Te ver ir embora sempre foi um inferno, mas te ver voltar era comparado ao paraíso. E foi isso que eu senti quando te vi bater na minha porta: era como se eu estivesse voando. Não existia meio-termo com você, nunca existiu.
Você era quente como o sol ou fria como a neve. Mas naquele dia, na minha cama, em baixo de mim, você estava tão quente, mas não do tipo que queima, você me acolheu. E eu beijei cada parte do seu corpo, conheci todas as suas curvas e contei cada pinta das suas costas. Eu não vou dizer todas as coisas depravadas que fizemos no meu quarto, mas você tinha gosto de minha. E você pareceu gostar dessa ideia, de ser minha, não importava o quanto você negasse; o seu corpo te entregou de um jeito que você nem quis mais esconder. Eu dormi tão entrelaçado em você, com medo de que tudo isso fosse um sonho ou que você escapasse no meio da noite. Eu não era do tipo romântico, Wen, mas falo sério quando digo que você é a pessoa mais cheirosa que já conheci. Ainda que eu já tivesse sentido seu perfume por aí, o seu cheiro é o meu preferido. Antes que meus olhos se fechassem, me lembro de ter te pedido para ficar, e eu não esperava que você fosse me ouvir, mas você fez diferente e ficou.
Quando alguém te fizer voar tão alto assim, você precisa se preparar para a queda. Eu não estava preparado, Wendy, mas eu caí mesmo assim. Eu vou te contar, e ainda que você não acredite em uma palavra que saia da minha boca, nem tudo é o que parece ser, e aquilo que você viu definitivamente não era. Eu achei que, naquela altura do campeonato, você já sabia que não existia ninguém além de você para mim. Com certeza, a escola inteira já sabia. Eu estava me preparando para jogar, quando Jenny apareceu, me puxou para trás da quadra e disse que precisava conversar, e eu lembro exatamente do que disse para ela antes de tudo dar errado:
— Você é uma garota legal, mas não é a garota para mim. Eu já tenho a minha garota.
Ela me olhou com cara de choro, e eu cheguei mais perto para limpar a lágrima e dizer para não chorar. Foi aí que ela me beijou, e você apareceu bem na hora.
Eu acho que, se você tivesse ido embora naquela noite, teria doído menos — para você e para mim. Porque eu sei o quanto aquele ficar da menina que nunca ficava pesou. E quando eu olhei nos teus olhos enquanto me viu com outra garota, foi diferente de tudo que eu já tinha visto. Eu não vi a raiva e o sarcasmo que você carregava tão bem, mas vi algo que eu sempre quis ter visto, só não naquele dia. Eu vi você, realmente você, vulnerável e sem armadura nenhuma. Você me deixou ver, pelos teus olhos, o quanto aquilo te afetou, e não disse nenhuma palavra. Nao precisava. Eu sei que não deveria ter ido quando ela me puxou, sei também que não deveria ter tentado consolá-la, mas eu queria ser alguém melhor. Você tem esse dom terrível de aparecer sempre nas horas erradas. E o resto é tudo que as pessoas já sabem, e você sempre foi tão boa em dizer, mas é a minha vez de explicar.
Eu tentei segurar seu braço e fazer você me ouvir, mas quando te olhei, percebi que nada do que eu fizesse iria adiantar. Eu segurei toda a minha vontade e te deixei ir.
Eu te liguei por dias, lotando sua caixa de mensagens. Eu apareci na tua porta tantas vezes, e você não me atendeu em nenhuma delas. Eu moveria o mundo por você, Wendy. Faria coisas que você nem pode imaginar, mas eu não te deixaria ir embora. Eu não sou altruísta assim, eu nunca fui. E acho que, no fundo, você sabia, porque fez tudo ao seu alcance para me expulsar da sua vida: bloqueou meu número, trocou o caminho que fazia e os lugares que frequentava. Você se esforçou para nunca mais me esbarrar, e eu sei que metade disso era porque finalmente encontrou o motivo que tanto queria para ir embora sem culpa. Eu ainda era um menino idiota, mas te amei como um homem deveria amar.
Você sempre achou que o nosso primeiro reencontro foi naquele supermercado, dois anos depois, mas aquele dia foi só o dia em que eu não aguentei de saudade e te mandei mensagem outra vez. Eu nunca te contei quantas vezes te vi, e o quão difícil foi para mim te encontrar naquele café em Madrid um ano depois. Você não me viu em nenhuma delas, mas eu sempre vi só você.
Você sempre procurou um motivo para ir embora, e eu sempre quis te ver além da sua armadura. Parece que os céus resolveram ouvir nossas preces — não do jeito que eu esperava. Mas, desde quando as coisas saem do jeito que a gente quer? E foi nesse dia que eu entendi: é preciso ter cuidado com o que se pede.
-É sobre você ainda, Wendy.