Todo o silêncio fez com que Miller repensasse, estava mesmo fazendo certo em pedir aquilo? Desde quando tudo aconteceu, sua vida parecia milimetricamente calculada, como se um pequeno passo pudesse significar uma mudança gigantesca. E doía, só os deuses sabiam como doía, só de imaginar em pessoas feridas e magoadas por não se lembrar delas, Miller podia sentir o peso sobre si e era cansativo, como se um dia ele simplesmente cedesse a isso e não se levantasse mais. Foi o que aconteceu algumas vezes, quando foi encontrado pelo amigo galerista, quando seu cachorro lhe foi entregue e até mesmo quando as chaves de seu apartamento foram deixadas sobre a cabeceira da cama. Sua mente vazia parecia tão vazio quanto o seu espaço pessoal sem nenhum quadro, não que se lembrasse deles, mas sabia de sua existência e era horrível ver que até mesmo isso foi escondido dele.
E então os chocolates brancos trouxeram uma reação, são meus favoritos, isso acendeu nele um tipo de esperança de acertar mesmo sem saber, essas pequenas e minúsculas vitórias faziam uma diferença enorme para Miller. A mudança milimétrica que parecia gigante para os outros, nesses casos, pesavam como o oposto, onde ele não precisaria carregar o mundo com ele. Mas depois… as batidas de seu coração falharam, ficando mais rápidas e dolorosas, os olhos lacrimejados, o rosto escondido entre suas mãos espalmadas, Miller sentiu o peso ainda maior sobre si e parecia que estava destruindo tudo, até o choque vir como um tipo de soco na boca de estômago.
Cinco palavras, sendo uma delas o seu nome, foram o suficiente para deixa-lo em choque e com os olhos arregalados na direção daquele rapaz. Namorado, aquele garoto de sorriso bonito e olhos claros era o seu namorado, por isso que se parecia com os desenhos que conseguiu ver pela internet daquela conta que não conseguia mais acessar. E não era uma informação do passado, o que era bastante doloroso porque isso significava que os dois ainda namoravam quando a amnésia veio. E parecia ouvir tudo tão distante, chegou a forçar seu ouvido e curvar-se um pouco sobre a mesa para que pudesse ouvir… talvez porque sua mente pareceu entrar em pane, mas ele queria saber… queria ouvir. Palavras chaves foram gravadas: fizeram duas vezes, ele saber o que fazer, perder você desse jeito, doloroso… mas o que realmente fez o garoto erguer o olhar na sua direção foi: Eu tô no inferno sem você, isso pareceu se repetir como um tipo de feitiço.
E agora eram os olhos de Miller que lacrimejavam, mesmo que tivesse escutado todo o resto, não importava, ele parecia alguém importante para a vida daquele rapaz e não podia imaginar o quanto ele estava sofrendo. Recomeçar, essa era a verdadeira palavra chave, no qual anulava e apagava todas as outras. Foi com um susto que sentiu os dedos dele tocarem os seus e afastou, recolhendo os dígitos e formando um pequeno punho fechado sobre o tampo, apesar de seus olhos estarem fixos no rosto dele.
Ele chorava, Miller, não tem sentimento mais sincero do que a dor, certo? E isso pareceu recolher todas as dúvidas que tinha, relaxando sua mão e, aos poucos, voltando a espalma-la sobre a mesa, e quando percebeu que talvez não tivesse mais a chance do toque, segurou a mão dele rapidamente. “Eu estou aqui, não estou? Não precisa chorar…” Não sabia exatamente o porquê de estar dizendo isso a um completo desconhecido, ao menos naquela nova realidade em que vivia. “Uma parte de mim, ao menos…” Sorriu sem jeito, não conseguindo conter a lágrima que deslizou silenciosa sobre sua bochecha, logo sendo seguida por sua irmã e marcando o rosto alvo. “Se já fizemos isso duas vezes, então será fácil fazer isso uma terceira”
Valentin não costumava se arrepender de muita coisa, mesmo quando agia por impulso. Já tinha internalizado que aquela era sua natureza e que precisava viver com ela, abraçar o próprio caos. O que ajudava bastante a lidar com as consequências de seus atos, na maioria das vezes. Era por isso que nunca se importava quando arrumava briga e acabava levando a pior, por exemplo. Mas ao ver os olhos do mais novo arregalados pela surpresa, o estômago revirou em incômodo, pesar. Arrependimento puro e amargo. Sabia que tinha falado demais e em um momento pouco ou zero apropriado para atirar algo como aquilo ao outro. Tinham se encontrado na fila de um café depois de sabe-se lá quanto tempo em que não conseguia decidir se era uma boa ideia ou não ir atrás dele e pronto, já tinha estragado tudo. Parte sua acreditava que talvez fosse melhor assim, que ele levantasse e fosse embora achando que Valentin era maluco e seguisse com sua vida sem o francês nela. Não parecia justo o que fizera e como fizera e aquilo estava começando a corroê-lo por dentro como se fosse ácido. Sequer conseguia olhar para o outro. Por isso acabou baixando os olhos para o tampo da mesa ao que os dedos curtos adentravam nos cabelos pretos, que começavam a desbotar e apontar tons de vermelho aqui e ali, em um gesto completamente exasperado. Chegara a fechar as mãos em punho, puxando o próprio cabelo, repentindo mentalmente o quanto era estúpido.
Então, foi um choque erguer o rosto e ver os olhos alheios marejados. Chegou até a abrir a boca, mas não sabia o que dizer. O que mais podia dizer. Não sabia nem mesmo se deveria continuar falando. O gesto se repetiu mais uma vez, com ele abrindo e fechando a boca sem que nenhum som deixasse seus lábios, até decidir morder o lábio inferior e manter-se quieto, esperar que todas aquelas informações assentassem e ele pudesse tomar uma decisão. Mas, honestamente falando, Valentin estava mesmo começando a achar que era melhor que ele recuasse, que lhe desse as costas, quando foi surpreendido pela mão alheia na sua. Gesto que fizera com que baixasse as íris verdes para as mãos juntas quando apertou-a nem tão gentilmente, como se temesse que ele fosse simplesmente desaparecer a qualquer instante. Precisava de toda confirmação que pudesse ter de que era mesmo real, tato e visão.
É, ele estava lá. Porque era Miller, no fim das contas, aquele que ele conhecia tão bem e sabia que não havia perda de memória que pudesse mudar sua essência. E, por mais que aquele momento o tivesse acreditando que talvez seus sentimentos um pelo outro pudessem ser fortes o suficiente para sobrepor aquele acontecido, via-se ligeiramente preocupado também. Motivo pelo qual soltara aquelarisada chorosa ao que usava a mão livre para recolher as próprias lágrimas. ━━ Tá vendo porque você não pode ficar longe de mim? ━━ Começou, em tom bem mais leve. ━━ Como é que você dá uma garantia dessas para um completo estranho, Deny? Preciso mesmo cuidar de você o tempo todo. ━━ Brincou com ele, oferecendo um sorriso. Valentin queria mesmo trazer a mão dele para perto, beijar os dedos longos. Queria mudar de cadeira, abraçá-lo, afagar os cabelos dele. Queria ir para casa com ele e beijar cada centímetro de pele disponível. Mas parecia ser abusar da sorte. Então, puxou o celular do bolso, novamente usando a mão livre e não ousando soltar a mão do mais novo. Vasculhou a galeria por alguns instantes, atrás das fotos que estivera vendo na noite anterior. Parou em uma que gostava bastante, que era da época do primeiro namoro e empurrou o celular sobre a mesa, na direção do outro. ━━ Meu nome é Valentin Lefèvre Song. Tenho 25 anos e sou pintor e dançarino. Pode me chamar de Tiny, se quiser. ━━ De propósito, Valentin forçou o sotaque francês naquele ponto, em uma tentativa leve de remeter à primeira vez que se apresentara ao outro, mesmo que tenha sido com outras palavras.