Juan del Encina
Tribagia (ou "Vía sin falsía")
1521
1
A Promessa de Roma
Roma, no início do século XVI, era um organismo vivo feito de mármore, incenso e ambição. Para um homem como Juan del Encina, a cidade não era um labirinto desconhecido, mas um palco onde ele já havia representado muitos papéis. Ali, entre as colunas do Vaticano e os palácios dos cardeais, ele era o músico admirado, o poeta cujas églogas tinham definido o novo teatro espanhol, o homem que soubera navegar nas correntes do poder sob o patrocínio dos Duques de Alba e, agora, sob o olhar benevolente do Papa Leão X.
Contudo, naquele ano de 1519, enquanto o sol de verão dourava as águas do Tibre, algo dentro de Juan silenciara-se. O brilho da vida cortesã, que antes o alimentara, parecia agora uma pátina de pó sobre uma alma cansada. Aos cinquenta anos — uma idade de balanços e de sombras longas — o homem que passara a vida a cantar os amores dos pastores e as vitórias dos reis sentia o peso de um silêncio que nenhuma música conseguia preencher.
Ele caminhava pelas ruas da cidade, evitando os olhares dos conhecidos. O seu hábito eclesiástico, conquistado mais pela conveniência do que por vocação juvenil, pesava-lhe agora com a verdade de um compromisso adiado. Juan via-se ao espelho do tempo: um homem que alcançara o cume da arte, mas que habitava um vale espiritual árido. A ideia da morte, não como medo, mas como uma prestação de contas, começou a assombrá-lo nos corredores de Santa Maria Maggiore.
— Que deixarei eu, além de versos que o tempo devorará? — questionava-se, observando os peregrinos que chegavam de toda a Europa, descalços e cobertos pela poeira da estrada. — Eles trazem a verdade nos pés feridos. Eu trago apenas rimas na ponta da língua.
A decisão não surgiu como um raio, mas como uma erosão lenta das suas certezas mundanas. Foi numa tarde de oração solitária que a promessa se cristalizou. Ele não queria apenas ser um sacerdote por título ou benefício; queria celebrar a sua primeira missa. Mas não num altar qualquer de Roma, rodeado de sedas e cardeais. O seu sacrifício exigia o lugar onde o próprio tempo se dividira: Jerusalém.
A Tribagia — a "via sem falsidade" — começou ali, no coração de um homem que decidira despir-se da sua fama. Juan começou a organizar os seus assuntos com uma minúcia que espantou os seus secretários. Renunciou a cargos, delegou responsabilidades e, acima de tudo, começou a escrever. Não mais para o aplauso, mas para o registo de uma alma em trânsito. O seu diário tornou-se o depósito de uma ansiedade sagrada.
A preparação para a jornada foi um exercício de desapego. Roma, com as suas intrigas e o seu esplendor renascentista, começou a parecer-lhe uma distração perigosa. Ele precisava do deserto, do mar e da distância. Os amigos tentaram dissuadi-lo, invocando os perigos da viagem, os piratas berberes, as febres do Levante e a fragilidade da sua idade. Mas, para Encina, o perigo real era permanecer onde estava, estagnado numa glória que já não reconhecia como sua.
— Onde termina o poeta e começa o homem de Deus? — escrevia ele nas suas notas preparatórias. — Se a minha vida foi uma representação, que este último ato seja a verdade pura.
Ele procurou a bênção papal para a sua peregrinação, um gesto que unia o seu passado de prestígio ao seu futuro de penitente. Mas, ao receber o aval de Leão X, Juan sentiu que a verdadeira autoridade para partir não vinha de um decreto, mas de uma voz interior que lhe pedia para medir o mundo com os seus próprios passos. Ele começou a estudar os mapas, a calcular as milhas e a informar-se sobre os hospitais de peregrinos. O músico que antes contava os tempos de uma partitura, agora contava as estações de uma redenção.
A promessa de Roma era, no fundo, uma promessa de silêncio. Juan del Encina queria calar a sua voz para ouvir o eco da história sagrada. Queria que a sua poesia, antes dedicada à beleza humana, se tornasse um guia para outros que, como ele, se sentissem perdidos no labirinto das vaidades. Antes de partir para Veneza, o porto de saída para o Oriente, ele olhou uma última vez para a cúpula de São Pedro em construção. Viu ali a ambição dos homens de pedra e cal. Ele, porém, buscava uma Jerusalém que não se via com os olhos da carne, embora precisasse da carne e do cansaço para a alcançar.
Naquela última noite em Roma, Juan não dormiu. O som das fontes da cidade parecia agora o murmúrio do Jordão. Ele já não era o protegido dos Duques ou o favorito dos Papas. Era apenas Juan, um peregrino prestes a lançar-se ao sulco das águas, levando consigo nada mais do que a sua fé e a promessa de que, no Calvário, encontraria finalmente o acorde final da sua própria existência.
A jornada estava decidida. O caminho de Roma a Jerusalém seria a ponte entre o artista que fora e o santo que aspirava ser. E assim, ao romper da aurora, o homem de cinquenta anos fechou a porta do seu conforto e deu o primeiro passo na via que mudaria o seu nome para sempre na história da devoção espanhola.
2
O Sulco das Águas
A partida de Veneza não foi o adeus triunfal que um homem da estatura de Juan del Encina poderia esperar noutras épocas da sua vida. Quando a galea, de casco robusto e remos ritmados, se afastou da Praça de São Marcos, o poeta não olhou para trás em busca de lenços brancos ou aplausos. Os seus olhos estavam fixos na linha do horizonte, onde o Adriático se fundia com um céu de um azul implacável. Ali, no convés apinhado de peregrinos de todas as nações, mercadores venezianos e marinheiros de pele curtida pelo sal, Juan era apenas mais uma alma em trânsito, protegida apenas pela sua cruz de peregrino e pela resolução que tomara em Roma.
O Mediterrâneo, naquele ano de 1519, era um espaço de beleza e terror. A viagem não era um cruzeiro de contemplação, mas uma prova de resistência física e espiritual. Juan, habituado aos leitos de penas dos palácios e à acústica perfeita das capelas, via-se agora cercado pelo ruído constante das ondas a bater no carvalho, pelo grito das gaivotas e pelo cheiro penetrante de peixe seco, suor humano e alcatrão.
— O mar é o grande nivelador — escreveu ele nas suas notas, enquanto a galé balançava perigosamente perto da costa da Dalmácia. — Aqui, a métrica dos meus versos nada vale perante o ritmo das marés. Deus não fala em rimas no oceano; fala através do vento que nos testa a têmpera.
A travessia exigia paragens estratégicas. Em cada porto — de Corfu a Creta, de Rodes a Chipre — Juan desembarcava com a curiosidade de um humanista e a humildade de um devoto. Nestas ilhas, que funcionavam como sentinelas da cristandade num mar cada vez mais dominado pela sombra otomana, ele visitava igrejas em ruínas e hospitais de peregrinos. Em Chipre, o calor tornou-se um inimigo tangível. O ar era espesso, carregado de pó e de uma luz que parecia querer cegar os incautos. Juan via os seus companheiros de viagem adoecerem; o escorbuto e as febres tropicais faziam as suas primeiras vítimas, e os corpos eram lançados ao mar sem mais cerimónia do que uma oração apressada.
A proximidade da morte, que em Roma fora uma reflexão filosófica, tornou-se em Chipre uma presença constante. Juan via homens que tinham vendido tudo para ver a Terra Santa morrerem a poucos dias de distância do seu destino. Essa visão fortaleceu o seu propósito. Ele começou a anotar não apenas as distâncias geográficas, mas o "custo espiritual" de cada milha percorrida. O seu relato, que mais tarde se tornaria a Tribagia, começou a ganhar a forma de um itinerário técnico e místico: quantas léguas de uma ilha a outra, que ventos sopravam, que perigos espreitavam em cada recife.
Houve noites em que a tempestade ameaçou engolir a frágil embarcação. No meio do breu, enquanto os marinheiros invocavam Nossa Senhora dos Navegantes e os peregrinos se amontoavam nos porões, Juan del Encina encontrava-se sozinho no convés, agarrado ao mastro. Naquelas horas, o antigo músico de corte compreendeu que o silêncio de Deus era a música mais profunda de todas. O despojamento era total. Já não restava nada do homem que disputara favores reais; restava apenas o medo humano e a esperança divina, fundidos pelo salitre.
— Se o mar me levar agora — pensava ele — que me leve como um homem que finalmente tentou ser o que pregava.
A chegada a Jafa, o porto de entrada para a Judeia, foi o momento de maior tensão. Jafa não era um porto acolhedor, mas uma costa rochosa e perigosa, onde os peregrinos tinham de ser transportados em pequenos batéis sob o olhar vigilante e, por vezes, hostil das autoridades locais. O desembarque foi um caos de línguas, moedas trocadas à pressa e a humilhação das vistorias. Juan, o homem que falava o latim com perfeição e o espanhol com elegância, viu-se reduzido a um corpo que precisava de pagar tributo para pisar a terra onde o seu Deus caminhara.
Ali, no solo de Jafa, ele beijou a terra. Mas não era a terra fértil de Espanha; era uma areia quente e estrangeira. O choque cultural foi imenso. O Oriente não era a imagem idealizada das pinturas italianas; era um lugar de contrastes violentos, de cheiros a especiarias e a podridão, de uma luz que revelava todas as imperfeições da carne.
Nesta fase da viagem, Juan del Encina começou a transformar a sua dor física em literatura. Cada bolha nos pés, cada hora de sede sob o sol do deserto enquanto a caravana se organizava para subir a Jerusalém, era descrita como uma "estação" prévia à Via Sacra. Ele compreendeu que a peregrinação não começava nas muralhas da Cidade Santa, mas no primeiro sulco que a galea abrira nas águas de Veneza. O Mediterrâneo fora o seu deserto, o seu tempo de quarentena.
A subida de Jafa a Jerusalém, feita em lombo de burro ou a pé, sob a proteção precária dos frades franciscanos, foi o último teste deste andamento. O poeta observava as montanhas áridas da Judeia, que pareciam esqueletos de gigantes sob o sol. Não havia música aqui, apenas o som metálico dos guizos das mulas e o murmúrio constante do Rosário. Juan estava exausto, o seu rosto outrora bem cuidado estava agora queimado e marcado pelo cansaço dos seus cinquenta anos, mas os seus olhos brilhavam com uma febre que não era da doença, mas da antecipação.
Ao longe, entre o pó da estrada e o calor ondulante, começaram a surgir as primeiras silhuetas de torres e cúpulas. O coração de Juan, o músico, bateu num ritmo que ele nunca conseguira escrever numa partitura. O sulco das águas terminara. O sulco da terra, o caminho da dor e da glória, estava prestes a começar.
— Jerusalém — sussurrou ele, a voz sumida pelo pó. — Finalmente, a minha vida vai começar.
3
As Portas de Sião
Jerusalém não se revelou a Juan del Encina como uma miragem celestial, mas como uma fortaleza de pedra nua e sol implacável. Ao aproximar-se das muralhas, o grupo de peregrinos, exausto pela subida desde a costa, emudeceu. Para Juan, que passara décadas a musicar a harmonia das esferas e a perfeição das cortes, o primeiro impacto foi de uma estranheza absoluta. A cidade não era um cenário de teatro; era um organismo denso, onde o cheiro do pó antigo se misturava com o aroma de especiarias e o odor a animal das caravanas.
Ao cruzar a Porta de Jafa, o poeta sentiu o peso dos seus cinquenta anos desvanecer-se sob uma forma nova de energia: a febre do sagrado. Ali, sob o domínio otomano, os cristãos eram sombras que se moviam com cautela, mas Juan sentia-se, pela primeira vez, num centro absoluto. A cidade era um palimpsesto de fés, onde cada pedra parecia gritar uma história diferente.
— Pisa com cuidado, Juan — murmurou para si mesmo, sentindo o calor das lajes através das solas gastas das botas. — Aqui, até o pó é uma relíquia.
A primeira paragem foi no Convento de São Salvador, onde os Franciscanos da Custódia da Terra Santa recebiam aqueles que sobreviviam ao mar e aos bandoleiros. Juan, o homem que habitara palácios, viu-se agora numa cela austera, onde o luxo era um jarro de água fresca e o silêncio necessário para a oração. Os frades, guardiões dos Lugares Santos desde os tempos de São Francisco, olhavam para aquele espanhol culto com uma mistura de respeito e curiosidade. Eles conheciam o seu nome pelas partituras que chegavam às missões, mas viam nele agora apenas um sacerdote em busca de uma origem.
Os dias que antecederam a sua primeira missa foram de uma purificação sensorial. Juan percorreu as ruas estreitas, os souks barulhentos onde as vozes em árabe e hebraico formavam uma polifonia que ele não conseguia transcrever. Visitou o Monte Sião, onde a memória da Última Ceia pairava como uma promessa. Ali, no Cenáculo, o músico compreendeu que a maior melodia da história fora um simples partir de pão. O seu ego de artista, construído ao longo de décadas de sucessos literários, desmoronava-se. Em Jerusalém, o autor da Tribagia não queria ser lido; queria ser perdoado.
A preparação para o Santo Sepulcro foi o clímax desta transição. Na noite anterior à sua celebração, Juan foi autorizado a permanecer na basílica. O edifício, um labirinto de capelas escuras, altares bizantinos e colunas românicas, era o coração do mundo. O ar estava saturado por séculos de fumo de velas e lágrimas de peregrinos. Juan sentou-se num canto escuro, observando as luzes trémulas das lâmpadas de azeite que pendiam do teto como estrelas presas.
— Senhor — rezou ele, a voz perdida na vastidão da cúpula — levei cinquenta anos a encontrar o caminho para esta casa. Que a minha voz não seja um ruído, mas um eco da Tua.
Ao romper da alvorada, chegou o momento. Vestido com os paramentos sagrados, Juan del Encina aproximou-se do altar dentro do Edículo do Santo Sepulcro. O espaço era exíguo, obrigando a uma intimidade quase aterradora com o mistério da ressurreição. Ali, no lugar onde se acreditava que a morte fora vencida, o homem que passara a vida a cantar amores profanos preparou-se para a sua primeira missa.
As mãos de Juan, que outrora tangiam a vihuela com elegância cortesã, tremiam ao elevar a hóstia. O silêncio da basílica naquele momento era mais denso do que qualquer música que ele alguma vez compusera. As palavras do cânone, ditas num latim que ele conhecia desde a infância, soavam agora como se fossem pronunciadas pela primeira vez na história da criação. O tempo parou. Salamanca, os Duques de Alba, as intrigas de Roma e as tempestades do Mediterrâneo foram sugadas por aquele pequeno espaço de pedra.
Ao terminar a celebração, Juan saiu para a nave da igreja como um homem transformado. A luz do sol de Jerusalém, filtrando-se pela cúpula, parecia coroar o fim de uma busca e o início de uma missão. Ele já não era apenas um cronista de viagens; era uma testemunha. A partir desse instante, cada passo que desse na cidade seria parte da sua própria "via sem falsidade".
Ele dirigiu-se depois ao Vale de Josafat, olhando para o Monte das Oliveiras. Viu as oliveiras milenares, cujos troncos retorcidos pareciam mãos em oração. O contraste entre a agitação da cidade e o silêncio dos jardins sagrados reforçou a sua determinação. A Jerusalém de pedra era apenas o mapa para a Jerusalém espiritual que ele começava a construir dentro de si.
— Agora — disse ele aos frades que o acompanhavam — estou pronto para percorrer o caminho do sofrimento. Se celebrei a vida no Sepulcro, devo agora honrar a dor no Calvário.
As Portas de Sião tinham-se aberto para ele, não como um conquistador, mas como um mendigo da graça. Juan del Encina, o mestre do Renascimento espanhol, encontrara finalmente o seu mestre. O seu diário de bordo, que começara com milhas e portos, transformava-se agora num registo de estações e lágrimas. O palco estava montado para o núcleo da sua obra: a Vía Crucis, onde cada passo seria uma estrofe de um poema que o tempo nunca conseguiria apagar.
4
A Vía Crucis
Jerusalém amanheceu sob uma luz de cobre, pesada e expectante. Para Juan del Encina, aquele não era apenas mais um dia de visita aos lugares santos; era o momento de transformar a sua promessa em movimento. Com um cordel à cintura e a cabeça descoberta sob o sol que já começava a morder a nuca, o poeta posicionou-se no início daquela que chamaria de "Vía sin falsía". Acompanhado por um punhado de franciscanos que conheciam cada pedra e cada sombra daquelas ruelas, Juan preparou-se para realizar o que poucos na sua época faziam com tamanha precisão: medir a dor em passos.
A jornada começou na fortaleza de Antónia, o lugar do Pretório. Ali, onde o pó parecia ainda carregar o eco das sentenças romanas, Juan parou. O seu olhar de artista, habituado a medir a métrica das estrofes, voltou-se para o chão. Ele não queria apenas rezar; ele queria registar a topografia do sacrifício.
— Daqui até à primeira queda — murmurou ele, contando mentalmente — são passos de um homem que carrega o peso do mundo. Que a minha pena não falhe ao contar esta distância.
A narrativa da sua Vía Crucis avançava por entre o caos do mercado. Jerusalém não parava para o peregrino. Enquanto Juan meditava sobre o encontro de Cristo com a sua Mãe, mercadores de seda gritavam preços e o cheiro a carne assada misturava-se com o aroma a incenso que emanava das suas vestes. Esse contraste entre o mundano e o sagrado era a essência da sua "Tribagia". Ele compreendeu que a via dolorosa não fora percorrida num vácuo, mas no meio do ruído de uma humanidade indiferente — a mesma humanidade para a qual ele escrevera as suas peças de teatro em Salamanca.
A cada estação, Juan ajoelhava-se. A pedra fria contra os joelhos era a sua única certeza. Ele descrevia o lugar onde Simão de Cirene fora forçado a ajudar, e em cada nota que tomava, a sua escrita perdia o ornamento renascentista para ganhar a crueza da verdade. No seu texto original, ele anotava: "Aqui se faz uma cruz na parede", "Aqui o chão inclina-se para o vale". Ele tornou-se um topógrafo do espírito. A precisão das milhas e dos pés que ele registava servia para que aqueles que em Espanha nunca veriam Jerusalém pudessem caminhar com ele através das suas palavras.
Ao chegar ao lugar onde Verónica limpou o rosto de Cristo, Juan parou por mais tempo. Ele, que passara a vida a tentar capturar a beleza humana em versos, via agora que a única imagem que importava era aquela impressa no linho pela dor.
— Que o meu poema seja como esse pano — pensou ele. — Que não tenha brilho próprio, mas que reflita apenas a face do que é eterno.
A subida para o Calvário foi a parte mais dura. O cansaço físico dos seus cinquenta anos, acumulado desde as tempestades do Mediterrâneo, parecia concentrar-se nas suas pernas. O ar era escasso e a multidão nas ruas apertadas empurrava o pequeno grupo de devotos. Juan sentia o suor escorrer-lhe pelo rosto, misturando-se com o pó da Judeia. A cada queda simbolizada no percurso, ele sentia a sua própria pequenez. O homem que em Roma fora tratado como um príncipe da cultura era agora um vulto curvado, tentando não perder o fio da sua oração no meio do tumulto dos souks de Jerusalém.
Finalmente, o grupo atingiu a base do Gólgota, agora encerrado dentro da estrutura massiva da Basílica do Santo Sepulcro. A transição da luz ofuscante da rua para a penumbra sufocante da igreja foi como entrar noutro mundo. Juan subiu os degraus de pedra que levavam ao lugar da crucificação. Ali, entre o ouro das lâmpadas gregas e o mármore polido pelos beijos de milhões, o poeta desfez-se em lágrimas. Não eram lágrimas de desespero, mas de um homem que chegara ao fim do seu mapa.
Ele mediu o espaço entre o lugar dos cravos e o lugar da lança. Cada medida era transposta para o seu manuscrito com a reverência de quem lida com relíquias. Para Juan del Encina, a Vía Crucis não era uma abstração; era um caminho físico que ligava a terra ao céu. Ele via o Calvário como o eixo sobre o qual toda a sua vida girara sem ele saber.
— Tudo o que escrevi até hoje — escreveu ele numa nota lateral — foi apenas um prelúdio para este silêncio.
A tarde caía quando Juan completou a última estação junto à pedra da unção. O seu corpo tremia, não de frio, mas da intensidade da experiência. Ele percorrera os passos de Deus na terra e, ao fazê-lo, encontrara o seu verdadeiro lugar. A "Tribagia" estava agora escrita na sua carne antes de passar para o papel. Ele registara os metros, as curvas da rua, as cores das pedras e a inclinação das encostas. Ele criara um guia para a alma, um itinerário espiritual que permitiria a qualquer cristão realizar a viagem sem sair da sua paróquia.
Ao sair da basílica, Juan olhou para as mãos. Estavam sujas de terra e cera, mas pareciam-lhe mais limpas do que quando tocavam as harpas nos banquetes reais. A Vía Crucis terminara como percurso, mas viveria para sempre como a sua obra-prima. O músico de Salamanca encontrara o seu ritmo final: o pulsar de um coração que, tendo visto a dor suprema, descobrira a paz absoluta.
Jerusalém estava agora envolta num crepúsculo violeta. Juan del Encina, o peregrino, preparava-se para o regresso. Mas sabia que, embora os seus pés voltassem para a Europa, uma parte de si ficaria para sempre presa naquela topografia de sofrimento e luz. A via dolorosa fora a sua ponte, e ele atravessara-a para nunca mais ser o mesmo.
5
O Eco de Salamanca
O regresso de Juan del Encina a Espanha não teve o fulgor das suas antigas entradas triunfais nas cortes de Castela. Quando o navio que o trazia do Levante aportou finalmente em solo europeu, o homem que desembarcou trazia a pele curtida por um sol que não se apagava e olhos que pareciam ainda refletir a brancura das pedras de Jerusalém. O músico que partira em busca de uma origem regressava agora como o guardião de um segredo: o de que a beleza suprema não reside na harmonia das vozes, mas na verdade de um caminho percorrido com dor e fé.
Ao estabelecer-se em León, onde assumira o cargo de prior, Juan encontrou uma paisagem que, embora familiar, lhe parecia agora estranhamente pálida. As montanhas do norte de Espanha eram verdes e húmidas, um contraste absoluto com a aridez mística da Judeia. Contudo, o eco de Jerusalém não o abandonava. No silêncio da sua cela, rodeado por manuscritos e pelo aroma a pergaminho, ele começou a tarefa final da sua vida: dar forma definitiva à Tribagia.
— Não escrevo para que me louvem — dizia ele aos seus secretários, que ainda esperavam as éclogas ligeiras e os vilancetes de outrora. — Escrevo para que os que não podem partir possam chegar. Escrevo para que Salamanca, León e Málaga vejam que o Calvário não está apenas no Oriente, mas em cada passo que damos em direção à nossa própria verdade.
A redação do poema de 213 coplas de arte maior foi um ato de reconstrução arquitetónica. Juan utilizou o seu conhecimento musical para dar às estrofes o ritmo de uma caminhada. Cada verso era um passo; cada estrofe, um suspiro. Ele não se limitou a descrever sentimentos; transcreveu as medidas exatas, as léguas e os pés que medira com o seu cordel na Vía Dolorosa. Queria que a sua obra fosse um mapa físico, um guia técnico para a alma.
O impacto da sua viagem começou a sentir-se na forma como ele geria a sua nova vida eclesiástica. O homem que outrora fora criticado pela sua ambição de cargos e benefícios mostrava agora um desprendimento que inquietava os seus pares. Juan del Encina tornara-se um estranho na sua própria terra. Nas reuniões capitulares, o seu olhar perdia-se frequentemente, voltado para um Oriente que só ele via. Para os outros, ele era o grande poeta que voltara da Terra Santa; para si próprio, ele era apenas o peregrino que ainda não terminara de chegar.
A publicação da obra em Roma, em 1521, sob o título Tribagia o Vía Sacra de Hierusalem, foi o seu testamento literário e espiritual. Foi uma das primeiras obras em castelhano a descrever minuciosamente a topografia sagrada, estabelecendo o modelo para a devoção da Via Sacra que se espalharia por toda a Península Ibérica. Através dos seus versos, as igrejas de Espanha começaram a replicar as estações de Jerusalém. O eco das pedras de Sião ressoava agora nos claustros de pedra de Castela.
Nos seus últimos anos, Juan retirou-se para a paz de León. A sua voz, que antes enchera os salões dos Duques de Alba e os corredores do Vaticano, tornou-se mais contida, centrada no coro da catedral. Dizem que, nos seus últimos dias, ele pedia que lhe lessem passagens da sua própria viagem, não por vaidade, mas para se certificar de que não esquecera a cor do céu sobre o Monte das Oliveiras.
— O tempo leva as notas e as rimas — confessou ele a um jovem discípulo — mas a distância que percorremos por amor, essa fica gravada no coração de Deus. Eu medi a Terra Santa com os meus pés, e agora sinto que ela me mede a mim.
Juan del Encina faleceu por volta de 1529, sendo sepultado, por seu desejo, na Catedral de Salamanca, a cidade onde a sua arte nascera. O seu túmulo não ostenta as liras da poesia profana, mas a sobriedade de quem compreendeu que a maior obra de arte é a própria vida quando transformada em peregrinação.
A sua "Tribagia" sobreviveu como um farol. O músico que definiu o Renascimento espanhol terminou a sua jornada como um místico da geografia. Ele provou que o artista não é aquele que cria mundos novos, mas aquele que, com a sua pena, consegue abrir as portas de cidades antigas para os corações que virão depois dele. Jerusalém nunca mais esteve tão perto de Espanha como quando Juan del Encina a trouxe escondida no sulco dos seus versos, transformando o eco de Salamanca numa oração eterna que atravessou os séculos.










