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Introdução: Há muito faz parte de mim o espanto e o fascínio de Existir no Espaço. Desse pedaço que me forma é que nasce o interesse em duplicar-me, um pouco pra sentir-me eterno, pois tenho medo de acabar e um pouco pra que seja mesmo eterno.
Dessa necessidade-desejo descobri entre outras coisas a Poesia como a mais eficaz das ferramentas para “eternar-me”, isso por enxergá-la como um poderoso meio de sintetizar ou expandir ideias e sentimentos, transmitir valores, construir ou desconstruir linguagem, enfim me expressar de maneira sincera e significante. Mas não chamo de Poesia somente aquilo que o senso comum limitaria aos versos e/ou aos fonemas. Penso que a Poesia não discrimina os diversos meios expressivos e o seu princípio básico, a poesia em si, se espalha pelo que existe à disposição de quem esteja aberto para canalizá-la e traduzi-la em algo que pareça um pouco mais palpável. Concebendo tal linguagem dessa maneira foi que comecei a fotografar.
Minha forma de fotografar é buscar na imagem a qual me transformo o que acredito existir além da imagem.
Este trabalho de conclusão de curso, tem caráter meramente estético, não pretendo aqui expor nenhuma verdade absoluta, ele não é nada mais nada menos do que um relato, um meio de expor meus devaneios a cerca do espaço que crio e me cria, traduzido em uma compilação de minhas fotos, poemas e afins na forma de um livro objeto que funcione como um diário imagético de um período, e seja também uma experiência espacial que expresse o conceito do “eternar-se”, como algo que não carregue em si nem o começo e nem o fim, que jamais se repetirá, mas estará para sempre acontecendo.
O Espaço foi a partícula inicial, propulsora desta obra. Então se fez necessária a reflexão a respeito do que é Espaço, mesmo que a intenção desta não seja delimitá-lo (solidamente) em uma denominação. Refletindo o Espaço:
O ventre materno: espaço. O berço: espaço. O quarto: espaço. A casa: espaço.
O quarteirão que cerca a casa: espaço. O Bairro que se forma entre outros, pelo quarteirão da casa: espaço. A cidade que se faz dos bairros: espaço. O Estado, coletivo de Cidade: espaço. O país que se ergue dos Estados: espaço. O continente de país ou países: espaço. O planeta, dos continentes, países, Estados, cidades, bairros, quarteirões, casas, quartos, berços, ventres e seres: espaço. O Espaço, dos planetas e outros astros infinitos: espaço.
De maneira poética essa reverberação de espaço no espaço faz com que vislumbremos a dimensão infinita do que foi aqui (e não só) o “inicio e fim” do percurso.
Seguindo por essa linha da partícula que contém o todo, pensemos a respeito da (suposta) materialidade do espaço, em como por exemplo, um cômodo da casa se configura de forma diferente pela simples inserção de um objeto (até então) estranho a ele – um cercado de paredes não define quarto, até que este contenha cama, e podemos ir mais adiante ao pensarmos que um cercado de paredes que contenha cama, não define quarto até que alguém durma neste – mas dormimos também no sofá da sala, dentro dos carros, em um pedaço de chão sem importância, e então percebemos que o fato de dormir também não define quarto, a não ser que queiramos. Quarto será definido a partir da consciência que, através dos sentidos traduzirá a reverberação de algo que conceitualmente entendemos por quarto e isso desconstrói a materialidade de espaço.
Para esta obra parti então do pressuposto de que Espaço é sensação e não lugar.
O que faz uma casa ser [casa], por exemplo, não é o aglomerado de paredes varadas por janelas e portas, ou mesmo a solidez de rochas que quiseram ser cavernas. O que transforma um espaço em [casa] é a relação ativa que este estabelece com o indivíduo, que pode concebê-lo como abrigo, como extensão de si próprio, ou outra porção de sensações que construam [casa].
É provável que o quintal da casa em que vivemos a infância, tenha encolhido na medida em que crescemos, e não tanto pelo volume do nosso corpo que se expandiu, mas pela mente “adultecida” que passou a ver as antigas florestas como vasos com plantas.
“O tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.” (Manoel de Barros – Memórias Inventadas).
Desta forma penso que nós, partículas de um todo partícula, somos espaço tanto quanto o espaço somos nós.
Para fins práticos:
Diante deste conceito-dimensão infinito, que configura espaço, para fins práticos de execução desta obra, decidi abordar a maneira como o espaço se reconfigura a partir da fotografia. Meio pelo qual tenho me expressado de forma poética mais avidamente nos últimos dois anos (agosto de 2011 – até o presente, presente momento – junho 2013).
Acredito que a fotografia só exista a partir do espaço visível - mesmo que seja completa escuridão, completa escuridão é o espaço visível. Espaço visível é uma partícula de Espaço, deixando de lado - neste primeiro momento - o caráter expressivo da fotografia ela pode ser considerada como partícula imagética do espaço visível, já que este será reconfigurado(recortado) pelo quadro da máquina quando o fotógrafo realizar o disparo.
Entendo a fotografia não como um registro do espaço ou do instante, mas sim como uma reinvenção deles. Analogamente ao cachimbo de Magritte, “Photographie n´est pas une pipe”, ela jamais será senão representação, ou como prefiro pensar - REINVENÇÃO, de um lugar, de alguém, de uma coisa, de um instante. Isso pelo simples fato de a imagem, antes se apresentando com suposta tridimensionalidade, suposta possibilidade de deslocamento no sentido mais primeiro da palavra, ser reconfigurada para o plano bidimensional. Devemos também levar em consideração como caráter “metaformoseador” do espaço na fotografia, o fato de a imagem não conter (de fato?) os elementos táteis, gustativos e olfativos do lugar, alguém, coisa, instante fotografado, a não ser representativamente através do caráter expressivo da linguagem fotográfica que se dá por meio da composição formal-conceitual da imagem e do controle de (sub)(super)(múltipla)exposição e foco por parte do “poetamáquina”, que poderão (re)criar para os nossos sentidos o que antes se apresentava de outra forma - Aqui a poesia se mostra em seu esplendor.
Eternando-se:
É neste clímax que o “poetafotógrafo” se duplica na imagem criada, no espaço reinventado do seu ponto de vista único-individual, é o espaço ao qual Ele existe que se reconfigura sem perder a propriedade de infinito, em imagem. A imagem por sua vez, que É e contem o Lugar, o Alguém, a Coisa, o Instante sem desapropriá-los de suas morfologias infinitas-espaciais, possibilita que estes estejam pra sempre acontecendo sem serem cachimbos.
“Eternados” na “metaformose” da imagem fotográfica, estarão para sempre acontecendo (re)inventados por si mesmos e por quem experimentá-los por meio da consciência única-individual .
Da Fotografia ao Livro-Objeto:
1. Para a composição do livro-objeto (produto “final” deste trabalho), selecionei parte do meu acervo fotográfico que tenho montado nos últimos dois anos. O teor das imagens é um só: o que me cerca.
Em um fim de semana de agosto de 2011, durante uma conversa eventual, dois de meus amigos, Augusto Meneghin e Felipe Oliveira, me falaram sobre a possibilidade de se construir uma pinhole (máquina fotográfica sem lente) com uma lata de sardinha e filme 35mm. Em primeiro lugar a ideia me pareceu interessante por se tratar de uma câmera de baixíssimo custo (bastava o mínimo de disposição para construí-la); em segundo lugar fui atraído pela estética (da peculiar composição) do objeto: uma lata adornada de imagens portuárias, que tem seu espaço interior como abrigo ideal para sardinhas sem cabeça e filme 35mm.
Para a construção da pinhole, consultei na internet um tutorial simples que oferecia um passo a passo para a montagem e algumas observações referentes ao tempo médio de exposição para diferentes situações de luminosidade. A partir daí a questão era: O que fotografar? Então de maneira despretensiosa e inconsciente durante aproximadamente duas semanas utilizei o filme todo para registrar a casa (integrantes e rotina: espaço) que dividia com mais seis amigos, Abraão, Tulipa, Cereja, Isa, Zeca e Aline. Este processo resultou no que chamei obviamente de série “casa”.
Considero a série “casa” como minha primeira (e talvez mais importante até o momento) experiência com a fotografia. Ela me trouxe de forma empírica noções básicas de exposição e do acidental presente no processo criativo, dos quais me utilizo até hoje para expressar-me.
Nesta série, considero que a técnica (ou ausência dela) nos mostra a casa que não enxergamos, mas existe. O tiro “cego” que expressivamente reinventa a estética do espaço familiar, sobreposto, subexposto, superexposto e nos diz como se dá a relação entre seres-objetos-espaço , interagindo uns com os outros sem fronteiras rígidas de forma que não se dissociam do outro para existir.
Depois de atingir esses resultados decidi que era o momento de fotografar com uma câmera convencional, meramente por uma questão de gosto optei pelas analógicas, por indicação de outra amiga, Caroline Pazian, comprei uma Olympus Trip 35 por ser uma câmera de fácil manuseio que não exige profundo conhecimento técnico para se conseguir imagens bem definidas, neste momento tive orientação quanto ao funcionamento da máquina de um outro amigo, Cássio Abreu e então rodei mais um filme, desta vez não só do espaço “casa”, mas também do que me era próximo fora dela. Inspirado principalmente por Cartier Bresson e Annie Leibovitz, este (espaço que me é próximo, que é parte de mim) se tornou então meu objeto de estudo na fotografia, decidi me expressar através de imagens não posadas (ou montadas), para tal busquei (e ainda busco) me tornar o mais invisível possível quando estou com a câmera para não inibir a ação que me cerca. Desprezei em partes também a técnica acadêmica, ao não aderir ao flash e aceitar como parte expressiva do meu trabalho o desfoque proposital-acidental de longas exposições. Neste ponto um presente de meu primo, Enzo Petrucci, uma Yashica FX-D me proporcionou um maior (des)controle destas características expressivas pelo maior número de recursos que a máquina oferecia em relação a Olympus Trip. Por fim alguns meses depois, adquiri um Pentax K1000 e munido destas três máquinas passei a fotografar meu objeto de estudo ao longo deste período, fazendo em média um filme de 36 poses por mês.
Com o tempo passei a enxergar uma identidade no meu trabalho. A meu ver ele funciona como um diário imagético-ideológico da parte da minha geração com a qual eu convivo.
2. A ideia inicial para o trabalho de conclusão era executar algo que discorresse à cerca do espaço. Minha primeira ideia era a de inserir na sala de aula (sala de apresentação)objetos descontextualizados e sem função aparente a fim de causar estranhamento e reflexão sobre a funcionalidade dos objetos, mas por fim ela não me pareceu sincera o bastante para que fizesse disto meu trabalho de conclusão. Passei então a divagar avidamente, com a ajuda do meu orientador Claudio Goya, minha psicanalista Liege Selma Lise, minha namorada Isabela Giorgiano e meu grandes amigos, Augusto Meneghin, Fernando Zago, Thyago Villela, Danilo Carandina e Tullio Sartini a respeito da essência do Espaço. Neste período de reflexões e debates ficou claro para mim o quão amplo era meu objeto de estudo, eu precisava de foco para poder dar continuidade ao trabalho, decidi então discorrer a respeito de como o espaço se trans-forma a partir do registro (apropriação) fotográfico, o que também foi um meio de inserir no trabalho minha produção imagética, que era o elemento sincero do qual havia sentido falta anteriormente.
Depois dessa etapa, para me organizar comecei a selecionar imagens que me pareciam interessantes e neste processo passei a escrever poemas despretensiosamente, com o único intuito de me guiar e justificar o trabalho. Quando levei esse material (fotográfico e escrito) para uma reunião com meu orientador, Claudio Goya, ele me sugeriu que transformássemos isso tudo em um livro objeto, impresso em folhas de diferentes tamanhos, gramaturas e texturas, para que o livro em si fosse uma experiência espacial. Acatei a ideia e a juntei a mais uma sugestão de Augusto Meneghin, meu amigo, de transformar o livro em um livro infinito que fosse folheado “para sempre”, sendo de forma prática, dois livros que se abrissem invertidos um ao outro, colados pela capa sendo o “livro 1” somente fotografias (produto “final”) e “livro 2” o processo (poemas, rabiscos e experimentos).
Trabalhei nisso por cerca de quatro semanas, selecionei fotos, diagramei um “boneco” virtual no Indesign e montei outro em escala reduzida. No entanto tive alguns problemas na produção, desde novembro de 2012 voltei a morar na minha cidade natal, Araras /SP, uma cidade relativamente pequena com seus cento e vinte, cento e trinta mil habitantes. O fato é que não encontrei nenhuma gráfica-copiadora que estivesse disposta a imprimir E montar o livro, por ele exigir cortes e vincos muito específicos acharam que a sua montagem seria artesanal demais e se recusaram a arriscar a produzi-lo, o que consegui foi que uma copiadora da cidade imprimisse as páginas e me deixasse utilizar a faca da empresa para refilar e vincar o que seria o livro (que eu mesmo montaria em casa). Porém a impressão no papel couche (que escolhi) ficou falhada, apresentando manchas e riscos que comprometeriam as fotos, me sugeriram imprimi-lo no sulfite 180gr, aceitei; vale destacar aqui que o prazo de entrega do trabalho por diversos motivos já estava se esgotando, de maneira que não tive escolha se não arriscar que fosse feito desta forma. Mais uma vez a impressão não ficou como gostaria e a elevada gramatura do papel me fez perceber que se montasse o livro como havia pensado – colando as páginas como um bloco com cola PVA para depois colar esse bloco na lombada da capa – o livro ficaria muito mal acabado e acabaria desmontando durante o manuseio, me deparei neste ponto com algo que na fotografia sempre me foi bem vindo, o acidente.
boneco em escala reduzida, e preparativos para a execução do plano inicial de projeto.