Aqui, agora, Sirsasanas e trinta anos de idade
Procuro me lembrar da brevidade das coisas para encontrar sossego. A mente não para, também não param a língua dentro da boca, os dentes travados, os movimentos fantasmas da mandíbula, o sangue profundo. Nada para e ao mesmo tempo é preciso impor limite: volto à força para o agora, desengancho os dedos do pensamento, viro montanha. Com os olhos acompanho meu gato dolorosamente livre de obrigações e invejo essa existência que flutua ao meu lado e ainda me parece tão distante. Me anestesio com uma ou outra coisa, Dream a Little Dream of Me, rolagens infinitas, posturas desafiadoras de ioga, exercícios físicos rigorosos, me cutuco com mil agulhinhas afiadas para deixar de sentir. Sei que mergulhar em mim mesma é uma viagem de mão única, e a verdade é que abandonar de vez a própria órbita exige uma maturidade que ainda não sei se atingi. E, se atingi, me falta aquele impulso definitivo, aquela mãozinha que vai me fazer flutuar indefinidamente, cada vez mais longe das bordas. Mas tento. Procuro ser firme, abraço a obstinação, sempre fui determinada: arrisco um pé, volto, arrisco o outro, abro um sorriso para meu próprio reflexo oscilante, imenso e brincalhão, acabo emocionada com a ideia fixa de viajar.
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