Universo vazio
O horário de verão dava-me a falsa ilusão de que ainda era noite. Peguei o celular. 6:01. Eu precisava levantar, mas cinco minutinhos não variam diferença. Adormeci. Caminhava tranquilamente pelas trilhas do parque. Estava vazio. Parei as margens de um pequeno lago. Os pássaros cantavam de uma maneira diferente. Comecei s observa-los. Cantarolavam Imperial march e num espaço, acordei. Desliguei meu despertador, era ele quem tocava. 6:17. Eu estava quase atrasada, o ônibus passaria dali meia hora. Corri para o chuveiro e quando vesti-me sob meu corpo ainda resistiam algumas gotas d'água. Abri a geladeira, peguei um iogurte e uma maçã. A mochila já ficava próxima a porta . Eu costumava- me a atrasar. Desci as escadas rapidamente, e com passos longos, cheguei a parada e ônibus. 6:49, na mosca ! O ônibus passaria em breve. Eu tinha trancado a porta? Bem, nada poderia fazer mais, já tinha entrado no ônibus. Tranquei, pensei para me tranquilizar. Abri a mochila para certificar-me de que tudo estava ali. Meu isqueiro ! Tinha o esquecido em cima da mesa. Necessitaria mendigar fogo. Pela janela, passavam universos em forma de pessoas, carregavam cada uma, seus mistérios. O ônibus, algo tão simples, carregavam universos inteiros, alguns prestes a desmoronar , outros esperançosos. Eu amava esse lugar. Era simples, carregado de lutas e mistérios. A Universidade comportava milhares de universos. Ali as pessoas não tinham vergonha, eram quem elas queriam ser. Você faz suas escolhas e sofre suas consequências. 7:59. O anfiteatro estava cheio. O professor chegou pontualmente e logo começou a ministrar sua aula. Minha mente viajava por cada fórmula ali presente. Tudo tão exato, eu tão incógnita. Sai da aula e fui para o submundo do subsolo. Era possível encontrar a si mesmo ali. Aquelas paredes eram boas ouvintes, talvez espectadoras. Nada seria dito. Encontrei um grupo de meninos e logo perguntei se tinham fogo, me estenderam o isqueiro. Acendi meu cigarro. Era como esvaziar-me. A casa tragada, a fumaça prendia tudo o que me tirava o ar e levava para fora do meu corpo. Devolvi o isqueiro e agradeci com um sorriso. Sentei-me a beira de um pista que ficava a alguns metros abaixo dos meus pés. O cigarro queimava e minha mente tentava não pensar em nada. No último trago, alguém sentou ao meu lado. Apaguei o cigarro e o olhei. Pediu-me um cigarro. Abri minha mochila e lhe estendi um cigarro. Nada precisava ser dito, sabíamos como era necessário esvaziar-se.
(eterna-anthrodynia)













