Kimetsu no Yaiba e a Tradução de Golpes
Recentemente, eu assisti o filme de Kimetsu no Yaiba, que adapta parte do arco do Castelo Infinito, depois de anos sem ver o anime, esperando o lançamento digital na Crunchyroll do filme, pois não vi nos cinemas na época.
Amei o filme, é longo mas é bem divertido. Porém, sempre que vejo Kimetsu dublado, há um certo detalhe que eu sempre percebo, noto e levemente estranho quando ouço: os golpes.
É sempre uma observação — uma que, pessoalmente, não estraga completamente a experiência —, mas é meio estranho de qualquer forma. E que também não está exatamente errada, é mais uma escolha e diferença de preferência.
Falo isso para não acharem que esse post é eu apenas reclamando e discordando completamente com a decisão. Eu consigo ver e entender o motivo do porquê foi feito daquela forma, mesmo não sendo minha preferência.
E hoje, eu gostaria de escrever um pouco sobre isso, e deixar aqui, registrado, minha honesta opinião sobre esse quesito de tradução e localização em geral.
1 - Kimetsu no Yaiba
Primeiramente, vamos começar brevemente introduzindo a obra. Kimetsu no Yaiba é um mangá escrito e ilustrado por Gotōge Koyoharu, serializado na Weekly Shōnen Jump entre fevereiro de 2016 e maio de 2020.
Seguimos Kamado Tanjirō, um jovem do período Taishō do Japão que teve sua família morta por um oni — todos menos um, sua irmã Nezuko, que se transformou em um, e agora ele precisa arranjar um jeito de tentar curá-la. Nessa jornada, ele se encontra com mais onis, consegue sua própria katana, e se encontra com a Kisatsutai, uma organização feita para combater os onis, tendo um grupo nessa organização conhecida como os Hashiras, importantes pilares que protegem todos contra essa ameaça.
Se vocês perceberam só nesse meu texto, notaram que, sim, a série é japonesa, tem muita coisa da cultura japonesa, e várias palavras se mantém por um motivo ou outro em seu idioma original.
Oni, por exemplo, por mais que seja comumente traduzido para "demônio", não é a mesma coisa do demônio que conhecemos da nossa cultura (esse seria mais acurado ser chamado de "Akuma"). Como é algo mais específico da cultura japonesa, foi algo que foi mantido também na dublagem, e está mais que correto, em minha opinião.
Mas por que eu estou falando sobre isso? Porque isso abre as portas para podermos analisar um pouco mais os golpes que a série demonstra para nós através dos personagens. Em várias séries shōnen, como Naruto ou Boku no Hero Academia, você verá facilmente personagens gritando as suas técnicas, em voz alta ou apenas como texto para indicar que o personagem apenas pensa no ataque; Kimetsu não é diferente.
2 - Golpes, e suas traduções
Cada técnica que um personagem faz em tela tem um tipo de nome. Os caçadores de onis, por exemplo, tem as Respirações (Kokyū), cada um com o seu próprio estilo diferente e maneiras diferentes de utilizá-lo.
A Respiração da Água (Mizu no Kokyū), utilizada por Tomioka Giyū, o Hashira da Água, tem onze formas diferentes. Em japonês, a primeira forma é "Mizu no Kokyū, Ichi no Kata: Minamo Giri".
...E talvez você não tenha entendido nada, correto?
A tradução direta desse golpe é algo como "Respiração da Água, Primeira Forma: Corte Superficial da Água" ou "Corte da Superfície da Água". Agora dá para entender melhor, não é?
Essa são duas opções para utilizar em uma tradução: a original, e uma tradução. Normalmente, scanlations deixam a original sem mudar nada; mas na tradução oficial da Panini, editora brasileira que lança o mangá no Brasil, eles traduziram por completo (Corte da Superfície da Água). Não irei falar muito sobre a versão do mangá da Panini aqui, mas saibam que lá, os golpes estão traduzidos por completo.
Mas, e na dublagem? Como foi que ela fez? Traduziu completo, ou deixou a original?
Bem... as duas. A dublagem fez uma mistura; a primeira parte é traduzida (Respiração da Água, Primeira Forma), mas a segunda, o nome do golpe em si, é deixada no original (Minamo Giri).
Pessoalmente? Nesse caso, eu achei okay. Eu tenho a preferência de traduzir os ataques, mas acho que ainda fica fácil de lembrar o golpe porque a primeira parte dá para entender, então pelo menos eu achei okay.
O problema vem quando vamos dar uma olhada em outros.
Vamos olhar para a técnica de um oni, Akaza: "Jutsushiki Tenkai: Hakai Satsu — Rashin".
A tradução literal desse golpe é algo como "Desenvolvimento de Técnica: Morte Destrutiva — Bússola".
Talvez você reconheça as palavras "Jutsu" e "Tenkai" nesse golpe, se você viu Jujutsu Kaisen em japonês — Ryōiki Tenkai, sendo isso a "Expansão de Domínio", então talvez poderia também traduzir Jutsukishi Tenkai para "Expansão de Técnica".
E como é que é esse golpe na dublagem?
"Jutsushiki Tenkai: Hakai Satsu — Rashin"
Yup. Não traduziram nada. Diferente dos golpes das respirações, aqui eles não mudaram nada. Não foi algo como "Expansão de Técnica: Hakai Satsu — Rashin", só foi 100% japonês.
E é aí que começa uma discussão.
2.1 - Traduzir, ou não traduzir?
Uma discussão que dura anos e anos, onde ambos lados tem seus pontos positivos e negativos.
Para todo Cavaleiros do Zodíaco, temos um Dragon Ball.
Para todo Naruto, temos um Bleach.
Para todo Fairy Tail, temos um Kimetsu no Yaiba.
Cada anime possui e segue suas próprias regras na tradução, e escolhas que o tradutor faz ao adaptar para o público brasileiro. E, como dito antes, cada opção tem suas vantagens e desvantagens, e cada uma é válida. Tudo depende de opinião e de cada caso.
Kimetsu, sendo um cenário japonês, abre o espaço para manter mais termos graças a isso e parecer mais "natural". Quase ninguém questiona os Hashiras não serem chamados de "Pilares", por exemplo.
Pessoalmente, eu gosto de traduzir golpes sempre quando possível e sempre quando consigo deixar mais natural de se ler. Se eu viro a página e leio "Mizu no Kokyū, Jū-Ichi no Kata: Nagi", esse nome grande não vai significar nada pra mim e vou esquecer logo na próxima página.
Agora, se for "Respiração da Água, Décima Primeira Forma: Calmaria"? Facilita mais, eu entendo melhor tanto as palavras ditas quanto o golpe.
Quanto mais longo for o ataque no japonês, eu acho, dificulta mais para ser algo memorável. Esse é o meu maior problema com deixar os golpes no japonês, no caso de Kimetsu.
Vamos olhar outro caso que muitos gostam de trazer quanto tocam no assunto de traduzir golpes: Dragon Ball.
2.1.1 - Dragon Ball e seus golpes
"Ah, mas você vai traduzir 'Kamehameha'? 'Makankosappo'? 'Kaiōken'? Não, né. Então pra quê traduzir aqui também?", é algo similar do que já ouvi antes.
E vamos lá.
Primeiro, "Kamehameha". Muitos dizem que a tradução é "Onda de Destruição da Tartaruga", o que claramente não iria caber na maneira que os personagens conjuram esse golpe, então começa por aí (Kaaaaaaa-meeeeee-haaaaaaa-meeeeee-HAAAAAA).
No japonês, esse golpe é escrito assim: かめはめ波.
Notaram algo? O último kanji escrito é "Ha", que significa "onda". Mas é aqui que tá, essa é a única parte do ataque que tem um significado explícito. O resto está escrito em hiragana, o que não é, explicitamente, algo com significado no Japão.
Sim, há os kanjis de Tartaruga (亀, kame) e de Destruição (破滅, hametsu), que poderia ser encurtado para ser "hame", e "kame" por causa do contexto de ser o Mutenrōshi (Mestre Kame), porém acho que algo como "Onda Kamehame" estaria mais acurado, até.
A youtuber MistareFusion fez um belo vídeo falando mais sobre esse e outros golpes da obra, e recomendo que deem uma olhada, caso tenham interesse, e que a origem do nome "Kamehameha" veio de sua esposa, após querer um nome que seja "Algo-Algo-Ha". Além de também compartilhar o nome dom o Rei Kamehameha, então não teria o porquê de mudar, nesse caso, vendo o contexto da origem.
Aliás, quanto ao nome "Kamehameha", eu estava pensando se haveria um nome decente no estilo "Algo-Algo-Ha", quando minha esposa disse, em tom de brincadeira: "Kamehameha seria ótimo, não é?", então usei assim mesmo. Claro, o nome vem do Rei Kamehameha do Havaí. Me perguntam se eu assisto a muitos filmes de artes marciais para me inspirar em técnicas ou poses; embora eu tenha assistido a muitos filmes de kung fu, por incrível que pareça, eu não tinha muito interesse nas artes marciais em si. Fonte: Dragon Ball Super Exciting Guide
Voltando, outro detalhe nesses golpes é a comparação do TAMANHO deles com os de Kimetsu — "Kamehameha", "Makankosappo", "Kaiōken", "Kienzan", "Galick Hō", todos esses são curtos. É mais fácil de gravar e saber pronunciar em comparação com um ataque e golpe do Akaza, por exemplo, principalmente quando vemos que a tradução em PT-BR de um desses é o dobro ou triplo do tamanho.
"Makankosappo"? Nah, "Canhão Mortal de Perfuração Demoníaca", com certeza vai caber na boca do Piccolo.
Mas e algo como "Genki Dama", não poderia ter tradução? Não poderia ser "Esfera Espiritual", ou algo como "Esfera Genki"? Polêmico sugerir algo assim, eu sei, mas que poderia, pode.
Além da quantidade de golpes que há na obra. Eu chuto que dois Hashiras sozinhos já possuem mais golpes com nomes próprios que Dragon Ball tem em seu mangá.
2.1.2 - Mas traduzir TUDO?
Não.
Por mais que eu seja a favor de traduzir coisas, eu também sei que algumas coisas são melhores serem deixadas quietas, por um motivo ou outro. Vamos olhar para o próprio Kimetsu para vermos meu ponto.
No capítulo 40, temos um pequeno flashback logo no começo com o pai de Tanjirō fazendo uma kagura, que são rituais de música e dança tradicionais do xintoísmo no Japão dedicados às divindades. Não é qualquer dança, é especificamente uma kagura.
Mas uma kagura pra quem? Pro "Hinokami-sama".
E o que significa "Hinokami"?
É aí que tá, lembra do Kamehameha? Que está em hiragana e não tem significado explícito? Pois bem, aqui também. "Hinokami" é escrito em como "ヒノカミ", escrito intencionalmente em katakana para manter a ambiguidade. Mas se for para teorizar, pode significar tanto "Deus do Fogo" quanto "Deus do Sol".
Isso é importante para revelações futuras, mas e aí? Traduz para "Deus do Fogo" tirando esse aspecto de ambiguidade, ou mantém "Hinokami"?
Minha escolha pessoal é: mantém.
Esses aspectos podem ser pequenos, mas mantém parte da cultura e da intenção que o autor quis passar, o que pra mim é tão importante quanto adaptar para o novo público ler para entender.
Mas aí a consequência vem logo depois: "Hinokami Kagura", a técnica própria de Tanjirō, que referencia essa dança que seu pai fez. E sim, eu manteria também o nome original nisso. Viu só? Nem tudo precisa traduzir, tudo depende do contexto e da intenção.
Outro exemplo de manter o nome original vem mais pra frente, no capítulo 145, quando Zenitsu mostra sua própria forma nova da Respiração do Trovão: Hono-Ikazuchi-no-Kami.
E sim, eu manteria esse nome também. Por quê? Bem, esse nome se traduz para "Deus do Trovão do Fogo", mas sua origem vem do nome de uma divindade do grupo Yakusa-no-Ikazuchi (Oito Deuses do Trovão), que se chama Hono-Ikazuchi, o trovão de fogo.
Mas aí quando não tem tudo isso, referências ou algo específico da cultura japonesa (ou até de outras, mesmo) no meio, pode traduzir? Com certeza! Pessoalmente, acho que a leitura fica mais fluida, mais natural, enquanto preserva parte e aspectos que o autor queria passar.
3 - Conclusão
Muitos podem discordar de mim, e está tudo bem. Cada um com seus gostos e opiniões. Como já falei aqui mesmo, essa discussão vem de gostos pessoais, experiências de vida com animes — se viu legendado por fansubs, viu mais recentemente, ou antigamente com Cavaleiros do Zodíaco, tem várias formas e experiências que moldaram a sua opinião sobre esse tópico atualmente.
Falei isso em um post passado meu, então copiarei o exato parágrafo:
Pra mim, tradução é uma balança, um equilíbrio de manter a intenção original do autor, o que soa melhor para a nossa língua e manter uma consistência pelo decorrer da obra.
No caso de Kimetsu no Yaiba, eu acho que se beneficiaria bastante se os golpes fossem traduzidos. Há vários para cada personagem, muitos são mais longos do que algo que seria apenas uma palavra como Dragon Ball ou até alguns de Naruto, e é possível passar a intenção original com palavras em PT-BR.
E se um ficar longo demais, tipo o Minamo Giri ser o "Corte na Superfície da Água"? Adapte! Não precisa ser palavra por palavra, pode adaptar para algo menor, contando que consiga transmitir algo similar o bastante. Pegasasu Ryūsei Ken virou "Meteoro de Pégaso", mas o nome completo é "Punho do Meteoro de Pégaso". Cortou, encurtou, manteve o significado, e funcionou! O nome é lembrado até hoje!
Vamos pegar outro exemplo que fiz, agora do capítulo 122:
"Kyōmei Raisatsu" seria algo como "Grito Frenético da Morte do Trovão", mas eu traduzi para "Trovão Ressonante". Ficou bom? Ruim? Vai de cada um, mas eu tentei pegar esse "Grito Frenético da Morte" e encurtá-lo com uma palavra que ainda pudesse transmitir que é algo barulhento, estrondoso.
“Koi Neko Shigure” significa "Chuva de Amor de Gato" ou "Chuva de Gatos Apaixonados", mas eu deixei como "Chuva de Gatinhos". Eu pensei que "gatinhos" já fizesse com que a palavra fosse mais "fofa" que só "Chuva de Gatos", sabe? Tirei o "amor", mas queria ainda passar algo que combinasse com a Kanroji.
E assim com todas as outras! Adaptar, traduzir, é aqui que a criatividade chega para transmitir do melhor jeito possível para o público!
Se você leu tudo até aqui, muito obrigado! Espero que tenha gostado dessa minha pequena análise e discussão sobre esse tópico que tanto ouço em vários lugares.
Novamente, nada de hate com a dublagem ou algo assim — eu assisti e assisto Kimetsu inteiro dublado, e só queria comentar sobre essa escolha que a equipe da dublagem fez lá no começo da Temporada 1 e que, até agora, continua firme e constante.
Muito obrigado, novamente, e fui!



















