Episódio 7: Flan - O Gato Zarolho
Mais uma vez, como em tantas outras, não faço puto de ideia do sítio onde estou.
Um quarto, aparentemente de mulher... estou sozinho, dói-me a cabeça e não me consigo lembrar de como aqui vim parar. Claramente foi mais uma saída das duras, mas ainda não consegui perceber se "a noite me correu bem".
Por um lado estou num quarto que não é meu, por outro estou sozinho. Na verdade a minha vida nos últimos 2 anos e meio tem sido assim... Repleta de novos desafios e coisas boas (acordar num quarto de mulher), mas solitário como nunca (estou sozinho neste quarto).
Vou olhando em redor... Édredon rosa, roupa de desporto feminina, umas fotos de uma mulher... Uma mulher muito, muito bonita mesmo... "Que mulherão", pensei. E que me lembra... Lembra-me aquela de quem me quero esquecer... Foda-se! Como é que esta tipa ainda me aparece tanto na memória quando já nem me lembro se o que senti chegou sequer a ser amor, ou se foi apenas obsessão...
Sim! As minhas suspeitas confirmam-se. Estava no quarto de Débora.
Tinha conhecido Débora uns dias antes. Fora-me apresentada por uns amigos e divertimo-nos imenso nessa noite. Noite que acabou com um beijo fugaz.
O seu sorriso era de cortar a respiração e sua silhueta era digna de uma passerelle. Além disso vestia muito bem... Como eu adoro uma mulher que saiba estar na moda, elegante e com classe!!
Débora, além de dizer "na mesma" em vez de "à mesma", algo que marca logo 500 pontos para a minha pessoa, fazia lembrar-me o sol. Não só pelo seu cabelo louro e bem tratado, mas também pela sua energia jovial... E também porque estava sempre com calor! Às vezes faço com cada associação que... enfim!
Tínhamos vindo a encontrar-nos desde então e, ao que parece, tonight must have been the night. Ou então não... Não vejo vestígios de "diversão" em lado nenhum. E além disso se tivesse chegado a vias de facto com uma mulher destas lembrar-me-ia.
Mas onde estaria ela? "Débora..." Disse-o elevando a voz, mas sem gritar. "Oh Débora!!" Ninguém respondeu. "Bem, vou levantar-me", pensei... E foi então que me dei conta... Eu não estava sozinho. Ali a olhar para mim durante todo aquele tempo estava um gato. Mas não era um gato qualquer... Era um gato com um olho apenas... um gato zarolho.
Eu não sou particular fã de gatos. Eles também não gostam de mim e tipicamente fogem assim que me vêem. Mas este era diferente... Ali estava ele a olhar para mim. Parado. Quieto. Fitava-me os olhos como quem me queria dizer alguma coisa e eu não sei porquê parecia saber o que era... "O que procuras?"; "De que estás à espera para seres feliz?"; "Porque não vives o momento e porque estás tão preocupado em encontrar nem sabes o quê de tal modo que as coisas boas passam-te ao lado?"; "O que te falta Brad? És um gajo tão inteligente, cheio de projectos, cheio de pinta, que todos admiram... Cheio de miúdas."; "Olha para mim tão bem que estou mesmo sem um olho. Mas pensas que isso me faz diferença? Ainda me dá mais cenário!!"; " Tu tens tudo meu... Até tens dois olhos!!"
Sacana do gato... tinha-me penetrado directamente na alma e escrutinava-me os pensamentos com a sua retórica felina.
Mas que raios estava eu para ali a pensar?? Os gatos agora têm capacidade de retórica e lêem mentes querem ver?
Olhei mais uma vez em redor e vi uma fotografia do bichano que tinha escrito por baixo "Flan". Então era esse o seu nome... Flan, como o pudim! Gostei do nome. A Débora tinha jeito para dar nome a gatos. Lembro-me de uma vizinha dos meus tempos de infância que não dominava esta arte... Tinha um gato chamado Gonçalo! WTF?
"Bem, vou até à casa-de-banho para me despachar a sair daqui" pensei. E de repente Flan mia e começa a andar e a sair do quarto. Mia de novo, olhando para trás, como que a chamar-me e eu fui atrás dele. Não é que o bicho me guiou precisamente ao WC? Arrepiante!
Lá fiz o meu chichi e lavei a cara enquanto Flan miava e se roçava nas minhas pernas.
Quando me baixei para lhe fazer uma festa esticou a cabeça, ronronou e desapareceu em seguida. Vesti-me e pus-me para fora daquele apartamento.
No caminho para casa liguei à Debora: "Hey... Gostei muito do teu gato Flan!" disse-lhe eu. "Gato quê? Eu não tenho gatos... De que é que estás a falar?"
Um gato zarolho que me lê o pensamento, fala comigo, que me mostra onde é a casa-de-banho... mas que... que não existe????
"Tenho de deixar de beber!"