-Vai dormir até que horas o urso? - minha irmã me sacudiu na cama.
A luz já havia invadido todo o quarto e iluminado a cama já arrumada de minha mãe, que se vestia juntamente com minha irmã.
-Vamos logo filha, temos que ajudar no café da manhã também. - disse, mais animada que ontem. Quase arrastei minha perna para fora da coberta, quando lembrei da atadura e a mantive debaixo do edredom.
-Errr…. joga minha calça? Vou me trocar aqui embaixo mesmo.
Talvez minha mãe achasse que tudo estaria bem naquela casa, que os ares da manhã traziam esperança e minha irmã estivesse afim de explorar tudo por lá… eu não tinha como contar tudo que havia acontecido, elas iriam se sentir ameaçadas também e voltaríamos a zona de guerra.
Tentei andar naturalmente, sem mancar ou andar devagar. Nos encontramos todos na cozinha e Phillip já estava lá.
-Phillip! Nos perdoe, achávamos que poderíamos acordar essa hora e ainda dar tempo de lhe ajudar. Jane demorou pra sair da cama. Ela adora dormir. - desculpo-se minha mãe, ruborescendo.
Phillip olhou pra mim, descendo o olhar pra minha perna e viu que usava uma calça.
-Não se preocupe Mary! Eu acordei mais cedo mesmo… na verdade, eu nem consegui dormir.
Nos entre olhamos, por um momento e ele desviou o olhar.
-Bem, vamos comer então. - Jack se sentou a mesa, ansiosa por um leite quente.
Todos nos sentamos e Phillip sentou-se do lado oposto da mesa. Quando estendeu a mão para pegar o chá, vi que seus punhos estavam roxos e com pequenos cortes.
Um barulho de ferro pesado soou pelo cômodo, chamado a atenção de todos para a porta e Richard apareceu no batente, segurando um machado grande.
Jack ficou encarando-o e minha mãe, querendo quebrar a tensão no ar, levantou.
-O… Olá! Vc deve ser Richard, muito prazer em conhece-lo! Somos as hospedes de Liverpool e estamos temporariamente em sua casa. - apresentou-se minha mãe educada, nem imaginando com o animal que falava.
Richard manteve o olhar nela enquanto se apresentava e depois o desceu pra Jack e parou em mim. Meu machucado doeu pelo arrepio que me subiu por toda a espinha, e escondi minhas mãos que começaram a tremer embaixo da mesa.
Ele deixou o machado encostado na porta, o que me aliviou, e se aproximou da mesa, ainda me encarando, ignorando a existência dos outros. Phillip se levantou quando ele chegou perto da mesa e ficou claro que os dois tinham milímetros de diferença no tamanho, mas nos músculos…
Eles se encararam por um tempo, e o rosto de Richard estava cortado, inchado e vermelho, provavelmente o resultado dos vários socos de ontem. Ele deu um riso debochado na cara do irmão, fingiu estender a mão para pegar algo da mesa, e virou um soco em cheio no rosto de Phillip. Ele caiu no chão na hora.
Eu levantei quase caindo, como que por reflexo, e fui até ele, que tentava se levantar, se apoiando no chão com uma das mãos, a outra no rosto, com o sangue escorrendo entre os dedos.
Provavelmente o soco seco, tinha cortado sua pele.
-Se coloca no seu lugar, seu merda! - disse apontando o dedo na cara dele, e terminando com um chute na barriga.
Phillip levou a outra mão a barriga, agora envergado no chão, quase sem respirar.
-PARA! - eu gritei para ele.
-E vc, é bom ficar esperta… - Richard me encarou com um olhar frio, e saiu, pegando seu machado e batendo com força a porta ao sair fazendo eco.
Minha mãe e minha irmã estavam atônitas, sem conseguir se mexer e só olhavam pra porta, quase tremendo.
Eu tentei ajudar Phillip a se levantar, enquanto ele tentava recuperar o fôlego.
-Tudo bem… eu to bem…. - disse, entre várias puxadas de ar, se afastando do meu toque.
Phillip deu vários murros na parede ao lado, depois de conseguir se levantar se escorando nela.
Eu não consegui fazer nada, apenas fiquei parada, talvez sem entender o que tinha acabado de acontecer.
Ele puxou o bule de chá para um prato e saiu da sala, cambaleando. Ficamos as três paradas ali por uns segundos, mudas.
-Terminem logo e vamos arrumar tudo. - disse minha mae, se sentando e correndo com o café da manhã.
-Saimos das bombas e entramos no manicômio! - jack empurrou o prato.
-O irmão dele que é um maniaco louco! O Phillip… ele nem se defendeu… - disse, sem me sentar novamente na mesa, escorando na cadeira.
-E como poderia Jane? Ele foi nocauteado de surpresa. - disse minha mãe, decorosamente comendo rápido.
-ele ficou olhando vidrado pra vc... O que ele quis dizer com ‘fique esperta’? - perguntou Jack, curiosa.
-Não faço idéia! Eu vi ele pela primeira vez agora como vcs.
-Não precisa então já falar que o cara é um maníaco, talvez ele só estivesse bêbado ou sei la…
Eu fervia por dentro, querendo dizer tudo que ele havia tentado fazer, mas minha mãe já estava com aquele olhar apreensivo de novo que eu conhecia bem.
-Jack… vc viu o que ele fez, certo? - tentei enfatizar o obviu.
-Sim, mas não sabemos o que Phillip fez… talvez ele não seja tão bonzinho e inocente como parece.
Eu admirava meu dom de conseguir ficar quieta quando queria na verdade dizer um monte de coisas e explodir como uma granada, mas eu não queria que pensassem mal de Phillip e pior ainda, pensar que esse soco tinha sido culpa dele, enquanto eu sabia que não.
-Claro que não Jack! Richard provou agora como ‘boas-vindas’ que podemos pensar mal dele, Phillip não! - disse quase gritando, e sai da cozinha com raiva, querendo bater os pés, mas o corte ainda estava dolorido.
-Ei! Não vai ajudar aqui na….
-Deixa ela Jack! Temos que nos dar um tempo, por favor! Já temos problemas suficientes para vcs ficarem brigando ainda. Vai pro quarto ou procurar o que fazer também, eu arrumo isso tudo. - minha mãe já levantava e retirava a mesa.
Jack levantou em um pulo e foi pra parte externa da casa, como eu havia previsto.
Estava subindo as escadas quando ouvi oque minha mãe disse, e ela tinha razão: essa casa, nossa vida, essas famílias estavam problemas, estavam intoxicadas por muitas dores invisíveis.
Subi e fui até o quarto de Phillip. Não sabia exatamente para o que, mas queria dizer qualquer coisa, queria que ele soubesse que eu estava do lado dele, queria saber como ele estava.
Me aproximei do corredor, e agora com a claridade, consegui entender porque ele ouviu tudo ontem a noite: o vazo onde bati a perna e cai, era a dois metros da porta de seu quarto e consegui ver algumas gotas de sangue preto manchando o chão junto com toda a poeira.
-Foi o Richard que saiu batendo a porta? - ouvi uma voz rouca, porém forte, saindo do quarto ao lado de Phillip. A porta estava entre aberta e… bem, ninguém é de ferro né?
-Foi. - ouvi a voz ainda fraca dele respondendo.
O quarto do pai!
-Ele chegou…. como ontem?
-Vc pergunta só para se martirizar não é? Chegou bêbado como sempre pai, e ontem foi…. ainda pior.
-Eu ouvi vcs dois brigando…
-Ele passou de todos os limites! Uma das meninas encontrou com ele no meio do caminho e ele quase…
-Ele tentou…?
-Sim… ele estava tão bêbado que mal deve se lembrar, mas não justifica nada. Quando acordei com ela gritando, acabei batendo ele.
-Ela está bem?
-Sim… elas são bem fortes. Só machucou o joelho por causa do vaso quebrado.
-E porque está sangrando assim se foi vc que bateu nele?
-Até parece que Richard ia deixar de revidar o que fiz estando sóbrio… bêbado ele já não me deixa em paz.
-Phillip, vc tem que ir embora. - o pai disse, sem dor na voz, quase como uma ordem.
-Não começa com isso de novo! Não vou sair daqui, sabe que vc não aguentaria uma viagem pra qualquer lugar.
-Mas não estou dizendo para me levar junto!
Phillip apenas suspirou e tossiu, provavelmente ainda sem recuperar o fôlego totalmente.
-Agora temos as três inglesas também…
-Leve-as junto!
-Pra onde pai? Elas fugiram para se refugiar aqui! Se aqui não pode ser seguro, então do que adianta? - Phillip ficou irritado ao confirmar isso, como se sentisse impotente, mas não quisesse fugir. -Não tem para onde ir. Se sair dos limites dessa casa, vão me vestir com um uniforme e me fazer marchar.
Tudo ficou em silencio, e só ouvi os barulhos de xícara tilintando.
-Acho que já chega de sacrifícios pra essa família Phillip, não coloque sua vida como tributo também. - seu pai tinha uma voz forte, mas ao mesmo tempo, de uma pessoa doente ou mesmo… muito sofrida. Ainda estava parada no batente da porta, escutando a conversa sem me envergonhar de nada, quando Phillip saiu com as coisas da cozinha na mão do nada.
Senti meu rosto pegar fogo quando ele me viu ali encolhida, claramente escutando tudo.
Ele sorriu, provavelmente vendo minha cara de susto e vergonha.
-Tudo bem? - ele riu.
-Eu…. eu não…. é que eu vim porque… la embaixo nem consegui, porque tava todo mundo e eu não disse, mas eu não ia ouvir, é só que eu vi que vc….
-Relaxa Jane. - disse ele, com um sorriso inédito. Meu desconforto pelo menos o divertia. -Não tem problema.
Eu parei de falar, e ele foi caminhando com as coisas do café da manhã na mão. Eu o acompanhei, vendo de canto de olho que alguém dentro do quarto, me observava.
-Não contou para sua mãe não é?
Eu imaginei que ele tivesse notado, e acenei com a cabeça.
-Ela realmente acredita que aqui será um recomeço e se achar que terá que ficar com uma vara a noite toda de vigia no quarto, não será diferente de onde estávamos.
Ele concordou, abaixando a cabeça.
-Vc esta bem?
-Sim…
-Eu digo… do que aconteceu na cozinha... - ele parecia um pouco tonto.
O soco cortou o canto do olho dele, que agora estava com um curativo e uma mancha vermelha.
-Ah! Não foi inédito Jane. Vc ouviu, ele sóbrio ou bêbado, é um idiota irresponsável, já brigamos muitas vezes assim.
Mas eu imagino que Phillip não levava vantagem na maioria das vezes, pelos vários no canto do rosto, no nariz, perto do olho agora...
-Sei…