Cheguei em cima da hora. Estava cheio.
“Hoje a conversa vai ser séria”, ouvi o meu senhor dizer. Entendi que nesse dia era ele quem estaria comigo. Procurei não interagir com as pessoas, fazer tudo de acordo com o protocolo. Ali não me importam os vivos.
Nessas ocasiões eu inconscientemente busco me comportar além do usual - pura ilusão humana. Senti o peso do ódio de olhares invisíveis que se sobrepunham a mim e me espremiam os ombros. Sempre os ombros. Eu sei que não fui boa pessoa, que não sou toda revestida de luz. Acho que isso tranquiliza o processo. Não torna mais fácil, mas ao menos não me pareço um inseto se contorcendo no veneno borrifado. Aceito a morte da minha percepção de mim mesma. Cada vez menos vejo a inocência da criança que fui.
E honestamente, depois de certa idade passei a desprezar o desespero por reaver aquela luz.
Entrei. O ar estava completamente preenchido por uma densidade que não sei descrever. Desci ao castelo, sal e perfume. Um porco caminhando para o abate, o açoite. Me rendi.
Ouço aqueles que são como eu se queixarem do que vêem. Não me queixo, porque se me queixar deixa de ser real. Se verbalizar, deixa de ser o que vi e passa a ser o que inventei. Mas seria uma estupidez me sentir tão criativa.
À mesa, me preparo. É sempre uma sinestesia. Ecoam vozes, a carne treme, o pulso acelera, a boca emperra, os olhos choram, a densidade se esvai e se preenche novamente. Me retiro.
Caminho para o mesmo lugar de costume, e encontro aquele que respeito - e que tentam sempre me fazer respeitar menos. Me concentro e cedo a minha voz. Minhas mãos se fecham, minhas unhas me rasgam, mas essa é a mais superficial das dores, porque eu me encontro comigo.
Olho para um lago e vejo meu reflexo, e por dentro das águas sombrias, vejo tudo aquilo que já fiz. Neste dia eu procurava uma cabeça - uma que eu cortei, não a minha.
Sua dona está há séculos procurando. Eu entrei em pânico por ter que procurar, mas não pude negar a ela esse esforço. Não para me refazer na minha bondade, porque de nada me parece valer esse tempo aplicado, esse “favor” concedido. Fui uma pixie travessa que esconde suas coisas e depois quer suas ofertas para devolvê-las - mas no caso, foi sua cabeça. Sei onde está, mas não sei chegar lá.
Estou obstinada a desfazer meus males, só espero não me odiar pelo caminho. Gostaria de novamente ter o meu lugar à lareira junto às mulheres. Porque o amor de uma mulher é real, e eu só vejo o desejo dos homens. Este exílio me coloca num longo caminho a percorrer sozinha, tendo todas as minhas reclamações anotadas e todos os meus prantos ouvidos sem resposta.
Os pecadores que se virem com seus pecados. Eu já não posso mais acreditar nesse conceito. Entendo que não posso porque, se acreditar, não terei força para pagá-los. Há consciência, e ela custa mais. Eu só não sei com o quê eu pago. Minha falsa admiração por mim já se foi. Resta a integridade.