Dominada pelo Desejo, capítulo 1
- Permitiste alguma vez te deixar levar por um homem cujo único propósito seja o de te dar prazer?
As palavras apareceram na tela do portátil de Lua Blanco. Inspirou, sobressaltada. Fazia menos de três minutos que tinha conhecido esse homem em um chat. Como podia saber ele que era isso o que ela queria? Devia havê-lo intuído ou adivinhado de algum jeito. Não lhe tinha contado nada sobre si mesmo, nenhuma só coisa salvo seu nome e que queria lhe entrevistar para seu programa de televisão à cabo. Mas enquanto ela permanecia em silêncio, aniquilada, ele deixou ao descoberto seus segredos.
-Não quer que um homem olhe em seu interior, que conheça suas mais íntimas fantasias, essas tão escuras que nem sequer conta a seus amigos, e que consiga que se façam realidade?
Lua sentiu que uma quebra de onda de desejo lhe atava no ventre e começaram a suar as suas mãos. Tragou saliva. A silenciosa sala de estar começava a tingir-se com todas as cores do entardecer. Lua se removeu no sofá de couro negro, tentando ignorar esses desejos que lhe rondavam na cabeça. Isto era trabalho. Ele era trabalho. Não era boa idéia perder a cabeça pelo que seria seu próximo entrevistado. Pode que só fora um programa noturno de entrevistas para a televisão por cabo, mas Me Provoque era seu trabalho, sua criação, sua pequena rebelião... sua vida. Além disso, desejar a um homem do que não sabia nem sequer seu verdadeiro nome, ao que jamais tinha visto em pessoa -cujo estilo de vida nem sequer conhecia-, era, simplesmente, uma estupidez.
-Então, Amo A, o que faz um Amo? -Teclou a resposta, decidida a manter uma conversação ligeira. - Converter as fantasias em realidade?
-Algumas -respondeu ele ao fim- Mas isso simplificaria muito a questão. O mais importante é contar com a confiança de seu casal. A confiança é importante em qualquer relação, especialmente em uma que implica Dominação e Submissão. Se esta não existir, como poderia uma mulher entregar-se livremente aos cuidados de um homem sem estar segura de que seu bem-estar e sua segurança sempre serão o primeiro para ele? Como poderia saber que seu Amo a compreenderá até o ponto de fazer realidade cada uma de suas fantasias mais atrevidas?
A dominação era algo mais que atar a alguém à cama para jogar um pó? A surpresa fez que Lua franzisse o cenho. Confiança, segurança, compreensão... tinha que admitir que tudo isso soava como uma fantasia em si mesmo. Era certo que ela tinha sentido falta de todas essas qualidades na relação com seu último namorado, Andrew, em especial, a compreensão.
-A confiança permite que uma mulher conecte com essa parte primitiva de seu ser que implora render-se à misericórdia de seu Amo, sem saber se os planos que este tem para ela implicam prazer, dor, ou ambas as coisas de uma vez
Lua não podia negar que o Amo A (seu nome no chat ) lhe intrigava mais agora que quando um de seus ajudantes de produção, Reggie, tinha-lhe passado sua biografia.Entrando em seu correio eletrônico, abriu o dossiê que lhe tinham proporcionado e o releu de novo.
Ativo praticante de técnicas de dominação e sadomasoquismo durante quase dez anos, o Amo A experimentou todas as facetas, mas continua aprendendo. Possui uma companhia de segurança pessoal e foi guarda-costas de senadores, diplomáticos e esportistas. Graduado no West Point, também emprestou serviço nas Forças Especiais do Exército como chefe de equipe antes de pedir a baixa voluntária.
Lua fechou o correio eletrônico. O parágrafo revelava muito do homem cujas palavras a faziam estremecer com escuras fantasias. Auto-disciplina, honra, coragem. Mas ao mesmo tempo diziam muito pouco dele. Quem era esse tipo? Seria certo que podia atar a uma mulher e jogar com ela até fazê-la implorar?
-Lua?- Seu nome apareceu na tela- Continua aí?
-Sinto muito.Estava pensando. Ao que parece tenho que aprender mais do tema para fazer bem o programa. Suponho que pensei que tudo consistia em ataduras de veludo e algemas.
-Também consiste nisso.
Ela riu, ignorando o desejo que lhe enroscou no ventre... e mais abaixo. Sentir curiosidade não a convertia em uma depravada. É obvio que não. Simplesmente sentia interesse em conhecer os costumes de outras pessoas.
-Mas além disso é um intercâmbio de poder e confiança -teclou ele-. Uma mulher escolhe entregar seu corpo e sua mente a seu Amo. Rende seu corpo e sua liberdade a algo que ele deseje.
Que tipo de rendição? Exigiu saber uma vozinha em seu interior. Milhares de escuras imagens de suas mais íntimas fantasias lhe alagaram a cabeça: ela ajoelhada ante o membro desse desconhecido, ele lhe ordenando que abrisse as pernas para poder examinar a sua vagina, ela atada à cama enquanto ele se dispunha a fazer o que quisesse. Aturdida pelo escandaloso rumo que levavam seus pensamentos, obrigou-se a ignorá-los e inalou com força. Tinha lido que muita gente tinha fantasias de submissão em algum momento de sua vida. As ter era algo normal, não importava o que houvesse dito Andrew.
Lua voltou a remover-se inquieta sobre o sofá de couro, ignorando a umidade que sentia entre as pernas.
-Mas uma relação de submissão consiste em muito mais -escreveu o Amo A-. Como é possível atar a alguém, lhe enfaixar os olhos, deixar às escuras a habitação onde se encontra e ainda assim conservar sua confiança? Como desenvolver uma relação que gratificante quando só uma das partes tem todo o poder?
Exato. O olhar da Lua permaneceu ancorada na tela enquanto esperava que ele escrevesse mais. Durante uma dilatada e silenciosa pausa conteve o fôlego, mas não ocorreu nada. O Amo A não ia revelar nada mais. Supôs que era assim como atuava no dormitório. Que teria a virtude de dar e de não dar. Finalmente, uma larga resposta apareceu na pequena janela do chat.
-Sinto muito, acabo de receber uma chamada urgente. Tenho que ir. Se crê que posso te ajudar com o programa podemos conversar. Responderei-te então a todas as perguntas que queira me fazer. Em um lugar público se o preferir, assim não terá que preocupar-se de que seja um assassino em série tentando te chavecar. Será mais rápido. Sou muito bom dominando, mas não escrevendo a máquina . Ainda teclo com dois dedos.
Lua conteve sua impaciência. Algo não muito difícil quando esse homem a fazia sorrir com suas piadas.
-De acordo -respondeu-. Podemos conversar amanhã às três? estive "googleando"e encontrei um lugar que parece ser bastante popular no Lafayette, chamado A Roux. Conhece?
-Cherrie, sou daqui. Conheço até as gretas das calçadas.
Lua sorriu e teclou:
-Cherrie? Não sou nem o suficientemente alta nem velha para ter sido cantor nos sessenta!
-Jaja. Quer dizer carinho em francês -traduziu ele-. Sou cajún, o francês é meu idioma materno.
Lua leu a resposta e ignorou o leve bater das asas de seu estômago. O flerte era algo muito francês, e ele se criou nessa cultura. Sem dúvida era tão natural para ele como respirar.
- Suponho que vivia em Los Angeles muito tempo. Ficamos então?
-Claro. Como te reconhecerei? Há muitas garotas bonitas na Lousiana. Quero estar seguro de revelar meus mais íntimos segredos à correta.
Lua não duvidava de que seria uma pessoa fascinante. Tinha algo que ver com seu interesse pelos látegos e as cadeias. Não cabia dúvida de que a maioria das mulheres normais sairiam correndo espantadas em direção contrária ao pensar na mais leve dor ou submissão no sexo.
-Levarei um chapéu de palha, óculos de sol, cachecol e um enorme casaco escuro -respondeu.
-Parece como se fosse disfarçada -respondeu o Amo A.
Não tinha nem ideia. Não pensava apregoar aos quatro ventos que tinha um perseguidor. Lua esperava que a razão pela que precisava disfarçar-se fora apanhada logo e começasse a apodrecer-se no inferno.
-Até amanhã -escreveu.
-Au revoir.
Momentos depois apareceu em sua tela a mensagem que anunciava que o Amo A tinha abandonado o chat. Com um suspiro, moveu-se para fechar a janela. Tremia-lhe a mão. Não, tremia-lhe todo o corpo, a pesar do calor que lhe formigava sob a pele. Estava cansada, isso era tudo."O cansaço não te faz sentir dor nesses lugares tão pessoais", burlou-se a vozinha de sua mente. "O cansaço não te molha".
-O cansaço me faz ouvir vozinhas molestas na cabeça -se queixou.
Continua














