Tonight Is Our Night @Poder Virjão
Aquela era a vigésima vez que se mirava no espelho. Estava se tornando psicótica diante a indecisão e a insegurança. Não acreditava estar feia, pelo o contrário, era uma das poucas vezes que se sentia tão bem consigo mesmo e aquilo a assustava. Existiram somente dois episódios em toda a sua vida em que admirara-se de sua própria figura. A primeira vez fora na sua lição de maquiagem com Cassidy, nunca imaginou-se tão bonita como naquele dia, sua pele parecia marfim e por um momento confundiu o próprio reflexo com uma das bonecas antigas de porcelana da avó materna. Era visível sua ansiedade com aquele “encontro”, afinal era a primeira vez na sua vida que iria entrar em uma boate. Variadas cenas para aquele dia já havia criado em sua cabeça, algo lhe dizia, porém, que não chegaria nem ao menos perto de tudo o que imaginou um dia. Não sabia dizer se amava ou odiava seu lado Holmestiano. Adorava aqueles romances e a forma como Sherlock desvendava os mistérios a partir de sua intuição. Oh, Céus! De fato não odiava sua semelhança com o inglês, como poderia? Aquela era a sua melhor dádiva. Em um balançar leve de cabeça voltou a superfície da realidade e voltou a fitar seu reflexo no espelho de corpo inteiro.
Suas mãos estavam presas a sua cintura e vez ou outra apertava os dedos contra o tecido macio do vestido, até que suas unhas – perfeitamente decoradas, diga-se de passagem – afundassem em sua pele através dos fios pretos que compunham a peça de roupa que vestia. Com a cabeça tombada para o lado, ainda encarava e analisava os detalhes de sua produção. Recobrou a postura, mantendo a coluna ereta e passou as mãos pelas curvas que desconhecia ter. Deslizou as mãos novamente pela extensão delicada do tecido, arrumando-o no corpo e rotacionando a cintura para a esquerda e para a direita, numa tentativa de visualizar o efeito daquelas vestes em todo o corpo. – Michelle, devo me render.. Você está muito bonita! – Com uma feição surpresa estampada em seu rosto, rendeu-se a elogiar finalmente o resultado. Estava ainda mais ansiosa agora, seu estômago revirava dentro de sua barriga, louca para saber o que seu acompanhante diria sobre ela.
Teve que sorrir ao lembrar de Trevor. Pobre loiro, mal sabia ele que quando propôs sua aposta já tinha todas as cartas na manga para vencer. Assim que saiu do leilão a ideia de conhecer um clube noturno já dançava em sua mente. Na mesma hora pensou naquele vestido que usava. Ele fora presente de uma tia e o havia usado apenas uma vez, em uma das festas que a irmã insistia em lhe arrastar. Bem, agora finalmente encontrara um uso para a peça. Deu graças a Deus por ser abençoada geneticamente, onde os alelos dominantes em seu organismos eram os dos cabelos fáceis de serem domados. O que ela poderia fazer se sofresse justo naquela noite com cabelos rebeldes? Provavelmente, perderia a aposta. Felizmente esse era um problema a menos. Juntou a bolsa carteira que já estava a sua espera em cima da cama e caçou pelo o quarto o celular. Já estava tudo pronto de antemão, evitando possíveis atrasos. Antes de guardar o celular na bolsa procurou saber que horas eram e para sua alegria ainda faltavam quinze minutos para o término de seu prazo. Nunca ganhara uma aposta tão fácil quanto aquela fora.
Tinha tempo o suficiente para cruzar os corredores do internato com calma, acostumando-se e equilibrando-se em cima daqueles sapatos de salto alto. Era intrigante o jeito como certas meninas faziam parecer tão fácil usar um salto quinze com tanta destreza. Destreza esta que Mich ainda buscava dentro de si. Não demorou muito até alcançar a área externa do King's, onde se localizavam os portões. Como já imaginava, Trevor ainda nem mesmo ali estava presente. Adoraria ver a cara de susto que ele faria ao perceber que ela conseguira se arrumar não somente antes do término do prazo acordado, mas também antes mesmo dele se aprontar. Aquela noite com certeza lhe renderia boas gargalhadas e era disso que precisava.
Estava animada por não ter desistido da ideia do leilão, apesar de no começo acreditar que aquele evento fora uma arrumação totalmente incabível, agora conseguia se acostumar com a ideia e sentia-se satisfeita por ter participado. Nunca descobriria que Trevor Parrish, um garoto tão bem apessoado não havia tido nenhuma intimidade com alguém. Era quase um milagre, pelo menos diante os relatos das garotas do lugar. Claro que muitas das histórias contadas ali não passavam de boatos sem fundamento e aumentados em uma escala de 1 para 1000. Ao contrário da maioria, Parrish parecia ter a cabeça no lugar sem deixar de ser agradável e sociável. Ele aceitara suas brincadeiras desde o início, digo, não tão de inicio já que a principio parecia um tanto contrariado com o tal leilão, mas com o tempo os dois se entenderam bem.
A noite começava a dar seu tom costumeiro, o tempo parecia esfriar aos poucos e ela ralhou com si própria por ter esquecido de pegar um agasalho que fosse. Teria que aguentar os arrepios pelas brisas frias, não tinha como voltar ao dormitório e retornar ao pátio a tempo de encontrar-se no horário certo com Trevor. Respirou fundo, controlando os impulsos do corpo, não estava assim tão frio, conseguiria aguentar mais alguns minutos até o garoto chegar para que assim pudesse rumar para a boate. Procurou distrair-se com alguns detalhes bordados de sua bolsa, agradecendo aos Céus mais uma vez pela sorte que tivera em ter Trevor como acompanhante. O rapaz mostrou-se educado e decente, não tentou forçá-la a nada e nem investiu nela com cantadas piegas como a maioria dos meninos que já encontrara. Muitas vezes ela acabava deixando passar alguns flertes, não era nada boa em perceber esse tipo de interesse dos outros a seu respeito. Encostou o corpo contra uma pilastra e abraçou o corpo, torcendo para que Trevor não demorasse mais que cinco minutos para chegar.









