a manhã irrita o domador de sombras como se fosse a primeiríssima vez.
há sempre entre nós algum herdeiro daquele que um dia lutou contra o anjo.
essas vontades crepusculares ainda nos hão de salvar de uma luz
infernalmente excessiva, como salvo qualquer dia há de estar
o andarilho – o cego e o noturno –
que atravessa a madrugada como se buscasse a caverna inconclusa
por onde nascem os orvalhos, entre uivos e assombrações taciturnas.
o diabo nos olha no fundo falso dos olhos; o diabo não lê pensamento.
um beija-flor traz um pouco da chama divina em seu bico,
inaugurando a cor de um outro caminho:
é com ela que fere os povos mais novos até às extremidades da terra,
trazendo o mistério nas suas saídas e a alegria em suas tendas, janelas.
o pavoroso despontar da tarde desmotiva a criança marítima
que tem sede, que tem fome; que desde o berço anseia em
chupar a abundância dos mares e os tesouros escondidos
da areia; que nunca teve garras, que nunca teve âncoras;
que desde muito, muito novo aprendeu
que uma águia sem garras é uma águia sem vida,
que uma embarcação sem âncoras é uma embarcação à deriva.
os pecados de nosso passado foram cerrados com a água,
os pecados de nosso futuro serão cerrados com o fogo.
no fundo do peito de todos dorme ainda o feiticeiro
dos primeiros luares, dos longevos crepúsculos.
a besta e a fera se encontram dispersas,
cada qual em continentes opostos,
de costas uma para a outra.
a primeira, sobre a pureza dos montes mais velhos,
legisla sobre o ocidente (ao meio-dia);
a segunda, sobre grandeza dos outeiros eternos,
tiraniza o oriente (à meia-noite).
todos os despertos temem e exasperam-se
à hipótese sombria e inevitável deste mórbido encontro:
a sinergia entre os opróbrios; o sinergismo escatológico;
a palavra inconfessável; a síntese do inconcebível.
a cortina rasurada corta o vento ao meio para que as pálpebras
nunca se esqueçam de que as pálpebras também são biombos.
o canto sideral passa desapercebido pelas nuvens de chuva
que duelam com o rosto etéreo do azul.
o rugir dos oceanos remete à arca
imemorial, a da úmida e
antiga promessa.
as novidades mais excelentes da lua, as produções mais excelentes do sol;
estas recuam, caso se haja o avanço tal dessas.
a espada, que, dia menos dia, não tardará
a cortar o velho dragão em pedaços,
fende o corpo do mar, portanto
bramem-se as ondas.
cabe ao poeta fisgar a claridade longínqua que um dom profetiza
pelos vales negros da morte – a clareza como cortesia.