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Era impossível não encarar Gael naquele momento, observando o encantamento do homem perante o presente. Uma coisa que Martin adorava e da qual nunca se cansaria era ver Gael feliz, melhor ainda quando era ele quem havia causado tal felicidade. E depois de tê-lo causado tanta dor na semana anterior, Martin ansiava pelo sorriso de Gael, ansiava a colocar um sorriso no rosto de Gael. Sabia que ele apreciaria o presente, conhecia o marido o suficiente para tal, mas ver sua reação ao vivo simplesmente não tinha preço.
Mal teve tempo de responder o marido antes do mesmo estar abraçando-o, fazendo que o sorriso de Martin se alargasse mais ainda. Passou seus braços ao redor do corpo de Gael, apertando-o contra si, silenciosamente desejando que aquele momento nunca acabasse. Sentia-se no céu. “Nichts zu danken, ich bin froh, dass es dir gefällt,” respondeu, também em alemão. O alemão de Martin nunca fora perfeito, mas sempre fora o suficiente para se virar na alemanha. E por destino ou sorte, no primeiro acampamento em que esteve, Martin fizera amizade com uma mulher alemã, que o ajudava a praticar em seu tempo livre. Naquela época, não fazia ideia se chegaria a ver o marido novamente, mas falar alemão o fazia se sentir um pouco mais próximo de Gael. E quando se reencontraram, não via a hora de demonstrar que havia aprimorado suas habilidades na língua natal do marido. Martin sempre achara alemão uma língua brusca, e não gostava muito de como sua voz soava ao falá-la, mas Gael tinha o dom de fazer que soasse como uma das coisas mais lindas que já ouvira.
“I love you too,” respondeu entre seu sorriso, dando mais um rápido selinho no marido antes que ele pudesse afastar o rosto. Realmente não queria mesmo ficar mais nenhum segundo longe de Gael, mas naquele momento, valia a pena por vê-lo tão feliz com o piano. Voltou a observar o homem, mantendendo seu posto em pé atrás dele. Reconheceu Moonlight Sonata imediatamente, nem um pouco surpreso por essa ter sido a primeira música a ser tocada, pois sabia o quanto Gael gostava dela. Mas logo seus olhos foram levados à mão machucada de Gael, e Martin sentiu uma pontada de dor, lembrando da briga que tiveram, do som horrível no copo se quebrando e a visão do sangue escorrendo que se seguiu. Nunca conseguiria esquecer aquilo. Preocupou-se ao vê-lo tirando as ataduras, mas preferiu não dizer nada, afinal, Gael merecia aquele momento com o piano.
Meneou a cabeça ao ouvir que o marido tocaria uma música para si, e assim que reconheceu a música, a dor da lembrança da briga rapidamente foi trocada por uma felicidade extrema e memórias da vida que tinham antes do apocalipse. Riu sozinho das discussões amigáveis que tinham sobre qual versão da música era melhor, e mal se deu conta dos olhos marejados que acompanhavam sua cantoria baixa. Estava absolutamente sem palavras. Havia dado um presente para Gael, mas sentia mais como se fosse ele mesmo quem havia ganhado um.
A resposta vinda em sua língua mãe, dita pelo marido, causou um arrepio que subiu pelas costas de Gael, até ter um fim em sua nuca. As mãos em contato com as costas alheias passaram a segurar no tecido da camisa com maior firmeza, porém, sem utilizar força. A voz de Martin sempre tivera tal efeito em si, ainda mais quando estava tão próximo. Poderia ouvir o britânico falar por um dia inteiro, enquanto permanecia em silêncio, apreciando o sotaque que tanto amava, e que considerava ser uma das melhores características de Martin. Era capaz de pedir que o marido lesse algumas poesias de um livro que lhe pertencia, simplesmente por querer ouvi-lo. Todavia, quando o ouvia comunicar-se em alemão, o efeito sobre si era ainda maior, talvez por não ser a língua mãe alheia, e por isso, deixar o alemão um pouco menos ríspido, como comumente soava. Por fim, moveu o rosto, de forma que a ponta de seu nariz tocasse na bochecha alheia, local no qual sua bochecha tocava anteriormente. A sombra de um sorriso surgia aos poucos nos lábios de Gael. ━ Wie lange trainieren Sie schon? Das gefällt mir. ━ Percebera uma leve diferença na pronuncia alheia, claramente mostrando que havia treinado em algum momento.
Quase alcançando um minuto e meio de música, Gael parou lentamente de tocar, franzindo o cenho. Ato este que não fora proposital ou maldoso, mas sim pelo fato de ter esquecido de maneira abrupta as notas que lera na partitura utilizada para aprender a música anos atrás. O fato de não ter mais a partitura, a falta de prática de tal versão da música e principalmente de tocar o instrumento culminaram no breve esquecimento. Permitiu-se gargalhar diante a situação, agradecendo por ser Martin a presenciar a cena. ━ I’m so sorry. I suddenly forgot everything. Try again Gael, try again. ━ As últimas palavras foram claramente dirigidas a si. Caso estivesse de mau humor, e o erro acontecesse, provavelmente teria se flagelado mentalmente, e possivelmente, fisicamente. ━ Oh, and I heard you singing. Louder, please. ━ A frase carregada de bom humor era um claro convite ao marido para se juntar a si e cantar a música. Suspirou fundo antes de retornar a tocar, agora, fazendo questão de cantar. ━ And you could have it all, my empire of dirt. I will let you down, I will make you hurt. ━ Finalizou a estrofe, mantendo-se em silêncio a espera de que Martin continuasse de onde havia parado.








