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ainda está aqui alguém?
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4/6/2018
amanheceu um dia ensopado de chuva. todos os verdes estão carregados de castanho e ao fundo há pedaços de nevoeiro entre os montes. faz muito frio, mas os pássaros chilreiam como se o sol (não faz sol) os inchasse de calor. não parece junho, nem no aspecto, nem na impressão.
tudo parado e encharcado. pardais e galos. seis e nove, uma carrinha de caixa aberta na estrada do cemitério. um gajo brinca com isto mas as palavras são sempre as mesmas. azul, frio, coado, nevoeiro, as copas dos pinheiros a abanar que não, talvez não. que grande porra.
há quase uma semana, e isto é verdade, sete dias consecutivos, que não acordo a pensar na hora de voltar para a cama. a camisola velha que enrolo e entalo entre as portadas e a lindeira para não deixar entrar luz meti-a para lavar e vim-me embora. e isto faltava-me de verdade.
é um pouco amargo perceber que a impetuosidade e o cinismo precisam de medidas rigorosas para não começarem a corroer, não vão lá com quanto-baste ou chávenas de chá. que dizer para me defender? sempre fui dado a amolecer com o cheiro das flores que desabrocham dos grelos velhos.
e isto tudo poderia ser tão mais simples. uma boa biblioteca e umas sacholadas, suponho que a todos ao fim de algum tempo lhes dê para este desejo aborrecido de ir para o campo. e é assim que eu percebo que cresci alheado disto tudo, porque escrevi "ir" e não "voltar." não.
cada um sempre teve um papel bastante delineado e eu quase exigi o meu de ser o que fica a ver os outros trabalhar. o problema foi nunca terem puxado por mim para que me justificasse. ficaram-se pelo enxovalhanço. pobres diabos. e eu a enfardar favas com chouriço sem merecer.
em minha defesa, também nunca dei problemas, nem nunca fiz muitas perguntas. nunca respondi mal, nem me meti nas drogas. e, pelo meio, o meu pai a comentar que leio jornais para intelectuais como se isso fosse razão bastante para ele me ter feito e para eu não fazer nada.
caramba, se a montanha pariu um rato, a serra pariu um inútil. nem me digno a sair de casa para que a minha mãe se possa demorar garbosa no adro da igreja. mais a ironia de uma vez me ter confessado que gostaria de me ver na perfeita obsolescência de padre.
e os meus antigos colegas de escola em bombas de gasolina ou caixas de supermercado. ou em rodas infinitas de cerveja e conversas sobre carros, e o quanto eu gostaria de saborear um complexo de superioridade por ter falhado na cidade quando eles não sabem que eu falhei na cidade.
o quanto eu me estou cagando para as pedradas e para as rasteiras, que tanto quanto me importa podem ser a recordação dum filme italiano ou dum sonho retalhado, de tão longe que isso ficou, e de tão pouco, honestamente, que me inquietou.
aqui não se armam conspirações nem se metem a rodar rumores sem se assumir a devida autoria. aqui têm a decência imemorial de quem se penteia antes de se sentar à mesa, têm o brio de se suicidarem nos barracões a uma sexta-feira.
não me olhem assim. não tenho inveja de vocês, mas reconheço que são vocês que a sabem toda. antes presidente da junta que vice primeiro ministro. o meu seat ibiza era ter um bocado de sossego.
p'arriba. p'abajo. lento. lento.
Code Inconnu, Haneke, 2000
caché, haneke, 2005
this on my tombstone please
e cona?
i only want to truly kill myself when loneliness hits hard
the rest of the time i just want to sleep
Dubai by Aude D.
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