15.06.2019 - 03:45PM
Às vezes parece um limbo. Toda essa coisa de tentar continuar como se as coisas estivessem bem e isso acaba comigo. Parece que todos os dias há uma máscara no meu rosto, e tudo transcorre exatamente da mesma maneira. Eu gosto de ouvir todos os "muito obrigado, doutor" e todas as palavras de agradecimento quando tudo se resolve ou começa a melhorar, mas quando eu chego na minha casa e olho pro teto do meu quarto, tudo se perde e parece que é um looping infinito de coisas que já conheço. Porque por mais que eu consiga ajudar aos outros, não consigo ajudar a mim mesmo.
O dinheiro, o requinte e nem mesmo a minha carreira bem sucedida preenchem a lacuna vazia, a sensação de que toda a felicidade medicamentosa é artificial. É como se eu estivesse quebrado, ou como se o meu Transtorno Esquivo fosse uma quimera e eu fosse refém de sua bocarra feroz, que aos poucos vai cortando e minando todas as minhas forças ou quaisquer vontades de me aproximar, das pessoas, do mundo, ou de deixar alguém entrar aqui dentro.
Sempre caminho e paro no mesmo lugar, não tenho certeza se algo mudou desde que descobri sobre. Talvez a minha maneira de vestir uma carapuça de infinita mansidão, pra calar os gritos internos. Nada nunca esteve tão caótico aqui dentro. Nada nunca consegue sanar ou me acalmar. Nada. Ninguém e nem coisa alguma. Ao mesmo tempo em que quero findar com ela, eu também estou perfeitamente conformado e confortável com a solidão. Ainda que tenha pessoas a minha volta; Ainda que tenha alguém que demonstre interesse por mim, eu só tenho vontade de ficar sozinho e me embrenhar nas anamneses do trabalho, nas correções de provas e trabalhos ou nas análises infinitas. Sempre das palavras alheias. Parece que não tenho mais o que dizer nas minhas próprias consultas, então deixei de ir nas últimas.
Às vezes tudo que eu quero é gritar, mostrar que toda a minha calma é prelúdio de todo o desespero que eu sinto, de como simplesmente parece que não dá mais. Nada tem mais graça, nem os cigarros amargos suprem o vazio, nem o conhaque embebeda todo o caos que eu me tornei. Só... Não dá mais. E eu sei que eu vou me dilacerando aos poucos, mas há muito eu não continuo com as coisas mais em função de mim mesmo. Tudo sempre foi pelas lavras que eu devo escutar, pelas mentes que eu quero acalmar, e o choro que devo fazer cessar.
O homem é o lobo do homem, e eu sinto que cada vez mais tenho acabado comigo mesmo.













