Começando as férias
Acordei com Luísa me chamando no espelho de dois sentidos. Ela estava super preocupada e reclamou por eu não ter dado notícias a ela sobre o que aconteceu no ônibus. De fato, eu devia ter dado, então pedi desculpas mas tentei logo mudar de assunto, para não ficar levando bronca.
Luísa achou interessante o que eu descobri sobre a mudança de departamento do motorista. Ela disse que ia falar com Martha sobre isso e me manteria informada. Além disso, ela falou que a repercussão do que eu fiz estava bem positiva para mim.
Como eu ia ficar fora da escola, tive que suspender minha assinatura do Diário Bruxo Brasileiro por um mês. Ia ser estranho um jornal com esse nome chegar todos os dias na casa dos meus pais carregado por um pombo. Assim, acabei pedindo para Luísa me atualizar dos acontecimentos.
É claro que tinha um grande artigo de Cassius falando dos riscos de se ter uma professora trouxa ensinando na Escola. Segundo ele, por sorte, nada aconteceu no “acidente” do ônibus, ou isso teria gerado uma crise terrível, pois os bruxos seriam responsabilizados pela morte de uma trouxa. Mais uma vez, ele pedia que o programa de integração fosse cancelado e os trouxas contratados tivessem suas memórias apagadas e fossem devolvidos ao mundo trouxa.
Apesar da estupidez de Cassius, tinha um artigo de uma jornalista chamada Lúcia de Castro, que era mãe de um dos meninos que estava no ônibus. Lúcia dizia que era muito grata pela presença de uma professora no ônibus, ou o filho dela poderia ter morrido, junto com quase cinquenta colegas. Ela escreveu que não restavam dúvidas de que a política de inclusão de trouxas do Ministério da Magia estava dando certo e ainda recomendou que eu recebesse uma medalha por serviços prestados ao mundo bruxo.
Dei risada quando Luísa contou isso e ela franziu o cenho, dizendo que achava que Lúcia estava certíssima. Bruxos já ganharam medalhas por muito menos que aquilo. Eu ignorei a maluquice dela e nós conversamos mais um pouco, focando na nossa viagem. Fiquei de ver com meu tio Tatá se podíamos passar uns dias na casa dele e Luísa ficou de ver como faríamos com o transporte.
Depois disso, desci para tomar café da manhã. Meus pais me esperavam na cozinha e minha mãe me abraçou como se não me visse há anos.
- Ainda bem que Duda nos dá notícias de você! Se dependesse de você nunca saberíamos nada. Seu celular é inútil?
- Eu já expliquei, mãe… Não tem sinal na região onde eu trabalho. Eu só consigo usar a internet em um lugar específico que tem wifi, mas é meio instável. - Menti um pouquinho só.
Minha mãe ficou fazendo um pouco de drama, mas no fim ficou tudo bem. Meu pai não esquentou tanto quanto ela.
No final de semana, Paulo, meu irmão mais velho, foi almoçar na casa dos meus pais. Ficou um pouco surpreso em me ver, mas não fez nenhum comentário desagradável. Ele e Cecília queriam dar um grande anúncio naquele dia: ela finalmente estava grávida! Meus pais ficaram loucos de alegria e minha mãe começou a fazer planos para um grande almoço de família na semana seguinte. Eu ia adorar ter um sobrinhozinho fofo para apertar quando viesse visitar meus pais! Mas não me animei muito com a ideia do almoço em família.
Duda sugeriu que eu fosse passar uns dias com ela em São Paulo, mas minha mãe ficou toda chorosa e fez chantagem emocional para que eu ficasse em Vitória. Acabei ficando mesmo e fiz várias coisas que tinha planejado nesses dias. Vendi meu computador, já que não o usava mais para nada, fui numa feira de trocas e troquei umas roupas antigas, para dar uma revitalizada no guarda-roupa e planejei um pouco o que faria nas aulas do segundo semestre. Acho que foram dias proveitosos.
Eu falava com Luísa quase todo dia. Meu tio Tatá amou a ideia de nos receber no Pará e Luísa parecia animada para a viagem. Ela conseguiu autorização do Ministério da Magia para que eu viajasse um trecho pela rede de flu, mas eu teria que fazer a ida ou a volta por um transporte trouxa. Aparentemente, era uma grande honra eu poder usar a rede de flu uma vez e acho que só fizeram essa concessão por causa da pressão que estavam sofrendo depois do que aconteceu com o ônibus. Eu sugeri a Luísa que ela viajasse de avião comigo. Ela ficou um pouco assustada, sem confiar muito que era uma coisa segura. Eu dei risada e fiquei enchendo o saco dela, até que ela concordou. Isso seria divertido.
As férias foram passando e a viagem foi se aproximando. Como não deve ser de se espantar, com o sistema insano que temos no Brasil, o voo mais barato que eu achei para Belém saía de São Paulo no dia 19 de julho. Assim, comprei minha passagem e a de Luísa saindo de lá e falei com Duda para passar um ou dois dias na casa dela antes da viagem. Consegui pegar um ônibus para São Paulo no dia 17, o que era ótimo porque significava que eu podia sair um pouquinho mais cedo do almoço de família.
Consegui sobreviver ao almoço, apesar das conversas políticas infernais, cheias de discursos burros, praticamente baseados no que meus tios viam na televisão ou liam em revistas tendenciosas. É impressionante a falta de senso crítico das pessoas. Quase falei que um tio meu se daria muito bem com Cassius, mas segurei a língua. No fim, me controlei bem e não arranjei briga. Depois de comer, dei um tchauzinho a todos, peguei minha mala e fui viajar!











