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Capítulo Quinze ~ Lições da Vida
- Onde ele está? Como ele está? Pai! – disparei assim que o vi entrando em casa, desesperadamente.
Ele jogou as chaves na mesa e me olhou.
- Ele quebrou a perna.
Senti um alivio enorme desabando sobre mim, soltei o fôlego que estivera prendendo.
- E está em coma.
O chão desapareceu debaixo dos meus pés e fiquei suspenso no ar, perdido, com os pensamentos correndo em todas as direções, apenas sendo mantido na realidade pelos olhos fixos de meu pai em mim. Encarávamos-nos em silêncio.
Ele veio em minha direção e me segurou.
- Lewis?
- Pai... Ele... Não... – minha garganta doía e as lágrimas já rolavam quentes e apressadas pelo meu rosto.
- Os médicos dizem que o quadro dele é estável, Lewis – ele falou, me levando para sentar no sofá. – Ele vai ficar bem.
Não sentia muita certeza no que ele falava; o que piorava meu estado. Não podia perder mais alguém, não tinha mais forças para sofrer por mais alguém, não conseguia nem pensar na hipótese de perdê-lo.
- Ele não vai morrer – meu pai disse, firmemente.
Olhei para ele imediatamente, sacudi a cabeça negando todas as possibilidades dele morrer. Desoladamente, abracei meu pai e coloquei a cabeça em seu ombro, chorando. Sentia como se alfinetes fossem colocados em meu coração e minha cabeça doía.
- Quando vou poder vê-lo? – perguntei ansioso.
- Amanhã, hoje vão operar a perna dele.
Imaginar a cena me deu náuseas e embrulhou meu estômago. Me soltei de papai e levantando subi as escadas para o meu quarto. Ele não tentou me impedir, sabia que seria inútil. Só queria me deitar, chorar e esperar. Esperar que o melhor acontecesse e Peter acordasse.
Assim que deitei na cama no quarto silencioso, as lembranças da minha mãe voltaram fortes e vivas como nunca. Os dias que fiquei com ela no hospital. Todas as suas recaídas. Quando ela teve que cortar o cabelo. Todos os procedimentos médicos pelos quais teve que passar. E finalmente sua morte. Meu corpo inteiro doía. Não era físico, mesmo que doesse como tal, era emocional.
Na época eu tinha me mantido forte por ela por causa de todas as suas frases e sorriso de suporte e de fé. Tínhamos a ilusão da cura. Como eu podia ser firme e esperar pelo melhor agora? Ela não estava ali comigo, nem o meu tio e agora estava prestes a perder a pessoa que mais amava. Peter.
O nome dele soou na minha cabeça como um sino de igreja, ecoando por todo o meu corpo, me anestesiando. Lembrei-me do som da voz dele, o jeito como dizia meu nome, a forma como se aninhava nos meus braços quando estávamos juntos. Quando o tirei da piscina. Nosso primeiro beijo. Nossa primeira noite juntos.
Esse pensamento me fez rir por um segundo.
Não havia sido uma primeira noite propriamente dita já que não havia acontecido nada. Ficamos o tempo todo abraçados, conversando e trocando carícias. Mas sentia que era a mesma coisa. Havíamos tido um momento junto, finalmente.
Parecia impossível, mas ele sempre permaneceu vivo em minha mente. Desde que nos mudamos, ele era parte dos meus pensamentos. Tive amigos, amigas, namorei algumas garotas e havia trocado alguns beijos com um garoto, mas sempre que estava sozinho ou triste eu me lembrava dele. Da nossa amizade. Como ele sempre estava comigo quando éramos crianças. Não sabia ao certo, mas a nossa amizade sobreviveu a nossa separação e cresceu com a distância, quer dizer pelo menos para mim.
Quando voltamos para cá e eu entrei na Lincoln High School e o revi senti feliz pela primeira vez desde que minha mãe morrera, mas ele não me reconheceu, passou direto por mim. Fiquei imóvel, pensativo. Era claro que eu sabia que quando voltasse as coisas poderiam ser diferentes, mas não o bastante.
Os primeiros anos foram os piores. Ver o seu melhor amigo ali e não poder falar com ele sem ter a certeza que ele vai te reconhecer e tudo voltar ao normal, era terrível, mas mesmo assim só de vê-lo e tê-lo por perto, era bom, suportável na maioria das vezes.
Quando Kevin apareceu as coisas melhoraram e eu quase me senti livre de vez da nossa amizade e do peso que ela tinha sobre mim, pelo menos. Mas de fato, não estava. Então Nina apareceu e eu tive a certeza que eu o tinha esquecido de vez. Havia me recuperado de toda a depressão que havia me consumido por muito tempo desde a morte de minha mãe e estava finalmente vivendo uma vida perfeitamente agradável. Algumas noites ainda chorava ao acordar de um pesadelo com ela, mas meu pai sempre estava presente, para me consolar e me devolver um pouco de realidade.
Eu também estava ali por ele.
Mas tudo mudou ou melhorou, não sei, quando eu encontrei Peter na Ultima Books. Eu o vi entrando de longe. Estava de pé olhando alguns livros e já ia me dirigindo até Garret quando eu vi que ele vinha na minha direção, então mudei de rota e me escondi para não dar de cara com ele. No entanto quando o vi em dúvidas sobre os livros, me perguntei se não poderia realmente tentar reatar nossa amizade.
Foi assim que tudo começou.
Eu não imaginava que ele teria um novo impacto sobre mim, quer dizer eu o via sempre na escola e na maioria das festas que alguns amigos em comuns davam, mas quando falei com ele, foi diferente. Sabia de alguma forma, que não era só amizade.
Tinha quase certeza que o havia assustado naquele dia, que nunca mais chegaria a falar com ele, e estava certo, pois não havia um dia que eu não fosse na Ultimate para ele não estar lá. Eu o esperava, ansioso, como se houvesse marcado um encontro com ele, mas não era assim.
Então ocorreu a tragédia.
O pensamento me trouxe arrepio e mais lágrimas, me lembrava muito do meu próprio tormento.
Claro que meu pai iria ao velório e nas cerimônias que envolveriam o seu querido amigo e ele me levaria junto, mas eu não estava assim tão bem quanto dizia ou aparentava. Não pude ficar com eles, era dolorido demais.
E tão repentinamente ele apareceu novamente, quando eu menos esperava, surpreendendo-me. Estava arrasado, como eu suspeitava, mas outra vez eu o assustei. Nada parecia funcionar. Me sentindo mal por não ter permanecido nas cerimônias e em débito com ele por causa do outro livro, decidi lhe enviar outro.
Finalmente senti que algo deu certo. Havia capturado a atenção dele. E como sempre, eu tinha que esperar. Uma demora que não pareceu tão terrível já que agora eu imaginava que estávamos no caminho certo.
A ligação dele me fez ter certeza de tudo, mas me fez ficar preocupado com ele. Podia ouvir na voz dele que havia algo errado, mas ele não comentara nada. E mesmo quando o interroguei sobre, nada disse, além do mais não tínhamos tamanha intimidade. Só dias depois fui descobrir, depois do escândalo, que ele havia terminado com Cindy.
Nossa conversa sobre o livro foi incrível, pois finalmente via o meu antigo amigo de volta. Não que eu não tenha forçado ele a lembrar-se de mim, mas ali estávamos nós, os velhos amigos. Ou assim eu esperava.
A tensão criada por aquele garoto chamado Eric me colocou em uma linha tênue que ainda não havia experimentado. O fato de que me arriscaria por ele ou talvez por qualquer um dos meus amigos. Kevin ou Nina ou qualquer outro, não importava. A adrenalina me preencheu e fiz o necessário.
Mas os insultos dele calaram fundo em mim e pelo que havia percebido em Peter também. Podia não ter pensando na palavra apaixonado até aquele momento, mas ela começou a me parecer extremamente real. Não havia muita explicação para o que eu sentia por ele.
O queria perto de mim o tempo todo. Queria protegê-lo. Queria poder abraça-lo. E por fim me deixei pensar em beijá-lo, em tocá-lo, em enchê-lo de amor. A vergonha e o embaraço de tais pensamentos só duraram poucos dias. A cada momento que ficávamos juntos, sentia que tal fato se tornava mais claro e concreto. Se podia sentir no ar.
Jurava que Peter também o sentia.
O seu salvamento foi outro momento que me vez duvidar da minha própria capacidade. Ao vê-lo caindo na piscina e afundar como uma pedra me deixou alerta como nunca e não pensei ao me atirar em sua busca. Um terror brutal tinha me atingido em cheio no estômago e impelido uma ação. Não podia perdê-lo. Não se eu pudesse evitar.
Não posso mentir que sentir um prazer além do normal por tê-lo salvo e por tocar em seus lábios. Por fora me mantinha calmo e controlado, com as feições preocupadas, enquanto por dentro sentia que estava no paraíso.
Queria poder falar com ele, saber se estava realmente bem, mas a multidão havia me cercado e se esquecido dele. Como puderam? Assim que o viram bem, o esqueceram. Não parava de pensar nele. Me preocupava com ele o tempo todo. Precisava vê-lo novamente e a festa foi o pretexto perfeito.
Então ele me beijou.
Ele. Me. Beijou.
Tomou a iniciativa e me pegou desprevenido. E eu simplesmente corri, fugi dele. Foi irracional essa reação, pois meu corpo inteiro ansiava por ele, por aquele ato. E quando ele veio atrás de mim, foi minha vez de agir, de retribuir.
Experimentei pela primeira vez uma felicidade extasiante. Pura, que chegava a doer de tão prazerosa. Sentia capaz de gritar, correr e chorar, tudo ao mesmo tempo. Havia conseguido. Havia resgatado a amizade dele e agora tinha o seu coração, da mesma forma como ele tinha o meu. Sem reservas.
E agora tudo estava escoando pelo ralo, desaparecendo lentamente. Não era justo. Não iria perdê-lo.
As lágrimas cessaram abruptamente. Meu cérebro se acendeu. Engoli em seco e me levantei pegando meu celular. Liguei para a mãe de Peter e perguntei em que hospital ele estava internado, após ouvir as lágrimas e conforta-la, recebi o que queria. Falei que tudo iria ficar bem e que ele voltaria para nós, ela murmurou um “Deus te ouça” choroso e depois nos despedimos.
Desci as escadas, peguei as chaves do carro e antes que meu pai voltasse de onde quer que ele tivesse ido, liguei o carro e fui até o hospital.
Precisava vê-lo.
Capítulo Quatorze ~ Lições da Vida
Passamos a noite juntos. E ficar junto do corpo dele aquele tempo todo me trouxe uma paz e um alívio que eu não experimentava desde... Sempre. Eu não conseguia me lembrar de quando eu havia me sentindo tão bem assim. Antes quando eu o havia encontrado havia aquele desconforto desconhecido e amistoso, mas agora tudo parecia ter sumido. O antes parecia não existir.
A festa prosseguiu sem notar nosso desaparecimento e tirando umas duas vezes que Lewis havia saído do quarto para buscar algo para comermos, permanecemos o tempo todo ali, eu deitado sobre o peito dele enquanto ele mexia no meu cabelo e conversávamos.
O tempo voou.
Três horas depois que o sol havia aparecido, a musica finalmente diminuiu e o fluxo na casa finalmente foi se esvaindo. Quando finalmente o silêncio reinou na casa, Lewis já havia adormecido. Me levantei sem me mexer muito para não acordá-lo e fiquei no meio do quarto me espreguiçando. Havia cochilado uma ou duas vezes e sentia meu corpo gritando por um sono descente, mas não me sentia muito compelido a dormir agora.
Me espreguicei mais um pouco e então sai do quarto. A casa estava impecavelmente suja. O corredor estava cheio de comida espalhada, copos e restos de cigarro. Algumas paredes estavam sujas e alguns quadros estavam tortos na parede. Não conseguia parar de pensar no que o pai dele ia pensar disso tudo quando chegasse.
Desci as escadas e vi mais destruição na sala, na cozinha e para a minha surpresa havia pessoas no chão do quintal. Sorrateiramente fui até lá para saber quem eram. Comecei a rir assim que me percebi que eram Nina e Kevin. Com certeza haviam dormido no primeiro lugar que encontraram quando ficaram cansados; típicos festeiros.
Voltei para a cozinha e procurei a cafeteira que já não estavam no seu lugar habitual e preparei um pouco de café, sentia minha cabeça começar a doer. Me encostei no balcão e esperei, fechando os olhos por alguns minutos e pensando em tudo o que havia acontecido.
Meus pensamentos foram interrompidos imediatamente pelo barulho da porta. Alguém estava entrando.
- Oi? – a voz era conhecida. – Lewis?
Apareci na sala.
- Oi.
- Oi, Peter. Onde está o Lewis? – era o pai dele, Colton.
- Lá em cima, dormindo – respondei, dando um sorriso.
Colton assentiu e remexeu nas chaves que estavam em sua mão.
- Onde o senhor esteve? – perguntei, curioso.
Não devia ter perguntado isso. Soava como um interrogatório com o meu pai e além do mais ele não me devia satisfação de nada. Mas assim que ele me olhou eu percebi que precisava ter perguntado.
- Fui visitar a tia do Lewis – ele falou, colocando as chaves de lado e sentando no sofá. – Ela perdeu a irmã e o marido.
Senti minha garganta secar imediatamente e meus pensamentos rodarem. Como assim? Ele tinha perdido a mãe e um tio?
- Ele perdeu um tio também? – as palavras passaram cortando minha garganta.
Colton apenas assentiu e passou as mãos no rosto. Ele tinha a aparência cansada, os olhos estavam vermelhos e manchas roxas estavam embaixo deles, denotando a falta de sono.
- Eu não... Não sabia... Eu sinto muito – gaguejei, forçando minha garganta.
Engoli em seco.
Ele me olhou e assentiu, permanecendo com os olhos pesados e cansados fixos em mim.
- Estou feliz de ter voltado, Peter – Colton disse, enfim. – Pode não ter trago paz para mim, mas trouxe para o Lewis.
A cafeteira apitou e eu me virei instantaneamente, mas, no entanto me sentia preso ali, a conversa parecia não ter terminado.
- O que o senhor quer dizer?
- Desde que voltamos Lewis está muito melhor – eu vi um sorriso cansado brotar entre a barba por fazer dele.
- O que...? – eu não estava entendendo.
Colton se levantou e lentamente veio na minha direção.
- É por sua causa, Peter – ele colocou uma mão no meu ombro.
Eu senti meu coração apertar e senti as lágrimas queimaram. Não podia ser verdade. Não podia ter esse poder todo sobre a vida de alguém. Continuei parado, sentindo a mão do senhor Anderson queimar em meu ombro me trazendo para a realidade. Quando ele me soltou e se encaminhou para a cafeteira barulhenta, eu engoli novamente em seco e percebi que poderia sim ser verdade.
Era um sentimento perfeitamente mútuo. Lewis era a minha cura assim como eu era a dele. Simples e fácil.
A veracidade de tal constatação me deixou sem ar, mole e extremamente feliz. Ele era tudo o que eu precisava e mais. E se dependesse de mim, não deixaria ele sumir outra vez.
Me virei e fui em direção à cozinha. Colton já se servira de café e eu fiz o mesmo. Ficamos em silêncio no cômodo, apenas tomando nossas bebidas. O silêncio chegava a ser agradável após toda a barulheira da festa anterior.
De repente ouvimos um baque surdo na porta e um sino ressoar em seguida. Colton colocou a xícara na pia e massageou as têmporas enquanto ia em direção do seu quarto.
- Você se importa de pegar o jornal, Peter? – ele disse, já desaparecendo em um corredor.
Dei de ombros e fui até a porta. Me agachei e peguei o jornal enrolado em um elástico rosa. Já estava para me descartar dele quando perceber quem estampava a foto da manchete de capa. Eric. Desesperadamente tirei o elástico e abri o jornal. Aquelas letras negras não poderiam ser mais claras, estampado na minha frente estava a foto de Eric tirada na cadeia debaixo dos dizeres: IDENTIFICADO O ASSASINO RESPONSÁVEL PELA MORTE DE CIDADÃO.
Dominado pela raiva e pelo ódio rasguei o jornal e o joguei no chão correndo em seguida para o quarto de Lewis onde eu tinha deixado a chaves do carro. Não me importava com o barulho que estava fazendo e muito menos havia virado o rosto quando ouvi a voz dele me chamar.
Eu tinha apenas uma coisa em mente e precisava realizá-la.
Liguei o carro e pisei no acelerador com toda a força, querendo sair dali o mais rápido possível. Meus pensamentos rodavam numa velocidade assustadora e as duas coisas que eu conseguia ver com clareza eram a manchete no jornal e o rosto de Eric no dia que ele me atacou na primeira vez. Eram duas pessoas totalmente diferentes. Uma queria apenas a sua suposta namorada de volta e a outra havia matado o meu pai. Ao invés de lágrimas senti a raiva ferver por detrás dos meus olhos e me fazer voar com o carro.
Iria encontrar ele e fazê-lo pagar pelo o que tinha feito. Com as minhas próprias mãos.
Se ele fosse esperto o suficiente não estaria mais em casa, muito menos nos arredores dela ou de qualquer outro lugar que a polícia já o tivesse identificado das outras vezes. Mas se tinha um lugar que eles não procurariam era nos arredores dos armazéns abandonados perto da velha estrada de ferro. Um dos nossos amigos estava dando uma festa em um dos armazéns e tínhamos saído para comprar algumas bebidas no centro quando ele me abordou e a confusão aconteceu. Era um lugar abandonado e fora das suspeitas policiais, tinha certeza que ele estaria por lá.
Com as duas mãos firmes no volante, dirigi impetuosamente, imóvel e sem piscar, focado no que tinha que fazer. Parei em um semáforo e esperei maquinando como o surpreenderia e o atacaria. Imediatamente o problema surgiu: eu não tinha uma arma, nada com que pudesse feri-lo, mas com a mesma velocidade me dei conta onde estava.
Meu pai não era o típico homem que brigava ou se exaltava à toa, mas sempre andava protegido. Vasculhei o porta-luvas e retirando os papéis e utensílios inúteis que encontrei, localizei no fundo algo frio e duro. Uma arma. Coloquei-a no banco do carona e acelerei quando o sinal abriu. Mentalmente já tinha tudo planejado. Surpreenderia Eric em algum daqueles armazéns, apontaria a arma para ele e a prepararia enquanto o forçava a confessar o que tinha feito e... O motivo. Sim. Era o que mais me intrigava. Qual o motivo dele matar o meu pai? Ele explicaria tudo antes que eu pudesse atirar nele.
Nunca havia imaginado matar alguém, essa hipótese era tão surreal que nunca havia me ocorrido, mas agora parecia a única coisa certa a fazer. Se a cadeia não podia manter Eric longe de mim ou de quem eu amava, talvez a morte o fizesse. Um calafrio percorreu minha espinha me deixando desconfortável. Suspirei fundo e apertei o volante com as mãos, precisava me concentrar.
Virei mais uma esquina e finalmente consegui enxergar a entrada do bairro dos armazéns abandonados e ao longe o terreno coberto de arenito e os velhos trilhos do trem que não passava mais com tanta frequência.
Diminui a velocidade à medida que entrava no bairro para que ficasse a tento a qualquer movimento suspeito de qualquer direção. Lentamente dirigi para o armazém no qual havia ocorrido a festa, era o último do bairro. Virei na esquina, já entrando no arenito, fazendo barulho debaixo dos pneus, e não vi nada. O local estava fazia como sempre. Um silêncio comum e desconcertante pairava sobre tudo por ali.
Decepcionado e sentindo a raiva e a adrenalina baixando, virei o carro e saí do arenito voltando para o asfalto e acelerando para longe do bairro. Logo comecei a pensar onde poderia encontrá-lo e nada me parecia ser adequado. Era como se ele tivesse sumido de uma hora para a outra.
Perdido em pensamentos quase não percebi o carro que aparecera do nada e entrava na linha de visão do retrovisor. O motor do carro roncou alto e furioso e os faróis piscaram duas vezes. Podia ser loucura minha, mas eu tinha certeza que era o Eric dirigindo o carro.
- Procurando pelo seu pai?! – ele colocou a cabeça para fora do carro e gritou, rindo em seguida.
Minhas mãos se fecharam imediatamente no volante e senti como se pudesse esganá-lo com as minhas próprias mãos.
Afinal de contas o que ele queria me seguindo? Não devia ser o contrário?
Dei uma virada brusca na primeira esquina que vi e sem pestanejar ouvi o ronco do motor do carro de Eric me seguir e aparecer logo atrás avançando rapidamente, piscando os faróis e quase batendo na traseira do meu carro.
Acelerei colocando uma boa distância entre nós e virei numa outra esquina dando a volta no bairro. A rua à minha frente era estreita e comprida, tinha certeza que levava de uma ponta à outra dos armazéns. Não ouvi mais o barulho do carro de Eric atrás de mim. Suspirei e acelerei indo agora atrás dele.
Apenas ouvia o barulho do meu próprio carro enquanto avançava à procura de Eric. De repente captei um pequeno barulho vindo, se não estivesse enganado, de duas esquinas a frente. Como a rua era estreita, não tinha dúvidas que ele pretendia me prender ali.
Por isso passei a marcha e acelerei o máximo que podia e por alguns centímetros Eric não me pegou. Podia o ouvir bufando e xingando alto ao retirar o carro do muro em que tinha batido e desaparecer novamente.
Ele tinha me colocado no jogo em que ele era o gato e eu o rato, mas não era bem assim que as coisas iam se desenrolar. Peguei a arma e verifiquei se ainda havia munição e a devolvi ao banco, decidido a sair dali e levar aquela briga para outro lugar.
Assim que sai do bairro dos armazéns e entrei na rua que levava de volta ao centro, buzinei alto para chamar a atenção de Eric e em seguida acelerei.
Não demorou muito para que ele aparecesse logo atrás de mim e batesse no meu carro, chamando a atenção. Continuei acelerando o atraindo para onde pudéssemos resolver melhor a situação, mas Eric não estava a fim de colaborar. Sumiu novamente numa esquina e eu continuei dirigindo, esperando que ele aparecesse.
Numa esquina, parei para que um caminhão enorme atravessasse e assim que ele desbloqueou minha visão, pude ver ao longe Eric esperando por mim. O motor gritando alto.
Meu primeiro pensamento foi em virar e fugir, mas não ia dar esse gostinho para ele, então pisei no acelerador e fui em direção dele. Ele fez o mesmo e através do para-brisa eu pude ver seu sorriso macabro. A rua estava deserta e sem vida. Apenas nós dois fazíamos o movimento ali, indo na direção um do outro.
Passei de uma esquina, aproximando-me mais de Eric, sem tirar o pé do acelerador, quando senti minha perna tremer e notar que meu celular começara a tocar. Com um movimento rápido o tirei do bolso e olhei para a tela.
Era Lewis.
Me senti nauseado e extremamente mal. Não sabia exatamente o por quê, mas era um sensação horrível. Tentando colocar essa sensação de lado, joguei o celular no banco junto com a arma e virei minha atenção para a rua.
O carro do Eric não estava longe. Meu coração batia acelerado. Meus pensamentos finalmente se aquietaram. Um silêncio mórbido me envolveu por completo. Foi tudo em câmera lenta. O carro dele atingiu o meu em cheio. Senti uma dor lancinante subir pela minha perna e antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, vi uma luz branca.
Capítulo Treze ~ Lições da Vida
Me sentindo muito melhor após a conversa com Elisa, voltei para casa. Ainda faltavam duas horas para a festa. Decidi ficar em casa esperando.
Quando cheguei o jantar já estava preparado e as duas estavam sentadas na mesa, conversando e bebendo vinho.
- Estão comemorando alguma coisa? – indaguei, pegando-as desprevenidas.
- Não, querido – mamãe, respondeu, solvendo um pouco mais do liquido tinto da taça transparente.
- Apesar de haver agora um motivo – algo estava implícito no tom dela que apontava a taça para minha mãe.
Me sentei na mesa e esperei elas contarem. Mas mamãe pareceu pesar demais o assunto e eu meio que já estava percebendo que lágrimas surgiam nos olhos dela. Olhei imediatamente para vovó, preocupado.
- O advogado finalmente conseguiu calcular o montante da herança do seu pai – ela falou, colocando a taça na mesa.
- E é tão ruim assim? – voltei a olhar para minha mãe que agora esvaziava toda a taça.
- Muito pelo contrário, é muito, muito dinheiro – vovó respondeu, soando mais alegre do que o necessário.
O trabalho do meu pai não era o tipo que rendia milhões por mês, mas fazia muito tempo que ele estava lá. No entanto eu não deixava de imaginar de onde esse dinheiro todo saíra.
- E onde ele arrumou esse dinheiro todo? – questionei, pegando um prato e me servindo.
Minha avó fez um som de descrença e depois disse:
- Ele tinha um seguro de vida muito interessante.
Pelo o que eu sabia ela ainda estava desfrutando o beneficio da aposentadoria e do seguro de vida do meu avô.
Ficamos em silêncio por alguns minutos e depois de me servir de um pouco de vinho, falei:
- Isso é bom, não é mãe?
Ela não falou nada, apenas assentiu, colocou a taça na mesa novamente e tentou controlar as lágrimas, o que foi totalmente em vão.
- Me deem licença – ela se levantou e à passos lentos foi em direção ao seu quarto.
- Eu vou cuidar dela – vovó falou, levantando-se e a seguindo.
Fiquei na cozinha sozinho, comendo e pensando sobre a situação.
Acho que de alguma forma meu pai ainda iria cuidar da gente. Seu corpo podia não estar presente, mas seu espírito, suas memórias e todos os seus gestos que nos marcaram estariam para sempre conosco. E não morreriam tão cedo.
Terminei de tomar o vinho e subi para o meu quarto. Me sentia leve e extremamente feliz. Quando me deitei na cama, foi como se estivesse no paraíso, deitado em uma nuvem. Fechei os olhos por alguns instantes e peguei no sono.
Acordei com um barulho irritante e algo vibrando na minha perna. Era meu celular. Bocejando e esfregando os olhos, o apanhei e olhei para o visor. Três chamadas perdidas do Lewis. Olhei para o relógio e quase saltei da cama. Já eram 10hrs da noite.
Me espreguicei e corri para tomar um banho rápido e colocar uma roupa descente. Antes de sair passei no quarto da minha mãe e avisei que iria para a casa do Lewis e que talvez passasse a noite por lá. Ela assentiu e pediu para que eu tivesse cuidado e me divertisse. Agradeci e pegando as chaves do carro sai.
Tinha a absoluta certeza que não tinha apenas o pessoal da natação ali. Há duas quadras de distância eu pude ouvir o barulho da festa e quando eu estacionei na porta da casa, me segurei para não tampar os ouvidos. O som estava muito alto e podia se ouvir também pessoa gritando, correndo de um lado para o outro.
Não fazia ideia que ele sabia como dar uma festa.
Entrei na casa, pedindo licença para alguns casais que estavam se beijando ali na porta. A sala estava cheia de adolescentes, a maioria eu conhecida da escola ou de vista, mas outros eu não fazia ideia de quem eram. Passando os olhos pelo cômodo procurei por Lewis, mas ele não estava ali. Não o encontrei na cozinha também.
A maior concentração de pessoas estava no quintal ao redor da piscina, já cheia de pessoas em roupas de banho, e ao redor do DJ no gramado. Procurei novamente por ele e o encontrei no meio da multidão que estava tentando fazer o DJ diminuir o volume.
Rindo me aproximei dele.
- Adorei a festa – gritei perto do ouvido dele.
Ele se virou e sorrindo me abraçou.
Era um abraço bom, caloroso e cheio de força.
- Obrigado por me convidar e desculpa pelo atraso – falei, afastando-me e passando a mão no cabelo dele, bagunçando-o.
Foi um gesto involuntário, mas que mandou ondas de calor pelo meu corpo e deixou Lewis vermelho. O cabelo dele era tão macio.
Ele deu um sorriso envergonhado e depois de olhar para o chão rapidamente, em um sinal claro de timidez, falou:
- Quer beber alguma coisa?
Assenti e ele me guiou até a cozinha, onde encontramos Nina e Kevin.
- O que aconteceu com você naquele dia? Procuramos por você – ela falou imediatamente assim que me viu.
- As atenções era só de uma pessoa naquele dia – falei, sorrindo, batendo o braço nas costas de Lewis que pegava alguma coisa na geladeira.
- Ele odeia dividir os holofotes – Kevin comentou, sorrindo e bebendo da cerveja que segurava.
- Ei! – Lewis exclamou, contrariado. – Isso não é verdade.
- Ah claro, não foi você quem quase explodiu de raiva quando ficou empatado com aquele garoto da outra escola? – Nina instigou.
- Aquilo foi totalmente diferente – Lewis se defendeu, colocando algumas bebidas em cima da mesa e me oferecendo uma.
- Entendo – disse, aceitando e sorrindo para Nina e Kevin.
- Eles já te arrastaram para o lado negro da força?
Kevin e Nina caíram na gargalhada e eu fiquei olhando para eles.
- Venha para o lado negro, Peter. Venha – eles começaram a recitar numa voz baixa e sombria, olhando misteriosamente para mim e movendo os braços, convidando-me.
Sorrindo, bebi um gole da bebida.
- Vocês são loucos, isso sim.
- Mas os melhores! – Nina gritou, levantando a cerveja e fazendo uma espécie de brinde com Kevin e depois com Lewis, que com um olhar me incitou a fazer o mesmo.
De repente começou a tocar uma música bem conhecida e me pareceu que a casa inteira havia gritado e sacudido.
- Vamos dançar! – Nina chamou, pegando Kevin pela mão e o levando lá para fora.
- Vamos - cutuquei Lewis com o cotovelo e ele se mexeu, os seguindo.
Tinha a sensação que o DJ não havia atendido ao pedido de ninguém. O som ainda fazia o ar vibrar e você sentir a música mexer com os seus ossos.
Nina e Kevin adentraram na multidão e nós os seguimos. Ela começou a dançar e imediatamente Kevin a seguiu.
- Você sabe dançar? – me aproximei do ouvido de Lewis e perguntei.
Ele moveu a boca respondendo que apenas um pouco e como que para demonstrar, bebeu um pouco da bebida e começou a dançar. Fiquei observando e sorrindo da demonstração. Comparado à mim, ele dançava muito bem.
Sem querer ficar parado, comecei a me mexer no ritmo da musica, ouvindo as últimas batidas ecoando por toda a casa. Em seguida tocou outra ainda mais dançante e nos soltamos um pouco mais.
Enquanto dançávamos, bebíamos pequenos goles da bebida e riamos toda vez que algum de nós fazia algum passo estranho. Quando a música terminou uma batida mais lenta começou a tocar.
- Quem coloca uma musica dessas numa festa? – indaguei; era uma música romântica, não era a melhor escolha para aquela situação.
Comecei a notar que os casais à nossa volta já se agarravam e dançavam, ou não, aproveitavam o momento para uma demonstração de carinho mais selvagem. Até Nina havia agarrado Kevin e dançavam juntos ao nosso lado. Era um momento desconcertante.
Olhando pela primeira vez para Lewis desde que a música havia começado, percebi que ele estava com a mão estendida na minha direção, esperando uma resposta. Olhei para a mão dele e senti minhas pernas quererem retroceder e se afastar, mas o resto do meu corpo dizia para avançar e aceitar.
Peguei na mão dele e gentilmente ele me puxou para mais perto e nossos corpos se conectaram. Parecia a coisa mais fácil do mundo, dançar com ele, segurar em sua mão, e seguir o seu ritmo. Meu coração estava acelerado e eu o consegui ouvir alto, mas talvez fosse o dele tão perto de mim. Não sabia dizer ao certo.
Quando a musica finalmente terminou eu estava quase adormecendo nos braços dele, mas a batida forte e repentina da nova musica me fez sair do transe e olhar para ele. Não dissemos nada, apenas ficamos parados nos olhando por alguns instantes. Meu estômago estava um caos, minha mente outro maior ainda, mas meu corpo chamava pelo dele, pela presença forte e segura que ele emanava, e sem aviso prévio as lembranças da piscina me atingiram e eu não pude mais resistir.
Me inclinei para frente e colocando a mão no rosto dele o beijei.
Os lábios dele estavam em chamas e incendiaram os meus. Ele respondeu ao gesto com a mesma intensidade e colocou a mão na minha nunca me puxando para mais perto dele, assim como eu, desejando por mais.
Mas não durou muito, algo nos separou.
Eu olhei para ele e vi surpresa em seu semblante, talvez até mesmo medo ou culpa, o que foi tudo acentuado assim que ele deu um passo atrás e saiu correndo. Fiquei parado sem entender o que havia acontecido. Não era aquilo que ele vinha demonstrando há muito tempo? Eu tinha entendido tudo errado? Ou...?
Imediatamente fui atrás dele. Entrei na cozinha e rapidamente procurei por ele. Nada. Na sala encontrei uma garota da nossa escola e perguntei se ela havia visto ele e sem saber ao certo disse tê-lo visto subir as escadas. Era claro, ele tinha ido para o quarto, para onde mais ele iria?
Sem pensar duas vezes subi as escadas e parando na porta do quarto, entreaberta, bati. Não houve resposta, mas eu entrei. Ele estava parado, em pé, perto da janela.
- O que aconteceu? – perguntei, minha voz soava triste e confusa.
- Você me pegou desprevenido – Lewis se virou com um sorriso nos lábios e os braços cruzados. – Foi a primeira vez.
Balancei a cabeça, sem acreditar, sorrindo.
- Pensei que você não gostasse de mim – soltei, sem pensar, ficando mudo e imóvel ao olhar para ele.
Lewis sorriu mais abertamente e veio na minha direção.
- Eu gosto. Eu sempre gostei de você, Peter.
Suspirei aliviado. Era tão reconfortante finalmente ouvir aquelas palavras vindo dele. Meu corpo inteiro relaxou e poderia desabar no chão, se não fosse pelo braço que Lewis colocou ao redor do meu corpo, puxando-me para mais perto de si. Não sabia a noção das forças dele, mas segurava meu corpo como se não pesasse mais que um boneco de pano.
Olhando-me nos olhos, sorriu e investiu contra mim, colando os lábios nos meus. O beijo foi melhor desta vez. Estava mais aberto para ele e sentia que meu corpo respondia corretamente ao dele. As mãos fortes dele me prendiam ali e passeavam pelas minhas costas lançando ondas de calor por todo o resto do meu corpo. Passei a mão pelo cabelo dele e puxei, respondendo às caricias fortes dele. Estava em êxtase e sentia que cairíamos na cama mais cedo ou mais tarde, mas ao ficarmos sem fôlego, o beijo foi cortado.
- Você quer voltar para a festa? – Lewis me perguntou, encostando a testa na minha e fechando os olhos.
- Não – respondi, puxando ar para os meus pulmões. – Seria melhor ficar por aqui com você a noite toda.
Vi os olhos dele se abrindo e percebi o quanto minhas palavras tinham lhe agradado. Eles brilhavam, radiavam, de alegria.
E eu soube que estava no lugar certo.
Capítulo Doze ~ Lições da Vida
Ainda estava todo molhado quando toda a atenção saiu de mim e passou para quem realmente merecia.
Lewis havia ganhado mais uma medalha e um prêmio para a escola. Uma grande multidão dos torcedores das arquibancadas o rodeou e ficaram tentando falar com ele, parabenizando-o, tanto pela vitória como por ter me salvado. Essa parte eu ainda tentava entender.
Minha mente parecia um pouco congelada, pelo frio da água que havia quase me matado, mas meus pensamentos lentamente estavam se reagrupando e voltando à sua forma original. Não tinha mais como negar, tinha alguma coisa diferente comigo.
Tentei me lembrar como eu havia caído e o que aconteceu depois disso, mas o blackout meio que não ajudava. Eu só tinha o fato de que ele havia me tirado da piscina e feito os procedimentos médicos necessários.
Ele tinha salvado minha vida outra fez.
Tentei enxergá-lo por entre a multidão, mas foi quase em vão. Conseguia apenas vislumbrar o corpo dele entre aqueles que estavam ao seu redor. Inconscientemente, levei a mão aos lábios e os toquei.
Poderia não ter sido da melhor forma possível, mas tinha sido algo. Ao tocar meus lábios eu ainda podia sentir os dele, quentes e cheio de vida, soprando ar para dentro dos meus pulmões parados. Ele havia literalmente soprado vida para dentro de mim. Era um pensamento estúpido, mas me fez sorrir.
Receoso por está pensando nisso, decidi ir embora. Estava tremendo, ensopado, naquelas roupas. Precisava me trocar e urgentemente. Então, sai e ninguém notou. Com a mochila nas costas, fui para o carro e mesmo molhando tudo, me sentei e liguei o motor, partindo em seguida.
Inventei uma mentira para minha mãe assim que ela me viu naquele estado e subi rapidamente para tomar um banho quente.
A água quente me livrou da sensação de frio congelada instantaneamente, relaxando todo o meu corpo. O vapor estava denso dentro do banheiro e a temperatura muito alta, mas eu não me importava. Nada realmente importava. Minha cabeça girava e quanto mais eu tentava não pensar no que tinha acontecido mais a lembrança da pressão dos lábios dele sobre os meus voltava para me atormentar e me fazer tremer. Era angustiante; não sabia exatamente o que sentir.
Não seria estranho eu gostar dele? Ou gostar de um garoto nesses termos? A resposta era outra coisa das quais eu não me importava, pois ao simples pensamento de que eu não poderia ou não deveria vê-lo de novo, fazia meu peito doer e minha garganta fechar.
O dilema se instalou dentro de mim como um parasita pronto para sugar todas as minhas forças.
Sentindo-me repentinamente cansado, desliguei o chuveiro, peguei a toalha e me enxugando sai do quarto. Percebi que meu celular tocava em algum lugar. Vasculhei minhas roupas e o encontrei no bolso da calça.
- Alô? – nem havia olhado a tela.
- Por que você sumiu? – a voz dele envolveu minha cabeça de névoa e me deixou zonzo por alguns instantes.
Fiquei em silêncio, tentando pensar em algo.
- Era o seu momento, não queria estragar sendo a vítima – tentei soar irônico.
- Você está bem?
Parecia que ele sempre vivia preocupado comigo. Ou era impressão minha?
- Depois de uma experiência de quase morte, como não poderia está? – respondi, enquanto enxugava o cabelo. – E você? Feliz pela vitória?
- Não muito, meu melhor amigo não ficou para comemorar.
- Desculpa.
O silêncio pairou entre nós. Fiquei esperando ele dizer algo.
- Você pode me recompensar indo na festa – Lewis falou, por fim.
- Que festa?
- A equipe de natação vai dar uma festa de comemoração na minha casa.
- Seu pai sabe disso? – indaguei, incrédulo.
- A ideia foi dele.
- Estarei aí – disse.
- Ás nove, ok?
Murmurei um ok e depois desliguei.
Terminei de me enxugar e me sentia exausto, precisava descansar. Me deitei na cama, mas ao ouvir o barulho da sirene do carro de polícia, dei um salto e corri para a janela. Lá estava a viatura prometida pelo polical Garcia. Lentamente ela passava em frente a minha casa e por toda a rua. Ainda não conseguia entender o porquê disso, mas não estava em condições de reclamar.
Voltei para cama e adormeci.
Jason estava sentado em um canto da sala, chorando. Ninguém conseguia o fazer parar de chorar. E algumas das outras crianças ainda o atiçavam, piorando a situação. Até Elisa havia tentando conversar com ele e descobrir o motivo do choro, mas nada adiantou.
Então eu apareci e me aproximei dele, que veio sem relutar correndo para mim e abrindo os braços pulou no meu colo. Afaguei as costas dele e o esperei contar o que estava acontecendo.
- Meu pai morreu – a voz era gutural e gélida.
Eu acordei trêmulo e ofegante.
Eu já sabia que Jason não tinha pai, mas não por que ele tinha morrido, mas por que ele havia abandonado sua mãe. Aquele sonho tinha realmente me assustado. Sentando-me na cama, procurei meu celular e antes de ligar, olhei para o relógio. Já eram cinco horas.
- Oi. Elisa? Tudo bem? Eu posso visitar as crianças hoje? Não, eu não demoro a chegar. Ok. Até.
Desliguei o celular e corri para tomar outro banho, minha pele estava grudenta. O quarto estava abafado por causa das janelas fechadas. Tomei um banho rápido e me vesti mais rápido ainda. Avisei à minha mãe, que resmungou que eu não tinha almoçado e não tinha comido nada desde o café da manhã, e para deixar ela menos preocupada, peguei um sanduiche que ela tinha feito e sai comendo no caminho.
A escola fundamental não ficava muito longe da minha própria escola, por isso não demorou para que eu chegasse e ainda pegasse os meus alunos antes deles irem embora.
Estavam todos no jardim da frente sendo supervisionados por duas professoras, Elisa e Danielle, que esperavam os pais irem buscá-las. Assim que me virem, elas correram para mim.
- Oi. Oi. Oi – tentava cumprimentar todos que chamavam pelo meu nome, sorria e apertava a mãozinha pequena deles. – Eu tive que ficar fora por algum tempo, vocês entendem, não é?
Eles ecoaram um triste sim e antes que me deixassem me abraçaram uma última vez e voltaram para suas brincadeiras, deixando apenas Jason.
- Ei, garotão, como você está? – perguntei, abaixando-me na grama e bagunçando o cabelo dele.
- Bem, tio Peter – ele respondeu, sorrindo, meio acanhado. – E o senhor?
- Só com muitas saudades de vocês – respondi, sorrindo e abrindo os braços para ele, que respondeu imediatamente, com um abraço forte e carinhoso. – Tem se comportado?
- Tia Elisa! Tia Elisa! Diz para o tio Peter como eu tenho me comportado – ele saiu correndo até ela e a trouxe pela mão para perto de mim.
Ela sorria.
- Muito bem, ele tem se comportado muito bem – ela falou, olhando para mim.
- E o inglês como anda?
Antes que ele pudesse responder outro carro estacionou e Jason imediatamente saiu correndo para pegar a bolsa dentro da sala e voltar para a mãe.
- Peter! – ela me cumprimentou ao me ver.
- Oi, Karen. Tudo bem?
- Na medida do possível – ela respondeu ao me abraçar. – Eu soube o que aconteceu com sua família, eu sinto muito.
Assenti em silêncio.
- Eu também sinto muito, tio Peter – Jason falou, segurando minha mão.
- Obrigado, Jason – afaguei a cabeça dele novamente.
- Vamos, querido? – Karen pegou Jason e o levou para o carro. – Foi bom ver você, Peter.
- Igualmente – acenei para eles, assim que partiram.
- É realmente bom ver você por aqui – Elisa falou ao meu lado.
Eu virei e a abracei.
Eu tinha sentindo tanta falta dela e só agora, abraçando-a, eu me dava conta do quanto. Por muito tempo ela tinha sido a pessoa que eu mais tinha confiado, além da Cindy e do Aaron. Tudo o que eles sabiam ela também sabia e ainda um pouco mais. E naquele momento com aquele abraço, senti a necessidade de conversar com ela. Necessitava conversar com alguém.
- Você tem tempo para conversar? – perguntei, soando sério demais.
Vi o rosto dela ser tomado pelas feições de preocupações conhecidas por minha mãe.
- Claro, claro – ela se virou e foi até Danielle. – Você dar conta deles por alguns minutinhos?
Ela sorriu e assentiu indo ficar mais perto das crianças, enquanto Elisa me conduzia para dentro da escola. A sala dela ficava quase nos fundos.
Andar por ali quando já estava vazio sempre dava a impressão de solidão e tristeza, e o pôr do sol que escurecia tudo à nossa volta, piorava as coisas.
Elisa abriu a porta e me deixou entrar, me sentei na cadeira em frente à mesa dela e a esperei sentar.
- Quer um pouco de café? – ela ofereceu.
- Não, obrigado.
Ela pegou um pouco para si e depois sentou, pousando os olhos em mim.
- Impressão minha ou você não está bem? – Elisa tomou um gole do café.
Dei de ombros e permaneci calado, nervoso e sem jeito.
- Me desculpe, querido, depois do que você passou, não era de se esperar que você estivesse bem. – ela disse, pousando a caneca e aproximando a cadeira da mesa. – Mas há outras coisas incomodando você, não?
Assenti, olhando para as minhas mãos no colo; estavam suadas e um leve tremor as percorria.
- Foi por causa do término do namoro?
Eu ergui os olhos, surpreso.
- Como...?
- Mercie – a resposta brotou em uníssono.
Elisa sorriu.
Mercie era a irmã mais nova dela que estava na minha escola, apenas um ano de diferença, mas mesmo assim ela ainda estava lá ouvindo tudo o que era dito e feito pelos corredores daquele lugar.
- Também – falei, incerto.
- O que você quer dizer?
Ela sempre me instigava a me abrir para que ela pudesse usar toda a sua sabedoria para me aconselhar, mas diferente das outras vezes, eu não me sentia confortável com aquilo.
- Acho que estou gostando de outra pessoa – fechei os olhos e senti todo o meu corpo se tencionar ao expelir tal confissão.
- Isso é ótimo! – Elisa quase pulou da cadeira. – Quem é a garota?
Eu quase podia sentir que ela imaginava que era uma daquelas situações pela qual ela já havia passado na vida onde tinha descoberto gostar de alguém logo após terminar um compromisso. Mas não era bem assim. Não mesmo.
Me forcei a abrir os olhos e ver a reação dela assim que eu falasse. Ela era a pessoa que eu mais estimava depois da minha família. A opinião dela, eu querendo ou não, era potencialmente importante.
- Pode não ser uma garota.
Não houve reação. Ela continuou me encarando, me instigando a contar mais detalhes e quando ela levantou uma das sobrancelhas, eu soube que precisava falar mais.
- Eu não sei direito, Elisa! – exclamei, levantando-me em um rompante. – Talvez eu goste dele, talvez não. É confuso.
- Confuso por quê?
Eu parei e a encarei.
- Pelo fato dele ser um garoto? – ela indagou.
Talvez?, pensei. Bufei, confuso, e joguei as mãos para cima, desistindo daquilo.
Elisa sorriu e eu me irritei de vez.
- Não ria!
- Mas é engraçado, Peter. Se o fato dele ser um garoto não impede nada, então qual é a sua reação preocupação?
Parecia que um sino havia soado na sala. Estava óbvio o tempo todo. Não era o fato dele ser um garoto, era o simples fato de eu realmente gostar dele, dessa maneira. Como eu gostava da Cindy. Não. Não era igual.
- Ele salvou minha vida... – falei, exprimindo um dos pensamentos que agora voavam na minha cabeça. – Mais de uma vez.
Senti meu rosto iluminar com um sorriso que cresceu faceiro.
- Isso é tão poético – Elisa comentou, capturando minha atenção.
- Você está adorando isso tudo, não é?
- Um bom romance? Quem não gosta? – ela sorriu e piscou para mim.
Sorri para ela e me aproximei da mesa.
- Obrigado, por tudo, mesmo.
- Não precisa agradecer querido, quando precisar eu estou aqui – ela se levantou e me abraçou. – Só venha me visitar e quando estiver pronto, volte para nós. Sentimos sua falta.
- Tenho certeza que não vai demorar – eu podia sentir isso. – Obrigado outra vez.
Elisa balançou a cabeça e com um sorriso me deu um beijo na bochecha.
- Boa sorte, Peter.
Capítulo Onze ~ Lições da Vida
Acordei naquela manhã com o barulho de uma porta sendo aberta.
- Oi. Bom dia, Peter – Colton estava indo para o trabalho. – Desculpa se o acordei. Até mais.
Ele não esperou eu responder nenhuma das perguntas, apenas acenou, sorriu e saiu. Levantei e me espreguicei, tinha dormido muito bem.
A casa estava silenciosa e dava a sensação de estar fazia, mesmo comigo e o Lewis ali. Espreguicei-me mais uma vez e fui para a cozinha, onde achei a cafeteira e preparei um pouco de café. Ele tinha dito para eu ficar à vontade e eu tinha em mente retribuir o que ele tinha feito por mim.
Experimentei o café e peguei outra xícara que enchi e me encaminhei para as escadas, subindo-as lentamente para não derramar o liquido. A porta dele estava entreaberta e como eu estava com as mãos ocupadas, imitei as batidas da porta e entrei.
Ele já estava acordado.
- Você sempre acorda cedo assim? – Lewis estava sentado no chão, de shorts, camisa regata e estava suando. – O que aconteceu com você?
Ele sorriu, se levantou e pegou uma das xícaras da minha mão.
- Obrigado – tomou um gole e olhou para mim, acrescentando: - Estava me exercitando a competição é hoje.
Olhei imediatamente para as medalhas que estavam penduradas na parede acima da escrivaninha. Todas da natação, todas de primeiro lugar.
- Pelo visto você é muito bom – comentei, levantando-me e indo olhar mais de perto as medalhas.
- Depois da terapia, foi uma das coisas que me ajudou a superar o que tinha acontecido – ele comentou, bebendo outro gole do café.
Eu me virei ao ouvir aquilo.
- Você fez terapia?
Me olhando, curioso, ele assentiu.
- O que foi?
- Nunca tinha pensado nisso – respondi, pesando aquela alternativa; talvez também me ajudasse.
- Acho que você não precisa – Lewis abaixou a xícara e a colocou na cama. – Você tem a mim.
Fiquei parado em silêncio, absorvendo o peso daquelas palavras e o seu significado. Eu não sabia o que dizer, não sabia como interpretar o que ele dizia. E como se lesse meus pensamentos ele disse:
- Eu não tinha ninguém além do meu pai e parentes, e não era o tipo de pessoa com a qual eu conversaria sobre como me sentia na época.
Me senti mal por não ter estado lá por ele, mesmo não podendo evitar, já que eles tinha se mudado. No entanto, me sentia feliz por estar ali agora, para qualquer coisa que acontecesse com ele e o que tornava tudo melhor, ele também estaria aqui agora para mim.
Levantei a xícara, em um cumprimento, e assenti com a cabeça, concordando com o que ele havia dito. Lewis fez o mesmo e tomou outro gole.
- Você me dar carona para a aula? – ele perguntou, erguendo-se e colocando a xícara já vazia na escrivaninha.
- Claro – respondi, esvaziando a minha.
- Vou tomar banho rapidinho – então ele saiu do quarto tirando a camisa e desaparecendo no corredor.
Ouvi uma porta batendo e depois o chuveiro sendo ligado. O som de água caindo me fez perceber o quão necessitado de um banho eu também estava. Cheirei minhas roupas e não gostei muito do que senti. Precisava ir para casa logo.
Coloquei minha xícara ao lado da dele e me sentei na cama esperando. E sem aviso a noite anterior voltou à minha cabeça. O soco. Eric e suas provocações. Lewis me salvando. Tudo. A sensação era de que tinha acontecido há muito tempo atrás e não ontem à noite.
Com o rosto de Eric girando na minha cabeça procurei meu celular e disquei 190.
- Alô. O policial Garcia, por favor. Sim, Peter Shaw. – esperei por alguns instantes até ouvir a voz forte e poderosa dele. – Exatamente. Ele apareceu e me atacou ontem perto da San Diego. Não, eu estou bem. É preciso mesmo? Ok. Qualquer coisa eu ligo novamente. Obrigado. Tchau.
Da última vez que tinha sido ele que me ajudara com todo o processo para colocar Eric Mason na cadeira. Ele era um amigo da família do Aaron e tinha me dito para ligar à qualquer nova ameaça dele, e com ele fora da cadeira, ligar para ele era o mais sensato.
Apenas uma coisa eu não entendia. Garcia dissera que mandaria uma patrulha para ficar de olho nos arredores da minha casa. Eu não achava provável que Eric aparecesse por lá, ele não queria chamar muita atenção para si, mas o policial dissera que era uma medida de prevenção. Eu não diria não àquilo, com certeza.
Não havia notado que o chuveiro não fazia mais barulho e quando eu me dei conta, Lewis apareceu na porta do quarto enrolado na toalha. Foi um reflexo tão rápido que eu quase caí da cama. Me virei, segurando para não cobrir os olhos. Aquele era o momento mais inapropriado para eu estar no quarto dele.
- Eu vou esperar você lá em baixo – falei, saindo olhando fixamente para o chão.
Não sabia dizer mais ele parecia conter o sorriso quando eu sai e a porta se fechou atrás de mim.
Desci as escadas correndo e me joguei no sofá, atordoado. Por que ele sempre fazia isso? Me pegava desprevenido com as coisas mais desconcertantes possíveis? Passei a mão pela nunca, desconfortável e ao mesmo tempo achando aquilo divertido. Eu estava sendo meio idiota com isso. Não era nada de mais vê-lo sem camisa... Não, a questão era que ele estava praticamente nu. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Levantei imediatamente, livrando-me desse pensamento. Comecei a andar de um lado para o outro na sala, nervoso, esperando por ele.
- Você está bem? – ele perguntou assim que me viu naquela situação.
Olhei surpreso para ela.
- Sim... Estou... Podemos ir?
Lewis ajeitou a mochila no ombro e eu me virei indo para a porta.
Eu não lembrava onde tinha colocado as chaves, mas assim que nos aproximamos do carro ele as me entregou. Agradeci e entrei no carro, sem pensar muito, e acelerei para casa.
Ainda era cedo, mas eu tinha certeza que minha mãe e minha avó já estariam acordadas, talvez me esperando.
Parei o carro e desci com ele me seguindo logo atrás.
- Cheguei! – falei abrindo a porta de casa.
Minha mãe apareceu no hall de entrada e veio me abraçar.
- Você está se sentindo bem? – ela começou a me apalpar e me olhar com aquela feição de preocupação típica dela.
- Estou mãe – respondi, tentando afastar ela de mim. – E estou atrasado para a escola também – menti, mas isso a fez se afastar um pouco.
- Obrigado por cuidar dele, querido – ela se dirigiu ao Lewis.
- Não foi nada – ele deu um sorriso gentil.
Ela o abraçou.
- Venham estamos preparando panquecas – disse, puxando Lewis pelo braço.
Eu os acompanhei até a cozinha.
- Vou tomar banho logo e já desço – comentei, mas antes de sair cutuquei Lewis e sem fazer som algum perguntei: - O que você disse para ela?
- Nada de mais – ele me imitou, dando de ombros.
O encarei por um momento, depois me virei e fui para as escadas. Ele ia me contar isso depois.
Entrei no quarto tirando a roupa e correndo para o chuveiro. A água gelada foi uma alivio para o meu corpo, que parecia quente e rígido. Relaxei debaixo do jato de água e esfriei a cabeça, deixando minhas preocupações escorrer ralo à baixo. Sai do banho, me enxuguei e me vesti. Como minha mochila ainda estava dentro do carro, apenas peguei um dos livros que ia precisar para a aula e desci as escadas.
A risada da minha mãe ecoava na cozinha.
- Seu amigo é muito engraçado, Peter – minha avó disse, sentando ao lado da minha mãe na mesa.
- Mesmo? – lancei o olhar para Lewis que estava sentado na mesa.
- Mesmo, você que não deve se lembrar – Lewis rebateu, havia ironia e diversão em seu tom.
Balançando a cabeça, peguei uma panqueca com as mãos, a enrolei e mordi.
- Melhor a gente ir – disse, já me encaminhando para fora da cozinha.
- Você precisa comer melhor – Lewis rapidamente me cortou.
Olhei para ele e lá estava explicito o motivo de eu ter passado mal, por eu não ter reagido bem ao que acontecera.
- Está bem – falei, entre dentes.
- Uau! – ecoou minha mãe. – Você ainda o faz comer? Por favor Lewis, apareça sempre que puder.
E eles caíram na gargalhada. Encarei Lewis e ele deu de ombros ainda rindo. Balancei a cabeça e voltei a comer.
- Elisa telefonou hoje cedo falando que o Jason vive perguntando para você – minha mãe disse, quando ficamos sem assunto.
Jason era um dos meus alunos favoritos, o que mais gostava das minhas aulas. Não era só ele que estava com saudades. Precisava visitar a escola em algum momento.
Quando nos demos por satisfeitos, nos levantamos e saímos. Ainda faltavam 15 minutos para a aula.
Chegamos no estacionamento e o movimento já estava grande. Andamos rapidamente e entramos no prédio escolar.
Antes que eu pudesse me aproximar o suficiente do meu armário, Lewis pegou no meu braço, o que me fez virar imediatamente, alerta.
- Minha sala é aqui – ele disse, soltando meu braço lentamente e apontando uma sala aberta quase ao nosso lado. – Você vai assistir a competição?
- Claro. Que horas?
- Depois do intervalo, na piscina, metade da escola deve aparecer.
- Vejo você lá, campeão – respondi, sorrindo.
- Obrigado – ele ajeitou a mochila e foi para a sala.
Me virei e fui até o meu armário, abri, peguei algumas coisas e depois fui para a minha sala. Já estavam todos lá, exceto por mim e pelo professor. Me sentei no lugar vazia nos fundos e esperei o professor aparecer.
Não demorou a isso acontecer e os olhares de Cindy para Melanie também. Bufei, imaginando o drama que elas duas estariam fazendo pelo término do namoro.
A aula começou e eu tratei de prestar atenção.
No segundo tempo me passaram um pedaço de papel dobrado. Assim que o abri, reconheci a letra caprichada de Cindy: Sinto muito pelo o que o Eric te fez. Como ela sabia disso? Pensei em perguntar, mas não queria prolongar a conversa, apenas escrevi um rápido “obrigado” e devolvi o papel. Percebi que ela passou algum tempo lendo apenas aquela simples palavra.
Faltando apenas cinco minutos para o intervalo, eu já estava ficando impaciente com aquelas duas se olhando e mal podia esperar para sair dali e ir ver a competição do Lewis, assim eu poderia ficar os próximos horários sem precisar aturar elas.
Assim que o sinal tocou eu dei um salto e fui direto para o professor antes que ele sumisse e eu não tivesse chance de avisar que iria ver a competição e levasse falta nas próximas aulas. Ele me deu um papel, assinou e disse para eu mostrar para o outro professor.
Agradeci e sai correndo. Já havia faltado muito e mesmo tendo uma boa desculpa para metade delas, não queria me comprometer pelas outras que não tinha.
Sai para o pátio e fui na direção da área de esportes, onde ficavam o campo de futebol e o espaço para a natação. Era um galpão amplo com um teto arqueado que vazia eco das vozes de todos lá dentro. O brilho azul da piscina reluzia no teto e podia ser visto de fora.
Adentrei e vi muita gente por ali. Os competidores, a maioria, já estavam nas suas raias, se aquecendo, conversando com os seus técnicos, as arquibancadas estavam cheias aqui e ali com os grupos de pessoas torcendo pelo seu campeão. Procurei pelo grupo da nossa escola e me sentei próximo.
- Você é o Peter? – uma garota me abordou.
Assenti.
- Prazer, Nina, amiga do Lewis, ele disse que você viria – ela estendeu a mão e sorriu para mim. Apertei a mão dela e ela me apresentou ao garoto ao lado: - E esse é o Kevin, outro amigo.
Kevin parecia um pouco com Aaron, se não fosse por sua baixa estatura e seus olhos cinza. Apertei a mão dele e sorri.
- Onde está o Lewis? – perguntei, ainda não o tinha visto.
- Acho que no vestiário – ela falou, dando uma rápida olhada ao redor, depois perto das raias e por último na direção do vestiário, não muito longe de onde estávamos. – Ali, está ele.
Eu fiquei imóvel com os olhos fixos nele. Eu não tinha visto nada quando ele havia entrado no quarto pela manhã, mas agora lá estava ele exposto. Sem perceber o examinei da cabeça aos pés. Nunca que eu ia imaginar que ele tivesse o corpo que tinha. Um pouco mais alto que eu, Lewis tinha as pernas fortes e sem pelos, sua barriga era definida assim como seu peitoral e os músculos de seus braços eram proporcionais ao resto do corpo, ele usava uma sunga azul.
Quando ele me viu e acenou, soltei a respiração que não sabia estar prendendo e senti meu corpo esfriar por completo. Minha mente girava em duas direções oposta, uma que afirmava o que estava sentindo naquele momento e a outra que negava ferozmente que era tudo coisa da minha cabeça. Estava ficando zonzo.
Fechei os olhos e respirei fundo, me acalmando, mas o apito que marcava o inicio da competição tirou meu foco e me fez abrir os olhos rapidamente.
Eles já estavam dentro da piscina, nadando, batendo os braços violentamente e indo de um lado para o outro, enquanto cronometravam e esperavam eles completar o número de voltas necessárias. Eu não estava prestando muita atenção e nem me sentia apto para isso.
Ouvi outro apito e algum grupo na arquibancada começou a fazer barulho, comemorando eu imaginava. Me levantei, imaginando que já poderia ir embora. Eu não dei muitos passos para longe da arquibancada quando ouvi alguém chamar meu nome.
Era o Lewis não muito longe.
Dei um passo para trás e senti o chão sumir debaixo dos meus pés e a gravidade me puxar para baixo. Em segundos fui envolvido pelo frio da água da piscina, enchendo meus pulmões. Ao bater no fundo, tudo ficou escuro.
- RESPIRA! RESPIRA! – alguém gritava e pressionava algo contra os meus lábios.
De repente senti a água subindo minha garganta e virando de lado vomitei toda a quantidade que tinha engolido. Alguém me virou novamente, encostando-me novamente no chão frio.
- Você está bem? – o rosto de Lewis estava próximo do meu e eu podia ver cada detalhe de seu rosto.
- Estou – respondi, respirando sofregamente e percebendo um gosto de hortelã estranho na boca.
Ele se levantou e me ajudou a levantar também.
E eu não pude deixar de pensar que aquele foi o nosso primeiro beijo.
Lições da Vida: Lewis & Peter
Ambos os personagens têm seu próprio conjunto de características na minha mente, mas se eu tivesse que escolher duas pessoas que os representassem na vida real, elas seriam Freddie Smith e o Chandler Massey, respectivamente.
Lewis Anderson (Freddie):
Peter Shaw (Chandler):
Os dois interpretam um casal gay na série Days of Our Lives e não seria diferente com Lições da Vida. Além do mais os dois demonstram bastante a relação do Lewis e do Peter. Nas imagens dar para notar como o Lewis é mais descontraído e aberto sobre tudo, enquanto o Peter (Chandler) não. Por isso eu acho que eles seriam perfeitos para exemplificar como eu imagino os meus personagens, apesar de nunca ter imaginado o Peter loiro.
Capítulo Dez ~ Lições da Vida
Eu caí do cavalo às margens de um lago de águas claras e rasas. Ela estava fria, o que ajudou no ferimento que as pedras do fundo do lago provocaram quando caí. Tentei me levantar, mas vi uma mão se estender para mim assim que levantei a cabeça.
Lewis estava vestido como um cavaleiro da távola redonda. Sua armadura de aço reluzia a luz do sol e o enchia de luz, fazendo-o parecer quase angelical. Sorri e agarrei a mão que ele oferecia.
E ao me levantar tudo ficou escuro à nossa volta e algo me puxou para trás...
Acordei, sentando-me ereto instantaneamente, suando frio e ouvindo o ressoar de um sino nos meus ouvindo. À medida que ele ressoava eu sentia a dor de cabeça se afastando e trazendo à minha memória o que tinha acontecido.
Enxuguei a testa e olhei ao meu redor. O quarto dele estava numa penumbra abafada. Era do tamanho do meu, mas com um carpete cinza no chão e as paredes pintadas de vermelho sangue. Observei por um tempo a estante cheia de livros dele perto da janela e depois pousei os olhos sobre o porta-retratos bem ali do meu lado. A mãe dele era realmente bonita; ele não tinha só herdado a força dela, eu percebia agora.
Com uma batida na porta, fiquei ereto e alerta.
- Posso entrar? – a voz dele me desarmou.
- Pode – falei.
Lewis entrou segurando uma bandeja de café-da-manhã. Eu levantei imediatamente para dizer que não precisava daquilo tudo, mas com um movimento rápido de mão ele me empurrou de volta para a cama e colocou a bandeja do meu lado.
- Minha mãe sempre fazia isso quando eu estava doente – comentou, dando um sorriso de lado.
- Não estou doente...
Ele me deu um olhar reprovador que me fez calar. Era uma situação até engraçada.
- Você se sente melhor? – ele perguntou, se levantando e indo abrir as janelas.
A luz forte do sol iluminou o quarto por inteiro e quase me cegou.
- A dor de cabeça sumiu, mas ainda sinto um pouco de dor no maxilar – falei mexendo a boca devagar e massageando as laterais do maxilar, testando. – Mas acho que posso comer.
Ele assentiu e se encaminhou para a porta.
- Já volto.
Fiquei sozinho no quarto novamente. Peguei o copo de suco e bebi um pouco, não ia arriscar morder algo por enquanto. Imediatamente o fato de eu não ter dormido em casa me atingiu e quase derrubo o copo me apressando para pegar meu celular.
Estranho. Não havia nenhuma chamada, nenhuma mensagem da minha mãe. Nada. Massageei a testa, sentindo uma leve náusea e fechei os olhos por alguns instantes.
- Depois que você apagou, eu liguei para a sua mãe – a voz dele me fez abrir os olhos.
- Eu odeio isso – disse, quase gritando.
- O quê?
- Você se esgueirando, me assustando – massageei mais forte minha testa, me sentindo tonto.
- Acho melhor você se deitar – ele falou, se aproximando e pegando a bandeja. – Desculpa.
- Não – eu peguei no braço dele, parando-o.
A pele dele estava em chamas. Ou seria a minha? Ou era por que eu tinha tocado nele? Não sabia dizer ao certo, mas sentia o calor subir pelo meu braço e atingir meu pescoço, colorindo de vermelho minha pele clara.
Ele me olhou por um instante e depois ao largar a bandeja, tirou minha mão do braço dele e tocou minha testa.
- Você está com febre – falou, soando preocupado.
Estava explicado.
- Já volto – ele disse, sumindo novamente.
Sentia meu corpo inteiro gritar por um pouco mais de descanso e vagarosamente uma leve pontada martelava na minha cabeça. Não estava me sentindo bem. Em algum momento desmaiei.
A escuridão se tornou uma companheira fiel. Não conseguia ou não queria abrir os olhos, não sabia direito, apenas ouvia as vozes ao meu redor. A de Lewis, clara, forte e preocupada e a de outra pessoa, que eu não conhecia. Senti algo gelado tocar meu peito e mais vozes, depois um subir e descer de escadas rápido, então me forçaram a tomar alguma coisa e me cobriam com um lençol.
Quando finalmente me senti capaz de abrir os olhos novamente, não enxerguei muita coisa. Apenas uma luz fraca clareava o quarto que havia sido deixado na total escuridão. A luz vinha do corredor.
Sentei na cama, sentindo-me melhor. Passei a mão pelo queixo e massageando meu maxilar um pouco antes de abrir a boca e notar que não estava mais sentindo dor alguma. Nem a dor de cabeça me incomodava mais.
Fiquei um tempo sentando ali na escuridão, pensando no que tinha acontecido. Ainda estava na casa do Lewis, dava para perceber, mas não sabia que dia, nem que horas eram. Procurei por um relógio no criado mudo ao lado do retrato, mas não havia nenhum, no entanto achei meu celular. Eram duas da manhã de quinta-feira. Estava ali há um dia.
Percebi que também não havia nenhuma chamada da minha mãe. Lewis com certeza tinha cuidado disso. Sorri ao pensar nisso.
Minha barriga roncou e me dei conta da fome que sentia. Levantei da cama e silenciosamente andei quarto a fora, desci as escadas e assim que cheguei ao patamar vi que um abajur estava ligado na sala ao lado do sofá. Alguém estava ali.
Me aproximei e vi que Lewis estava dormindo. Suas feições eram serenas e gentis, parecia que ele estava sonhando algo bom. Minha intenção não era acordá-lo, além do mais podia achar a cozinha sozinho.
Mas ao me virar para me afastar, bati o pé na poltrona que não havia percebido está bem ali. Soltei um gemido de dor alto o suficiente para acordar ele.
- Peter? – ele levantou, esfregando os olhos e olhando para mim.
- Oi – disse, segurando meu pé machucado.
- Que diabos você está fazendo? – ele perguntou, rindo.
- Eu... Eu... Tava indo para a cozinha – gaguejei, soltando o pé me endireitando. – Não quis te acordar.
Ele assentiu silenciosamente.
- Você está melhor?
Foi minha vez de assentir.
- Meu pai deixou comida para você – ele comentou.
- Ele já voltou?
- Ontem à tarde – Lewis se levantou e se espreguiçou. – Vem.
Ele me levantou até a cozinha.
- O que aconteceu? – perguntei, quando me sentei e ele tirou o prato do microondas.
- Quando meu pai soube que você estava aqui e doente, ele chamou o médico amigo dele – Lewis pegou talheres e me entregou. – Ele te examinou e te medicou. Suco ou água?
Sentia minha garganta, língua e lábios secos.
- Água, por favor.
Enquanto comia, pensava no que ele tinha dito e era observado por ele.
- Só por causa daquele soco? – olhei para cima e meus olhos encontraram o dele fixos em mim.
Lewis negou com um gesto.
- Isso e o fato de você não ter se alimentado direito. Seu corpo não reagiu muito àquela adrenalina toda. O medico disse que ele podia ter deslocado seu maxilar.
Agora não havia dor alguma, mas passei a mão pelo queixo e o mexi de um lado para o outros, incerto.
- A cadeia fez bem praquele desgraçado – falei, irritado.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, eu mastigava a comida e ele apenas ficava ali me observando.
- Vocês já brigaram antes, não é? Na escola?
Olhei para ele novamente e assenti.
- Você presta muita atenção em mim – comentei, com um sorriso desafiador nos lábios.
- Não se sinta importante – ele ergueu uma sobrancelha. – Eu sou muito observador.
- Por um momento me senti especial – retruquei sarcasticamente.
- Sinto muito lhe decepcionar, Peter, mas a fofoca é o que movimenta aquele colégio – ele riu.
- Não posso dizer o mesmo de você.
Ele ficou calado.
- Nunca ouvi nada a seu respeito – complementei fazendo-o se levantar.
- Eu sempre voo abaixo do radar – ele pegou meu prato, talheres e copo, os colocou na pia e jogou um pouco d’água.
Depois de comer, me sentia perfeitamente bem e um pouco sonolento novamente.
- Acho que agora você já pode voltar para o seu quarto – disse, quando saímos da cozinha e voltamos para a sala.
Já me deitava no sofá onde ele antes estava dormindo.
- Não mesmo, você é o doente e o convidado, eu não me importo de dormir aqui – falou enfatizando a parte do convidado.
Eu o impedi de se aproximar do sofá.
- Já estou bem melhor e não preciso daquela cama só para mim – tive a leve impressão que a frase não tinha saído no contexto que eu pretendia.
Lewis sorriu.
- Ok, então, fique aqui – me empurrando, se virou e foi rumo ao quarto. – Boa noite.
- Boa noite Lewis – respondi, deitando-me no sofá.
Era engraçado o quanto que eu me sentia feliz por está ali na casa dele. Uma grande parte das lembranças que antes não se pronunciaram agora estalavam na minha cabeça à cada segundo que eu estava por ali. A cozinha me pareceu familiar, as escadas, a sala, tudo me lembrava de algo da nossa infância. Me sentia grato por isso.
Com esse pensamento, me acomodei no sofá, apaguei a luz e me cobri com o lençol que ele tinha deixado. O cheiro dele estava impregnando tanto em um como no outro e ao inspirar senti o aroma do perfume dele, aquele que ele sempre usou, desde pequeno, desde que nos conhecíamos.
Meu corpo inteiro assimilou aquilo e se deixou ser confortado, como um abraço apertado. Era uma sensação incrível.