chapter one.
leegunjp:
A observação feita pelo príncipe era verdadeira e fez Lee Gun pensar que deveria ser mais cuidadoso. Havia ganhado aquela tarefa e não podia decepcionar o rei, seu pai e principalmente Yuhyuk a quem estimava demais. O protegeria com sua vida se fosse necessário. — Terei mais cuidado a partir de agora al… — Parou antes de finalizar a frase. Olhou para o chão e disse em tom mais baixo o nome do rapaz. — Yuhyuk. — Como se fosse algo proibido. E era, afinal apenas o Rei e a Rainha tinham permissão de chamá-lo pelo nome. Embora Gun viesse de uma família nobre e com grande título no exército do Rei isso jamais lhe daria qualquer liberdade ou intimidade com o príncipe herdeiro. Ele sabia seu verdadeiro lugar e respeitava. — Como está seu ombro? — Indagou logo após de vê-lo descer de seu cavalo. Estava perto o suficiente para ajudá-lo, caso precisasse. No entanto sabia que deveria fazer no último instante porque Yuhyuk não gosta de ser tratado como um doente ou inválido. — Irei dar água e algum alimento e colocá-lo para descansar na clareira. Ele fez um ótimo trabalho trazendo você até aqui sã e salvo. — Disse após a fala do mais novo enquanto o via falar aquelas coisas para o animal. Lee Gun admirava Yuhyuk e sua bondade acima de tudo, principalmente levando em conta de todas as coisas que havia passado na vida. Chegava a sorrir quando lembrava que quando eram pequenos não haviam se dado bem no primeiro momento.
Já esperava por algum comentário similar do jovem, mas Lee Gun tinha certeza que se tratava do local certo. Fora ali que treinou por alguns anos, ainda criança, com seu pai e a cabana embora mostrasse uma realidade extremamente desafortunada por fora era aconchegante e simples por dentro. Bastaria apenas dar uma pequena limpada, afinal deveria estar fechada por anos. Mas Lee Gun iria limpar e arrumar qualquer coisa assim que amanhecesse. Por hora o principal era dar água e comida ao cavalo antes de colocá-lo para descansar, armar uma fogueira, trocar o curativo do ombro de Yuhyuk e dar algo para o rapaz comer. Para que assim pudesse dormir tranquilamente enquanto fazia a vigia. — Estamos no lugar certo. — Afirmou dando alguns passos com a tocha em mãos para clarear mais o local. — Era esse o local onde eu treinava enquanto criança com meu pai. Apenas eu, ele e o Rei sabem da cabana. — O aspecto por dentro é melhor do que o de fora. Prometo. Só precisava de uma pequena limpeza e prometo fazer assim que amanhecer. — Explicou a situação. — Por hora precisamos fazer uma fogueira. Para que eu posso trocar seu curativo e posteriormente possamos comer alguma coisa para dormir. — Lee Gun pegou as rédeas de seu cavalo enquanto dava a tocha para Yuhyuk segurar. — Irei dar água e comida para ele.
Ouvi-lo pronunciar seu nome num tom tão baixo trouxe um singelo sorriso a seus lábios. A postura imaculada e excepcional de outrem nunca falhava em entretê-lo. O outro era, sem dúvidas, um exemplar servo da corte — pensar que, dali para frente, Gun seria obrigado a quebrar todos os mil artigos do código de conduta o trouxe outro sorrisinho: aparentemente Yuhyuk não seria o único a enfrentar dificudaes durante seu ‘exílio’. Com a menção do ferimento, inconscientemente levou os dedos até a região. — Está... hm, não muito melhor. — Suspirou. Por um instante pensara em mentir, mas não havia porquê. Em fato, nem seria capaz. Seu semblante e andar transpareciam seu desconforto, sua exaustão o impedindo de manter propriamente a pose graciosa e imponente que deveria exibir como Príncipe Herdeiro. Além disso, podia considerar Lee Gun um companheiro que o acompanhara na vida e na morte, logo, não havia necessidade de esconder-lhe suas melancolias. Forçou um sorriso, — Mas não está incomodando... tanto. Só preciso descansar um pouco. — Murmurou.
Voltou a acariciar o cavalo, tocando a própria testa na do animal por um momento. Yuhyuk arrependeu-se das palavras que proferiu assim que ouviu a explicação de outrem. Abaixou a cabeça, apertando os dedos na crina do cavalo. Aquele era um local que fizera parte da infância do outro e que provavelmente significância para ele, e proferira palavras arrogantes e insensíveis. Se repreendeu mentalmente antes de levantar a cabeça para olhá-lo nos olhos. — Perdão. Eu tenho certeza que é adequado. — Tentou sorrir novamente, um tanto desconcertado. Queria dizer que poderia cuidar do cavalo (não queria deixar tantas obrigações nas mãos do outro) mas o desgaste o impedia. Apenas concordou num sussurro e segurou a tocha que lhe fora passada, assim como as duas bolsas de pano que haviam trazido (murmurando um ‘eu consigo’ antes que o outro pudesse dizer qualquer coisa), caminhando em direção à cabana com lentidão. Olhando de perto, o local não parecia tão ruim assim — o lembrava as moradias nas margens de Hanyang onde as classes mais baixas residiam. Não estava acostumado com tais residências mas entendia a situação e, por tal, não iria reclamar. Assim como também evitaria outros comentários desagradáveis.
A menção da refeição levara seu estômago a doer. Vivendo no palácio, estava acostumado a cinco fartas refeições ao dia: hoje, contudo, a única refeição que tivera fora o café da manhã, sendo sustentado o resto do dia por alguns ‘lanchinhos’ que o colega trouxera. Assim, Yuhyuk caminhou até o cômodo na parte de trás, onde estava a cozinha e colocou as bolsas sobre a mesa. Pegou alguns pedaços de lenha que estavam cortados e separados ali, tossindo um pouco com a poeira conforme os colocou no borralho, usando a tocha que carregava para acender o fogo. Encaixou a tocha num dos cantos da parede e, com dificuldade, carregou uma das caçarolas de aço até o poço no quintal, a lavando antes de enchê-la de água. Precisou usar ambas as mãos para carregá-la de volta até a cozinha, parando duas vezes para limpar a testa com as costas das mãos e deescansar o ombro machucado que doía com esforço — mas não queria ficar parado. Não fora o único que tivera uma longa viagem ou que comera mal naquele dia: Gun caminhara por grande parte do percurso, deixando o cavalo para ele. Queria retribuir os esforços do outro. Apesar de ser um príncipe, Yuhyuk não nascera um. Houvera uma época que não possuía milhares de criados para preparem-lhe as refeições, em fato, há muitos anos atrás, a responsável por cozinhar na residência dos Wang era sua mãe. Uma das poucas lembranças que possuía dela era de quando seu pai ficara doente e a ajudara a preparar uma sopa de batatas. Lembrava-se vagamente da receita e o modo de prepararo e, apesar de ter sido há tantos anos, estava confiante que não seria tão difícil reproduzir, afinal, era apenas uma sopa. Despejou um pouco da água da caçarola em outra panela de aço, encaixando cada uma em uma das aberturas do borralho. Abriu uma das bolsas e pegou um saquinho com arroz e despejou numa das panelas, a fechando. Não havia muita comida separada nas bolsas, tendo apenas o suficiente para uma única refeição simples, afinal, não podiam levar muitas coisas durante a viagem. Por isso, haviam apenas três batatas e Yuhyuk pegou as três, as descascando com uma faquinha e as fatiando antes de despejar na outra caçarola junto com dois rabanetes e escamudo seco. Ao fim, soltou um longo suspiro, sentindo o corpo inteiro doer; mas não deixou de sorrir satisfeito, tentando imaginar como seria a reação de Lee Gun ao provar de sua comida.
Tirou o manto que trajava e o cobriu no chão, sentando sobre ele e encostando as costas na parede, deixando ainda outro suspiro. A simples tarefa terminara drenara o restinho de energia que ainda possuía. O ombro estava ardendo por conta do peso que carregara e a movimentação, além disso, sentia-se desconfortável com a temperatura do cômodo: embora estivesse frio, por conta da borralha, o local estava muito quente. Lentamente desafrouxou um pouco as vestes, empurrando a gola das vestimentas interiores para deixar ar entrar. Somente então, notou que o dedo indicador estava ardendo também — aparentemente o cortara enquanto descascava as batatas. Botou um singelo bico nos lábios antes de pressionar o dedo contra a própria roupa, limpando o pouquinho de sangue que saía. — Ah! Gun! — Exclamou quando o rapaz adentrou a cozinha, arrumando a própria postura (e soltando um murmúrio de dor com o movimento). — Já comecei a preparar a comida! — Falou com um sorriso, como uma criança esperando ser elogiado. — Assim você não precisa se preocupar com isso.












