Quantas surpresas você quiser aceitar: um dia que começou bem e terminou ainda melhor.
A começar que resolvemos ir de bicicleta, saindo de Central London para Shoreditch (East London). Andar de bicicleta em uma metrópole não é das tarefas mais fáceis, mas se torna incrivelmente mais agradável quando veículos motorizados respeitam ciclistas, além de ser um ótimo passeio num dia ensolarado e um meio de transporte alternativo incrível numa cidade majoritariamente plana - por 2 libras você tem direito a 24 horas de aluguel de uma bicicleta com estações espalhadas por diversos pontos da cidade (https://www.tfl.gov.uk/modes/cycling/barclays-cycle-hire?cid=fs008).
Demoramos alguns minutos para encontrar nosso destino final - 388, Old Street, Ziferblat -, que fica uma andar acima, sem nenhuma placa muito chamativa. O que era um café na verdade é uma espécie de “rede social na vida real” (Social network in real life), e que de russo só tem o nome. Trata-se de um lugar onde tempo é dinheiro, literalmente; um dos poucos em que cada minuto tem valor determinado, neste caso 5p (o que seriam mais ou menos R$0,20), e onde o tempo parece voar mais do que nunca. O espaço é uma sala enorme com diversas mesas, cadeiras e até um piano, além de uma cozinha azul muito charmosa onde você pode fazer/comer/levar o que quiser. Você paga pelo tempo que fica lá e pode usar o espaço como quiser contanto que respeite as outras pessoas. Também estão disponíveis alguns livros, dvds, jogos e até uma “mesa” de ping pong. Uma das coisas mais encantadoras no entanto, não é uma coisa, mas sim as pessoas. Ao chegar lá somos recebidos com enormes sorrisos que em poucos minutos nos fazem nos sentir em casa com velhos amigos.
Pois bem, eu poderia continuar com uma minuciosa descrição de cada detalhe, mas continuemos com a ordem dos acontecimentos do dia - separadas agora em 2 partes:
Encontramos os amigos da Mila e passamos lá quase 3 horas entre chás, cafés e conversas. O cappuccino da vez ficou por conta de um deles, Sai, que para surpresa geral manipulou perfeitamente a máquina de expresso e me serviu o que, até agora, foi o melhor cappuccino, comprovado pela Mila também que nem é tão chegada a café.
Lá pelas tantas, descobri um esquema de “trabalho voluntário” do lugar, no qual você ajuda na manutenção do espaço e a receber as pessoas e em troca recebe o tempo em dobro para usar lá quando quiser.
Naquele mesmo dia, aconteceria um evento lá, para o qual fomos convidados, chamado “I talk to strangers”, o que evidentemente já tinha me ganhado pelo nome. O evento estava marcado para as 19h, os preparativos começaram por volta das 17h30. Foi aí que começamos nosso “voluntário” as 18h. Depois do espaço arrumado, nosso trabalho era manter a mesa com chás e comidas e, a parte mais legal: conversar com pessoas desconhecidas para que se sentissem a vontade. Ora quem diria, eu, turista recém chegada (há 3 dias na cidade), recebendo pessoas em um espaço que eu tinha conhecido algumas horas antes e que desde então me sentia em casa.
O evento foi até umas 23h30 e teve uma evolução incrível. De início algumas poucas pessoas, super tímidas ao redor de mesas em conversas encabuladas e discretas. No final, rodas de conversas altas, muitas risadas, tratamentos de velhos amigos, música ao vivo em emprovisos de desconhecidos juntos, com direito até a um montinho em cima de um dos meninos. E tudo isso regado com o mais sinceros sentimentos de alegria e felicidade, extremamente simples gerados pela interação de até então desconhecidos empenhados em se conhecerem.
O final disso tudo? As pessoas tiveram que ser educadamente expulsas do lugar por conta do horário, todos ajudaram na arrumação e seguiram para South Bank para assistir umas apresentações de pirotecnia. Nós fomos pra casa mesmo descansar os pézinhos depois desse dia longo e cheio de personagens incríveis.
O resto (e tem muito mais!) eu conto só pessoalmente acompanhado de um café. Fica aí o contive a quem interessar.