Os olhos arredondados permaneciam sobre a figura alheia, os braços cruzados e a maior cara de pastel possível por conta da reação de Soohyun. Só desfez sua pose a partir do momento em que ele endireitou sua postura, suspirando fundo pelo tanto de perguntas que acabara de ouvir. Para si, não era nada novo. Todas, exatamente todas as almas que havia recebido até então lhe enchiam de perguntas. E era normal. Um dia também foi uma delas.
A expressão mudava aos poucos, em um misto de preocupação enquanto o ouvia. A maneira como ele parecia abatido, talvez ainda estivesse com alguns sintomas, seja do que fosse. Não sabia como ele viera, mas pela vinda recente, poderia estar sofrendo os efeitos do que tivera passado até chegar ali. “Ah, então... Andou sonhando comigo?” Perguntou como forma de descontrair, mesmo que soubesse que teria que responder a tudo aquilo. “Mas eu não estou brincando. Não dessa vez. Falando em casa, você tem uma nova agora. Não vai precisar ser escravizado naquele inferno de novo. Devo te levar até lá.”
Aproximou-se mais, o suficiente para que o observasse mais de perto. Não via Soohyun há muito tempo. Seu coração apertava com o mal estar alheio, queria poder fazer algo para ajudá-lo. Mesmo que soubesse que não poderia fazer muito; logo iria passar. Ergueu o palmo para que afagasse os fios do mais alto, em uma forma de confortá-lo. Apesar de todo o ressentimento guardado, ele ainda era seu irmão. “Você morreu, Soohyun. É por isso que está aqui. E parece que ainda não se recuperou total… O que aconteceu? Consegue se lembrar?” Retorceu os lábios ao perguntá-lo, sabia o quanto seria difícil. Era só mais uma das muitas perguntas que teria a fazê-lo.
Soohyun não sabia o que fazer, falar ou pensar; tudo estava tão confuso em sua cabeça que a opção mais propícia a se fazer era aceitar que aquilo era realmente um sonho. Um suspiro longo escapou de seus lábios finos, reabrindo suas pálpebras aos poucos na intenção de observar o sol que se escondia por detrás das enormes muralhas que rodeavam aquele lugar. Começava a ficar escuro, e ficar perdido no meio de um monte de árvores não era algo que desejava sequer para um inimigo.
- Eu morri? - perguntou, tão simplista que ficou claro que não acreditara naquelas palavras. Suas orbes ainda observavam a paisagem que rodeava ambos os rapazes, sem reconhecer o lugar. - Casa nova? Isso aqui realmente não é um sonho? - finalmente sua atenção voltara a repousar sobre a imagem de Kisu, encarando-o por longos segundos em silêncio. Observou o rapaz de cima abaixo, reparando que o garoto parecia bem melhor do que o tempo em que estava em sua casa. Vê-lo ali, de um jeito que parecia estar vivo, mexia muito com o homem de modo que suas lembranças voltassem como uma onda forte e o acertasse em cheio contra a cabeça.
Aquilo tudo era tão estranho... Mas foi em meio a um estalo que arregalou seus olhos, lembrando-se dos minutos que antecederam ao momento em que fechara suas pálpebras no próprio quarto. Os remédios.
- Eu tentei me matar. - desviou as orbes para a grama baixa, nervoso. Os dígitos voltaram aos fios escuros, jogando-os para trás em um claro desespero. - Digo, eu comecei a ficar muito mal e abusei nos remédios achando que melhoraria, mas senti meu corpo colapsar e depois eu desmaiei. Mas... Meu Deus. - ainda descrente, Soohyun voltou a erguer sua atenção para Kisu. Sem nem pensar duas vezes, os braços envolveram o irmão com força; uma força que não usava há tantos meses, uma saudade guardada que mal conseguia medir. Precisava sentir o menino para ter certeza de aquilo era, de alguma forma, real. Espalmou bem as mãos contra as costas menores que o próprio corpo, trazendo-o de encontro ao próprio ombro em um abraço saudosista e protetor. - Então é realmente você?