Essa semana, uma grande amiga me veio com a notícia de que tinha recebido uma proposta de trabalho fora do Rio de Janeiro e queria saber minha opinião, se eu achava que ela deveria aceitar a proposta ou não. Desde que a conheço, ouço-a reclamar da empresa em que está, do chefe grosso, do salário aquém do mercado, da falta de desafios profissionais. Enfim, faz tempo que ela está infeliz. Mas está lá há 3 anos.
Fiquei pensando em como é difícil, pelo menos pra maioria das pessoas, jogar a zona de conforto pro alto e mudar, recomeçar, em qualquer aspecto da vida. Quando encaramos uma possibilidade de mudança, lidamos com dois medos distintos: o medo do novo, do desconhecido, e o medo de se arrepender. No baralho cigano, a carta que representa as grandes transformações tem a imagem de um caixão. Quer algo mais assustador que isso?
O arrependimento diante de uma escolha mal feita sempre vem acompanhado de uma tristeza que pode vir a ser paralisante, se a gente permitir. Tristeza, essa, que é resultado de um luto por tudo aquilo que deixamos pra trás: pais, amigos, amores, bichos, paisagens, lugares, cheiros, etc. E as pessoas tem pavor da tristeza! Em tempos de Facebook, Tinder e outros “supermercados de imagens”, todos querem parecer felizes. É quase um dever mostrar para o mundo que você é feliz e que a vida (e a Dilma!) não vai (vão) te derrubar! As pessoas tem pavor, inclusive, da mera possibilidade de ficarem tristes em algum momento. Por isso, evitam qualquer coisa que possa lhes trazer alguma tristeza. Os amores ficam rasos; os corações, duros; os abraços, gelados; os impulsos alegres e atrevidos morrem antes mesmo de nascerem. E a vida fica sem graça.
Com toda a razão, você pode argumentar que um recomeço nunca é fácil. É preciso ter muita coragem pra encarar um lugar novo, uma casa nova, amigos novos, uma vida inteira nova. Definitivamente, começar outra vez não é para os fracos. Além de todo o medo, sempre haverá críticas e julgamentos sobre a decisão de quem resolveu mudar, mesmo não tendo certeza do que está fazendo. Faz algum tempo, tenho lido diversas matérias sobre pessoas que abandonam suas vidas relativamente confortáveis para viver um sonho ou simplesmente para mudar o rumo. Tudo bem que todas eram histórias bem sucedidas, mas me atrevo a dizer que mesmo aqueles que se decepcionaram em algum momento e tiveram que retornar às suas antigas vidas, com certeza puderam tirar proveito da experiência e aprenderam alguma coisa de muito valiosa pro futuro, mesmo que seja ter um pouco mais de certeza antes de fazer suas escolhas.
A Terapia Centrada na Pessoa, proposta por Carl Rogers, diz que a personalidade que funciona plenamente é uma personalidade em contínuo estado de fluxo, constantemente mutável, que está sujeita a fortes influências do ambiente, mas com uma tendência inerente à autorrealização. Rogers fundamenta sua teoria na crença de que as pessoas são capazes de crescimento, mudança e desenvolvimento pessoal. Pode parecer conversa de terapeuta (e é!), mas o simples fato de acreditar que você consegue, já é meio caminho andado pra que você efetivamente consiga.
A carta do caixão no baralho cigano, apesar da imagem pouco acalentadora, tem um significado bem encorajador: “grandes transformações; o fim de um estágio ou ciclo para o renascimento de outro que gerará muito prazer e contentamento”. O medo é importante, pois nos ensina a agir diante de eventuais perigos. A tristeza também é importante, pois nos mostra como tudo é mais bonito, mais leve, quando conseguimos sacodir a poeira e arriscar dar a volta por cima. A vida é cheia de incertezas. Aliás, costumo dizer que a única certeza que temos na vida é a morte. Mas precisamos seguir em meio às nossas próprias dores e dúvidas para assumir a mudança. Somente assim iremos atrás de um futuro, mesmo que incerto, mas cheio de vida no presente. Então, se joga!
Psicóloga formada pela UFRJ, carioca (que odeia praia e carnaval!), meio canceriana, meio leonina (isso mesmo!), lésbica (graças a Deus!), metida a chef, também formada em Cinema, não quer casar nem ter filhos, mas se derrete toda com “Diário de uma Paixão” (vai entender).