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@transtornopoetico
Aqueles dias que pesam.
COPOS PELO CHÃO
Pessoas não são coisas Escadas, camas, deleites Que se sobe, se deita, ou o ralo que se goza Elas não tem preço, não tem prazo de validade Na areia movediça dos Tempos Líquidos Pessoas adornando a vaidade tal qual enfeite Que você cobiça, usa, abusa e testa Ontem desejava tanto, hoje se apaixona e amanhã detesta Afogamentos cotidianos nesse pranto liquefeito Ao bel prazer de mentes calculistas e humores voláteis Pessoas não são coisas esquecidas numa festa Nem tampouco copos descartáveis Sorvidos, servidos, consumidos, depois amassados Largados num balcão qualquer ou pelo caminho Deixados pelo chão das histórias do tanto faz Do desapego adoecido como crença Do roteiro da fria indiferença Feitas invisíveis pelo ego. (J. Victor Fernandes)
CAMINHO
Expecta... Tive e não tenho mais pé no chão é isso passo firme e outros ares para poder voar o que me prendia antes faz meu coração leve de seguir passarinho peito aberto não será gaiola e o que vier se fará caminho. - J. Victor Fernandes.
RECEITA PARA A SEMANA SANTA
Cozinhe seus conceitos em banho maria, reflita calmamente e sinta o preparo Deixe descansar a culpa já reduzida, arranque até o talo o pecado incutido nos valores deturpados e nas falsas aparências É que a coisa cresce e fermenta dentro de nós durante toda a vida e não nos damos conta do que pode nos render Retire a casca e raspe com cuidado as camadas de máscaras, você só precisará do centro de si para essa receita Não se engane, não foram só as carnes bovinas, aves e salsichas, nós também somos carne adulterada Tire seus atos das formas que lhe deram para usar como moldes do ser socialmente aceito Escorra bem suas palavras antes de ter certeza de quem fala por sua boca E lá vai a dica para economizar na hipocrisia: Troque o "eu não como carne vermelha na semana santa" por "eu farei o bem o ano inteiro" - e faça Coma um churrasco se lhe apetecer, mas alimente quem tem fome Importante também experimentar a receita você mesmo antes de oferecer aos outros, prove as sementes de luz, elas são ótimas e auxiliam a equilibrar o organismo Bacalhau norueguês, receita portuguesa, azeite extravirgem italiano, vinho branco californiano, chocolate suíço e o problema é do mundo inteiro O peixe não te fará melhor se a mesma língua que degusta também cospe o fel todos os outros dias do ano Siga a dica e a receita, faça em casa, com a família e com os amigos, aproveite para emagrecer o ego e alimente o Eu invisível de verdadeiro bem estar. - J. Victor Fernandes.
SANTOS ATEUS
Castas, carimbos na certidão Muros, cercas por todos os lados, sobrenomes Direitos fundamentais cerceados Cidades com nome de pobres marias divinizadas, ecos dos milagres de outrora, divisas, fronteiras Festas da padroeira com cachês superfaturados E nessas cidades as ruas tem nome de político, o avô do bisavô da raiz do problema Onde multidões de 'Marias dos Santos' morrem indigentes Cidades comandadas por dinastias com brasões e emblemas Dos currais de quem dá com uma mão, tirando mais que o dobro com a outra Costas marcadas de nascença Chaves antigas dos cárceres da dominação Cotas são migalhas que sequer marcam o caminho Há toneladas do outro lado da balança O lucro majorado em toda diferença Ser gregário, segregado, ser mercado, consumidor e ser consumido enquanto nasce mais mão de obra, nasce e morre mais uma criança São feitos de ideologias os muros dessa prisão O prato vazio é cheio do que sobra Gente feito tijolo, braço feito portão Corda de caranguejo, ninguém foge do balaio E de soslaio vendem farsas a cada eleição E vendem forcas, fardas, fé Facas voando em nossa direção Flechas atiradas para cima Nesse circo, cerco, esterco fétido Espetáculo, o juros da especulação O pão do diabo é gourmet Amassamos nós, amassamos eu e você Todo o mal, serviço fim terceirizado Os fins justificando o meio - ambiente devastado O sangue do messias, safra rara, cabernet Somos nós os leões famintos do coliseu Bebendo o vinho das nossas veias Enchendo os bolsos dos quitutes do bufê Nos sentindo os mais espertos dos seres Viciados em carne de bicho acuado Recitando salmos do livro dos prazeres Matando o deus que haveria de habitar em cada um e se perdeu em outra versão da realidade Natimorto na profecia de renascer Tenho admirado mais a cada dia o testemunho dos santos ateus Daqueles sem maiores filosofias, que servem sopas agnósticas em ruas malditas, entre encruzilhadas cheias de oferendas materiais ao invisível Servem pratos sem planos de governo, creem no resultado do trabalho que às vezes parece invisível, sem outros planos, que sabem que já não damos conta dessa dimensão Creem na barriga cheia, no milagre da sobrevivência cotidiana, no instinto do bem como uma necessidade cidadã e racional Já sabem também do apocalipse de todo santo dia apostólico romano do calendário do Imperador, dito cristão para arrecadar mais impostos. - J. Victor Fernandes.
ESTRANHO
- I - Parei de construir Tijolo por tijolo E arranhava um falso céu Edificando em meus dias tortos Muros, cercas, rodovias imensas No pesar do meu engano Cativo da megalomania Construindo pirâmides Para guardar a morte Dos eternos faraós Deuses antigos do capital. - II - Nada construirei Eu tão degradado Estou em processo de reflorestamento Mudas de essência Da criança que um dia fui Despoluindo as águas Do tanto que rolaram Quando ninguém via As margens - da sanidade Flores, juncos, sapos Outro dia voltaram os pássaros Com sementes de esperança Verdes, tão bonitos, me cochicharam um segredo em "passarinhês" Passei o dia sorrindo Ninguém entendeu nada Como pode alguém sorrir se lá fora o caos impera? - III - Uns dirão de ouvir falar de geração em geração Ficaram todos loucos um dia Parece que uma corda estourou ao meio dia de uma terça Uma epidemia de lucidez Terão também teorias - onde todos foram parar? Historiadores e cientistas intrigados Falsos templos abandonados Estátuas tomadas pelo limo Planos fúteis pelo chão E restos de dinheiro rasgado Um mistério para a posteridade. - IV - Torço que nunca a civilização torne Aos meus tempos de bicho Eu Selvagem, nascido pronto, certo de duvidar, leve em crer Guias locais contam causos para entreter os turistas Desse animal tão estranho e feliz Avistado feito lenda pelos curiosos Que fazem moldes dos passos deixados por aí Seguem ainda a própria sombra, tontos de si, perdidos na cidade que constroem incessantes. - J. Victor Fernandes.
TUDO OU NADA
Há uma profunda solidão na lucidez Despertar que aperta a consciência sobre si Não é necessariamente sair da densidade desse fluido, a percepção do estado de coisas é apenas uma faceta da revelação, é a sensação física do imaterial, é começar a sentir plenamente a atmosfera e o peso de toda essa lama Sair é um percurso, é constante movimento - uns esquecem que acordaram e retomam a ilusão como quem se esforça para retomar o sonho, outros vão pelo instinto da luz da razão, uns com mais sono e outros com menos Tudo se move, até as montanhas caminham Passos na casa do não saber mais nada Casa mal assombrada pelos íntimos fantasmas que nos velam bem de perto numa sala escura Choros secretos são nascimentos no leito da alma Nascer só, morrer só, renascer desnudo De toda a ciência ainda empavonada com a descoberta do fogo, de tudo que lhe disseram que era para ser e tudo que disseram que você era Abrir os olhos e não ser: o vencedor, o perdedor, os títulos, os diplomas, as somas ganhadas e perdidas, a profissão, o novo, o velho, o amigo, o inimigo, o santo, o pecador... Não ser nada com todas as forças recém descobertas Ainda sonolento de quem se é, completamente sozinho do reflexo do mundo de fora para dentro, bicho humano de si, nem fora, nem dentro, em si-consigo Acordar curioso em conhecer um novo conceito de Deus, um Deus despido da tarefa de lhe convencer ou lhe ensinar os segredos do universo Aquele das coisas simples, da poeira exposta no ar pelo raio de sol que transpassa a janela Do espreguiçar do gato no canto da sala, da trepadeira que faz um caminho no muro E se espantar com a incrível força das formigas e a arquitetura do cupinzeiro E não mais conversar com Ele, não xingar o destino que se apresenta, não pedir, não esperar, não agradecer, apenas dividir um respeitoso silêncio atemporal, porque não há uma só palavra que precise ser pensada, tampouco ser dita E escutar a sinfonia, o mantra de todas as coisas sendo sem nós e Conosco, um nada preenchido por tudo. - J. Victor Fernandes.
O CICLO DA PELEJA
O Nordeste é um açude Sangrando esperança Na cheia da força de ser Transbordando poesia Rima rica no olhar Fé é o que resta para se ter Com a imagem do Santo para o céu E uma reza murmurada em canção Mirando a imensidão azul tão profunda Desse sertão, chão ressequido que afunda Promessa de esfolar o joelho O filho nascido José Se chover nascerá o milho São tantos e poucos chegarão A casar com uma Maria E ter um filho Jesus Com a profecia do sacrifício E o pão nosso ausente a cada dia Milagrosamente andar sobre um mar morto E morrer na cruz de pau torto que carrega para nos livrar de todo mal Arando a terra que tem dono secular Sobrenome, cargo, carga hereditária E espera a chuva no conforto da capital Enredo tão batido, como o piso da casinha esquecida e o insistente coração Os mandatários escrevem a sina sertaneja Enriquecem com o ciclo da peleja E chamam cinicamente de destino a própria omissão. - J. Victor Fernandes.
RESPIRE FUNDO
A ansiedade é a vida vibrando no peito sem a causa maior de ser Sem se aperceber de si São as vozes da revolução E o canto da liberdade Mostrando o abismo que nos conduzem Esse é o futuro que perseguimos Corremos até o final para encontrar um poço vazio da prometida felicidade Tendo levado no lombo o pouco esforço de quem veio ao mundo passear em nossas costas Restamos como bichos ofegantes Com a língua desembaraçada entre os dentes Morrendo pelo conto do vigário E lá se vai a vida, rufando nos poros Nas extremidades frias e trêmulas Na vista turva e distorcida Suplicando a todo tempo percepção Para a luz além do caos Este nos prende com a maligna fé Como a porta que esteve sempre aberta da prisão Ocupados demais para o simples girar de uma maçaneta Presos na cartilha social Repetindo a fala dos ancestrais E toda doença hereditária Cativos de nós Ausentes do presente Com o passado nos perseguindo dentro da cela, dentro da célula Respire fundo E exista para inspirar, Um novo mundo. - J. Victor Fernandes.