american youth // mitchell&felix
@voudxtaxi
Encarou o teto de seu quarto pelo que parecia ser a milésima vez naqueles dez minutos e soltou um suspiro frustrado. Depois de uma vida toda vivendo ali, mesmo a cidade que nunca dorme podia tornar-se lar de uma forma muito particular de profundo marasmo. New York era diversa, mutável, mas tamanha diversidade não impedia que certas coisas tomassem padrão, caíssem no hábito, as cores vibrantes da cidade por vezes tornando-se cansativas aos olhos. Ou seria frustração pela vida tão medíocre que conhecia ali? O desencantamento com as oportunidades que as pessoas juravam existir em uma cidade daquele porte — o desencantamento com as oportunidades do mundo, com o mundo por si próprio? Ele não era nem psicólogo nem poeta para definir. Em verdade, distanciava-se bastante de ambos, em sua concepção.
Estava cansado de rondar por sites de emprego, sem cabeça pra estudar alguma coisa ou trabalhar nos próprios projetos que tinha começado, e tinha café demais em seu organismo para dormir. Podia permitir-se fazer algo por lazer, ele supunha. Mas o quê, especificamente? Decerto, se saísse por aí pela cidade, encontraria alguma coisa até que interessante. No entanto, não era ideia muito cativante, ficar zanzando à espera da sorte. Precisava se distrair um pouco, e de alguma companhia para ajudar, para chamar sem motivo aparente. “Hey, tá tudo uma droga, quer sair pra falar sobre isso e comer algo que dê por 10 dólares no máximo?”
Bem… ele já tinha dito isso pra alguém, não tinha? Pegou o celular e abriu o contato dela, rapidamente enviando-lhe sucessivas mensagens.
[text]: ei, fee, quer sair?
[text]: comprar uns burritos
[text]: se você não responder em 5 minutos, vou cortar relações
Encarar a parede nunca havia sido tão entediante como naquele dia em especial. Seus costumeiros amigos não estavam em casa e Felix não havia prestado atenção aonde eles iriam, acreditando que seria algo chato, como normalmente era. Não podia tocar a campainha ao lado, já que seu vizinho e filha dele deviam estar no décimo sono. O tédio apenas crescia na mente de Felix fazendo com que ligasse e desligasse a televisão o tempo todo, assim como ignorava a maioria das mensagens que se acumulavam em seus aplicativos de bate-papo e as postagens cotidianas e desinteressantes no Facebook não surtiam efeito em Felicity. Nova Iorque era a cidade que nunca dormia. Tinha um número suficiente de restaurantes para se comer por cinquenta e cinco anos sem nunca repetir e, mesmo assim, a morena estava muito entediada.
Decidiu fazer seu jantar, ou melhor, requintar algo que Henry havia deixado para ela comer aquela noite. Agradecia por seu amigo ser tão preocupado com sua alimentação, porque se fosse por ela só comeria fast food e comida mexicana. Enquanto procurava uma panela que servisse para o seu jantar, escutou o barulho de mensagens e olhou para a celular desinteressada torcendo para não ser mais de uma capivara em cima de um Goku pedindo sorte para algo banal. Para sua felicidade, era o oposto disso. Um convite para comer burritos, era tudo o que King precisava naquele momento. Prontamente digitou a mensagem enquanto seguia para o seu quarto a fim de trocar de roupa, já que pijamas de patinhos não era a melhor opção.
[text] vamos sim!
[text] vou esperar perto da loja de cds, que eu te falei mais cedo, em dez minutos, ok?
[text] você precisa provar os burritos da barraquinha que abriu ali perto.
















