"Escrever, muitas vezes, é uma viagem perigosa para dentro de nós mesmos, que nos faz enfrentar as profundezas de nossas almas na tentativa de trazer de volta o elixir da experiência – ou seja, uma boa história. [...] Porém, não perca as esperanças, porque escrever é uma coisa mágica. Mesmo o simples ato físico da escrita é quase sobrenatural, na fronteira com a telepatia. Imagine só: fazemos algumas marquinhas abstratas num pedaço de papel, as marcas ficam ali dispostas numa certa ordem, e alguém do outro lado do mundo (ou dali a centenas de anos) poderá conhecer os nossos pensamentos mais profundos. Os limites do espaço e do tempo, e mesmo as limitações da morte, podem ser superados. [...] Podemos menosprezar algo dizendo que “são só palavras”, ou dizer que “palavras o vento leva”, mas sabemos muito bem que não é tão simples assim, que as palavras têm o poder de ferir ou de curar. [...] O poder de cura das palavras é seu aspecto mais mágico. Os escritores, assim como os xamãs ou curandeiros das culturas antigas, têm em potencial o poder de tratar de feridas e de curar. [...] Nós, escritores, de certa forma compartimos esse poder divino dos xamãs. Não apenas viajamos para outros mundos, mas os criamos, em outro tempo e espaço. Quando escrevemos, realmente viajamos a esses mundos de nossa imaginação. Qualquer pessoa que tenha tentado escrever a sério sabe que é por isso que precisamos de solidão e concentração. Na verdade, estamos viajando a outro tempo, outro lugar. Como escritores, essas viagens não são apenas um ato de sonharmos acordados, e sim o de viajarmos como xamãs, com o poder mágico de engarrafar esses mundos e os trazermos de volta sob a forma de histórias, para compartilhar com os outros. Nossas histórias também têm o poder de curar, de fechar feridas, de fazer o mundo ficar novo outra vez e de oferecer metáforas às pessoas por meio das quais elas podem compreender melhor a si mesmas e a suas vidas."
Faz tempo que eu não escrevo para você. Minhas (nossas) cartas eram meu refúgio. Agora sinto que preciso de um novamente. Ou há tempo. Mas finalmente tomei coragem.
Tanta coisa mudou. Eu mudei. Meu mundo mudou. Ou nem tanto.
A coragem para escrever chegou após a leitura de um pequeno texto, a princípio despretensioso, que muito chamou a minha atenção. Tão nova, tantos sonhos, vontades, desejos, mas também muita ansiedade, pressão, cobrança, cansaço, confusão. Uma mente perdida. Vontades que já não sei mais se são minhas. Cobrança do que pode ser - ou poderia ter sido. Dificuldade em perdoar. Em perdoar-me. Solidão. Preocupação.
E ainda que com tantas conquistas, não me sinto digna de comemoração. A vontade não chega. A cobrança, sim.
A infelicidade está tão automática que eu nem sei mais o porquê, exatamente, ela está presente. Mas está.
“Porque, quando você está com medo da vida, é na minha mania de rir de tudo que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é na minha neurose que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, quando está longe de casa gosta de ouvir minha voz pra se sentir perto de você. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa. Eu sei de tudo.”
“Ele murmurou qualquer coisa, mas seu coração teve medo. Enquanto olhava as nuvens e o precipício, entendeu que aquela mulher era a coisa mais importante de sua vida. Que ela era uma explicação, o único motivo daquelas rochas, daquele céu, daquele inverno. Se ela não estivesse ali com ele, não importava que todos os anjos do céu descessem em revoada para confortá-lo ― o paraíso não faria qualquer sentido.”
Preciso admitir que não estou completa. Não sou, ainda, tudo o que quero ser, mas sou mais eu hoje do que ontem. E anteontem. E semana passada.
Preciso confessar que me sinto, por vezes, sozinha. Mas por ser melhor do que já fui um dia, aprendi a amar estar na minha própria e só companhia, e por isso deixei de me importar com a minha momentânea solidão.
Estou tão em paz comigo mesma, e tão feliz com a minha evolução, que o que eu mais quero é continuar em constante aprendizagem.
Você me pergunta se estou bem; sim, obrigada. Não cheguei ao auge da minha felicidade, da minha plenitude, mas estou cada dia mais perto. E mesmo assim, com algumas lacunas a serem preenchidas, estou bem.
A dificuldade que hoje tenho em escrever para você ratifica o quanto me perdi por ti. Involuntariamente, inconscientemente, tirei de mim mesma o que eu acreditava ser intrínseco à mim. Roubei pequenos pedacinhos na sua presença, sem sua culpa. Fui tão eu mesma, e tão mais não fui. Hoje, tentando ser melhor - pra mim, pra todos -, busco aprender, evoluir, e ser quem eu sempre quis ser, apesar de não saber reconhecer. Mas você não faz parte da minha progressão... Nem quer, nem quero. Nem posso. Mas fico grata por não ter deixado você furtar a minha maior força: a minha determinação, comprometimento e foco. Apesar de tudo, estou aqui. O meu verdadeiro eu está dentro de mim. Um pouco perturbada, talvez. Confusa. Mas ainda sou eu, porque isso não deixo você tirar de mim, nem permito você executar suas tentativas falhas de fazer eu acreditar que minha essência, única e especial, mudou. Ela não mudou. Muito menos você.