sair da sala para se trocar no quarto, deixando Lauren e eu sozinhas.
Assim que Dinah deixou o cômodo, eu olhei para minha namorada e sorri. “Oi.” Eu disse, notando que seus olhos já estavam em mim quando eu me virei para encará-la.
Ela não respondeu.
Ela simplesmente se inclinou em minha direção e capturou meus lábios nos seus. Depois de todos esses anos eu achei que me acostumaria em sentir seus lábios nos meus, mas o contato nunca deixa de ser mágico, e as borboletas em meu estômago nunca vão embora.
Seus lábios fazem meus sentidos ficarem em total alerta e eu sinto tudo com mais intensidade quando seus lábios estão nos meus.
Embora leve alguns segundos para meu corpo reagir, eu retribuo o beijo, colocando minha mão em sua bochecha, o que faz com que a ponta de meus dedos pareça estar pegando fogo assim que eu toco a sua pele.
Nossos lábios se movimentam lentamente e o beijo permanece inocente até Lauren inclinar a cabeça levemente, aprofundando o beijo. Nós permanecemos assim por vários minutos, nunca separando nossas bocas, nunca interrompendo o beijo em busca de ar. Nenhuma de nós leva em consideração que Dinah está apenas a um cômodo de distância.
Porém minha mente não consegue evitar de imaginar se nós iríamos além dos beijos se Dinah não estivesse aqui. Eu estaria mentindo se dissesse que não sentia falta desse aspecto de nosso relacionamento, o qual não tem estado presente desde o acidente, mas eu não quero forçá-la a nada. Eu posso esperar.
“Ok, como eu estou?”
A voz inesperada fez com que nós duas sentássemos imediatamente.
“Ai que nojo.” Dinah reclama quando vê nós duas tentando o nosso melhor para agir como se não estivéssemos dando uns amassos alguns instantes atrás.
“Sério? Eu não posso deixar vocês duas sozinhas por cinco minutos?”
Embora eu saiba que minhas bochechas provavelmente estão vermelhas como um tomate, Lauren parece completamente imperturbável por ter sido pega no flagra.
“Minha namorada é gostosa.” Ela dá de ombros.
Eu sorrio e então Dinah responde. “A minha também, mas vocês não veem nós duas trocando saliva por aí o tempo todo.”
Lauren e eu trocamos um olhar antes de olhar em direção à Dinah.
“Sim, nós vemos.” Eu digo.
Ela para por um segundo e parece estar contemplando a possibilidade. Quando ela se dá conta de que nós estamos certas, ela dá de ombros. “Que seja, minha namorada é gostosa.”
--x--
A porta do apartamento de minhas amigas é aberta e somos recebidas por uma confusa Normani.
“Uh, oi, gente.” Ela diz.
Lauren estende sua mão segurando um cabide, no qual há um vestido vermelho justo, que Dinah já havia escolhido para Normani usar.
“Vista isso.” Eu digo.
“Por quê?”
“Não pergunte, apenas vista.” Lauren diz.
“Mas-“
Antes que ela diga alguma coisa, Lauren e eu entramos no apartamento, arrastando-a para dentro também, enquanto a observamos com expectativa.
“Vista-se.” Eu digo. “Agora.”
Mais uma vez, Lauren estende sua mão com o cabide e Normani pega a peça com cuidado, falando um suave e prolongado “okaaay” antes de entrar em seu quarto para trocar de roupa.
Lauren e eu esperamos pacientemente no sofá, conversando sobre como nós mal podemos esperar para ouvir sobre a noite que elas estão prestes a ter.
Alguns minutos se passaram e Normani sai de seu quarto com o vestido vermelho, que destaca todas as suas curvas.
Porra, Dinah com certeza tem bom gosto.
Normani desfila para nós e nós assobiamos e gritamos cantadas para ela.
“Sinceramente, que mulher.”
“Você está bem gostosa.”
“Ei, me passa seu telefone?”
“Que rabão da porra.”
Normani e eu viramos para olhar para Lauren por conta de sua última frase e o cômodo fica em total silêncio.
“Exagerei?” Ela pergunta timidamente.
Eu explodo em risadas e Normani logo me acompanha.
“Eu não sabia dessa sua veia artística para cantadas, professora.” Normani diz quando consegue controlar sua risada.
As bochechas de Lauren estão levemente coradas e então ela ri do comentário e se põe em pé.
“Ok, vamos falar sério.” Ela diz. “Maquiagem.”
“Certo!” Eu digo enquanto levanto e seguro na mão de Normani, guiando-a para o quarto.
“Por que nós estamos fazendo isso?” Normani questionou novamente.
“Sem perguntas!” Eu ordeno.
Tanto Lauren quanto eu ajudamos Mani com seu cabelo e maquiagem.
Ok, eu admito que só Lauren ajudou, porque eu não sei absolutamente nada sobre essas coisas. Tendo isso em mente, Normani não me deixou encostar nela, mesmo que ela ainda não soubesse para que ocasião ela estava se arrumando.
Logo Normani estava parecendo como se ela realmente pudesse desfilar em uma passarela, e Lauren parou ao meu lado, admirando seu trabalho.
“Nossa, eu estou bem.” Ela disse.
“Agora vocês vão me contar sobre o que é isso tudo?”
Lauren e eu trocamos olhares antes de olhar de volta para Normani.
“Sem perguntas.”
Dinah’s POV
Em menos de dez minutos, Normani Kordei entrará por essa porta, e eu vou pedi-la em casamento.
Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo. Eu olho para meu vestido branco que Camila e Lauren me ajudaram a escolher e começo a pensar se ainda dá tempo de trocá-lo pelo preto, ou talvez pelo amarelo, até mesmo o laranja era bonito.
Não.
Mani odeia laranja.
Eu espero impacientemente pela mensagem que Camila deveria me mandar quando elas chegassem, mas ainda não recebi nada. Porém eu sei que elasjá devem estar a caminho do restaurante.
Eu opto por andar de um lado para o outro no cômodo privado que Lauren conseguiu arranjar para nós nesse restaurante.
Eu olho ao redor e observo como tudo é bonito. Há uma única mesa para duas pessoas no centro do cômodo, que está em meia-luz, há uma música suave tocando e as decorações remetem a Paris.
O cenário genuinamente parece o que eu imagino que seria o sonho de Normani.
Eu vejo meu celular se acender e na tela eu observo a mensagem.
De: Chancho: Ela está entrando.
Puta merda.
Eu não estou pronta para isso.
Estou?
Claro que estou, eu a amo.
Eu olho para minhas mãos e vejo a fina camada de suor em minhas palmas, o que eu imediatamente tento secar em meu vestido.
“Oh meu Deus.” Eu murmuro para mim mesma.
Eu não tenho muito tempo para surtar ou para me convencer a não fazer o que estou prestes a fazer, já que a porta acabou de ser aberta. O garçom está segurando a porta aberta e eu vejo Normani adentrar o cômodo. Eu vejo seu rosto se iluminar, seu sorriso ficar radiante e seus olhos vagarem pelo ambiente, e de repente todo o nervoso que eu estava sentindo simplesmente desaparece.
Eu quero me casar com essa garota.
“Oh meu Deus, Dinah.” Ela disse. “Isso aqui é incrível.”
Ela começa a andar em minha direção, e embora eu queira respondê-la, eu sinto como se todo meu conhecimento a respeito da língua inglesa tenha desaparecido misteriosamente. Então em vez de falar, eu opto por pressionar nossos lábios juntos.
“Eu fico feliz que você gostou.” Eu digo.
Aprendi a voltar a falar, pensei.
Eu deixo escapar um sutil suspiro de alívio quando nós duas sentamos em nossos lugares.
O decorrer do jantar é perfeito, regado a conversa fácil e risadas.
Ela fez piada do fato de eu ter vindo para um restaurante francês caro para comer um prato italiano, que era frango à parmegiana, mas de verdade, se eles não esperam que as pessoas comam esse tipo de coisa, por que eles colocam no cardápio? E eu fiz piada de ela comer escargot, bem, só porque é escargot.
Agora eu peguei sutilmente de minha bolsa a caixinha com o anel de noivado e fiquei com ela em minha mão esquerda em meu colo, então Normani não conseguia vê-la, enquanto minha outra mão está em cima da mesa, meus dedos entrelaçados com os dedos de minha namorada.
“Isso foi maravilhoso, Dinah.” Ela disse. “A surpresa, o vestido, a comida, tudo. Obrigada.”
Eu sorri e assenti lentamente, deslizando meu polegar pelas costas de sua mão, e eu senti como se a caixinha de veludo em minha mão esquerda estivesse fazendo um buraco em minha pele.
“Mani.” Eu comecei. “Você sabe que dia é hoje?”
Ela franziu as sobrancelhas em confusão e balançou a cabeça. “Sexta-feira?” Ela perguntou.
“Não.” Eu dei risada. “Bem, quer dizer, sim, mas mais especificamente é 20 de março.”
Ela assentiu lentamente e eu sabia que ela não estava entendendo onde eu queria chegar, porque eu nunca contei essa história a ela antes.
“20 de março foi o dia em que eu me dei conta pela primeira vez que eu te amava.” Eu confessei. “Não o primeiro dia em que eu disse para você, mas o dia em que eu soube com absoluta certeza que eu estava apaixonada por você.” Eu contei a ela.
“Eu me lembro perfeitamente porque nós estávamos no ensino médio na época, e você estava lá em casa. Eu estava sentada na cama e você colocou música para tocar, você estava dançando, eu acho que você estava praticando ballet.”
Eu senti seus olhos em mim, examinando todos os meus movimentos, e eu sorri sob seu olhar observador.
“Eu não sei o que houve naquele momento em especial.” Eu disse. “Eu já havia visto você dançar tantas vezes antes e eu vi você dançar tantas vezes desde então, mas havia algo sobre aquele momento em particular em que eu simplesmente me dei conta.” Eu contei a ela.
Minha voz começou a ficar trêmula e o nervosismo estava voltando, mas eu estava determinada a passar por isso, embora eu não estivesse mais certa de que eu poderia pedi-la em casamento sem chorar, já que eu já estava sentindo meus olhos lacrimejarem.
“‘Eu amo essa garota.’ Foi o que eu pensei. E eu não te disse logo de cara porque eu pensei que era muito cedo, mas eu te amei todos os dias desde então e eu passei meses sem te dizer, o que foi estúpido.” Eu ri, sentindo algumas lágrimas descendo por minhas bochechas. “Porque eu olho para trás agora e penso quantos momentos eu desperdicei, nos quais eu poderia ter dito como eu me sentia, mas eu não o fiz por medo. Então eu te prometo que eu nunca vou me conter com relação a isso de novo.”
Eu vi os olhos de minha namorada começarem a lacrimejar, mas eu decidi continuar.
“Eu vou dizer a você que eu te amo pelo resto de minha vida, e te lembrar que você é linda e especial e que merece ser amada.” Eu disse a ela. “Então hoje, no dia que eu me dei conta de que te amava, tantos anos atrás, eu quero te prometer que eu nunca mais vou parar de dizer que te amo, e se você me permitir...”
Eu disse trazendo minha outra mão para cima da mesa, revelando a caixinha de veludo que continha o anel de noivado.
Eu ouvi um suspiro suave vindo do outro lado da mesa antes de continuar.
“Se você me permitir, eu vou dizer que amo você todos os dias pelo resto de minha vida.” Eu disse abrindo a caixinha e revelando o anel.
“Normani Kordei.”
Seus olhos encontraram os meus enquanto suas lágrimas escorriam por seu rosto e as palavras que estavam esperando para serem ditas finalmente saíram de minha boca.
Ela está começando a ficar melhor, isso é inegável, mas hoje está sendo um dia difícil. Lauren ainda tem dias difíceis, embora hoje ela não esteja sentada na cama e encarando o canto vazio do quarto. Hoje ela está sentada sobre suas pernas bem onde o berço costumava ficar.
Sua mão está em sua barriga e eu vejo a ponta de seus dedos se movendo suavemente de um lado para o outro sobre sua camiseta, e eu sei exatamente o que ela está fazendo.
Ela não gosta da cicatriz. Lauren me contou que quer se livrar dela, mas no dia que eu comprei uma pomada para ela passar sobre a nova imperfeição, ela pareceu mudar de ideia. Eu não tenho certeza se ela quer mantê-la apenas por mais um tempo ou para sempre, e para mim, realmente não faz diferença qual das duas coisas ela escolha fazer. Contudo, a marca deve ter algum tipo de significado para ela, porque eu já a flagrei fazendo exatamente a mesma coisa que ela está fazendo agora muitas vezes. Ela traça a cicatriz proveniente da cirurgia por cima de sua roupa e encara o espaço à sua frente, e eu só posso imaginar o que ela está pensando.
Eu venho querendo perguntar a ela sobre o que eu e Dinah discutimos, mas eu não acho que essa seja a hora certa para fazer isso. Então eu lentamente me encaminho em sua direção e cuidadosamente me sento à sua frente. Ela nota minha chegada e seus olhos se erguem para encontrar os meus.
Nós não dizemos nada.
Nós não precisamos.
Isso vem acontecendo ocasionalmente. Nós compartilhamos momentos de silêncio, em que asseguramos uma à outra de que está tudo bem mesmo sem dizer palavra alguma. Não existem conversas extensivas sobre nossos sentimentos ou sobre o que estamos pensando ou qualquer coisa desse tipo.
Eu creio que não há razão em falar porque nós duas já sabemos como a outra está se sentindo. Eu sei que uma pessoa não supera a morte de seu filho em dois meses. Eu sei que ela sente falta dele, eu sei que ela quer que ele estivesse aqui, essas são coisas que não precisam ser ditas. Então em vez de trocarmos palavras, eu sento com ela e ocasionalmente seguro sua mão para relembrá-la de que ela não está sozinha.
Eu sinto meu coração bater mais rápido quando eu vejo a expressão vazia em seus olhos se transformar em afeto quando ela olha para mim.
Eu então vejo seus dedos pararem de se mover, já que ela não mais está passando-os pela imperfeição em seu corpo enquanto nós olhamos uma para a outra.
Uma parte de mim quer dizer alguma coisa, mas eu decido permanecer calada. Eu não quero dizer nada de errado que talvez possa fazê-la se afastar de mim. Então em vez disso eu permito que Lauren me olhe assim como eu olho para ela. Ela está encarando, mas em nada se parece com o jeito que ela encarava o vazio momentos antes. Esse olhar fixo de agora é presente e cheio de emoções, bem diferente da expressão vazia que ela tinha no rosto momentos antes.
Eu vejo sua mão lentamente alcançar a minha enquanto ela murmura baixinho “de agora em diante.”
Um pequeno sorriso se forma em meus lábios quando eu murmuro em resposta “até o para sempre.”
Isso parece tranquilizá-la. Ela oferece um pequeno aceno com a cabeça antes de dar um leve sorriso.
Sem falar nada, ela se levanta e estende sua mão em minha direção. Eu deixo que ela me ajude a levantar, e ela não larga de minha mão mesmo depois de eu já estar em pé. Ela entrelaça nossos dedos e me guia para fora do quarto, pegando suas chaves no caminho.
Eu quero perguntar onde nós estamos indo, mas eu decido não fazer isso. Eu só permito que Lauren me leve para fora do apartamento e se sente atrás do volante, para que assim possa nos levar para onde ela quiser.
Se fosse qualquer outra pessoa, eu estaria dizendo para ela parar e perguntar onde nós estávamos indo, mas não com Lauren. Não importa realmente onde nós estamos indo, contanto que estejamos juntas.
Uma de suas mãos está sobre o volante e a outra está entrelaçada com a minha.
Eu observo nossas mãos e noto as pequenas marcas em sua pele que ainda restam do acidente. Ela sofreu vários pequenos cortes e a maioria deles já sarou, mas alguns deixaram marcas permanentes.
“Fale.” Ela diz suavemente.
Meus olhos deixam sua mão e pousam sobre seu rosto. Seus olhos estavam fixos na estrada e sua expressão era ilegível.
“Sobre?” Eu pergunto.
Ela dá de ombros. “Qualquer coisa. Eu só quero ouvir sua voz.”
Eu sorrio, ela costumava dizer isso o tempo todo e eu lembro de inventar histórias de princesas sendo salvas por príncipes, mas quando Lauren me disse que elas eram muito clichês, minhas histórias começaram a ser sobre princesas que salvavam a si mesmas dos dragões que as mantinham prisioneiras. Isso tudo era só para que Lauren continuasse a ouvir minha voz até ela adormecer. Eu não consigo entender seu fascínio com minha voz. Não é como se minha voz tivesse o tom rouco e sexy que a dela tem, mas mesmo assim eu continuava a lhe contar histórias sem questionar.
“Hmmm...” Eu falo enquanto tento pensar em um assunto.
“Conte-me uma história.” Ela fala, escolhendo como tema nosso velho hábito.
Eu assinto. “Ok, bem. Era uma vez um dragão solitário...”
Sua risadinha preenche o pequeno veículo enquanto ela balança a cabeça. “Não.” Ela interrompe.
“Uma de verdade, algo que eu não sei sobre você.”
Eu levo um tempo para pensar sobre isso, considerando que Lauren e eu nos conhecemos há um bom tempo, então há apenas poucas coisas que ela ainda não sabe sobre mim.
Eu já contei a ela sobre minhas ex, sobre primeiros beijos, corações partidos, momentos constrangedores, momentos em que senti orgulho de mim mesma, e o que eu não lhe disse diretamente, ela ficou sabendo quando eu conversava com Logan.
Eu revirei meu cérebro em busca de algo inédito enquanto Lauren esperava pacientemente.
“Não há muita coisa que você já não saiba.” Eu confesso.
“Ah não, tem que haver algo!”
Ela está certa, eu tenho certeza de que há, eu só não consigo pensar em nada no momento.
“Hmmm... Eu te contei sobre a vez em que eu caí de cabeça em um cesto de roupa enquanto fazia uma apresentação para o dia das mães na escola?”
Ela sorriu. “Você contou.”
Eu estremeci por dentro com a lembrança, eu sempre sentirei vergonha disso, não importa quanto tempo passe.
“Fale-me sobre o seu pai.” Ela diz.
Eu sinto meu corpo ficar tenso ao ouvir sobre meu pai. Ela sabia que isso era não era algo sobre o qual eu falava, então eu não vejo porque ela está interessada em ouvir sobre ele.
“Por quê?” Eu pergunto.
O carro para em um sinal vermelho e ela se vira para olhar para mim.
“Deve haver algumas histórias boas com ele, certo?”
Eu balanço a cabeça levemente. “Eu não quero falar sobre ele, Laur.”
Ela solta minha mão para lentamente colocar uma mecha de cabelo atrás de minha orelha.
“Camz, família é importante.” Ela disse. “Você conseguiu fazer as pazes com sua mãe, então porque não-“
“Eu não quero falar sobre ele, Lauren.” Eu disse firme. “E se família é tão importante para você, por que eu não sei nada sobre a sua?” Eu digo em um tom quase ríspido.
Eu não queria ficar tão na defensiva, mas meu pai não é um assunto que eu goste de tratar.
O som de buzina atrás de nós interrompeu nossa troca de olhares e Lauren voltou a conduzir o carro pelas ruas de Miami.
Um silêncio caiu sobre nós, até que ela falou suavemente. “Você é a única família que eu tenho, Camz.”
O que exatamente ela quis dizer com isso? Todas as pessoas têm família, quer elas queiram, quer não.
Se ela não queria me contar sobre eles não tinha problema. Eu, de todas as pessoas, entendo o que é ter uma família problemática, mas isso não significa que ela tem que mentir para mim.
Eu olho pela janela e começo a reconhecer o caminho onde estamos passando. Eu suspiro, me sentindo levemente culpada por ter surtado com ela. Eu definitivamente não queria chegar onde estamos indo com qualquer tipo de tensão entre nós.
“Quando eu tinha sete anos.” Eu comecei. “Nós tínhamos acabado de chegar aqui vindos de Cuba e nós não tínhamos muito.” Eu expliquei.
Eu senti ela brincando com meus dedos sem pensar enquanto se concentrava na estrada à sua frente.
“Então um dia eu estava entediada e com saudade de casa. Eu estava triste porque nós não podíamos ir à praia como eu queria porque estava chovendo. Então meu pai me pegou pela mão e me levou para fora. Eu lembro de imaginar se isso era algum tipo de castigo, fazer seu filho ficar de pé na chuva, mas então ele pegou uma bicicleta e me colocou em cima do guidão.” Eu sorrio levemente com a lembrança.
“Tudo o que eu consigo lembrar é de me segurar com toda a força e gargalhar enquanto nós andávamos de bicicleta por todo o bairro mesmo debaixo de chuva, e com meu pai se certificando de passar por cima de cada poça que ele pudesse encontrar, porque assim era mais divertido.”
Eu senti um nó em minha garganta, mas decidi ignorá-lo e continuei a história.
“Quando nós voltamos para casa, minha mãe gritou conosco.” Eu sorri. “Porque nós dois estávamos encharcados e sujos e ela disse que nós iríamos ficar doentes.” Eu olhei para Lauren e vi um pequeno sorriso em seus lábios.
“Claro que ela estava certa, nós dois pegamos um resfriado, mas valeu muito a pena.”
A lembrança me traz uma variedade de sentimentos e eu não tenho certeza se sei nomear qualquer um deles.
Eu não sei ao certo se é felicidade, ou nostalgia, ou desapontamento. A memória daquele momento e a do momento em que meu pai e eu brigamos no hospital ano passado fica passando em minha mente e eu não posso evitar de ter a impressão de que são dois homens completamente diferentes.
Eu não tenho muito tempo para pensar sobre isso, já que Lauren está agora estacionando o carro em nosso destino.
“Parece ser um bom dia.” Ela diz com um sorriso.
Nós trocamos olhares e embora o carro esteja agora parado, nós não saímos de dentro dele.
Ela olha para mim e suspira. “Eu acabei de perder meu filho.” Ela disse como se eu não soubesse disso. “Eu não tive a chance de segurá-lo e eu me sinto tão perdida. Eu só consigo imaginar como seu pai se sente depois de perder contato com você depois de tantos anos vivendo juntos.”
“Eu entendo, mas foi a escolha dele. Foi ele quem disse que eu não era mais sua filha.”
Ela assente. “Sim, bem, vocês dois sabem que isso não é verdade, e se nenhum dos dois parar de ser teimoso e fizer o primeiro contato, vocês vão passar o resto de suas vidas sem um ao outro, e eu sei que você não quer isso de verdade.”
Para ser honesta, eu tenho estado tão distraída em cuidar de Lauren que eu nem ao menos pensei em minha própria família já faz um bom tempo. Eu estava em uma boa situação com minha mãe e mesmo que Lauren esteja certa em dizer que eu não quero ficar sem meu pai para sempre, eu certamente não estava pronta para tê-lo de volta em minha vida tão logo.
“Além disso.” Ela disse. “Seria legal se ele pudesse te levar ao altar em nosso casamento.” Ela disse despretensiosamente enquanto saía do carro.
Espera, o quê? Eu pensei.
Lauren acabou de dizer isso mesmo? Ele tem pensado em nós nos casando? Ela vai propor? Ela não pode largar uma bomba dessas e simplesmente sair!
Eu tento sair do carro, mas me atrapalho com a maçaneta antes de conseguir deixar o veículo.
“Está tudo bem aí?” Lauren dá risadinhas ao notar minha luta para sair do carro.
“Você acabou de fazer referência ao nosso casamento?” Eu deixo escapar.
Oh meu Deus, Camila, por que você foi fazer isso? Agora você vai assustá-la e ela vai desistir da ideia!
Ou ao menos era o que eu pensava.
Então ela sorri e assente. “Eu com certeza fiz.”
Ela estende sua mão e sorri, entrelaçando nossos dedos enquanto andamos em direção à costa.
Nós não vínhamos à praia há um bom tempo, mas eu lembro de Lauren dizer que ela gostava de vir aqui para pensar.
A areia da praia não está tão cheia, então nós facilmente encontramos um lugar.
Nós não viemos preparadas para tanto, então eu realmente espero que eu consiga tirar toda a areia de minhas roupas mais tarde.
Nós nos sentamos não muito longe da água, e conseguíamos apreciar a vista do sol se pondo atrás do píer.
Nós nos sentamos em silêncio por alguns minutos, aproveitando a beleza da natureza à nossa frente, até que eu senti os olhos de Lauren pousarem sobre mim. Eu decidi ignorar suas ações por alguns segundos, mas eu não resisti a vontade de olhar dentro de seus olhos esmeralda.
Eu encontrei um olhar quase pesaroso, o que era inesperado, para dizer o mínimo.
“Você está bem?” Eu pergunto suavemente.
Eu observo Lauren desprender sua mão da minha para colocar uma mecha de cabelo atrás de minha orelha.
“Você falava com ele.” Ela disse.
Por um milésimo de segundo eu senti a necessidade de olhar ao redor da praia para ver de quem ela poderia estar falando, até que eu me dei conta de que ela estava se referindo a Logan. Meus olhos continuam fixos nela enquanto eu assinto lentamente sem dizer palavra alguma.
Perdê-lo me atingiu assim como atingiu a ela, mas eu não tive a oportunidade de entrar em colapso, eu precisava continuar por nós duas. Me perder não era uma opção.
“E você cantava para ele.” Ela continuou. “E você nos pintou em cima de minha barriga.” Ela deu uma risadinha.
Eu senti as lágrimas se formando em meus olhos enquanto eu assentia. “Onde você quer chegar com isso, Laur?”
Seu polegar lentamente desliza por minha bochecha, removendo as lágrimas que estão caindo, antes de ela sussurrar. “Eu sinto muito.”
“Pelo quê?” Eu olho diretamente em seus olhos, silenciosamente esperando encontrar a resposta em sua reflexão.
“Você também o perdeu.” Ela disse, repetindo minhas palavras de uma discussão que tivemos há algumas semanas. Embora ela estivesse dizendo essas palavras como se apenas agora estivesse absorvendo seu real significado.
Eu assenti e senti uma dor lancinante tomar conta de meu peito enquanto concentrava todos os meus esforços para conter meus soluços.
Porém, todos os meus esforços foram por água abaixo no momento em que Lauren envolveu seu braço ao redor de meu ombro. Eu enterrei meu rosto na curva de seu pescoço e liberei todas as lágrimas, dores, e coração partido que eu ainda não me havia permitido sentir.
A dor tomou conta de meu corpo e eu sentia como se não pudesse me mover, mas não importava, eu não queria me mover. Eu queria chorar e estar segura em seus braços assim como nós estamos. Eu senti o braço de Lauren aumentar seu aperto ao redor de mim enquanto ela deslizava seus dedos por meus cabelos, sussurrando esporádicos “sinto muito” e “está tudo bem”.
Eu não tenho certeza de quanto tempo eu passei em seus braços, mas quando eu olhei para cima, estava escuro e a praia estava relativamente vazia, exceto por outro casal dentro d’água.
Eu sinto as mãos de Lauren segurarem meu rosto enquanto ela o traz para perto do dela. Eu vejo seus olhos me examinarem como se ela estivesse se certificando de que eu estava estável agora, o que eu acho que estou.
Meus batimentos cardíacos voltaram ao normal e a dor em peito foi embora.
Tudo em que eu consigo focar agora é na sensação das mãos suaves de Lauren em minhas bochechas.
Ela então se inclina e deixa um beijo suava em meus lábios antes de sussurrar.
“Eu amo você, Camz.”
Não importa quantas vezes eu ouça essas palavras saírem de sua boca, elas nunca irão perder seu efeito sobre mim.
“Eu também amo você, Laur.”
Seus lábios se transformam em um sorriso e eu não posso evitar de fazer o mesmo. “De agora em diante.” Ela diz.
Eu sorrio e me inclino, pressionando nossos lábios juntos de maneira suave. “Até o para sempre.”
--x--
“Você tem certeza?” Lauren disse.
Depois de termos andado pela costa, nós pegamos algo para comer e voltamos para casa, mais especificamente, para nossa cama.
As costas de Lauren estão apoiadas na cabeceira da cama e eu estou sentada entre suas pernas com minhas costas apoiadas em seu torso.
“É por uma boa causa.” Eu argumentei.
Ela sorriu e apoiou a cabeça em meu ombro, permitindo que meu corpo afundasse no dela.
“Eu sei, eu só estou perguntando se você tem certeza de que é isso que ela quer.”
Eu assenti. “Eu falei para ela e ela amou a ideia, então sim.”
Eu olhei para ela, fiz o maior bico que era humanamente possível, e a vi concordar.
“Tudo bem.” Ela suspirou. “Dinah vai ficar me devendo essa, mas eu vou fazer a ligação amanhã.”
Eu sorri e deixei um beijo suave em sua bochecha antes de voltar para a posição que eu estava antes. Eu comecei a brincar distraidamente com seus dedos, que estavam sobre minha barriga, e senti meu corpo relaxar. Eu podia sentir a respiração estável de Lauren e embora nós estivéssemos em silêncio, sua presença por si só já me trazia paz.
“Eu preciso te contar uma coisa.” Ela disse.
Eu esperei que qualquer coisa que fosse não destruísse a paz que eu estava sentindo.
“Ok.” Eu disse cuidadosamente. “O que é?”
“Semana passada, no trabalho, eu fui abordada por um homem chamado James Lockward.” Ela começou.
“Ele é de uma editora.”
Eu assenti e deixei que ela tomasse seu tempo para reunir seus pensamentos e continuasse, já que eu não fazia ideia de onde ela queria chegar com isso.
“Eu talvez tenha enviado algo para essa editora alguns anos atrás quando eu comecei a trabalhar como professora, e embora eles não estivessem interessados naquela época, agora, por alguma razão, eles pareceram interessados em me ajudar a escrever um livro.”
Eu me virei com um sorriso brilhante e olhos arregalados. “Laur, você está falando sério? Isso é ótimo!”
Ela sorriu e assentiu, tentando o seu melhor para conter sua animação.
“É meio que ótimo mesmo.” Ela deu risada.
“Por que você não me contou?”
Ela deu de ombros. “Eu não queria criar expectativas em ninguém antes de saber se era algo realmente certo, mas eu devo me encontrar com eles em algumas semanas para decidir um enredo para o livro e tudo mais.”
Eu peguei seu rosto com as duas mãos e pressionei nossos lábios juntos antes de sorrir contra eles. “Eu estou tão orgulhosa de você.” Eu disse.
“Sobre o que é o livro?”
Eu senti seu corpo ficar tenso enquanto ela se mexia desconfortavelmente.
“É sobre um casamento em decadência.” Ela disse. “Pode ser que seja levemente baseado em Ronny e eu.” Ela disse cuidadosamente.
“Oh.” Eu disse. “Então você vai escrever sobre o seu ex?”
“Não se você não quiser que eu escreva.” Ela me interrompeu imediatamente. “Você é mais importante para mim do que qualquer outra coisa, então se você não se sente confortável com isso é só me dizer.”
Eu devo admitir que isso me fez ficar um pouco insegura, sabendo que ela teria que reviver sentimentos antigos por seu marido enquanto escreve seu livro.
Espera, ex-marido.
De qualquer forma, eu não estou prestes a deixar que ela perca essa oportunidade.
“Não seja boba.” Eu digo a ela. “Você vai se sair muito bem, eu estou muito orgulhosa de você.”
Eu posso ver o alívio em suas feições enquanto ela apoia sua testa na minha.
“Você é a melhor, você sabe disso?”
Eu dou de ombros. “É, eu sei.”
Sua risada gostosa preenche o ar e eu sorrio.
Eu sempre amei ser a responsável por esse som. O som que eu venho sentindo tanta falta ultimamente.
Nós decidimos descansar um pouco, já que nós duas temos que trabalhar amanhã.
Quando eu deito minha cabeça sobre o peito de minha namorada, eu sinto o movimento de subida e descida proveniente de sua respiração.
Eu pressiono meu ouvido contra seu peito e aproveito o som de seu coração batendo.
Essas são coisas as quais eu venho prestando muito mais atenção desde o acidente.
Elas me lembram que Lauren ainda está aqui, que ela está fisicamente bem e que seu estado emocional está melhorando a cada dia.
Com isso em mente, eu consigo fechar meus olhos e cair em um sono tranquilo a noite toda.
Eu não sei mais o que fazer com Lauren. Já faz semanas e nada do que eu faça parece ser útil, ela só parece incomodada com tudo o que eu faço.
Eu tenho tentado o meu melhor para não levar nenhuma de suas palavras ou ações para o lado pessoal. Eu tenho colocado a culpa de tudo o que ela faz em seu processo de luto.
Há alguns momentos em que ela se deixa sentir, e processa o que aconteceu, mas na maior parte do tempo ela parece estar entorpecida.
Os médicos finalmente tiraram seu gesso hoje mais cedo, e eu não poderia estar mais contente. Ela odiava ter que usar a cadeira de rodas e eu odiava também. Lauren nunca foi de depender de ninguém, então eu sei o quanto ela odiou estar presa àquela cadeira.
Embora ela só pedisse pelas coisas quando fosse absolutamente necessário. A maioria das coisas era eu quem ficava de olho. O quanto de sono ela estava tendo, se ela tinha feito alguma refeição durante o dia, quantos dias ela tinha passado sem tomar banho.
Além de tudo isso, eu ainda tinha que ir trabalhar e corrigir os trabalhos de meus alunos, bem como manter contato com a faculdade onde Lauren lecionava. Eles precisam que ela volte ao trabalho já há algum tempo, mas eu continuo postergando e dizendo que ela precisa de mais tempo. Até agora eles têm aceitado minhas desculpas, mas eu sinto que a paciência deles está acabando.
Porém, eu não tenho certeza se Lauren seria capaz de dar aulas se voltasse a trabalhar nesse exato momento.
Eu despejo a sopa na tigela, coloco-a no micro-ondas e me encaminho ao quarto. Eu sabia que Lauren estava tomando banho, mas ela está dentro do banheiro há algum tempo e eu estava começando a ficar preocupada. Primeiro ela não queria tomar banho, simplesmente negando com a cabeça minha sugestão, mas eu lhe disse que ela se sentiria melhor assim que estivesse limpa, então ela aceitou.
Por um segundo eu penso que talvez ela precisasse de um tempo para si mesma e esse é o motivo pelo qual ela está demorando tanto, mas então eu lembro que nós mal passamos tempo juntas, e, desse modo, tempo para ela mesma ela tem de sobra.
Ela geralmente fica no quarto enquanto eu me mantenho ocupada na sala de estar. Eu só tenho mantido distância para dar a ela o espaço que ela precisa, mas eu devo admitir que a solidão está começando a me atingir. E quando eu tento me comunicar com ela, ela quase nunca responde.
Embora isso não me impeça de contar a ela sobre o meu dia. Alguns dias ela ouve tudo o que eu tenho a dizer sem se manifestar.
E então há dias como terça-feira da semana passada, em que ela começou a jogar em minha direção tudo o que estava ao seu alcance. Graças a Deus não havia nenhum objeto de vidro ao seu redor dessa vez, mas os lençóis da cama, travesseiros e edredons rapidamente foram arremessados em todas as direções.
Eu a olhava enquanto ela fazia isso em um ataque de raiva, com nada além de grunhidos saindo de sua boca.
Há também dias como sexta-feira, duas semanas atrás, quando ela começou a gritar.
Ela não estava gritando nada em particular, eram apenas gritos. Se eu não soubesse pelo que ela estava passando, eu pensaria que ela estava sendo torturada, e na verdade eu até estou surpresa que nenhum dos vizinhos chamou a polícia para averiguar a situação.
Há dias em que ela apenas não consegue lidar comigo falando, eu acho.
Mas como eu disse, eu tento não levar para o lado pessoal.
Mesmo que eu corra o risco de ela agir assim, eu continuo a falar, pela sanidade de nós duas. O silêncio me comeria viva se eu não vocalizasse meus pensamentos de vez em quando, mesmo que eles sejam sobre coisas mundanas, como a quantidade de trabalhos que eu tenho para corrigir. Eu também gosto de pensar que talvez falar com ela sobre meu trabalho a faça lembrar que ainda existe um mundo fora desse apartamento.
Eu bato levemente na porta, considerando que faz um pouco mais de uma hora e ela ainda não desligou o chuveiro.
Não há resposta, então eu lentamente coloco minha mão na maçaneta para ter certeza de que está destrancada.
Eu espio dentro do cômodo e encontro nada além de vapor quando abro a porta.
“Laur?”
Sem resposta.
Eu não estou surpresa.
“Está tudo bem aí?”
Eu na verdade não espero que ela vá me responder, então eu abro a cortina cuidadosamente e encontro Lauren completamente vestida e embaixo do chuveiro com a água quente caindo por seu corpo.
“Lauren.” Eu digo em um tom amigável quando ouço seus soluços baixinhos.
Eu instintivamente quero enxugar suas lágrimas, mas não sei dizer quais gotas são suas lágrimas de verdade e quais são gotas d’água provenientes do chuveiro.
Então em vez disso, eu alcanço o registro do chuveiro, mas antes que eu o desligue, eu a escuto murmurar.
“Não.”
Minha cabeça se vira em sua direção e vejo que seus olhos estão fixos à sua frente; eu estou contente que ela decidiu falar comigo hoje.
“Não?” Eu pergunto, esperando que ela explique melhor.
“Eu tenho que ficar limpa.” Ela murmura. “Para que assim eu me sinta melhor.” Ela repetiu minhas palavras de mais cedo.
Eu começo a imaginar se essas palavras têm algum significado mais profundo para ela, mas eu não tenho muito tempo para ponderar sobre isso. Eu sinto sua mão molhada em meu ombro como se ela precisasse se segurar a mim para não entrar em colapso.
“Você quer ajuda?” Eu pergunto cuidadosamente.
Ela assente lentamente, ainda sem olhar para mim, mas eu não ligo. Ela está falando agora, e eu irei aproveitar o som de sua voz enquanto posso.
Eu tiro meus sapatos e entro no chuveiro, não me importando que minhas roupas vão ficar molhadas; eu tenho que colocar as roupas de Lauren para lavar de qualquer maneira, então não custa nada colocar as minhas também.
Eu cuidadosamente paro à sua frente e faço Lauren dar alguns passos para trás para que não fiquemos embaixo da água, então coloco as mãos na barra de sua camiseta.
“Pronta?” Eu pergunto suavemente.
Ela responde levantando suas mãos acima de sua cabeça e me permitindo remover a peça de roupa encharcada.
Eu vejo o arrepio tomar conta de sua pele e decido ignorar o fato de que suas mãos imediatamente se moveram para cobrir a cicatriz da cirurgia.
Eu certamente não me importava de olhar para a nova imperfeição, mas eu temia que se eu fizesse referência a isso de qualquer modo, todo o nosso progresso seria perdido. Então eu fingi não notar o que ela estava fazendo e tirei sua calça.
Eu notei que ela se arrepiou, considerando que ela não estava mais vestida e nem sob o jato de água quente, então decidi colocá-la de volta embaixo d’água.
Eu fiquei parada diretamente de frente para ela enquanto tirava suas roupas íntimas e observava seu corpo relaxar debaixo da água quente.
Parece que assim que ela ficou completamente nua e embaixo da água, sua mente voltou para a realidade.
Ela olhou de verdade em meus olhos e eu não pude evitar o sorriso involuntário que tomou conta de meus lábios. Eu vi seus lábios imitarem os meus em um pequeno, mas notável sorriso, enquanto ela inclinava sua cabeça para trás e permitia que a água puxasse seu cabelo para trás.
Ela ainda não tinha tirado as mãos da parte de baixo de seu umbigo, cobrindo a cicatriz, então eu decidi sair do chuveiro e fechar a cortina, para que assim ela terminasse de se lavar.
“Se você precisar de qualquer coisa, me avise.”
Eu ouvi um fraco “ok” vindo do outro lado da cortina e a ouvi se movimentando ao terminar de tomar banho.
Me deixa triste o fato de ela achar que tem que esconder a cicatriz de mim, mas isso é algo que eu vou tentar fazer com que ela fique mais confortável quando ela tiver melhorado um pouco mais.
Nós só temos que viver um dia após o outro.
--x--
Ela está lendo.
Faz um pouco mais de dois meses do acidente e essa é a primeira vez que eu a vejo ter interesse em algo além de ficar sentada no sofá.
Ela está lendo novamente, isso é bom.
Eu decido não comentar nada sobre isso. Eu sinto que ela talvez pare de ler se eu celebrar seu pequeno progresso, e considerando que ela tem que voltar ao trabalho na semana que vem, eu não quero fazer ou falar qualquer coisa que a faça regredir.
Os hematomas em seu corpo estão agora em um tom levemente amarelo, e agora ela está acostumada a não mais usar o gesso. Ela está progredindo, pode estar sendo aos poucos, mas ela está progredindo, e eu definitivamente estou grata por isso.
“Você quer algo para comer, Laur?”
Ela desviou o olhar de seu livro e eu suspirei. Essa era outra nova evolução, ela estava reconhecendo minha presença. Eu ainda não estava acostumada com ela me respondendo.
Eu estaria mentindo se dissesse que os últimos meses vivendo à sombra de Lauren não foram os dois meses mais solitários de minha vida.
“Claro.” Ela disse simplesmente. “Nós temos outras coisas além de sopa, certo?”
Eu tentei conter meu sorriso antes de assentir.
“Nós com certeza temos.”
Depois de ver Lauren ter sua primeira refeição oficial em dois meses, eu não posso evitar de sentir um grande alívio.
Agora ela está trocando os canais da televisão, o que parece ser seu novo hobby, já que ela nunca permanece mais que alguns segundos no mesmo programa, e eu me sento ao lado esquerdo do sofá e a observo.
Eu sutilmente pego meu caderno de esboços, desenhando linha após linha, as quais finalmente começam a parecer a garota de olhos verdes à minha frente.
Eu não tenho desenhado muito ultimamente, então quando a inspiração vem, eu tenho que aproveitar. Uma mecha de cabelo cai em meu campo de visão, mas eu não me preocupo em afastá-la. Eu acabei me acostumando a desenhar e pintar através dessa mecha de cabelo, é sempre a mesma mecha teimosa que insiste em sair do lugar.
”Você acredita em paraíso?”
As palavras de Lauren me fizeram afastar o olhar de meu caderno. Ela continuou a trocar os canais como se não houvesse dito coisa alguma. Por uma fração de segundo eu penso que talvez tenha apenas imaginado ela falar, mas então ela vira sua cabeça em minha direção, esperando por uma resposta.
“Por que você pergunta?” Eu digo suavemente.
Ela dá de ombros. “Eu nunca realmente pensei sobre isso em detalhes antes, mas agora eu espero que o paraíso exista.” Ela começou.
“Porque, talvez, nós possamos ver Logan algum dia?” Ela pergunta esperançosamente.
Um sorriso triste surge em meus lábios enquanto eu assinto levemente.
“Talvez.”
Eu voltei ao meu desenho, e ela voltou à sua missão de trocar os canais. Eu não tenho certeza de quando tempo se passou, mas depois de algum tempo eu senti uma movimentação no sofá e quando olhei para Lauren, ela estava apenas a alguns centímetros de meu rosto tentando espiar meu desenho, momento em que eu pressionei o caderno em meu peito de brincadeira para que ela não pudesse ver o que era.
Ela fez bico e eu fingi estar aborrecida antes de virar o caderno e lhe mostrar meu desenho ainda não terminado.
Ela sorriu levemente. “Você sempre me desenha.” Ela falou. “Por quê?”
Eu olhei em seus olhos e coloquei a mão em sua bochecha suavemente, acariciando sua pele com meu polegar.
“Minha primeira professora de arte.” Eu comecei a explicar. “Me disse que sempre que eu não soubesse o que desenhar, eu deveria achar a coisa mais bonita do cômodo, e desenhar isso.”
Ela sorriu. Um sorriso genuíno. Pela primeira vez em um longo tempo eu senti as familiares borboletas se fazendo presentes em meu estômago quando ela se inclinou e deixou um beijo rápido, porém suave, em meus lábios.
“Obrigada.” Ela sussurrou.
Ela se moveu para apoiar a cabeça em meu peito e eu rapidamente deixei de lado meu caderno, envolvendo meus braços ao seu redor fortemente.
“Pelo quê?”
Eu pude sentir algumas lágrimas quentes colidirem com a minha pele.
“Por ter ficado.”
Eu deslizei meus dedos por seus cabelos e deixei um beijo suave em sua testa.
“Eu nunca mais vou embora, Laur.” Eu disse a ela. “Você está presa comigo.”
Ela ergueu sua cabeça e olhou para mim como se estivesse se certificando de que não havia traços de incerteza em minhas feições.
“Já me disseram isso antes.” Ela disse. “Não importa o quanto eu tente não fazer isso, eu não consigo evitar de pensar que você está aqui agora, mas até quando? Até você achar alguém novo? Até você ficar entediada?”
Isso me fez pensar em quem deve ter dito isso a ela antes. Considerando que Lauren e Ronny estiveram juntos desde o ensino médio, eu só posso imaginar que ela estava se referindo a amizades perdidas, ou talvez até a conexões familiares. Ela nunca gostou de falar sobre sua família, e eu nunca forcei uma conversa sobre esse assunto.
Eu contorno os traços de seu rosto com a ponta de meus dedos e sussurro. “De agora em diante, até o para sempre.” Eu disse, decidindo não vocalizar meus pensamentos de antes.
Isso fez um pequeno sorriso enfeitar seus lábios. “Para sempre é um longo tempo, Camz.”
Eu assinto e deixo um beijo suave em sua bochecha. “Então eu acho que é melhor você se acostumar comigo.”
--x--
“Como eu estou?”
Ela estava alisando sua saia nervosamente enquanto estava de pé em frente a cama onde eu estava deitada e lendo.
Eu afastei o olhar de meu livro e encontrei Lauren em sua saia lápis, camisa branca e batom vermelho habituais. Eu sorrio ao começar a ver vislumbres da Lauren real, que aos poucos está voltando para mim.
“Linda.” Eu digo a ela.
Ela para em frente ao espelho e examina suas roupas, suspirando.
“Eu estou falando sério, Camila.”
“Eu também, Lauren.”
Hoje é o primeiro dia dela de volta ao trabalho e é seguro dizer que ela está nervosa. Hoje é o primeiro dia em que ela começa a ter sua antiga vida de volta.
Nós tentamos fazer com que sua licença se prolongasse, mas já faz meses, eu não culpo a coordenação da faculdade por ter negado o pedido.
Eu me levanto e caminho em direção a Lauren enquanto ela permanece se olhando no espelho.
“Lauren.” Eu digo. “Você está ótima.”
Ela se vira e assente suspirando. Eu pego suas mãos trêmulas entre as minhas e deixo nelas um beijinho suave.
“Você vai se sair muito bem.” Eu digo. “Que história você irá discutir hoje?” Eu pergunto para tentar fazer com que ela foque na literatura que ela tanto ama, em vez de deixar que ela pense no quão assustador pode ser para ela voltar ao trabalho depois de todo esse tempo.
Eu vejo suas feições relaxarem levemente quando ela começa a pensar em um de seus livros favoritos.
“Hoje nós vamos discutir sobre...”
--x--
“...The Birthmark, por Nathaniel Hawthorne.” Lauren fala alto e claro para sua classe cheia de alunos. Se eu não a conhecesse tão bem, eu não seria capaz de notar que ela estava levemente nervosa.
Eu falei para Lauren que queria vir com ela e relembrar o começo de nosso relacionamento, com ela em frente à classe e eu olhando-a da cabeça aos pés de uma distância segura.
Quando eu falei isso ela riu, o que me fez ficar feliz, porque nós duas sabíamos que eu só queria vir para me certificar de que estava tudo bem com ela. Eu pensei que ela poderia precisar de suporte em seu primeiro dia de volta.
“Alguém pode me dizer sobre o que é essa história?”
“Um babaca com complexo de Deus.” Uma voz feminina ecoa pela sala de aula. Uma onda de risadinhas preenche o lugar e Lauren sorri.
“Bem, você não está completamente errada.” Ela diz se apoiando em sua mesa. “O que mais?”
“Imperfeição.”
“Obsessão.”
“Perfeição.”
Todos esses termos voaram pelo ar vindos de diferentes cantos da grande sala de aula.
“Mortalidade.” Eu murmuro baixo para mim mesma, já que eu não sou mais uma de suas alunas.
“Bom.” Lauren disse firme. “Todos estão corretos.”
Um pequeno sorriso se forma em meus lábios enquanto eu a observo. Aqui é realmente onde ela se sente mais confortável e me faz feliz vê-la em seu ambiente.
“As prioridades de Aylmer são um tanto questionáveis.” Lauren diz. “Ele acha que alcançar a perfeição é mais importante que, bem, praticamente todo o resto. Ele estava certo?”
“Claro que não.” Disse um homem na primeira fileira.
“Por que não?” Lauren perguntou.
Ele se mexeu desconfortavelmente em sua cadeira, aparentemente não sabendo como responder. Eu fiquei aliviada por ele não ter respondido, considerando como a história termina. Eu não tinha certeza se morte seria um assunto que Lauren deveria tratar em sua aula nesse momento. Eu pensei em sugerir outro livro, mas eu não sabia como tocar nesse assunto e dizer a ela para discutir sobre outra história – uma em que ninguém morre.
Lauren pareceu notar o desconforto do aluno e decidiu direcionar outra pergunta aos demais.
“Alguém notou algum simbolismo na história?”
Eu sorri e não pude evitar de pensar em alguns meses atrás, quando palavras similares escaparam de seus lábios, em referência ao simbolismo de outra de suas favoritas histórias. Ela pareceu ter a mesma lembrança e olhou para mim com olhos desafiadores, provocando-me a falar alto e responder sua pergunta.
Eu dei um sorrisinho. “A marca de nascença em si é um símbolo.” Eu respondi.
“Elabore, Senhorita Cabello.” Ela ordenou.
“Ela simboliza imperfeição, até mesmo mortalidade, e como essas duas coisas são parte de nós, humanos. Não importa o quão perfeita ela parecia, em cada outro aspecto, ela tinha uma imperfeição.” Eu expliquei. “Tudo e todos têm imperfeições, de uma maneira ou de outra.”
Não importa quanto tempo passe, eu nunca vou me cansar de ver o sorriso cheio de orgulho que enfeita os lábios de Lauren sempre que nós temos essas discussões. É difícil de acreditar que eu nem ao menos sabia o que simbolismo significava antes de nos conhecermos, mas a professora de olhos verdes definitivamente ampliou minha visão de mundo.
“Senhoras e senhores, essa é a professora Cabello da Faculdade Seminole, nossa faculdade parceira.” Lauren me apresentou orgulhosamente.
Eu sorri e acenei quando uma leve onda de aplausos preencheu a sala de aula, exceto por um cara sentado na fileira de trás, cujas palmas se tornaram desagradáveis quando ele gritou.
“Nossa, que professora sexy! Você pode me dar aulas particulares de reforço?” Ele perguntou sugestivamente.
Risadas tomaram conta da sala e Lauren fez sinal para que os estudantes fizessem silêncio.
“Ok, ok. Acalme-se, Brandon.”
Brandon? Eu pensei. Agora entendo porque ela não gostava do nome, esse cara realmente parece um cafajeste.
Ela então fez algo que três anos atrás eu nunca imaginaria que ela faria. Ela parou no centro da sala de aula e disse. “Nem pense nisso.” Ela começou a falar olhando em minha direção com um sorrisinho nos lábios. “Ela é comprometida.”
Uma onda de “ohhh’s” e “awn’s” preencheu a grande sala de aula e eu podia sentir minhas bochechas ficando coradas quando Lauren me lançou uma piscadela.
Aí está ela.
--x--
“Você já pediu Mani em casamento?”
Eu escuto Dinah fazendo barulhos com a boca enquanto entramos em seu apartamento. “Garota, o que você acha?” Ela pergunta sarcasticamente.
Eu balanço a cabeça e me sento em seu sofá.
“Eu acho que você carregando esse anel de noivado no seu bolso por três semanas está começando a ficar ridículo.” Eu digo. “Apenas peça a ela.”
Ela balança a cabeça. “Ainda não chegou a hora certa.” Ela diz ao se sentar ao meu lado. Normani e Dinah compartilham um pequeno apartamento de dois quartos. Normani insistiu no quarto extra para que ela pudesse praticar sua dança ali, não era um espaço grande, mas era dela e ela certamente tirava proveito dele.
“Você tem apenas que pedir, Cheechee. Nunca vai parecer que é a hora certa.” Eu digo a ela.
Eu vejo o olhar preocupado no rosto de minha amiga e eu honestamente não entendo o motivo de sua preocupação. Normani tem dado dicas sobre querer se casar já faz uns dois anos. Pelo amor de Deus, a mesa de centro à nossa frente está coberta de revistas de noiva, não é como se ela fosse negar o pedido.
“Dinah, o que é?” Eu pergunto a ela. “De verdade, porque você sabe que ela te ama e você sabe que ela quer se casar com você.” Eu digo como se isso fosse mais do que óbvio, o que é mesmo. “Então o que está te deixando preocupada?”
Minha amiga se ajeita no sofá e eu começo a ficar apreensiva. Dinah geralmente está sempre brincando e fazendo piada de tudo, é muito raro vê-la nervosa e preocupada como ela está agora.
“Ela merece mais.” Ela diz.
“O que você quer dizer?”
Ela dá de ombros e eu vejo seus olhos começarem a lacrimejar. “Ela merece mais, Mila. Uma garota como Normani deveria ser pedida em casamento embaixo da Torre Eiffel, ou no Central Park, ou em um terraço de prédio com vista para a cidade toda, não no café da manhã enquanto nós estamos gritando uma com a outra para ficarmos prontas para sair trabalhar.” Ela disse. “Eu quero fazer algo especial, mas eu não sei como, eu não tenho condições financeiras para bancar Paris, ou Nova Iorque, ou um terraço.”
Eu a observei expressar suas preocupações com um sorriso em meu rosto. Quando ela notou minhas feições, ela imediatamente voltou a agir como a Dinah que eu conheço e seu olhar aflito desapareceu.
“Por que você está me olhando desse jeito?”
Eu sorrio largamente e dou de ombros. “Você é tão fofa.”
Ela torce o nariz. “Cala a boca.”
“Vem aqui.” Eu digo abrindo meus braços em uma tentativa de chamá-la para um abraço, o que ela rapidamente recusa.
“Que nojo, sai de perto de mim.” Ela disse.
Eu a ignorei e a forcei em meu abraço assim que consegui envolver meus braços ao seu redor e apertá-la fortemente. Ela continuou a fingir que estava com nojo por mais alguns segundos antes de retribuir o abraço.
Ela me apertou suavemente antes de suspirar e olhar para mim.
Nós voltamos para casa há cinco semanas e Lauren ainda mal consegue olhar para mim. Eu entendo o motivo, já que eu a deixei acreditar que seu filho estava vivo, quando na verdade ele não estava. Eu fiz isso para o seu próprio bem, e eu acredito que ela saiba disso, mas ela ainda está brava.
Nesse momento ela está sentada na cama, encarando o canto do quarto onde o berço costumava ficar. Eu me certifiquei de desmontá-lo antes que ela voltasse para casa, mas seus olhos continuavam fixos no espaço agora vazio. Isso é tudo o que ela fez o dia todo. É tudo o que ela tem feito desde que nós voltamos para casa.
Ela mal se alimenta ou dorme. Ela apenas fica ali sentada e encara o vazio.
Eu converso com ela, mas ela não me responde. Eu preparo comida para ela, e rezo a Deus para que ela coma, e lhe dou banho com bacia e esponja quando ela decide que está cansada demais para lutar contra mim. Eu não fui capaz de lhe dar um em três dias, e a estimativa é de que demorarei pelo menos mais uns dois dias para que ela me deixe lhe dar banho novamente.
Eu estou cansada.
Eu estou tanto física quanto mentalmente exausta.
Eu também o perdi.
Eu não acho que ela se dê conta disso.
Eu também o perdi.
Normani e Dinah nos visitaram algumas vezes e tentaram fazer com que Lauren falasse, mas não tiveram sucesso.
Eu estou começando a ficar desesperada. A cada segundo que ela passa encarando aquele canto do quarto, meu coração quebra mais e mais por ela, e a pior parte é que não há nada que eu possa fazer para ajudá-la. Não importa o quanto eu queira, eu não sou capaz de trazê-lo de volta.
Mas uma coisa é certa: ela não é Lauren.
Ela é um fantasma.
Eu me apoio no batente da porta de nosso quarto e a observo por um tempo. Eu olho para onde seus olhos estão fixos, mas é apenas um canto vazio agora. É onde meu cavalete costumava ficar, mas eu não me atrevi a colocá-lo de volta ali.
Agora é apenas um vazio.
Quase como nós.
“Você quer algo para comer?” Eu pergunto cuidadosamente.
Sem resposta. Eu nem ao menos espero uma, faz semanas que eu não ouço sua voz, mas se eu não falar de vez em quando eu sinto que vou enlouquecer.
O silêncio é ensurdecedor.
“Faz dois dias que você comeu pela última vez. Você deveria se alimentar.”
Nada.
Eu suspiro e caminho em direção à cozinha para preparar algo mesmo assim. Talvez ela coma se eu fizer algo. Eu imagino que ela não vá querer algo muito pesado, então decido por uma sopa de macarrão e frango. É a única coisa que ela esteve disposta a comer desde que voltamos para casa; toda vez que eu tento fazer algo diferente, ela nem olha para a comida.
--x--
Eu voltei para o quarto e fiquei aliviada de encontrar a tigela de sopa que eu fiz para ela vazia. Nós chegamos em casa há dois dias e essa é a primeira coisa que ela comeu desde então. Espero que estejamos fazendo algum progresso.
“Você quer mais alguma coisa?” Eu perguntei esperançosamente enquanto pegava a tigela de cima do criado-mudo.
Ela não responde, mas está tudo bem, porque se ela está comendo, isso significa que ela está tentando, e isso é tudo que eu preciso que ela faça.
“Me fale se quiser algo mais.” Eu disse e comecei a sair do cômodo.
“Como você conseguiu?”
Sua voz ecoa pelos meus ouvidos pela primeira vez em dois dias, então eu paro em frente à cama e olho para ela.
“Consegui o quê?”
Seus olhos lançam adagas em minha direção quando ela abre a boca para falar novamente.
“Como você conseguiu olhar nos meus olhos e me fazer acreditar que eu ainda tinha um filho, quando na verdade você sabia que eu não tinha?” Ela perguntou.
Eu senti um arrepio correr por minha espinha com o veneno que escorreu de suas palavras.
“Como você ficou lá comigo e deixou que eu me gabasse pelo fato de ele ter sido chamado pelo nome que eu queria.” Sua voz começou a se elevar. “E se recusou a me contar que você só escolheu esse nome para colocar na porra da certidão de óbito, sua vagabunda egoísta?”
Antes que eu me desse conta, o copo de vidro que ainda continha água e que estava em cima do criado-mudo estava voando em minha direção.
Eu me abaixei a tempo de não ser atingida, mas assim que eu caí de joelhos, eu não consegui mais me levantar.
Eu caí nos pés da cama e deixei escapar todas as lágrimas que eu vinha segurando desde que nós voltamos para casa. Meus soluços ficaram altos e incontroláveis quando eu deixei que a dor em meu peito dominasse todo o meu corpo. A dor se espalhou, me deixando completamente paralisada, e eu permiti que meu pulso colidisse com o chão.
Eu não sabia por que eu estava chorando dessa vez.
Por causa de Lauren?
Por causa de Logan?
Por que eu me sentia culpada?
Talvez eu esteja com medo de perder Lauren.
Provavelmente por tudo isso.
Apenas uma pequena parte de mim acreditava que Lauren viria me confortar, mas mesmo assim eu fiquei desapontada quando muitas horas se passaram e ela permaneceu imperturbável com o meu choro aos pés da cama e em frente a ela.
Eu disse a mim mesma que ela tinha permanecido parada por causa do gesso em sua perna, antes de me levantar e limpar a garganta.
“Se você precisar de alguma coisa.” Eu disse o mais claramente possível, mas minha voz ainda falhou. “Apenas me diga.”
Eu disse a ela antes de ir procurar uma vassoura para juntar os cacos de vidro.
--x--
Eu deixei a tigela com a sopa em cima do criado-mudo e saí do quarto novamente.
Ela não comeria se eu estivesse no quarto, as coisas agora eram assim. Às vezes eu voltava para o cômodo e encontrava a tigela ainda cheia; às vezes a tigela estava vazia. Hoje eu espero que esse seja o caso.
Infelizmente, quando eu voltei para o quarto uma hora depois, a tigela ainda estava cheia.
Eu suspirei e fui recolher a tigela quando ouvi sua voz rouca, quase inaudível, soar ao meu lado.
“É estranho que eu sinta falta dele?” Ela perguntou.
Eu estava surpresa em ouvi-la falar. Honestamente, eu tinha quase certeza de que ela me odiava, mas eu não podia simplesmente abandoná-la. Isso não era sequer uma opção. Nós podemos passar por isso, eu sei que sim.
“Não, eu também sinto falta dele.” Eu contei a ela.
Ela zombou. “Não, você não sente.”
“Como é?”
Ela finalmente focou seu olhar em mim e balançou a cabeça. “Se você sente, certamente não demonstra.” Ela disse amargamente. “Você só seguiu com a sua vida.”
Eu assenti e me recusei a liberar as lágrimas que estavam se formando em meus olhos.
“Uma de nós tem que fazer isso.”
Eu decidi deixar a tigela onde estava e voltar para pegá-la mais tarde.
“Que porra você quer dizer com isso?”
Eu parei diante da porta e debati internamente se deveria ou não responder à pergunta, mas antes que eu pudesse pensar mais profundamente sobre isso, meus pés já tinham me virado de volta em direção a ela e as palavras começaram a deixar meus lábios.
“Eu estava lá.”
“O quê?” Ela perguntou rispidamente.
“Eu estava lá.” Eu repeti mais alto.
“Para tudo.” Eu comecei. “Eu massageava seus pés quando você sentia dor, eu cantava para ele, eu me certificava de que você estava tomando suas vitaminas direitinho, eu estava lá, Lauren.” Involuntariamente, minha voz começou a se elevar. “Eu estava lá para tudo, eu o perdi assim como você o perdeu, eu estava lá, porra!” Eu gritei.
“E eu estou aqui agora.” Eu continuei com o tom de voz mais calmo. “E eu vou estar aqui não importa quantas sopas você se recuse a tomar, não importa quantos copos você jogue em minha direção, não importa quantas horas você passe com a bunda colada nessa cama, eu vou estar aqui. Então enfie isso na sua cabeça. Você não está passando por isso sozinha. Eu também o perdi.” Eu disse firmemente.
“Porra, Ronny o perdeu também.” Eu disse a ela. Lauren precisava saber que ela não era a única sofrendo; havia um grupo inteiro de pessoas que estava sofrendo pela mesma perda.
Ally está me informando a respeito da situação de Ronny. Eu imaginei que deveria me manter informada porque sei que Lauren irá querer saber dele em algum momento, e, de acordo com Ally, ele não parece estar indo muito melhor que Lauren.
Ao menos é o que ela diz, o que eu, com todo o respeito, discordo. Ronny ainda está trabalhando, e quando chega em casa, age como se estivesse entorpecido, mas pelo menos ele está tentando seguir com sua vida.
Pela primeira vez desde que voltamos para casa, eu vi uma sombra de compaixão em seus olhos ao som do nome de Ronny antes que seu olhar voltasse a ficar repleto de torpor.
“Dinah o perdeu.” Eu decidi continuar. “Você faz ideia do quanto Mani e Dinah estavam animadas para ser titias?” Eu perguntei a ela com lágrimas em meus olhos.
“Nós todos o perdemos, mas nós estamos aqui por você para o que você precisar. Tudo do que você tem que fazer é falar.”
--x--
Eu estava esperando que meu discurso de duas semanas atrás fizesse algum tipo de efeito em Lauren, mas não fez. Se fez, pareceu empurrá-la ainda mais para dentro do buraco negro em que ela se encontrava.
“A impressão que tenho é a de que você está se recuperando muito bem fisicamente.” Doutora Bailey disse.
Nós estávamos em um dos nossos exames de acompanhamento semanais e a médica definitivamente notou o estado emocional de Lauren.
"Parece que você repousou com a perna elevada exatamente como lhe foi dito para fazer, então isso é bom.” Ela continuou.
“Se tudo correr bem, eu penso que nós devemos tirar esse gesso de você na próxima consulta.” Ela disse animadamente.
O gesso deveria ter sido tirado na semana passada, mas há umas duas semanas antes da consulta, Lauren decidiu que ela não queria mais usá-lo. Então quando eu voltei para casa do trabalho, encontrei-a sentada no chuveiro totalmente vestida e chorando com o gesso encharcado e despedaçado. Ela não conseguia se mexer porque sua perna doía e ela não conseguia se levantar por causa da dor em seu torso devido às costelas quebradas.
Ela estava usando uma cadeira de rodas desde que saiu do hospital, eu não sei o que a fez pensar que ela poderia tomar banho sozinha sem dificuldade alguma. Eu ainda não consigo entender como ela conseguiu entrar debaixo do chuveiro, para começo de conversa.
Lauren assentiu, mas seu rosto não demonstrou expressão alguma.
Eu agradeci à médica e empurrei a cadeira de rodas de Lauren para fora da sala, pedindo para que ela esperasse ali por mim, e ela não pareceu ligar; ela não liga para nada esses dias, para falar a verdade. Então ela ficou parada perto da porta onde eu pedi para que ela me esperasse e eu voltei para dentro sala a fim de falar com a Doutora Bailey.
“Com licença?”
Doutora Bailey respondeu com um sorriso largo, como sempre, antes de perguntar se eu havia esquecido de algo.
“Não, eu não esqueci nada, eu só tenho uma pergunta.”
Ela assentiu. “Claro, o que é?”
Isso é algo que tem estado em minha mente por um tempo e eu não tinha certeza do que eu gostaria de ouvir como resposta, ou se isso me faria sentir melhor de algum modo, mas eu sentia a necessidade de saber, ao menos para conseguir seguir em frente.
“Você sabe o que aconteceu com o outro motorista?”
Seu sorriso desapareceu enquanto ela assentia lentamente. “Eu sei.” Ela disse cuidadosamente.
“Você tem permissão para me contar?” Eu queria saber, mas certamente não queria colocá-la em apuros.
“Camila-“ Bailey começou, mas eu a cortei antes que ela pudesse continuar, eu não queria um sermão sobre como saber isso me faria mais mal do que bem. Eu só precisava saber.
“Só me conte.” Eu falei firmemente. “Por favor.”
Ela suspirou.
“O outro motorista estava em uma caminhonete grande.” Ela disse como se isso por si só respondesse à minha pergunta. “Ele sofreu alguns cortes devido ao vidro quebrado e teve alguns hematomas ocasionados pelo impacto, mas ele está bem.”
Eu assenti e pedi licença antes de voltar para onde Lauren estava me esperando.
--x--
Ele está bem. Isso ecoou em minha mente.
Logan está morto, e o outro motorista está bem.
Lauren se tornou um fantasma, mas o outro motorista está bem.
Nossa família foi quebrada, nossos sonhos foram arrancados de nós e nossas vidas foram destruídas, mas o outro motorista está bem?!
Eu consigo sentir a raiva se formando dentro de mim e agora eu me dou conta de qual resposta eu realmente queria ouvir. Eu queria que ele estivesse machucado, que ele estivesse com dor, que ele estivesse sofrendo. Eu não queria que ele estivesse morto, mas eu queria que ele sentisse pelo menos uma pequena porcentagem do que ele fez conosco. Porque era ele que estava distraído demais para se dar conta de que o sinal havia ficado vermelho para ele. Ele realmente está andando ao redor desse mundo nesse momento com absolutamente nenhuma repercussão pelo que ele fez?
“O que deu em você?” Lauren perguntou amargamente.
“O quê?” Eu perguntei confusa.
Ela agora estava sentada no sofá, o que eu considerei uma evolução, já que ela não estava mais na cama.
“Alguma coisa está errada.” Ela disse. “Eu consigo ver em seu rosto.”
Eu assenti, ela provavelmente está certa, já que eu nunca fui boa em esconder meus sentimentos, mas esses eram sentimentos que eu não queria compartilhar com Lauren, ela ainda não estava pronta.
“A médica lhe disse que eu estava morrendo também?” Ela perguntou. “Vai manter essa informação para você mesma também?” Ela disse com uma risada venenosa.
“Pare.” Eu exigi. “Pare de agir como se eu tivesse omitido aquilo de você sem ter motivo algum para tanto.”
Eu já havia explicado a ela o porquê de eu ter feito isso muitas vezes, até a Doutora Grey, em uma das consultas pós-operatórias, admitiu que foi ela quem me pediu para fazer o que fiz, mas isso não pareceu fazer nenhuma diferença para Lauren.
“Você sabe porque eu fiz o que fiz, e se fosse comigo, você teria feito a mesma coisa. Ou você acha que depois de perdê-lo eu iria fazer algo que talvez fizesse eu te perder também?” Eu perguntei.
“Oh, espera.” Eu disse sarcasticamente. “Eu sinto como se tivesse te perdido mesmo assim!”
Ela olhou para mim inexpressivamente.
Talvez eu esteja descontando a frustração das notícias que acabei de receber na pessoa errada, mas isso não significa que o que eu estou falando não seja verdade.
Eu realmente sinto que perdi Lauren, essa pessoa à minha frente não é a mulher que eu amo. Eu sei que a Lauren real está em algum lugar ali dentro, mas essa não é ela.
“O quê?” Ela perguntou suavemente.
Essa é a primeira vez em quase dois meses que eu ouço sua voz conter um tom de compaixão direcionado a mim, então eu decido me sentar ao lado dela no sofá e espero que eu consiga ter uma conversa de verdade com ela dessa vez.
“Essa não é você, Laur.” Eu comecei. “E eu sei que só faz alguns meses, mas eu preciso que você comece a tentar.” Eu disse docemente. “Eu não espero que você acorde amanhã e tenha sua vida antiga de volta, eu só quero que você tente.”
Ela deu de ombros. “Como eu faço isso?” Ela sussurrou. Sua voz falhou e eu vi as lágrimas se formarem em seus olhos verdes. “Eu não sei como fazer isso.” Ela me falou.
Ela olhou para o teto por um segundo antes de se pronunciar mais uma vez.
“Você entende o que aconteceu?” Ela me perguntou. “Quero dizer, eu sei que você sabe o que aconteceu, mas você entende?”
Eu balancei a cabeça. “Eu não sei o que você quer dizer.”
“Ele não tinha oxigênio.” Ela disse.
Eu assenti. “Eu sei.”
“Não!” Ela gritou, fazendo com que eu desse um leve salto para trás. Seu rosto caiu em suas mãos e ela começou a soluçar. Ela permaneceu assim por alguns minutos enquanto eu a observava, até que ela começou a falar de novo.
“Você não sabe.” Ela disse, afastando o rosto de suas mãos para poder olhar para mim.
“Camila, você não sabe.” Ela enfatizou. “Ele não tinha oxigênio.” Ela disse novamente.
“Meu filho sufocou até a morte, dentro de mim.” Ela chorou. “O único lugar que deveria ser o mais seguro para ele foi onde ele morreu.”
Foi aí que eu me dei conta. Lauren não se sentia traída apenas por mim, mas também por seu próprio corpo. O corpo que deveria manter seu filho vivo não desempenhou sua função corretamente.
Eu a observei segurar em sua barriga enquanto soluçava. “Eu o tinha bem aqui, ele deveria estar bem, aqui dentro.” Ela chorou. “E eu não consegui mantê-lo a salvo.”
Ela alcançou minha mão e continuou a soluçar, procurando conforto pela primeira vez desde o acontecido. Eu imediatamente cheguei mais perto e sua cabeça instantaneamente afundou em meu peito enquanto ela chorava. Minhas lágrimas escorriam livremente por minhas bochechas e caíam em seus cabelos, e eu sentia as dela começaram a molhar minha camiseta.
“Shhh.” Eu disse suavemente enquanto passava a mão por seus cabelos, embalando-a para frente e para trás lentamente.
Isso era tudo o que eu podia pensar em dizer. Eu não podia dizer “não chore” e eu certamente não podia dizer “está tudo bem” porque não estava. Nada sobre essa situação estava bem e muito menos era justo.
Então eu apenas a segurei, enquanto ela chorava em meus braços, e silenciosamente rezei a Deus para que as coisas melhorassem.