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@verbosdiversos-blog
O meu problema é querer pular no abismo quando a cegueira toma conta de mim. Salvar as pessoas pelo incauto que me cerca e afirmar “estou bem” porque elas não sabem o que eu sou e o que se passa comigo. Cansei dessa parafernália de abrir a porta de casa e ser recebido com um beijo quando meus poros clamam por um abraço. Abraço. Quando tornar-se-ão dependência de todos? porque você prefere furar seus pés, seu rosto, seu peito, seu ego, do que abraçar. Você prefere sair da sua casa com seu vestido tão lindo e seu coração tão ínfimo e sujo. Você prefere escutar música do que comê-la. Você prefere ler uma poesia do que pegá-la e enfiá-la dentro de um buraco juntamente contigo. Mas você não entende. Não sabe das dores que acumulei, nem das aflições que engoli. Eu vivo resgatando as pessoas que mal sabem dos resgastes que precisam ser feitos em mim.
Igor Pires
Escutar Caetano, entender que ela não está só na composição, mas na melodia, no último acorde de violão, e no início de tudo. Duas cidades meio quebradas, o céu chorava ralo e tudo é sempre muito quente, mesmo quando o céu chora, tudo é sempre muito quente, abre as janelas, amor, que o vento entra no teu quarto. 32 graus, 18 graus, tô precisando tanto de você, não demora, não demora. Você me faz mais leve que Caetano Veloso às sete da manhã, e tão rebelde quanto Cazuza às nove da noite. Pouca sincronia, toques invisíveis debaixo de lençóis também invisíveis, dar um passo e morrer de medo do próximo, não solta da minha mão que agora a gente só precisa de coragem.
Isabel R.
Levanto às cinco da manhã, já levantei as seis, em outros tempos. Mas essa coisa de crescer, de ser do mundo, nos tira até as horas de sono. A minha mãe levanta comigo e enquanto me arrumo ela prepara o café, deixa a mesa posta e me espera sair. Amor. Da minha casa até o ponto, se eu olhar pra trás enquanto subo o morro, vejo o sol lutar contra o céu dorminhoco pra transformar o cinza em cor. E todo mundo para pra ver, é bonito demais. Os raios mais espertos escapulindo. Pouco a pouco tomando a noite, nascendo o dia. No ponto de ônibus, cada raio que brilha arranca um sorriso. O sol é o primeiro a nos desejar um dia bom, quando ilumina a manhã daqueles que já estão de pé. Amor. A rotina é quase sempre - pra não ser tão pessimista - cansativa. A manhã se arrasta tropeçando no sono. Por volta das onze, a fome começa a gritar. Estresse. O tempo todo. Se eu pudesse teria ido embora a muito. Quando é quase uma da tarde, todo mundo corre, se liberta. Os ônibus lotam outra vez, as panelas tremulam no fogão em todos os lugares da cidade. Se não calarmos a fome, é provável que se instale o caos. Mas aí, nesse corre-corre, vaivém, crianças gritando, mães apressadas, buzinas. Gente demais. Alguém te oferece um doce, uma mensagem. Tem gente vendendo livro, sorvete. Tem o moço da pilha que fica berrando o preço e ninguém para, ninguém compra. Os mendigos esticados, dormindo, doendo. Os poetas tentando divulgar o amor que eles colocaram no papel. Tem quem compre ouro, prata. Uma pastelaria. E essas pessoas sorriem. As que não param com a fome, que ficam lá, aos gritos tentando ser alguém na vida. Tentando ganhá-la, como der. Amor, sem dúvidas. Por alguém que está em casa, por um filho na barriga, marido, mãe ou pai. Amor. Voltando pra casa, vejo casais, crianças. Quem fica em casa a tarde vai ter sono. A maioria volta a trabalhar, ganhar a vida. Algumas crianças vão pra escola, outras para as babás. A chuva cai, de vez em quando e sob cada telhado da cidade dúzias de vidas exalam, se esbarram. Discutem, falam , aprendem. Em todos os cantos do mundo o silêncio é preenchido por um sopro de vida, uma respiração. Pelo barulho dos sapatos, das vozes em confusão. Amor. Depois, é noite. As famílias se encontram, se abraçam. Quem é sozinho se acalma, se ajeita. Nas ruas quem não tem casa procura calor em qualquer canto, qualquer beco. O som da água escorrendo do chuveiro vai pouco a pouco se transformando em silêncio. Alguns resistem. O sol se esconde, escurece. A noite cai. Amor. Quando o dia amanhece, eu me levanto. Recomeça. E aí, me pedem pra não falar de amor. Pra não colocar amor em cada canto do mundo, em cada esquina que dobra. E eu fico aqui me perguntando como. O mundo é puramente amor, só que ninguém vê. Que o amor move a cidade, a rotina. E eu falo de amor o tempo todo. E dizem que amar não é isso. Mas é claro que é. Se prestarmos atenção, vamos ver que amar não é escolha. É necessário. Só que aí, de vez em quando nos esbarramos com alguém que também sabe que o amor está em tudo. E isso nos encanta. Dizemos então que o amor nasceu. Mas não, ele já existia. Ele existe por baixo de cada borrão dos nossos dias.E é sortudo quem encontra. Quem descobre tanto amor em outra pessoa que resolve se entregar. Amor. Tudo é amor nesse mundo. Ou fiquei louca. E ele não acaba. Ele só se vai. Afinal nunca foi nosso. Está no mundo, entende? O mundo é feito de amor. Amar é ser parte do mundo. Quem diz que não pertence ao mundo é porque ainda não descobriu como é que faz pra se amar. Amor. Fiquei louca. Mas eu vejo amor no mundo, em tudo. E eu falo de amor o tempo todo. Desse amor que não é meu, mas que me cerca e me sente. E é disso que o mundo é feito. Amor.
Brenda Viegas
Se as placas tectônicas se movessem o bastante, quem sabe a Terra não seria um globo, mas uma pinta que se leva na pele, e ama. Um conjunto de manchas apontando a direção. Norte. Em frente. “Continue”. Dizem que uma hora os terremotos se acentuam e tudo junta, mas temo que em algum minuto eu confunda meus tremores com o peso dos seus passos. Eu não deveria estar aqui, e por algum motivo, divino, demoníaco ou humano, estou. Olhando pela janela, amantes se despedindo, amigos se desmontando e desconhecidos se procurando numa sede faminta que mete medo. Tento fechar os trincos, me tranco e não escapulo. Por algum ponto e pólo e linha do meridiano, os tempos se convergem. Quem sabe quando a África e a América se unirem novamente, o solo se envergonhe tanto que me dá teu chão.
Agora: estou bem nos meus buracos. Ainda: estou bem, nos meus buracos.
g.f.c.