Uma das primeiras pessoas com quem fiz amizade na minha turma da faculdade me enviou um convite para uma festa que tem o objetivo de juntar dinheiro para a sua formatura, que será no meio do ano.
No mesmo momento fui levada por uma enxurrada de pensamentos.
Minha turma está formando e eu não, foi o primeiro deles.
De todas as coisas que tenho evitado pensar, a faculdade é o top 1 delas. Entrei no semestre de 2019/2, estamos agora em 2024/1, o que seria o tempo quase exato para se formar.
Estou plenamente ciente de que não formarei esse ano e de que foi uma "escolha", em prol da minha saúde. Mesmo assim, não consegui deixar de pensar que: Não tenho prazo para me formar ainda. Poderia estar mais perto de me formar se tivesse feito algumas escolhas diferentes.
Pensei muito nas escolhas que não dependiam diretamente da minha condição financeira, como pegar mais matérias enquanto ainda era estagiária, por exemplo, para pelo menos estar num patamar diferente do que estou agora.
Guardei o pensamento sobre ter uma formatura para depois, pois me lembrei imediatamente da minha última festa de formatura, que somente meu pai esteve presente. Não gosto de lembrar da minha festa de formatura.
Pensei também em trabalho. Tenho muito medo de que eventualmente, eu esteja para trás dessas pessoas que começaram a trabalhar muito depois de mim. Não me parece justo.
A amiga que enviou o convite em questão, também é uma comparação forte, já que começamos a trabalhar mais ou menos na mesma época e atualmente ela tem uma melhor condição de flexibildiade/salário/horas de trabalho que eu. Ela parece estar voando, e eu mal consigo juntar dinheiro para comprar algo que preciso sem precisar da ajuda do meu pai.
Tenho medo de não ser promovida no meu emprego atual, e não conseguir nada melhor financeiramente enquanto não estiver formada, tornando a minha escolha quase em vão.
Eu não conseguiria sacrificar mais horas do meu dia para uma faculdade estando em um relacionamento. Sinto que meu corpo não é capaz, ele protesta contra mim. Como fez no último semestre.
Infelizmente, agora que tenho mais horas e disposição para fazer coisas que não são: trabalhar, estudar, organizar a rotina para trabalhar e estudar, não tenho muitos amigos, ou coisa em comum com os que tenho, e imagino que isso seja recorrente entre as pessoas no começo dos 20.
Tenho saído quase sempre que posso e sinto que vale a pena, mas sempre que não vou, me sinto mal, que estou desperdiçando o tempo livre que me resta. Gostaria de sair mais.
Por fim, fui levada também pelo sentimento de rancor, por todas as oportunidades que ela teve/tem e eu jamais terei, um pensamento de "é claro que ela esta formando", que quase justifica eu não estar formando também.
Mas sei que nenhum desses pensamentos é coerente com o que eu vivo e mais uma vez, sei que estou me comparando ao que, para mim, é inconparável. Eu jamais poderia ser aquela pessoa.
Tenho pensado muito que se pudesse dizer somente uma coisa para mim mesma quando criança seria para entender o seu próprio mundo, não tentar seguir o "script" da vida de outros.
Cresci cercada de pessoas com condições financeiras melhores que a minha durante toda a vida, e me lembro de quando criança, dizer para minhas colegas que no próximo ano estudaria na escola particular da cidade, ou, anos depois, que só não estudava lá porque meus pais com certeza preferiam que eu estudasse em escola pública, e não que eles jamais poderiam pagar se quer os materiais de lá.
Cresci cercada de crianças que ganhavam todos os brinquedos que eram lançamentos e roupas que estavam sempre na moda e novas, e muitas vezes justificava para minhas colegas porque tinha ido com uma roupa tão "pobrinha" para a aula de pintura, e que eu levava fruta todos os dias pelo simples fato de ser saudável, quando na verdade meus pais já estavam fazendo um esforço enorme só para me manter ali, pintando.
Na adolescência tudo ficou ainda pior, já que é nessa idade em que somos bombardeados pelas tendências e principalmente pela vaidade. Eu tentava desesperadamente "passar despercebida" sem as roupas de marca e imitações que usava, e ficava radiante quando elogiavam a minha roupa, nunca dizendo onde comprei.
No ensino médio as coisas melhoraram nesse sentido, eu já não me importava muito, e com a ascensão das lojas online, eu gostava do que vestia. Mas eu descobri um novo desbalanço: as oportunidades para ser um estudante.
Somente no ensino médio, eu entendi que a escola particular era muito além de um lugar legal para estudar, com viagens, festas e paredes sempre pintadas. Era também uma outra oportunidade. Ao meu ver, na época, os alunos de escola particular estavam muito mais preparados para o mundo acadêmico, o que poderia ser verdade, e eu já não sentia vergonha por ter menos condições, eu sentia raiva.
Ao final do ensino médio, com o enem, tudo foi se voltando novamente para isso. Eu preciso passar numa federal, não tenho condições de pagar uma particular? Vou conseguir uma bolsa? Será que meus pais vão conseguir pagar? Quais as cidades mais baratas para morar? Não ter dinheiro para um cursinho presencial. Não ter dinheiro para um curso de redação. Não ter dinheiro para viajar com a turma. Não ter dinheiro para a formatura. Não ter dinheiro para as fotos. Não ter dinheiro para a maquiagem.
E mesmo assim, cheguei onde estou agora, cursando design na federal, moranod numa cidade cara. Eu esqueço de tudo isso, e volto à comparação do mesmo jeito. Não deveria estar me comparando a eles, porque nunca estaremos no mesmo lugar, mesmo que eu tente, me mate de estudar e trabalhar, para chegar nesse tal lugar de "igualdade", ele nunca chegará. E olhar para tudo isso, quase me faz esquecer todas as conquistas que tenho, comparando a quem EU sou, de onde EU vim.
Acho que por isso, também, tenho me afastado de muitas pessoas. Eu não quero ser exposta a isso para não pensar em todas essas coisas, já que para mim, é muito difícil não querer a vida dessas pessoas. Querer estar formando, ter melhores condições financeiras e estar "quase lá".
O meu quase lá ainda está muito longe, mas não que seja uma meta única, tenho várias outras no meio do caminho que dizem respeito somente a mim.
Dito tudo isso, espero entender minha jornada e ser grata por ela também, não gostaria de ser infeliz até "chegar lá". Quero ser grata. Afinal, é impossível mudar o passado, mas eu não quero ser infeliz no presente só por que ele não é exatamente o que eu gostaria. Acho que eu não mereço isso.












