POV: Eu Não Te Conheço
O suor em seu corpo misturava-se com a água que Ziggy jogava sobre ela empapando seus cabelos e aliviando momentaneamente a temperatura de seu corpo que parecia estar sendo assado em uma forno. No porão da cabana da floresta, ou pelo menos é o que havia sido feito para parecer, Ozzy encarava fixamente a pira de prata onde em meio a chamas azuis duas moedas queimavam incandescentes em meio a chiados e gritos de um animal debatendo-se.
"Eu não perguntei o seu nome, Eu não te chamei aqui, Eu não te pedi um pedaço, Eu não te conheço" repetia com a voz rouca quase em um murmúrio, uma lamentação.
Sentada nua no chão, Ozzy já havia perdido a noção de quanto tempo estava ali, mas cada centímetro do seu corpo febril e de seus ossos doloridos parecia lhe dizer que havia horas, talvez dias. Conforme sua filha jogava outro balde de água em sua cabeça entregando o vazio para Vlad que os enchia sem parar na velha bica, seus lábios rachavam-se por conta de uma sede que não ia embora, que não se saciava, mesmo quando Ziggy lhe entregava mais uma garrafa de vidro com enormes pedras de gelo que derretiam ao serem pegadas por Ozzy que sugava o precioso líquido em segundos e colocando-a de volta no chão empurrando ela para que Ziggy recolhesse e enchesse outra vez.
"Mão direita no ventre, a esquerda no peito, Eu abro e fecho os caminhos em mim" repetia com os olhos fixo nas chamas cada vez mais violentas e que se chocavam contra o escudo invisível formado pelas velas pretas e sal ao redor da pira.
Um parte de si perguntava-se se valia realmente a pena passar por toda aquela dor, se valia a pena ter seu corpo cozinhado por dentro, se valia mesmo a pena sentir cada pedacinho de si derretendo entre os poucos minutos que demorava para Ziggy jogar um novo balde de água em seu corpo para aliviar nem que por segundos tudo que sentia. Mas a resposta era a própria bruxinha, Vlad estava certo, não deixaria a memória de um bebê que sequer nasceu atrapalhar o futuro que via pela frente ao lado de sua menina. Mesmo com dor, mesmo sofrendo, iria se livrar daquela maldição.
“Aqueça. Queime. Derreta. Quebre. Aqueça. Queime. Derreta. Quebre" disse por fim vendo as chamas aumentarem de tamanho cada vez mais até explodirem em chamas negras contidas apenas pela barreira previamente feita e apagando-se depois em segundos, a temperatura de todo o porão caindo vários graus de uma vez. As velas apagando-se, Ozzy sentindo o resto de suas forças sendo sugado pelas chamas que partindo levaram consigo ambas as moedas. O corpo relaxando desfalece no chão, a última coisa que a bruxa vê são os olhos preocupados de sua filha e a voz de Vlad ao fundo chamando por seu nome. Antes de apagar de vez, Ozzy sorri.
Ele era Ozzy Merrick! E ninguém brinca com a mente dela.











