Capítulo Dezesseis ~ Lições da Vida
Estava tudo escuro e frio. Abri os olhos e notei o vazio espaço escuro que me cercava. Estava em pé, vestindo roupas de cor neutras e me sentia indescritivelmente em paz. Era estranho.
Olhei de um lado para o outro e nada percebi. Gritei e chamei por alguém. Estava sozinho. Fiquei em silêncio novamente e tentei me lembrar o que acontecera e como eu chegara até ali. Nada. Não havia nada que eu pudesse lembrar. Fechei os olhos e os abri varias vezes, tentando perceber alguma diferença, talvez estivesse em um sonho e acordasse à qualquer momento. Mas nada aconteceu.
De repente eu vi um clarão e alguém apareceu ao longe. Com tal distância era difícil distinguir quem era. A pessoa foi se aproximando cada vez mais e quando finalmente ficou frente a frente como eu levei um susto.
A memória sobre ela e sobre os fatos piscaram na minha cabeça e me fizeram soltar uma exclamação.
- Olá, Peter – a voz dela era angelical e eu sentia um cheiro de mel exalando dela.
- Oi – foi tudo o que eu pude responder, eu não sabia o nome dela.
Finalmente tinha uma ideia de onde estava.
- Pensei que fosse encontrar...
- O seu pai? – ela me interrompeu, sorrindo. – Desculpa, eu sinto muito.
Suspirei fundo e balancei a cabeça.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
- Você é mãe do Lewis, não é? – quebrei o silêncio, já sabendo a resposta.
- Sou.
Eu me lembrava dela da foto na casa dele e agora eu lembrava as poucas vezes que a vi antes de morrer. E agora cara a cara conseguia ver as semelhanças entre ela e o filho; a beleza era inquestionável.
- O que aconteceu? – indaguei, expondo minha verdadeira preocupação no momento. – Eu morri?
Ela sorriu e se aproximou pegando na minha mão. Seu toque era gentil e acalentador, me lembrava a minha própria mãe.
- Não, querido – ela deu alguns tapinhas na minha mão. – Ainda não é a sua hora.
Suspirei aliviado.
- Então, onde estamos?
Olhei para um lado e para o outro. Não parecia com nenhum lugar que eu já estivesse.
- Esse é um estado de consciência.
- Nada disso é real?
Ela balançou a cabeça negando.
- Isso não faz esse momento ser mais ou menos real, apenas mais significativo – ela me olhou nos olhos.
- E qual o significado disso tudo?
Abruptamente ela se afastou, mas manteve o contato visual.
- Me diga você, Peter – seu tom era sério. – Quais atos lhe trouxeram até aqui?
Abri a boca para começar a responder, mas a fechei. Os acontecimentos pipocaram novamente na minha mente e me deixaram sem fala. A mãe de Lewis continuava me encarando.
- Então?
- Eu não sei! – bufei, soltando o ar e jogando as mãos para cima.
A sobrancelha dela se ergueu.
- O que você pretendia indo atrás dele?
Ao pensar na resposta, percebi que expressar o meu intuito naquele dia soaria muito errado.
- Eu estava pensando no meu pai – desconversei, enfim.
- Não estava! – a voz dela se ergueu e me encheu de medo.
- Estava... Eu... Eu estava lá por ele... Eu... Eu...
- Egoísta! Você estava pensando apenas em si! – ela rebateu furiosamente; eu quase senti as palavras delas atingindo meu rosto.
Fiquei em silêncio. O som da voz dela morreu.
Ela estava completamente errada. Estava lá por meu pai e apenas por ele. Queria vingá-lo. Queria fazer Eric pagar pelo o que ele tinha feito.
- Diga.
Seu tom de voz era persuasivo e poderoso. Não chorei, mas senti as lágrimas brotando.
- Eu queria me vingar.
Ela balançou a cabeça em um claro sinal de desapontamento, como minha mãe fazia às vezes.
- Você nem faz ideia que Eric não sabia que o homem que ele atacou era seu pai – ela comentou. – Até o jornal publicar a notícia, seu pai era apenas mais um na lista de assalto dele.
Minha garganta ficou apertada e eu fechei os punhos, apertando as unhas contra a palma da mão. Não podia ser verdade... Podia? Eu não acreditava. O tempo todo eu imaginava que ele tinha ferido o meu pai de propósito, como que para descontar em mim, me fazer sofrer. Mas não era bem assim. A verdade era outra.
No entanto, eu não gostava dele menos. Isso não mudava nada.
- Ele matou meu pai – disse, argumentando.
- E querer matá-lo o torna diferente dele em quê? – ela se aproximou novamente de mim. – Assim como seu pai, Eric já tinha o seu tempo marcado, não precisava de interferência.
- O que você quer dizer?
- Eric iria...
- Não, sobre o meu pai – a interrompi.
- Todos morremos um dia, Peter – ela falou, calmamente. – Eu, seu pai, meu irmão, ninguém interfere se já houver um plano.
Engolir em seco dessa vez foi doloroso. Estava assustado com a conversa.
- E eu? – fiz a pergunta que agora me assustava.
Foi a primeira vez que ela sorriu um sorriso cheio, que iluminou seu rosto.
- Você ainda tem uma vida bela pela frente, querido – ela disse.
Ainda continuava abalado.
- E agora?
- Você volta e vive a vida que lhe foi dada – pegando minha mão, ela a acariciou. – E cuide dele, Peter, por favor.
Mesmo sem dizer o nome dele, eu sabia. Me senti ser aquecido com aquela sensação boa que ele sempre produzia em mim.
- Com toda a minha vida – então a puxei para um abraço.
E tudo ficou escuro novamente.
Alguém chorava. E não estava longe. Alguém segurava na minha mãe e a acariciava. Uma sensação de alegria e conforto irradiava do gesto e clareava minha mente e trazia alívio para o meu corpo.
Pisquei os olhos algumas vezes, acostumando-os à pouca luz do local onde me encontrava e assim que me dei conta de quem estava ao meu lado, decidi falar.
- Lewis.
A cabeça dele se ergueu imediatamente e seus olhos brilhantes de lágrimas encontraram meu rosto e os meus próprios olhos encarando-o de volta.
- Você... Você... Acordou – ele gaguejava e apertava minha mão, claramente incrédulo.
Assenti com um aceno leve de cabeça.
- Eu não acredito – Lewis disse, em tom baixo.
- Me desculpa – as palavras se formaram antes dos meus pensamentos.
Só agora eu havia me dado conta do quanto eu havia sido realmente egoísta. Vingar meu pai não o traria de volta, nem traria a paz necessária para o meu coração. E eu não tinha pensando no que poderia acontecer caso eu consumasse minha vingança. E pelo o que havia acontecido, eu não imaginava que eu pudesse morrer. E se eu morresse como ficaria minha mãe? E minha avó? E acima de todos, Lewis? Não havia pensando em ninguém além de mim para conseguir o que queria.
E agora olhando para o rosto de Lewis eu sabia que não podia deixar isso acontecer novamente. Assim como eu não permitiria que nada acontecesse com ele, não podia deixar nada acontecer comigo.
Ele ficou em silêncio contemplando-me com a luz de um poste entrando por uma janela alta na parede atrás da minha maca.
- Pensei que fosse perder você – ele disse, por fim.
Apertei a mão dele que ainda segurava a minha e disse:
- Não! Me desculpa, eu não podia fazer isso com você novamente.
Não ia afastá-lo de mim outra vez. Com ou sem intenção, isso não aconteceria.
Lewis sorriu, assentiu e apertou minha mão.
Se estivesse forças o suficiente, me levantaria e o beijaria. Esse era um momento ótimo. E após alguns segundos, ele pareceu ler minha mente e inclinando-se lentamente para mim, pôs os lábios sobre os meus e selou nosso compromisso. Dali em diante eu seria dele assim como ele seria meu.
Quando ele se afastou e se sentou na cadeira ao meu lado, um pensamento engraçado surgiu na minha cabeça.
- Lewis, como sua mãe se chamava? – toda aquela dor e pesar que eu sentia apenas por tocar no assunto havia sumido.
- Joy – ele respondeu, com um sorriso no rosto.
Era isso. Se nós chegássemos a ter uma filha, esse seria o nome. Seria a nossa própria alegria, afinal não tinha mais nada nesse mundo que eu quisesse mais do que passar toda a vida que ainda me restava ao lado de Lewis.
FIM.
















