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apenas eu, não sei se faz sentido, mas quem quer fazer sentido hoje em dia?
Ano passado eu assisti de longe. Pela tela de um celular, pelas lives travando, pelos gritos de outras pessoas vivendo algo que eu achava que nunca seria meu. Eu olhava o mundo acontecendo pela fresta, como quem encosta o rosto no vidro de uma festa sem coragem de entrar. E agora tem uma torta de frango me esperando numa fila em São Paulo.
Isso é tão absurdo que parece invenção.
Eu, que tinha medo até de viagens pequenas, vou atravessar dois dias de estrada pra ver quatro homens cantando músicas que me seguraram viva em dias muito ruins. Eu, que sempre achei que a vida acontecia pros outros primeiro, tô arrumando mala, separando roupa, fazendo freebie e aprendendo como funciona um metrô.
Talvez coragem não seja deixar de sentir medo. Talvez seja só encontrar alguma coisa que brilhe mais forte do que ele.
(Sobre atravessar o país para viver pela primeira vez-ver a minha banda favorita)
Este texto deveria ser um verso na minha vitrine. Mas às vezes, gosto de me despir dos títulos. Uma pena que assim talvez ele nunca te alcance.
Vez ou outra eu me lembro daquela noite. Certas ironias do destino realmente só acontecem comigo, ou pelo menos, com aqueles como eu. Os desnudos.
Eu estava travada, tentando acompanhar a melodia da cena, e te encontrei diante do palco de um espetáculo que pra mim era destino: "balada do louco". Eu ri de mim quando te vi. Quantas pessoas, despretensiosamente, encontram seu analista num show com esse nome? Cumprimentei e vi sua felicidade por eu estar ali. Não por estar perto de mim, mas por eu simplesmente estar. Instintivamente me senti mais segura.
- Vou escrever sobre isso.
- Por favor, e manda pra mim!
Não vou mandar.
Alguns sentiriam medo da análise, mas eu consegui respirar. À nossa frente, a banda cantava os dramas da realidade e eu senti mais vontade de acompanhar o coro. Foi epifanico, quase uma cena da Clarice.
Lembrei daquela sessão em que você me fez me sentir exposta numa verdade que eu não queria admitir. Lutei para não pensar que talvez você pense mal de mim. Foi necessário no processo... abrir mão das boas posições.
Como é duro querer ser boa! Arranca esse mal do peito e aceita ser mal vista. A vida continua.
Doeu na época, e eu te amaldiçoei em pensamento. Espero que não tenha vingado. Quão amaldiçoado pode ser alguém com esse ofício?
Na nota do celular: "usar a porra da minha boca para bendizer".
Arrependimento do dia: não ter tomado comprimidos o suficiente naquela manhã de 2017.