“Não esperava vê-la por aqui, Dama Kogou.” Sua voz chamou baixo diante da visão de abundantes cabelos negros decorados, certa de que não se confundira sobre sua cliente. Lembra-se bem que existiam enfeites de cores vivas em seus cabelos soltos, lembrava também de sua preferência por tons que convidam os corajosos ao seu redor. Talvez, só talvez, os pequenos detalhes que se demora para organizar as camadas de roupas tenha sua utilidade além de ser bela, a utilidade de fazer aqueles que enxergam mal, se orientarem sem ofender os demais. Claro, tal moda não se atingira por alguém como ela, alguém conhecido por sua incapacidade de reconhecer rostos e ainda assim possuir um trabalho tão dependente da visão, era apenas uma conveniência que a jovem usava e abusava, redirecionando este mesmo hábito para si: mantendo seus cabelos livres como uma dama unidos ao uso de vestes informais masculinas. “Se é o ar puro que busca, o vento sobre o rio Kamo traz um frescor quase primaveril neste dia.”
Suas longas mangas do verdejante kariginu esvoaçaram com seu movimento amplo com os braços para alcançar sua grande bolsa, onde rolos de papel estavam cuidadosamente amarrados com finas cordas enfeitadas. Dedilhando algo em suas bordas, continuou tecendo seus comentários treinados, do jeito que sempre fazia para cair facilmente na graça dos desocupados nobres. “Estava por lá enquanto terminava seu pedido, as hortênsias desabrocharam azuis com estas chuvas recentes.” Sem mais procurar, puxou um rolo razoavelmente grosso, indicando ser uma pintura larga, manchas de água residuais no verso em branco eram visíveis, mas ruga alguma era inidentificável. Com o desfazer do nó da corda, veio o levantar de uma aba e exibir flores azuis pintadas com uma delicadeza sem precedentes, certamente era uma figura repetida diversas vezes, pois a técnica era insegura, de alguém que tomava cuidados até desnecessários com um pincel. “Se acaso não pude alcançar vossas expectativas com o formato correto dos arbustos, rogo-lhe perdão em avanço, pois estes olhos envelheceram antes de mim.” Um pequeno e suave sorriso se fez presente quando a corda foi re-atada e o rolo estendido à pessoa que Reiko assumiu ser sua cliente com sua destra. Sua canhota, por outro lado, se fez livre para cobrir levemente o sorriso que denunciava parte de seu desdém e insegurança. Kamo no Reiko não é uma nobre, mas nada a impede de soltar seus pequenos insultos recobertos de mel ao ponto de serem deleitosas mentiras.
“Contudo, Dama Kogou, meu coração permanece jovem e ansioso, ansioso para quando a honra de assisti-la performar o biwa me for concedida novamente.”