dani,
a gente compartilha o teto, e mais do que quatro paredes.
na nossa sala de estar também é um bom lugar de se ser. onde tudo é à vista e deixo os sapatos e as bolsas expostos, desejo ser um corpo sem disfarces, sem receio. por isso quando sinto seu olhar sobre mim, me exibo pelas paredes, desnuda, como quem entrega um pouco de si por querer, mas quando me sinto pequena demais, me enrosco no sofá, vulnerável, desprotegida. no colchão, deito e deixo espaço para você, querendo que você veja o que não mostro, é carência disfarçada.
a meia-luz é um encontro entre nós, então eu deixo a porta do meu quarto aberta mesmo quando tudo o que tenho a revelar é o eco dos meus cômodos vazios. neste espaço, onde o íntimo se mostra e se inibe, faço um convite para que você entre e conheça também as imperfeições que me formam. na cozinha, sentadas à mesa, nos alimentamos também de palavras e silêncios. não é só o café, é a gente. aqui nos encontramos ao som das suas músicas, dos seus livros, e nos nutrimos mutuamente. e, sem querer, engolimos até a escrita uma da outra porque nossas conversas são infinitas. às vezes me pergunto como você ocupa tão bem todos os cômodos — da casa, meus — como se cada um deles tivesse sido projetado para te abrigar. enquanto isso, lá fora, a cidade se exibe, imensa, pela varanda. tanto verde, tanto vento, tanto céu e, ainda assim, é aqui dentro que eu vejo a natureza dançando com os seus pés. somos o centro dessa morada.













