Atypical, 2017.

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@a-m-a-v-a-s
Atypical, 2017.
“Eu perdoo você. Essa sim é uma das frases mais poderosas que existem. Capaz de te trazer de volta toda paz roubada e liberar todos os sonhos engaiolados que você têm de ser feliz. O erro dos outros é uma bagagem deles, não sua. A mágoa pesa demais e ocupa muito o peito, não há como se dar o luxo de ocupar o coração com o que não é bom. Perdoar tem o poder de esvaziar os oceanos contidos de lágrimas que doeram e não foram choradas. Tão poderoso a ponto de te permitir continuar. É como dizer: você e o que me faz mal já não tem espaço aqui. E, assim, poder seguir em frente.”
— Diego Castro.
“Mãe, minha depressão é metamorfa. Um dia é pequena como um vaga-lume na palma de um urso. No outro dia, é o urso. Nesses dias, eu finjo de morta até que o urso me deixe em paz. Eu chamo os dias ruins de “dias sombrios”. Mamãe diz: “Tente acender velas.”. Quando eu vejo uma vela, eu vejo o lampejo de uma igreja, a cintilação das chamas, faíscas de uma memória mais nova que o meio-dia, eu estou ao lado de seu caixão aberto. É o momento que eu aprendo que toda pessoa que eu conhecerei algum dia morrerá. Além disso, mãe, eu não tenho medo do escuro. Talvez isso seja parte do problema. Mamãe diz: “Eu pensei que o problema fosse você não conseguir sair da cama.”. Não consigo. A ansiedade me mantém refém dentro de minha casa, dentro de minha cabeça. Mamãe diz: “De onde veio a ansiedade?”. Ansiedade é o primo de outra cidade que veio fazer uma visita e que a depressão se sente obrigada a trazer para a festa. Mãe, eu sou a festa. Só que eu sou uma festa na qual eu não quero estar. Mamãe diz: “Por que você não tenta ir a festas de verdade? Ver seus amigos.”. Claro, eu faço planos. Eu faço planos, mas não quero ir. Faço planos porque sei que deveria querer ir. Sei que algumas vezes eu deveria querer ir, só que não é muito divertido se divertir quando você não quer se divertir, mãe. Sabe, mamãe, toda noite a insônia me pega em seus braços, me mergulha na cozinha, no pequeno brilho da luz do fogão. A insônia tem esse jeito romântico de fazer a lua parecer a companhia perfeita. Mamãe diz: “Tente contar ovelhas.”. Mas minha mente só consegue contar motivos para ficar acordada. Então, eu saio para caminhar, mas minhas rótulas balbuciantes, tinindo como colheres de prata, seguradas por braços fortes com pulsos soltos; elas soam no meu ouvido como sinos desajeitados de uma igreja, lembrando-me que sou sonâmbula em um oceano de felicidade no qual eu não consigo me batizar. Mamãe diz: “Felicidade é uma decisão”. Mas a minha felicidade é tão vazia quanto um ovo picado. Minha felicidade é uma febre alta que vai ceder. Mamãe diz que eu sou muito boa em criar algo do nada, e então, abruptamente, me pergunta se tenho medo de morrer. Não! Eu tenho medo de viver. Mamãe, eu estou sozinha. Eu acho que aprendi quando o papai partiu: como transformar raiva em solidão. A solidão em ocupação. Então quando eu lhe digo que tenho estado super ocupada ultimamente, quero dizer que tenho caído no sono assistindo esportes no sofá para não ter que confrontar o lado vazio da cama. Mas minha depressão sempre me arrasta de volta para minha cama, até que meus ossos sejam fósseis esquecidos de um esqueleto em uma cidade submersa. Minha boca, um quintal ósseo de dentes quebrados por se morderem. O oco auditório do meu peito desfalece com ecos de batimentos de um coração, mas eu sou uma turista despreocupada aqui. Eu nunca saberei, realmente, todos os lugares que já estive. Mamãe continua não entendendo. Mamãe, não consegue ver que eu não consigo também?”
— Explicando a depressão para a minha mãe. Autor desconhecido.
“Que bobice, eu sempre achei minhas amarguras todas muito especiais. A verdade é que todo mundo sofre meio parecido, pelas mesmas razões.”
— Gabito Nunes. (via defensor)