Bem, por enquanto, é isso. Gostaria de saber o que vocês acham deste capítulo, para que eu possa publicá-lo eventualmente.
[ From Villains to Heroes... or Almost, Wattpad & Spirit ]
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Naquela noite, o vento cortante fazia o cabelo dela voar em todas as direções, empurrados pela brisa gelada que se tornava ainda mais intensa ao chegar à ilha, obrigando-a a puxar instintivamente o jaleco contra o corpo, enquanto o estômago se revirava. Ainda assim, ela manteve o passo firme, avançando pela estrada pavimentada que se estendia até o portão principal do complexo à frente.
Todo mundo sabia dos riscos, de se trabalhar em uma das instituições mais temidas do país, mesmo aqueles que nunca haviam colocado os pés em Gotham. O asylum era sinônimo de medo, insanidade e histórias sussurradas que jamais deviam ser repetidas em voz alta. E, ainda assim, havia quem aceitasse trabalhar lá. O motivo era simples: o salário. Embora distante dos números exorbitantes que muitos imaginavam - nada que enchesse os olhos de luxos -, ainda assim era o suficiente para se tornar uma proposta difícil de recusar, especialmente quando havia contas atrasadas ou uma família dependendo do que entrava no fim do mês.
No caso dela, em sua cidade natal, a oferta de trabalho jamais chegaria perto da quantia apresentada em Gotham. A diferença era tentadora demais para ser ignorada. Embora sua cidade compartilhasse algumas semelhanças com a metrópole, - principalmente no que dizia respeito à segurança pública, já que Beyson City seguia um caminho semelhante a cidade-irmã, apesar que os criminosos não representassem perigos comparáveis aos de super vilões - a economia local era mais frágil, com baixos índices de renda na maior parte dos setores. Por isso, não era incomum ver um fluxo constante de pessoas deixando a cidade em busca de oportunidades em Gotham, que por outro lado, mesmo com sua fama de cidade sombria e perigosa, oferecia mais possibilidades. Dependendo da região, os salários eram razoáveis, e o custo de vida, embora alto, ainda se mostrava mais acessível do que em outras cidades como Metrópolis, National City, Central City ou até mesmo Star City. Essas cidades, além de naturalmente caras, eram protegidas por defensores lendários, sempre dispostos a enfrentar malfeitores porém, essa proteção tornava o custo da vida urbana ainda mais elevado.
Na cidade natal dela também havia vigilantes que atuavam de forma discreta, mas eram poucos e a maioria era pessoas comuns, tentando fazer o melhor com os poucos recursos que possuíam. Alguns até possuíam habilidades especiais - os denominados meta-humanos -, mas pouco se sabia sobre eles, e eles não eram suficientes para mudar significativamente a situação da cidade, bem como a policia.
Ela havia planejado se mudar para Boston - que não era tão cara quanto as cidades citadas, por não ter super-heróis - caso fosse contratada pelo hospital para o qual havia enviado seu currículo, mas o plano A foi por água abaixo.Mesmo com a irmã insistindo para que tentasse a sorte em outro lugar, não havia muito para onde correr. A caçula acabou encontrando um lugar para morar em Gotham, dividindo um apartamento um pouco afastado do centro com Selina Kyle, que lhe propôs compartilhar as despesas, já que passava a maior parte do tempo fora devido ao seu serviço noturno. Pouco depois de sua chegada em Gotham, Delia também conseguiu uma vaga em outra cidade, no qual aguardava apenas a resposta final.
Apesar de tudo isso, em algum lugar profundo do coração dela ainda ardia uma chama de idealismo - um desejo genuíno de ajudar, de "curar" aqueles que muitos já haviam desistido de tentar salvar.
Ao chegar ao portão do complexo, ela foi recebida pelo olhar implacável de um guarda. Seus olhos estreitos, de um castanho quase negro, a examinaram de cima a baixo como se pudessem arrancar dela qualquer segredo que ousasse esconder.
O homem vestia um uniforme azul-escuro e, como equipamento padrão, carregava um walkie-talkie sobre o ombro esquerdo. No peito, refletida pela fraca iluminação da entrada podia-se ler em seu crachá: Marcus G. Colle.
— Nome completo e motivo da visita. — exigiu ele, sua expressão não trazia traço algum de simpatia.
A Jovem sustentou o olhar dele, ainda que sentisse um frio subir pela espinha. Ajustou discretamente a alça da bolsa no ombro e respondeu com calma.
— Sou a Dra. Harleen Frances Quinzel.— disse, oferecendo um sorriso educado. — Fui contratada pelo diretor Arkham.
Marcus ergueu uma sobrancelha, como se a medisse mais uma vez. O silêncio se prolongou por segundos que pareceram minutos. Só então sua expressão se suavizou, embora o peso do olhar permanecesse.
— Ah, sim. O Dr. Arkham mencionou a chegada de um novo membro da equipe de psiquiatria. — diz ele abrindo o portão, dando-lhe espaço para que ela entrasse — Vou levá-la à recepção.
Sem outra palavra, virou-se para a frente, seguindo o amplo pátio interno que se abria diante deles, até os três conjuntos de blocos interligados que formavam o instituto. As janelas gradeadas refletiam a luz dos postes espalhados pelo pátio, enquanto holofotes das torres de vigia, varriam cada canto do lugar em busca de movimento suspeito. Entraram no saguão principal, que embora mais iluminado, não era acolhedor.
Atrás do balcão da recepção, uma mulher levantou-se. Sua pele escura tinha um brilho suave sob a luz, os cabelos grossos e ondulados estavam presos em um rabo de cavalo alto, com algumas mechas caindo soltas, emoldurando o rosto com uma beleza despretensiosa.
— Dra. Quinzel, certo? — disse a mulher de olhos castanho-escuros e sotaque do Brooklyn, oferecendo um sorriso que destoava da rigidez de todo o restante do lugar.
A loira assentiu, devolvendo o sorriso.
— Posso dar uma olhada na sua bolsa?
Sem hesitar, Harleen a entregou. A agente de segurança, identificada no crachá como Lucille M. Crash, moveu-se com a naturalidade de quem havia feito aquele gesto milhares de vezes. Ela não encontra nada que pudesse causar preocupações, apenas uma carteira, chaves, maquiagem básica, bloco de notas, e algumas canetas.
— Tudo certo aqui. — devolveu a bolsa com um leve baque sobre o balcão. — Mas vou precisar fazer uma revista rápida.
— Tudo bem. Pode prosseguir. — a medica manteve o tom sereno.
— Abra os braços, por favor. E vire-se um pouco de lado.
A jovem obedeceu, erguendo os braços suavemente. Fixou os olhos em um ponto atrás da guarda, mantendo a neutralidade. A agente começou pelos ombros, deslizando as mãos pelos bíceps até os pulsos, sentindo apenas o relevo suave do tecido da camisa vermelha de mangas compridas, justa sob o jaleco branco aberto. Depois, moveu-se pela cintura até os quadris, onde encontrou a calça preta de alfaiataria justa, terminando logo acima dos tornozelos e revelando o contorno da meia-calça escura por baixo. No entanto, ao notar um pequeno volume mais firme no bolso lateral do jaleco, ela ergueu as sobrancelhas.
— Tem algo no bolso?
— Uma barra de chiclete. Mantém minha vontade de doce sob controle. — disse, retirando o pacote e mostrando-o entre os dedos.
Lucille reprimiu um sorriso quase imperceptível e prosseguiu. Continuou a inspeção, abaixando-se para examinar as pernas, passando pelas botas de cano curto. Ao terminar, ergueu-se com um leve suspiro discreto.
— Desculpe a formalidade. — disse, relaxando ligeiramente a postura. Puxou uma prancheta de dentro do balcão; presa a ela, havia uma caneta pronta para uso. — Assine aqui: horário de entrada e confirmação da revista.
— Sem problema. É totalmente compreensível, ainda mais num lugar como este. — diz enquanto assinava os papéis.
— Lucille Crash. — apresentou-se a mulher, estendendo a mão assim que analisou a assinatura e guardou a ficha. — Oito anos aqui. Posso garantir: não é para qualquer um. Muitos não aguentam nem a primeira semana. Se você durar até sexta, já vai estar acima da média.
Ela apertou sua mão com confiança, apesar do leve nervosismo por trás da empolgação.
— Espero superar as expectativas.
Lucille riu, contida. — Bom, passou por mim sem problemas. Já é um ótimo começo. Mas entre nós... — ela se inclinou sobre o balcão, como quem compartilha um segredo. — a maioria dos guardas é bem mais rígida. O Maycon, por exemplo? Teria te fichado só pela goma. E ainda confiscado.
— Estou começando a achar que tive sorte.— Você nem imagina.A agente suspirou e entregou um crachá de identificação a ela.— Aqui está seu passe de acesso. Mantenha-o visível enquanto estiver em serviço.
A garota examinou rapidamente, observando o logotipo estilizadocom a letra "A", antes de pendurá-lo no pescoço.
— Obrigada.
— O Dr. Arkham está ansioso para conhecê-la pessoalmente. Por aqui. — disse a mais velha conduzindo-a até o escritório do diretor.
[...]
Quando chegaram ao sexto e último ano, Lucille parou diante da porta com uma placa de latão onde se lia: “Dr. Jeremiah Arkham”. Ela ergueu a mão e bateu três vezes de forma firme, fez uma breve pausa e, em seguida, deu mais duas batidas rápidas.Podesse ouvir uma voz grave do outro lado da porta, após alguns segundos.
— Por favor, entre!
Lucille girou a maçaneta e empurrou a porta. Uma claridade diferente escapou pelo vão, rompendo a penumbra do corredor. O escritório era espaçoso, surpreendentemente bem iluminado em contraste com o restante do local. A luz branca do teto se destacava contra as estantes de madeira escura, abarrotadas de livros.
Lá dentro, um homem alto, de pele morena, cabelos castanhos médios e barba a fazer, levantou-se assim que a guarda bateu à porta, posicionando-se diante da bagunça “organizada” que era a mesa atrás dele. Seus olhos azuis, intensos e penetrantes, observavam atentamente a recém-contratada.
— Dra. Quinzel, é um prazer conhecê-la pessoalmente. — disse ele, estendendo a mão com um sorriso formal. — Peço desculpas pelo horário... sei que não é o mais convencional.
Harleen avançou com passos confiantes e apertou-lhe a mão com firmeza.— O prazer é meu, doutor. Agradeço pela oportunidade, mesmo em um horário tão incomum.
— Por favor, sente-se. — Arkham gesticulou para uma das cadeiras diante da mesa. Em seguida, recostou-se na beirada do móvel, apoiando os dedos sobre a superfície. — Serei direto, doutora. Somos gratos por tê-la conosco, mas é fundamental que compreenda a seriedade da função que aceitou.
Sua voz soou como um aviso.
— Aqui, não lidamos apenas com transtornos de humor ou problemas de comportamento. Muitos de nossos pacientes são manipuladores natos. E alguns... são brilhantes. Perigosamente brilhantes.
Fez uma pausa, como se pensasse o impacto do que havia acabado de dizer, a baixando os olhos. O silêncio se alongou, denso, até que ele continuou.
— Meu tio, Amadeus, fundou este lugar com a intenção de tratar das pessoas. Uma missão nobre, em teoria. Mas, às vezes, me pergunto... se ele mesmo não precisava de ajuda mais do que qualquer um por aqui.
O comentário pairou no ar. Ela percebeu, sem querer, o rápido movimento de Jeremiah em direção à mesa, onde, entre dezenas de fichas, uma se destacava por estar em aberto, com o carimbo avermelhado: “Dr. Dawson Palmiotti" - Falecido”. Contudo, optou por não comentar.
— Nosso último psiquiatra precisou se afastar por... motivos pessoais. Permanentemente, infelizmente. — escolheu bem as palavras para não alarmá-la, logo antes que pudesse começasse seu trabalho. — Uma grande perda. Ele era excelente. Mas com sua partida... a vaga ficou em aberto.
— E, para ser honesto, você foi a única a se candidatar. — acrescentou, com leve ênfase, sem demonstrar surpresa. — O que não me espanta, dado a... reputação de Arkham.
— Estou ciente da complexidade da instituição, doutor. Ainda assim, estou disposta a seguir em frente. Sei no que estou me metendo. — respondeu convicta. Apesar das histórias que circulavam, ela sabia o que encontraria ali dentro. Era Arkham, afinal de contas. Mas ela não era do tipo que se intimidava facilmente.
— Como conversamos pelo celular, você pode começar imediatamente. Os prontuários dos seus pacientes estão sobre a mesa do seu escritório.
Ele então se virou para a mulher que permanecia em silêncio junto à porta.
— Crash, por favor, acompanhe a Dra. Quinzel até a sala dela.





