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não é orgulho, nem egocentrismo; ninguém pode te condenar por fazer o que é melhor pra você.
“If you love me, don’t let go”
Céu Laranja
Eu me lembro do céu laranja,da sua imagem queimando meus olhos,porque você sabe que sua voz me deixa em chamas,eu te dou minha alma,nos trens de São Paulo,eu encontro a luz mas linda que vi.
E toda vez que te digo que vamos dominar o mundo,todo de mal em mim para doer.
O sol vai nascer,e minha porta vai abrir,pra que você pegue aquele maldito ônibus.
Nós somos o romance mais lindo que já vi,nao voltamos atrás, você vai precisar de mais,porque sabemos onde ir,o que vive aqui nunca vai morrer.
querida moça da mesa 7, estou te observando a um tempo.
a melancolia que escorre de você tocou meus pés e eu não pude evitar reparar em teus olhos céticos e na emoção insondável que lhe desenha o rosto e ergue muros ao seu redor.
mas eu posso ver através das rachaduras.
eu vejo a ansiedade presa na tua mandíbula. eu vejo a fadiga dos dias na tua postura desacreditada. e eu quase posso ouvir as lamentações que você carrega nos lábios.
e a esse ponto, eu não sou capaz de parar de te olhar.
há algo de extremamente charmoso no modo como as linhas se formam na sua testa enquanto você entrega sua concentração ao centro dos seus pensamentos conturbados. você transporta uma espécie de vulnerabilidade refinada. dessas que instigam o aprofundamento de quem te olha a superfície.
caramba, eu penso, como podem ser bonitos os momentos de fragilidade.
agora você me encara por baixo dos cílios compridos, mas você não me vê. olha apenas para o lado de dentro. tão recolhida em seu interior que os músculos do seu rosto mal se movem. me sinto ligeiramente satisfeita por seus olhos acharem que eu seria um bom lugar pra ancorar.
e eis o momento em que nossos olhares se descobrem.
mas só eu estou presente nesse encontro.
aqui, onde nossos tempos se deitam sob a mesma atmosfera ruidosa, e o espaço que nos separa é o mesmo que nos une.
se estivéssemos em um filme eu provavelmente me levantaria e iria até sua mesa, iniciaríamos uma conversa qualquer e até o final da noite eu já teria desvendado cada desvanecer que te compõe. mas essa é a vida real, distante do desembaraço da dramaturgia. então aqui eu permaneço, com as palavras presas no céu da boca e as perguntas que não chegam à língua.
que barulho o teu silêncio carrega?
você olha pra trás fitando a rua a espera de algo que não tem intenção de chegar.
quem te inflamou o peito, moça?
quem teve a audácia de te tocar com dedos sujos?
qual o endereço da tua dor?
em que espera você estacionou?
que falta você chora?
pra onde você foi enquanto estava aqui?
Feminino XY
Meu corpo é elemento
físico, químico e biológico
átomos, células e energia
excitação, pulsação e sinergia
sangue correndo por veias e artérias
Mas ainda assim sou banalizada
delicada e delgada
fina, frágil e grácil
Porque meu corpo ainda não e como a do macho
cujo é desencorajado a exercer feminilidade
Porque ser macho é sagrado
então cabe a mim ser hospedeira
habitar em mim o ser macho
porque sangro entre minhas pernas
sou útero, seios e ovários
mocinha, consorte, esposa e dona
O que me faz mulher
me faz desprotegida
vulnerável frente ao machismo
impedida até de amar outra mulher
não cabe a mim a escolhe de gerar em mim outro ser
nem proporcionar meu proprio prazer
Apenas por ser mulher
o desânimo tem manchado minha epiderme, tem pixado com rancor os quatro cantos do meu coração.
me sinto farto, com o mundo sob as costas, sem ter onde se refugiar.
estou completamente encurralado,
sem ar.