O barulho do silêncio:
Hoje penso muito no luto que o meu pai carregou em silêncio.
Na época em que a minha mãe partiu, eu era apenas uma criança. Não entendia a dimensão da morte, não compreendia o peso da ausência, nem sabia nomear aquela dor. Ninguém me explicou verdadeiramente o que tinha acontecido, mas eu sabia que ela tinha morrido… e isso era tudo o que eu conseguia alcançar.
Eu não sentia a falta dela da forma como sinto hoje a falta dele, porque o meu pai cobria todos os espaços vazios. Ele conseguiu, de alguma forma, ser pai e mãe ao mesmo tempo. A presença dele era tão grande que amparava a casa inteira, e nós, crianças, continuávamos a viver sem perceber o tamanho da ferida que ele carregava dentro de si.
Hoje, depois de conhecer a dor da perda com a partida dele, consigo finalmente imaginar um pouco do sofrimento que viveu. Consigo entender o que significa acordar todos os dias com alguém em falta. Consigo entender o peso de continuar por causa dos filhos, mesmo quando o coração está quebrado.
Li a história de alguém que perdeu a esposa e ficou sozinho com o filho. Chorei muito, porque em cada linha eu via o meu pai. Vi o esforço dele para continuar, vi as pessoas ao redor tentando ajudá-lo, vi a solidão escondida atrás da coragem. Lembrei-me de quando ele ficou doente e a minha tia fez uma panela enorme de sopa para ele. Eu era pequena, mas sabia que algo não estava certo. Sabia, de alguma forma, que era a mamã quem devia estar ali a cuidar dele. Mas nós já não a tínhamos.
Hoje pergunto-me como terá sido para ele. Quão pesado terá sido continuar? Quanta força precisou reunir para não desabar diante de nós? Quanto chorou em silêncio para que nós pudéssemos sorrir?
Pai, perdoa-me por não ter percebido a tua dor. Perdoa-me por não ter sabido ajudar-te a carregar o luto da mamã. Eu era apenas uma criança… e tu amaste-nos tanto que escondeste muito bem a tua tristeza.
Agora que conheço esta dor, amo-te ainda mais. E sofro por saber tudo o que passaste sozinho.











