Escrevo este texto sem saber se vai ficar bom, ou se eu sou boa o suficiente para escrevê-lo. Isso me lembra que gostaria de pelo menos uma vez na vida acordar sem esse medo, essa sensação de que vou ser chamada atenção simplesmente por existir ou que, na verdade, ninguém liga. Existem códigos do meu dia a dia que se tornaram hábitos de sangue. Não digo que nem sinto, porque os sinto sim, causa ansiedade.
Você pode me dizer que quem deve não teme. Eu temo porque já nasci devendo. Nasci devendo uma postura baixa e desmerecedora e vez ou outra, quando ouso sair do script, milhões de deixas me lembram que esse circo já está armado há anos.
Alguns hábitos e atitudes estão cravados em mim como cicatrizes, eu não me lembro de terem me ensinado a não mexer na minha bolsa dentro de uma loja ou evitar movimentos bruscos em lugares monitorados pelas câmeras ou até mesmo que eu simplesmente não posso fazer coisas que pessoas brancas podem. Parece que já nasci sabendo.
Pessoas brancas podem não saber ou se dar conta de que roubar, matar, agredir ou, por exemplo, fumar maconha na rua é crime. Mas eu já nasci sabendo.
A metáfora clichê do dedo na ferida vai bem, comparada à experiência de assistir ao espetáculo branco todo dia e dar por si, parte do movimento. Por isso as cicatrizes não fecham, querem que eu esqueça algo de que me fazem lembrar o tempo inteiro. Não existe possibilidade de estar “certa” nessa história – uma narrativa que mais cedo ou mais tarde eu iria descobrir que não era pra mim.
Acho graça quando falam sobre mania de perseguição como uma hipérbole, quando, na verdade, eu me senti perseguida mesmo a vida toda. Quando não pelos outros, por mim mesma, a cereja do bolo nesse perfeito crime racial.
Conseguir enxergar esse jogo perverso é entrar num labirinto e escolher entre passar a vida toda tentando encontrar a saída ou simplesmente aceitar que ela não existe.
“Fique rico ou morra tentando”.
A essa altura, tenho tentado descobrir como fazer as regras do jogo. São inúmeras as armadilhas e o pior é nem saber se caiu nelas, de pirar o cabeção!
Dentre algumas escolhas apertadas, a que me caiu bem foi apelar pra famosa “personalidade forte”, ser autêntica foi uma das estratégias em que meu existir conseguiu se encaixar. O ser autêntico inspira leveza, mas por aqui tem pesado. Atrás da personagem, existe muita comparação e sentimento de atraso, que vai sendo empurrado aos trancos e barrancos… de que vale?
Eu sou pra frente, mas não tenho energia nem humildade suficiente pra vir puxando o bonde! Sempre quis ser a que puxa o bonde, mas por motivos errados, eu acho, e o meu amadurecer tem me ensinado demais, tem me feito tentar entender pra que vim, nesse processo vou ensaiando cessar esse desejo jovem de que querer tudo.
Cuidar de si já é querer demais. Cuidar de si é ajudar a comunidade a prosperar. Cuidar de si é tudo que não querem que a gente faça. Mas é tanto veneno disfarçado de cuidado que nem sei…
Quero passar pela vida deixando lembranças boas pra quem fica contar, quero contar histórias, definitivamente. Me sinto híbrida, camaleoa, rata, adaptável, flexível e sei que posso atravessar se conseguir canalizar tudo que tenho para furar a existência pró-branquitude e conforme.
Eu quero o poder de sair do tempo cronológico.
Escrevo isso com uma do Bk na cabeça, jurando sempre que não sou do RAP BR, infelizmente.
Mas eu tenho muito o que aprender…
“Esse é o mundo real, onde reis sentem medo
Deuses não aguentam o peso, vontade se perde em desejo
Mas eu sei como o universo funciona, seus motores, seus fios
Seus amores, seus filhos, condutores e conduzidos, ok?”