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Água Doce
A chuva na poça saltava com o salto da bota e colava na barra do seu jeans claro. Sabia que não era para ter saído com essa calça hoje quando viu o tempo feio pela janela. Mas o tempo feio era tão bonito e combinava tanto com tudo que vinha acontecendo que decidiu ir contra todas as previsões, como costumava fazer sempre. Sobre tudo.
O sobretudo vermelho contrastava com o cabelo quase branco e a maquiagem preta escorria um pouco pelo rosto. Tinha planejado dizer que fora a chuva. Era sempre assim, planejava as coisas mais bobas e deixava as que importavam ao acaso. Caso contrário sofria demais por antecipação prevendo tudo sair errado e fora dos conformes. Os planos não serviam para nada, afinal. Mas nunca havia sido um problema planejar desculpas esfarrapadas em que ninguém acreditava mesmo.
Andava rápido e quase caía várias vezes. Se via caindo em todas elas. Cada vez mais pingos escuros na calça e procurava pelas poças mais fundas para ver se a água suja alcançava logo o peito inteiro, vazio.
Essa chuva toda era pela certeza da decepção. Quando se tem certeza da decepção não é de todo certo chamar de decepção, já que decepção é desilusão, e quando se antecede a certeza do incerto não existe ilusão. Mas contra toda a obviedade que pudesse estampar a questão, os passos tinham gosto de chuva que salga a boca com a ilusão prevista que desmorona morro abaixo.
Sempre tivera tanta certeza da decepção que a proximidade do sentimento dava o amargo maior da sensação toda. Procurava alguém que a salvasse de toda essa loucura do mundo. De tudo e todos, começando por ela mesma. Mas qualquer um que simulasse ter o poder de salvá-la era espontaneamente rechaçado para sempre. Talvez fosse inconsciente a procura. Talvez o rechaço. Provavelmente ambos os caminhos e processos fossem conscientes. Fingia não saber se era uma coisa ou outra.
Sempre achara muita coisa insuportável, inclusive as pessoas que acham tudo insuportável. Não é possível suportar alguém que se pense capaz de salvar outro alguém, muito menos neste nosso caso. No auge de seus devaneios, com água doce nos pés e salgada no rosto, sorriu de canto lembrando sozinha que por muitas vezes pensou ser uma versão fracassada do Woody Allen. Não suportava, especialmente, quem se achava meio Woody Allen. Sempre lhe fora doce molhar o peito de ilusão.
Até três
Não sei quem foi que disse que não se sente saudade do que não houve. Não sei nem se alguém disse isso ou se era só o contrário. Eu quase sempre sinto saudade só do que não houve. Sinto saudade do que quero viver ou de como vivi. E o jeito que a gente vive as coisas nunca é como elas são. O tempo é curto, mas passa sempre tão devagar, que nem quando a gente para pra contar. Um... Dois... Dois... Dois... Nem lembro mais como foi mesmo que aconteceu, mas tenho sempre saudade de alguma coisa que encontro no tempo que ficou marcado aqui. Do que mais sinto saudade é das conversas em que a gente descobriu que era tão igual que dava vontade de passar o resto do curto tempo lento juntos e com mais ninguém. E ainda que fosse pro mundo acabar naquela hora, era juntos que a gente tinha que estar. Saudade de quando percebi que a tristeza que tinha batido dois dias antes já não fazia o menor sentido, porque você existia mesmo e era igual a mim, e estava feliz por eu ser igual a você, porque a gente era igual até nisso. E até então eu não gostava do jeito de ninguém mais do que do meu, e não gostava de nada mais do que gostava das coisas que você gostava, porque elas eram as minhas preferidas antes mesmo de eu saber que eram as tuas. Meu pé no teu ombro e a risada de perder o ar. Nada no mundo podia ser melhor que isso, nem mesmo quando a gente parou pra pensar que é claro que não estava sendo exatamente assim e que a gente já ia perceber isso. Não importa. É por isso que tudo vale a pena, se é que vale. As coisas que eu queria ter aprendido. As pessoas que iam me ensinar essas coisas, e as que eu nunca conseguiria aprender. As surpresas pelas quais me preparei e nunca tive. A chance de acabar sabendo que não era bem isso que eu queria. A parede que apoiaria minhas costas soluçando a dor de perceber que a gente nem mesmo tinha se conhecido. As viagens para as quais nunca arrumei as malas. O banco de aeroporto onde nunca tive que dormir. O salgado da lágrima que nunca fez sentido derramar. Às vezes gosto de pensar em como agiria se soubesse que morro logo. Às vezes penso que se nunca mais te visse meu cadáver se arrependeria. Não tenho certeza do quão viva estou, nem de como era teu rosto. Talvez isso fosse amor. Talvez fosse só saudade do que não houve. Vou contar até três e lembrar que nunca te conheci. Talvez o amor fosse a saudade do que não houve. Talvez seja só sono.
Pela Surpresa
- Eu não queria ter te ligado, mas é que tentei pensar em alguém com quem eu quisesse falar e não me veio sequer um nome à cabeça. Nem mesmo o seu. E não tem nada a ver com eu nunca lembrar o nome de ninguém. Eu não queria estar falando nem mesmo com você. Mas não podia me dar ao luxo de não falar com ninguém. Tem esses momentos em que a gente pensa que vai explodir se não falar, mas sabe que depois de falar o maior problema será ter eternizado isso de algum modo no plano das coisas ditas. Às vezes tenho a impressão de que algumas delas nunca chegaram a acontecer de verdade, mas depois de ditas têm o mesmo valor das que aconteceram. Talvez fosse melhor só explodir.
- (...)
- Tenho tido insônia de novo. Não te liguei de madrugada porque sei que você estaria acordada também e começaríamos a falar sobre todas essas coisas. Eu ainda me incomodo com as pessoas que trocam a noite pelo dia e dizem que isso é insônia. Isso não é nada mais que trocar a noite pelo dia. Insônia é dormir no máximo 4 das 24 horas e, apesar de estar sempre moribundo, não conseguir desligar no único momento em que se pode. Insônia é a dor que dá nos olhos depois da que dá n’alma. Não há nada de romântico nisso. Mas talvez haja poesia. Talvez houvesse se (...)
- Eu dormi bem esta noite.
- (...) eu tivesse levantado da cama e escrito algo, pra não ter que falar com ninguém depois. Mas enquanto a melancolia ajuda a criar, a completa desesperança bloqueia. Não lembro quem falou disso primeiro, mas todos devem ter concordado depois. A mínima coisa tem de ir bem... - (...)
- Acendi um cigarro deitado mesmo e imaginei que não seria tão ruim se ele incendiasse tudo... Tomei bastante cuidado para que isso não acontecesse depois de pensar... A ideia de ser assim agora me incomoda... Já não me diverte mais. Eu... eu já não me divirto mais.
- (...)
- Quase nada me diverte mais. Ninguém mais me surpreendeu por mais de uma semana. Mas essa conversa não é sobre isso.
- É... eu ia mesmo te perguntar, mas...
- É sobre o nada, entende? Às vezes não sei nem como paro em pé de tão vazio... Alterno entre a euforia e a decepção e, entre elas, onde passo a maior parte do tempo, não há nada. Mas nada mesmo... A falta de surpresa é tão constante que tenho começado a pensar que a culpa de tudo talvez seja minha mesmo. Mas não daquele jeito que você dizia. Tenho pensado em ir embora dessa cidade, mas todas as cidades estão cheias de gente. As pessoas pensam que sabem, mas talvez só você (...)
- Eu não sei de nada, eu disse muita coisa sem pensar e (...)
- Preciso desligar agora, tenho umas coisas pra entregar ainda de manhã. Vou pedir um café. Você ainda pede para jogarem o seu num copo com gelo? Às vezes eu peço, mas só pela ideia de roubar tua mania. E pela surpresa. Eu sou louco.
- Fica bem. O café tem que ser sem açúcar.
- Você sabe que eu não consigo. A gente se fala!
Feliz Tudo Velho
Os olhos pensam sem parar e o cérebro arde, seco. Um pouco é pelo tempo todo que tenho gastado acordado e outro pouco deve ser pelo muito tempo que tenho passado pensando que deveria pensar melhor. É algum dia de janeiro e por isso todos agem como se algo devesse estar diferente. Cobram isso o tempo todo, mais de você do que delas. Você sabe que nada mudou nos últimos dias. Você teme que nada tenha mudado nas últimas semanas e a ideia de que talvez não tenha mudado há meses te desespera. Talvez dê até pra dizer que nunca muda nada, já que tudo muda o tempo todo, seja março ou julho, e isso não muda. É difícil de explicar, mas não importa, já que quem entenderia entende de qualquer modo. O corte na perna que você ganhou na festa de réveillon, aquela em que se comportou como um idiota, deve ser considerado algo novo na sua vida nova, ou só do ano novo? A gente ainda não tinha dormido, então é como se o dia fosse o mesmo de antes, do mesmo ano. As pessoas celebram o novo enquanto ele ainda é velho e não ameaça o que querem que continue sendo como sempre foi. Dizem “feliz tudo novo” ao mesmo tempo em que repudiam mudanças. É por isso que sinto o que sinto sobre as pessoas. É por isso que às vezes admito ser uma e não ligo tanto se não penso melhor. É por isso que às vezes me permito dormir essa vida de olhos abertos.
Desordem
Se eu te conhecesse só um pouco nem escrevia isso. Mas conheço bem para saber que não vai prestar atenção em nada e que no fim das contas vai entender como bem quiser. Então será como se você mesmo tivesse escrito. Como se estivesse se lendo por mim. Como se se traduzisse nas minhas palavras. Como se passasse pela minha boca, pelos meus dedos, pelo meu peito, pela minha nuca, pelas minhas pernas e por cada poro meu que parou para te escrever isso. Como se passasse pelo meu sangue, se reconhecesse ali e soubesse que já sabia de tudo isso mesmo antes de saber que sabia. Como se escorregasse aqui dentro até um canto qualquer perto dos rins ou dos pulmões e ficasse até me tomar inteira e me fazer sumir. Como se me fizesse sumir e virar você com lembranças minhas. Como se eu virasse você com uma ou outra lembrança de mim em algumas tardes estranhas de estação incerta. Como se minhas pálpebras, plaquetas e pelos sussurrassem de vez em quando, com o vento quente, que um dia você fui eu e que a ordem nunca mais importou.