Coração Traiçoeiro
Capítulo 119 :
ARTHUR
E, se ela me tirou das drogas, as drogas vão me tirar dela.
Ah, preciso chapar mais. Voltar para as profundezas.
Querer essa garota me faz querer ficar limpo.
Faz com que eu me sinta culpado por ter sido fraco.
Não quero sentir culpa, não quero sentir porra nenhuma.
Sentir me faz viver, e tudo o que eu quero é morrer.
* “Se você recebe más notícias, quer se livrar da tristeza/ Cocaína/ Quando seu dia acabou e você quer fugir/ Cocaína.”
LUA
I know this really isn’t you
I know your heart is somewhere else
And I’ll do anything I can
To help you break out of this spell.
— Aly & AJ, “Never Far Behind”*
Nos primeiros dias, vou atrás de Arthur na casa onde aconteceu a festa em que ele me buscou há mais de três meses, no dia em que conversamos a madrugada inteira sobre a dor de perder nossos pais.
Se eu pudesse estabelecer um dia em que tudo começou, seria esse.
Eu já sabia da conexão que a morte havia nos imposto, mas, ao ouvi-lo me contar tão abertamente quanto sofria, nunca mais consegui me libertar dele.
Reconheço Gigante, o amigo dele, abrindo o portão. Então me lembro de que muitas vezes as drogas vinham dali.
— E não é que você veio mesmo? — ele diz, atravessando a rua e vindo até mim, antes que eu possa me mexer.
— Você sabe quem eu sou?
— A mina do Barman. O Thur disse que você viria.
— Ele está aqui?
— Não. Estava. Vazou porque o porra-louca do Lex veio buscar ele. Os dois brigaram. Acho que você sabe.
— Não, eu não sabia. Achei que Lex não tinha encontrado Arthur.
— Briga feia. Tive que separar.
— Eu não sabia.
— É. O Thur está por aí. Deixem o cara ter o tempo dele. Uma hora ele aparece, se dermos sorte.
— Não gosto do tom de lástima que sinto em sua voz. Ele sabe mais do que diz.
— Pode me dizer onde ele está?
— Não. Se você topar com ele, ele vai correr.
Não se aperta alguém com tanta branquinha no sangue. Ou ele corre, ou te bate. Pergunta pro Lex.
O Thur vai querer morrer se te bater, melhor ficar longe.
— Ele nunca me bateria — levanto o queixo, indignada.
Ele ri, coça a cabeça e responde:
— Você não sabe nada do mundo, né? O cara que você conheceu não existe mais.
— Quero que você pare de vender pra ele.
— Abro a bolsa e lhe estendo um maço de notas.
— Pago o dobro ou o triplo para não vender.
— Eu não vendo pro Thur e não vou pegar o seu dinheiro. Guarda essa porra.
— Ele me força a abrir a bolsa e a guardar as notas.
— O Barman salvou minha vida uma vez, não tô louco de acabar com a dele.
Não sou santo, curto a droga, sei o barato que ela dá, mas não quero perder um amigo.
O Thur fica melhor sem ela. A merda é que eu não sei se dá pra sair mais. Gigante me lança um sorriso triste e vejo nele o amigo que Arthur dizia ter.
Ele não parece tão mal como eu pensava.
— O Thur vai encontrar drogas em outro lugar. Já encontrou.
Está na rua e conhece a fonte. Foi mal, mas não rola impedir. Quem quer acha. Está em todo lugar.
— Nunca vou esquecer a tristeza que vejo em seu olhar.
Eu me viro para ir embora. Ana e Mila estão me esperando no carro, a uns dez metros de nós.
— Ei, menina — Gigante me chama e eu paro.
— Vê se fica longe.
Esse lugar não é pra você. Eu respeito o Thur e não vou te fazer nada, mas não é geral. Você é cheia da grana, as pessoas falam.
No estado em que ele tá, é melhor ficar longe, pra segurança de vocês dois e da sua família.
Se vazar que alguém no estado dele tem de onde tirar dinheiro, eles vão atrás de você ou de alguém que você ama.
Estremeço. É tão mais perigoso do que pensei que seria.
Queria que meu pai estivesse vivo, mas, se estivesse, eu nunca teria conhecido Arthur.
Preciso encontrá-lo.
~~--~~
Um mês sem notícias de Arthur. A única vez que ele esteve no apartamento foi logo após a nossa saída para o velório.
Pegou tudo o que precisava e não voltou mais. Continuo aqui, para dar apoio a Lucas, e na esperança de que ele retorne.
Não saio, mal durmo, como pouco. Estar sem ele e preocupada o tempo todo me esgota.
A campainha toca e, sozinha no apartamento, corro para atender. A esperança é horrível.
Meu coração sempre dispara, mesmo sabendo que ele tem chave e não precisaria tocar.
Minha surpresa não poderia ser maior ao ver meu avô do outro lado.
Não deu para esconder essa situação da minha mãe por muito tempo, mas eu esperava que ele não soubesse tão cedo.
— Posso entrar? — ele pergunta suavemente.
Estou tão chocada que não digo nada, só me afasto. Meu avô me abraça.
Encosto a cabeça em seu peito e todo meu autocontrole se esvai em lágrimas.
Quando consigo parar, fecho a porta e me afasto, sentando no sofá.
Dobro as pernas e aperto os joelhos. Sei por que vovô veio e não sei se ele está errado.
— Vocês se superaram em guardar segredo dessa vez — ele diz. Não há raiva em sua voz. Parece cansado e bem triste.
— O Túlio está indignado e muito preocupado com você.
Queria vir comigo, mas nós dois precisamos conversar.
— Quem contou?
— O Bernardo quer largar a universidade e voltar para o Brasil.


















