Era impossível não perceber o quanto Michelle, naqueles poucos minutos, mostrara-se uma pessoa infinitamente melhor que Edward jamais seria. Sentia uma pontada de culpa em seu âmago por aquilo, mas não mudaria tão cedo. Por outro lado, não conseguia descrever os sentimentos com os quais era acometido ao trocar olhares com aquela menina de olhos azuis, de uma inocência tão simples. O mais próximo que poderia chegar era como se ela fosse sua irmã mais nova, perdida em algum ponto daqueles longos dezesseis anos. Imaginava que, se os pais houvessem dado-lhe uma irmã, sentiria-se assim à respeito dela. Um dever quase que moral de cuidá-la, amá-la, protegê-la do mundo externo. Teria mais utilidade colocá-la em uma redoma de vidro e atear fogo em qualquer desavisado o qual ousasse aproximar-se, porém duvidava muito de que a morena daria-lhe permissão para aquilo. O contraste entre os dois era visível, praticamente palpável. Ela, com toda a sua inocência; ele, com um passado duvidoso e escolhas piores ainda. Água e fogo, por assim dizer. O claro e o escuro. Mesmo estavam ali, com uma ligação recém-formada e ainda estranha para eles. Como se algo os unisse, e não soubessem o quê. Nunca experimentara aquilo antes, a não ser a estrita ligação a qual mantinha com Grace. Não sabia muito bem como agir, ou como Michelle o veria com outros olhos quando descobrisse sobre as diversas camadas na personalidade do garoto.
Precisou de toda a sua força de vontade para conter uma risada ao vê-la demorar no raciocínio sobre sua pergunta. Ali estava um ponto no qual eram parecidos; precisavam de alguns segundos para entender algumas coisas. Edward nunca fora uma das criaturas mais rápidas do planeta, apesar de ser inteligente o suficiente para lançar mão de piadinhas sarcásticas. Fez uma nota mental para não fazê-las perto de Mich, pois estava com a sensação de que teria de explicar grande parte delas. Com aquilo em mente, voltou a comer seu café-da-manhã nada saudável, entretido em devorar um pedaço de bacon. O pressentimento de que teria uma longa amizade pela frente com a morena não lhe saía da cabeça, e gostava muito daquela ideia. Sabia como alguns garotos da King’s poderiam ser verdadeiros idiotas, inclusive ele, e poderia empenhar-se em mantê-la longe deles. O instinto protetor lhe era aflorado por aquela garota, e ele simplesmente não conseguia explicar o porquê, mas já se acostumava com aquilo. Era agradável, e certamente, era uma grande diferença do seu costumeiro “eu” desinteressado e entediado com a vida ao redor. Ergueu os olhos, subitamente surpreso e puxado de volta à realidade pela pergunta dela. Se estava tudo bem? Depende muito do ângulo pelo qual o garoto olhasse. Naquele momento, sim, tudo estava ótimo. Melhor, impossível. Arranjara uma nova amiga e ainda não conseguira nenhum sermão naquele dia. Agora, olhando por outro lado, sua vida estava perdida no mais completo caos. Era um filho da puta e traía a namorada, a qual, por sinal, agora estudava no mesmo internato que ele.
Ed passou alguns segundos em silêncio, mastigando a comida para ter tempo de reorganizar os pensamentos em frases lógicas. Aproveitou a oportunidade para ouvir os pedidos inocentes de Mich. Sabia que podia confiar nela, tanto quanto confiava em Luke ou em Theo para contar aquelas coisas. Sua dificuldade seria explicar seus motivos sem ser julgado por ela. Não sabia como abordar aquele assunto, afinal. Um sorriu ergueu levemente o canto de seus lábios à simples hipótese de taxá-la como louca. Impossível. Se ela fosse maluca, bom, então ele também seria. Queria agradecê-la por dar aquela chance à ele, mas as palavras pareciam travar em sua garganta. Decidiu, então, despejar tudo de uma vez - Não, não está nada bem - começou, com um suspirou. Parou de revirar a comida de um lado para outro e largou o garfo no canto do prato. Novamente, deixou que seus olhos castanhos encontrassem os azuis da garota, como se aquela conexão causasse faíscas, e sentiu-se impelido a continuar - Eu é que estou ficando louco - riu baixo ao perceber o pleonasmo quanto à frase de Mich de antes,mas logo tratou de não se desviar do assunto - Minha namorada começou a estudar aqui, e, cara, eu amo ela, mas digamos que tenho um longo histórico de burradas nesse relacionamento - resumiu o máximo possível para que Michelle pudesse entender. Não falava apenas sobre suas mais recentes traições, mas também sobre seu inexplicável dom de arranjar confusões. Provavelmente, a morena já ouvira sobre ele pelos corredores, afinal, Edward era quase uma celebridade naquele quesito dentro do internato.