assim que os assistiu deixar a mesa, soltou o suspiro que segurava. derrubando junto sua pose e o peito inflado que sustentavam todo o seu orgulho. ele sabia que algo ruim sairia daquela boca, já havia o escutado menosprezar sua classe, seu trabalho e até as suas origens milhares de vezes. sabia que aquele jantar seria digno de uma tortura, mas aguentava firme. e só aguentava calado por respeito único e exclusivo ao seu avô. abbie talvez não compactuasse com tudo aquilo, mas decepcionava o branwell tal qual o homem sentado na ponta da mesa chique. eram iguais. no fim, fora exatamente aquela desigualdade que havia separado os dois, ou não? não conseguia entender como havia se apaixonado tão perdidamente e se jogado de cabeça em uma pessoa tão rasa. o estômago do moreno revirou, enojado. já não existia mais beleza alguma naquela casa, naquela noite, tampouco naquelas pessoas. tudo que rondava a sua cabeça eram as frases do homem e o quão minúsculo elas fizeram blake se sentir. “vovô, por favor, vamos embora.” implorou, virando-se com os olhos molhados antes das mãos secá-los em vergonha. o ancião podia notar o peso das palavras e da expressão carregada de consternação. qualquer um talvez pudesse. quando se encontrava mal, era se tornava tão fácil de ler como os seus livros de romance água com açúcar. “aguente um pouco mais, blake, eu te peço. não se deixe abater, meu menino. nós vamos embora assim que possível. sabe que isso é importante pra mim, não sabe?” a mão envelhecida repousou sobre a sua, e com um suspiro o moreno tratou de encher o seu peito outra vez. ainda que os traços do rosto indicassem que não estava mais tão firme assim. a soma dos últimos acontecimentos abalaram o homem e ele sequer era capaz de fingir bem àquela altura do campeonato. estava exausto, e não tinha mais forças para fingir.
ser seguida já era um grande avanço ao homem que sequer parecia afim de ouvi-la nas últimas semanas, de repente enchendo o peito de confiança. abigail não estava somente constrangida, mas também culpada pelos absurdos que blake ouviu e ainda contava com os avós para presenciar, todos obviamente orgulhosos das conquistas do castanho que, sim, tinha muito do que se vangloriar e repentinamente tornara-se minúsculo diante a presunção paterna a enchendo de nojo. as bochechas coravam de raiva, e pior, sequer fora corajosa o suficiente para defendê-lo quando na mesa, pensando que realmente não tinha o direito de cobrar que o mais velho pensasse bem de si desde que suas atitudes não condiziam com piedade. —— por que está fazendo isso?! —— não que houvesse qualquer explicação para a arrogância e a falta de educação transbordando em poucos minutos, mas queria ao menos lhe dar a chance de compreensão, algo que fazia em excesso sem merecimento. —— é ele, não é? o professor de quinta que queria me apresentar. você acha que sou cego, abigail? some durante o dia, não dorme em casa, está agindo feito uma vagabunda! o que acha que seu noivo vai dizer quando descobrir que está dormindo com outro? —— o tom masculino elevou-se e olhou para trás rapidamente, questionando se estavam distantes o suficiente para que o branwell não o escutasse usando palavras tão ofensivas, engolindo seco pela maneira o pai se referiu à loira em especial. tratou de logo negar com a cabeça, ignorando os olhos infantilmente marejados na esperança de que finalmente conseguiria sustentar uma discussão calorosa com aquele precisando ouvir algumas coisas de si. —— você está louco! max não quer ser meu noivo! foi você que inventou todo esse teatro! isso não te dá o direito de tratar as pessoas assi.. —— ele parecia crescer diante os olhos azuis, ganhando o tom avermelhado por toda a face que jamais demonstrou-se tão assustadora, a deixando tonta de raiva. —— enquanto viver debaixo do meu teto tem que seguir o que eu digo, e não vou deixar que se envolva com qualquer caipira que vai te engravidar e depois me dar para sustentar! —— do jeito que gritavam, provavelmente o bairro todo os ouvia, deslizando as palmas pelo rosto antes de rir sem humor, farta dos absurdos. não tinha como discutir com ele, sua sanidade não permitia. —— me sustentar?! desde que perdeu o emprego sou eu que pago as contas! seria um favor se não precisasse gastar com seus luxos ridículos! —— os saltos martelaram o chão, sem mais incômodos com quem participava de ouvidos atentos ou não, ignorando até mesmo as visitas que amava feito louca e agora viam de perto o espetáculo particular que era seu pai e seus pensamentos enlouquecidos, arrancando sua sanidade juntamente. —— abigail, não me dê as costas! —— o braço ardeu assim que puxado firme, tentando desvencilhar-se em vão. a lateral feminina era iluminada pela luz do lustre pairando a sala de jantar, e por mais que o interior queimasse por timidez do que sempre tentou evitar que blake assistisse e também fosse corroído, divindades pareciam satirizar qualquer possibilidade de causar menos estragos às relações envolvendo sua vida, até mesmo as familiares, praticamente cuspindo a frase entredentes. —— quer saber? estou começando a achar que não foi só a doença que matou a mamãe. —— dizê-lo com os olhos fixos em seus semelhantes era tão doloroso quanto a pior das feridas físicas. por toda uma década acreditou que o casal era referência do que queria para o futuro, mas o vendo agora, não conseguia imaginar uma vida mais infeliz para o coração bondoso que a mãe tinha, tal desgosto preenchendo visivelmente toda a expressão da menina que o maior não suportou encarar como verdade, enchendo a mão no que transferiu a agressão sobre a bochecha macia onde de imediato a marca da violência ardeu e deixou a marca delineando perfeitamente o formato de cada dedo que a acertara e deixara desnorteada, demorando para formular o acontecimento num paralisar chocado. a respiração travou e se foram alguns segundos até reagir o censurando, as orbes prestes a transbordarem. agora livre, cobriu a região ao partir pela porta, deixando o pai flamejante em culpa para trás. —— querida —— tentou chamar, em dúvida se realmente existia arrependimento ali, muito mais preocupado com a imagem que passaria aos convidados do que a punição merecida ao seu ver, retornando à sala com o riso desconcertado. —— ela está se sentindo um pouco indisposta. —— acreditava na própria mentira, a proferindo convicto. —— deve ter sido a comida.