"There is no exquisite beauty without some strangeness in the proportion" by Edgar Allan Poe.
Chariot passou a infância e a adolescência em isolamento quase completo do convívio com outras meninas — em parte devido ao ambiente religioso e severo que a cercou desde cedo, mas também por sentir-se um espírito naturalmente deslocado, alheio aos interesses que pareciam mover as demais. A literatura lhe servia de refúgio, porém não a leve e romântica de Austen ou Browning, e sim a densa e sombria de Byron, Mary Shelley, Poe e Lovecraft, onde o desespero e o sublime se entrelaçavam. Mais tarde, encontrou em Emily Brontë, Algernon Blackwood e Sheridan Le Fanu o mesmo fascínio pelo espectral e pelo trágico. Pouco, no entanto, em seu cotidiano, correspondia ao estranho e ao macabro que tanto a atraíam — sobretudo após a morte da mãe, a única que compreendia e incentivava suas inclinações, partindo antes que pudesse testemunhar o florescimento da melancolia da filha. Sua herdeira atormentada.
Por isso, o quão simbólico é que, hoje, tenha ao seu lado mulheres tão fabulosamente inspiradoras também?
Nenhuma que se trate de amizade de anos, nada disso. Na verdade, foram aproximações cunhadas em episódios todos como recentes.
Portanto, esta é uma ode ao que o mundo pode considerar como sendo esquisito, alheio, ultrajante, mas não deixa de ser belo para quem consegue apreciar mais do que somente o que está nas camadas mais superficiais de um ser humano.
A primeira delas tendo sido sua musa absoluta, sua autora contemporânea favorita, @thegorgonwrites. Quer dizer, para uma fã de marca maior de Mary Shelley, era óbvio que Chariot se encantaria pelas produções de Diana, só não contava muito com o fato de que se encantaria por ela; que voltaria a escrever e a redigir cartas imensas pensando na parceira de veraneio, na paixão avassaladora que a consumiu no último verão e, bom, rendeu-lhe um novo pânico de se ver tão apaixonada. Não que o término tenha sido negativo ou violento; apenas necessário, já que enquanto esteve junto de Diana, Chariot esqueceu-se dos aspectos mais básicos de sobrevivência, porque como a boa leitora e poetisa gótica que é, nunca conseguiu separar sua existência do nome que ocupa seu coração quando isso ocorre. De fato, Chariot se apaixonou desde muito antes pela forma como a escrita de Diana pode fazer os corações mais preparados sangrarem e sofrerem, mas ficarem contentes por isso.
@hrrorgrl e @evielynne, por outro lado, lhe ocorreram no Aletheia.
Dahlia sendo conhecida por Chariot de outras ocasiões também, mas nada que tirasse o peso de sua admiração por ela assim que a conheceu presencialmente. Uma aura inspiradora, marcada pelo toque cinematográfico que a acompanha desde a infância, mas, mais do que isso: uma parceira para questões sobrenaturais, uma dupla para suas empreitadas durante a madrugada. Talvez em meio a flertes considerados arriscados, que nunca as levem a lugar algum? Provavelmente. De qualquer forma, Chariot a admira e a contempla com frequência, em silêncio, em meio a algum assunto atravessado e duvidoso que estejam tendo. Sua estrela mirim do horror favorita.
E Evelynne, sua descoberta mais recente, ainda que não tenha sido exatamente uma conhecida dos dias atuais: Chariot conhecia os projetos teatrais dela por conta de outras indicações, de pessoas em comum, mas ao conhecê-la pessoalmente, Chary sentiu, imediatamente, que algum fragmento perdido de sua alma parecia ter sido encontrado sem que ela nem soubesse que estava perdido, já que Evie compreende seus horrores e pânicos noturnos, para além da capacidade de estimular Chariot a continuar sendo extremamente criativa e produtiva no sentido de sua própria arte. A sonhadora dramática que a acolheu desde o primeiro instante.
Caronte, Medusa, Hécate e Phobos.
Há algo de sagrado e de exausto nelas, já que todo mito que ressurge na carne deste novo tempo o faz com fadiga, carregando a lembrança de já ter sido mais do que o humano que lhes resta ser e o peso insuportável de ainda parecer um; peso este que se tornou mais suportável, de fato, agora que se reencontraram neste espaço-tempo, que novamente parece tão próximo do fim.
send 🎄 for our muses to decorate the christmas tree together . / @evielynne
França, dezembro.
Ainda era estranho para si ter sido convidado para uma viagem ou uma estadia sem haver algum contrato de trabalho temporário envolvido ou qualquer segunda intenção que tendia a prendê-lo a uma só pessoa durante sua estadia em um país diferente. Todavia, o convite por parte de Evelynne havia sido muito bem recebido por Ettore, como também estava se sentindo naquela ocasião. Prova disso era a forma como estava desenroscando luzes e usando de sua altura para posicioná-las corretamente na árvore, até o momento em que teve a brilhante ideia de alcançar a câmera que deixara num canto e que o acompanhara desde sua saída de Santorini. — Falta um pouco de decoração dos lados. As bolinhas não vão dar. Vem cá. — Chamou-a, pedindo e orientado algumas poses breves para que as fotos instantâneas fossem reveladas. Uma delas, meio tremida, abandonando um beijo em uma das bochechas da Gauthier, além das outras sorridentes ou risonhas. Uma dualidade interessante, considerando como Evie era tão... Ela e Ettore operava como um quase oposto na maioria das vezes. — Olha só você, com essa cara de supermodelo da Balenciaga. Ainda acho que você deveria ser a estrela do topo.
Já fazia pouco mais de três dias que andava com aquele caderno de anotações, cheio de frases desconexas à primeira vista, mas que se revelavam surpreendentes a cada leitura. O nome da dona estava ali, mas Ettore, enredado pelo conteúdo, adiara a devolução até esgotar sua curiosidade. Agora, com a informação do quarto em mãos, caminhava pelo corredor e sequer precisou bater: a própria proprietária vinha em sua direção. Já a havia notado antes, mas não de tão perto, não com tantos... Detalhes. — Com licença… Isto é seu, não é? — perguntou, erguendo o caderno com a voz baixa, escolhendo as palavras como quem mede o passo antes de avançar. Fitou-a por um instante, e a hesitação pareceu se instalar em seus olhos antes que arriscasse: — Eu… Cheguei a ler uma parte… sobre a peça de Helena. — sSoltou o ar devagar, como se não tivesse certeza se deveria ir adiante, mas ainda havia aquele brilho no olhar de quem não temia muita coisa na vida, bem característico de alguém como Ettore. — Bom… Dizem que guerras como a de Troia começaram por mulheres como você, não é? — Brincou enquanto um sorriso discreto vacilava antes de vir acompanhado de uma risada baixa, genuinamente divertida. Flertar era um movimento comum para Ettore, mas não significava que levaria isso tão adiante: — Sinto muito por ter demorado a devolver. Tentei cuidar ao máximo.
Bastava um olhar mais ou menos atento na direção de Alexander para perceber que ele não era da turma dos apreciadores da arte em sua forma mais pura. Quer dizer, seu tipo de obra consistia em lutas que ele considerava bonitas, golpes e qualquer outra coisa que pudesse contemplar por um bom tempo antes de ver sangue escorrendo ou alguém demonstrando fraqueza. Naqueles últimos dias, entretanto, algo havia chamado profundamente sua atenção: os movimentos em cima daquele palco do qual passara perto em uma madrugada, zanzando inquieto, como sempre. Desde então, estava ali, ocupando o último assento da última fileira, pensando sempre com seus botões em como o roteiro ou o que quer que fosse, soava interessante... Para além da figura que estava diante de si, também, obviamente, já que as mulheres com cabelos pintados tinham um lugar cativo em seu coração. O ponto central era: talvez fosse o local, talvez a presunção do cenário imaginário que não fora consolidado... Mas Alexander estava completamente deslumbrado, como naquele momento, olhando na direção da figura que estava consideravelmente distante de si, enquanto ele próprio se fazia relaxado na poltrona, uma das mãos apoiando o queixo e os olhos azuis vidrados no que testemunhavam.