devaneios para serem lidos futuramente por mim
hoje tô ouvindo emílio santiago porque lembra minha infância e minha mãe ouvindo aquele cd que tinha ele e a alcione todo fim de semana. queria muito voltar pra casa, pro colo dela, pra cozinha que tá sempre cheirando algo muito bom, com o forno ligado e onde minha criatividade não precisa ter limite.
nos últimos dias tenho sentido que vivo um delírio, sinto que desde sexta sou uma mulher diferente, mais bonita aos meus olhos, mais perdida após passar muito tempo sozinha e em contato com a minha própria mente. mais bagunçada depois de perceber que aquela guria estava certa: ser negra implica não errar. e eu poderia completar a frase dela: e se/quando erramos não temos direito ao perdão, a segundas chances. a ligação que eu recebi essa semana foi uma confirmação daquelas.
eu queria que não fosse verdade, mas nunca tive a chance de ser amada além da segunda página. algo acontece e todas as mulheres desaparecem. dói demais. lidar com a realidade, com a verdade, dói demais.
quando a gabriela falou num post que tinha acordado mal por saber que algo estava derrotando ela e que era um dano psicológico tão profundo causado pelo racismo (e eu adicionaria aqui a colonialidade) eu só consegui balançar a cabeça e torcer pra que ela soubesse que mesmo a distância eu concordava.
a existência de um sistema tão cruel e que se mantém forte até os dias de hoje, capaz de tirar o direito a felicidade dos meus e tantos outros me apavora e sinto que aos poucos me enlouquece.
ainda hoje vi que a yasmin compartilhou um texto da camila costa, fazia muito tempo que eu não a lia e ela falou do medo, que admitiu para si mesma o medo que sente, medo do que está se tornando, do que já se tornou e eu nem consegui reblogar porque me identifiquei tanto, porque eu sinto que tem uma coisa tão obscura dentro de mim que grita pra sair e que se sair eu não sei onde vou parar, que eu me recusava a compartilhar aquilo.
já sei que não foi a escolha certa.
hoje me sinto quase satisfeita com a imagem que reflete no espelho, me vejo, fico satisfeita em saber que sou capaz de me enxergar, evitando o filtro turvo e que sempre fez odiar o reflexo, mas essa descoberta externa contribui todo santo dia pra que eu enxergue o que significo mentalmente pra mim, que tô perdendo o controle, minhas responsabilidades e não sei para onde serei levada.