É claro que, com dezesseis anos, eu já havia beijado outras garotas na vida. Na verdade, só duas. Uma era minha prima Patrícia. Bem, ela não era minha prima de sangue, pois era adotada. Nosso beijo, entretanto, foi mais uma espécie de caridade que fiz quando ela confessou que era apaixonada por mim. Achei que como éramos parecidos, como tínhamos os mesmos interesses e éramos ambos negligenciados pela sociedade, aquilo poderia dar certo. Mas não consegui corresponder aos seus sentimentos e acabei por perder a sua amizade. E ela ainda espalhou boatos maldosos na minha família - e que fique bem claro, não verdadeiros - sobre meu hálito. Por isso meus primos me batizaram de "boca de esgoto". A outra que beijei foi a irmã mais velha do meu melhor amigo Arthur. Nesse caso, a caridade foi invertida. Mas acho que brincar de salada mista não conta muito.
Sucedeu então que teríamos uma excursão ecológica no colégio. Acordei angustiado naquela manhã. Em qualquer outra ocasião, eu amaria aquele passeio. Já era um assíduo praticante de trekking, pois, assim como minha mãe, eu adorava a natureza, e já havia feito trilha centenas de vezes, apesar de nenhuma delas ser na Floresta da Tijuca. Contudo, passar um dia completo vendo aqueles dois se agarrando seria demais para mim. Pensei em não ir, mas sabia que a visita valia cinquenta por cento da avaliação de ciências e, para o meu embaraço, e deleite do resto da classe, eu era o queridinho da professora - que não era burra, e percebia o meu interesse pela matéria. Por isso, a título de punição, eu era oficialmente a única pessoa a quem Eva se dirigia na classe.
Desci a escada com a mochila preparada nas costas e não avistei meu pai por ali. Lembrei-me que era sábado, dia em que ele religiosamente pescava com seu irmão.
Certamente, Mauro já passara para pegá-lo e miraculosamente não acordei com o barulho do bugre. Minha avó como boa madrugadora que era, já estava sentada na sala, olhando para a televisão desligada. Fazia isso muitas vezes. Com o passar do tempo, deixei-me de perguntar o porque. Sua acompanhante, Doralice, estava passando um café na cozinha e cantarolando uma espécia de hino de igreja. Por causa da idade, minha avó andava muito esquecida - para não dizer esclerosada - e contava as mesmas histórias dezenas de vezes. Narrava os mesmos detalhes e se emocionava nas mesmas pausas quando me contava sobre sua imigração para o Brasil. Jurava que era estrangeira e sobrevivente do Titanic, e não uma paraibana arretada. Certas vezes, ela parava no meio da história e entrava numa espécie de transe esquisito, e eu ficava ali, parado, imaginando se ainda havia alguma coisa por vir. Confesso que por puro constrangimento às vezes eu a evitava por causa disso. Mas isso foi antes de tudo aquilo acontecer, ao que vou lhe narrar mais à frente. Talvez, pensava eu, se ela visse a televisão quando estivesse ligada, tivesse novas histórias para contar. Poderia ser a rainha Elizabeth ou alguma personagem anciã da novela das oito. Tinha ocasiões em que se lembrava de mim, mas percebi que aquele não seria um daqueles dias.
- Quem é você e como entrou na minha casa?- assustou-se a velha Rose, assim que me viu, apontando-me o controle da TV como se fosse uma faca.
Aproximei-me cautelosamente e sentei no braço do sofá. Ela ainda me apontava o objeto.
- Sou eu vovó, Micael, seu neto. O papai já saiu?
- Ainda não vi meu pai hoje- disparou ela, parecendo dar-se conta disso naquele momento.
Eu ri e passei o braço nos ombros dela.
- Não seu pai, vovó, o meu pai, seu filho, Jorge. Ele já saiu?
- Não conheço seu filho- disse-me, em tom de desculpas.
Eu suspirei, desejando que ela pudesse mesmo me trocar de canal.
- Doralice!- berrei eu, já me levantando.- Já estou indo. Diga para o meu pai que volto antes do almoço.
Interrompendo a cantoria, a acompanhante apareceu na porta da cozinha.
- Micael, querido, não vai tomar seu café?
- Nada disso- ralhou ela -, seu pai mandou que eu preparasse um lanchinho reforçado pra você. Disse que faria uma caminhada. Só um minuto.
Ao que parecia, a definição de lanchinho de Doralice acabaria com os problemas de fome na Somália. Ela havia separado dois sanduíches gigantes, uma barra de cereal, uma maçã, duas bananas e uma garrafa de isotônico de uva. Como se não bastasse, jogou um pacote de biscoitos recheados dentro do saco. Fiquei olhando para ela, me sentindo desnutrido. Devido ao estirão de adolescência, eu sabia que ficaria magro, mas aquilo era ligeiramente ofensivo. Porém, antes que eu dissesse alguma coisa, ela virou-me bruscamente de costas e enfiou todo o lanche na minha mochila. Foi me perguntando se não tombaria para trás ou arrumaria uma lordose por causa de peso. Vovó ainda me apontava o controle remoto, de modo que resolvi não contestar nada. Só queria dar o fora dali antes que ela começasse com a história do cruzeiro.