A garota tinha um espaço vazio. Que seus amigos não preenchiam. Seus pais não preenchiam. E quem diria que o espaço dela se traria disso?! De fechar bem a boca, atravancar as narinas e a imensidão de liberdade a engolir-te a cara. As mãozinhas finas, as angústias todas, os calabouços dos pais, e os santos todos. São hoje como um sono profundo. Ela desceu metros e metros e metros de mar Sendo a única água as das tuas lágrimas Lágrimas de opressão, de amordaça, de menina que engoliria a última saliva. E nesse momento, nesse ponto. Teu corpo é levado pra destruição mais próxima. Próxima de seu quarto. Pais são o nome da destruição. E ela mergulhou, se afagou nas palavras que assassinaram tudo aquilo que ela já acreditou, tudo aquilo que ela já sonhou. Pra ela, viajar é um estado de espírito. Quer fugir pra só assim se encontrar, se amar, se viver. E o mergulho sim é o orgasmo dos enforcados. Teus suicídios já contavam 17 Esse é o último, ela disse, o maior dos adensamentos. E ela salta Salta sem equipamento, sem sonho, sem apoio, sem oxigênio, sem roupa. A pressão dos pulmões não é mais forte do que as horas sonhando com um mundo hoje destruído por quem ela mais ama. E ela sabe. Sabe que tudo significa uma coisa. Sabe que terá que viver por si. Sabe que talvez se arrependa mas sente necessidade de libertar. E sabe de tantas coisas. Por isso é lágrima, opressão, pólvora, arrependimento. No vão entre os teus pulmões as 7 ligações perdidas de tua mãe. A secura da mente sem sonhos. Um surto na escola envolvendo amizades destruídas. E o ralo do banheiro entupido de cabelo. No vão entre os teus pulmões um mundo. E por isso mesmo o único vão que ela quer sentir. O mundo. Mãe, o mundo é lindo. E ela continua descendo o salto desejado. Calada, e só. Só e por isso mesmo o mais bonito de todo os saltos. Tua pele queima, seu pulmão borbulha e entope o mal da presença deles. E não é mais ela a imensidão. Ela, sua família Ela, seus sonhos Ela, sua faculdade Ela, sua vida. Isso de imensidão nem cabe mais ao nome. A não sei que seja o seu. Liberdade, me puxe de volta. Deus me acuda. Família me apoie. E ela desce. Até um dia chegar ao fundo ou voltar a caminhar. -Brenda Vieira.