O prefeito de Khadel se sente honrado em ter ALEKSANDER MORETTI como morador de sua excêntrica cidadezinha. Aos seus 30 anos, ele é bastante conhecido pelos vizinhos como PLAYBOY. Dizem que ele se parece com DAMIAN HARDUNG, mas é apenas um EMPRESÁRIO (DONO DA BOATE ‘FIAMMA D’AMORE). A ausência do amor em sua vida, deixou ALEK um pouco IRRESPONSÁVEL e EGOCÊNTRICO, mas não lhe atormentou o suficiente para deixar de ser BEM HUMORADO e DESENVOLTO. Esperamos que ele encontre a sua alma gêmea, quebre a maldição da cidade e consiga ser feliz!
Riso fácil, coração trancado. Aleksander sempre tem uma piada pronta e dificilmente leva as coisas a sério, mas quando alguém tenta se aproximar demais emocionalmente, sua reação automática é fugir ou afastar a pessoa de forma brusca;
Cigarros e uísque é seu combo clássico de todas as noites. Ele não necessariamente gosta tanto do cigarro, mas virou parte da sua imagem. Já o uísque, esse sim, ele aprecia;
Sem paciência para drama, exceto o próprio. Alek não suporta ver casais discutindo em público ou pessoas chorando perto dele – fica desconfortável e tenta escapar. Mas, ironicamente, ele próprio vive um drama interno constante;
Um flerte profissional. Consegue seduzir qualquer um com meia dúzia de palavras bem colocadas e um olhar carregado, mas raramente deixa que alguém o seduza de verdade.
𝒓𝒆𝒍𝒂çõ𝒆𝒔 𝒑𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒊𝒔
Dolores é a única pessoa de quem ele aceita broncas. Se alguém tenta dar um sermão nele, ele ri, revira os olhos ou ignora. Mas se Dolores disser que ele está errado? Ele se cala, reflete e até tenta melhorar (por um tempo);
Alek evita olhar diretamente para pais e filhos juntos. Mesmo que inconscientemente, cenas assim o incomodam. Ele finge que não liga, mas um aperto no peito sempre surge;
Sente um misto de inveja e desprezo por quem acredita no amor. Parte dele gostaria de acreditar, mas ele também se sente superior por não cair nessas "bobagens";
Os funcionários da boate gostam dele mais do que deveriam. Porque apesar da fachada de playboy irresponsável, ele paga bem, protege a equipe de clientes abusivos e, vez ou outra, surpreende alguém com um presente ou bônus inesperado.
𝒓𝒆𝒍𝒂𝒄𝒊𝒐𝒏𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐𝒔 & 𝒓𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆𝒔
Prefere encontros casuais, mas fica obcecado pelo que não pode ter. Se alguém demonstra desinteresse ou resiste ao seu charme, ele se vê desafiado e não sossega até conquistar a pessoa – mas, assim que consegue, perde o interesse;
Nunca dorme abraçado com ninguém. Assim que percebe que a pessoa dormiu, se afasta ou levanta para fumar, beber ou simplesmente encarar o teto;
Amor é um jogo que ele já decidiu que vai perder, então ele nem tenta. Prefere desistir antes de sofrer;
Mas ele sonha, às vezes... com alguém que o ame, que o aceite. Mas acorda sempre com a sensação de que é só um sonho impossível.
𝒑𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒐𝒔 𝒅𝒆𝒕𝒂𝒍𝒉𝒆𝒔
Tem um cachorro ou um cavalo no sítio que é seu favorito, e jura que não tem um nome sentimental para ele (mas tem);
A chave do sítio é um pouco diferente das outras. Está gasta e arranhada, porque ele a segura nos momentos de estresse sem perceber;
Tem uma caixa trancada em algum lugar do sítio. Dentro, cartas e fotos da mãe. Ele nunca lê ou vê, mas também nunca joga fora;
Apesar de frequentar e administrar uma boate moderna, ele tem um fraco por vinis antigos. Jazz, blues e até umas músicas italianas românticas que ele ouvia escondido quando criança.
── .✦ 𝒃𝒂𝒄𝒌𝒈𝒓𝒐𝒖𝒏𝒅
Aleksander "Alek" Moretti nasceu em uma família poderosa e rica, mas cresceu sem amor. Sua mãe o abandonou aos seis anos, e seu pai, Vicenzo, nunca perdoou a ausência dela – nem o próprio filho, tratando-o com frieza e desprezo. Criado por funcionários e ansiando por atenção, Alek tentou ser o filho perfeito e o rebelde inconsequente, mas nada fazia diferença. Eventualmente, aceitou que nunca seria bom o bastante.
Com o tempo, aprendeu que dinheiro compra tudo, que consequências não se aplicam aos ricos e que, no final, a única prioridade deveria ser ele mesmo. Virou um playboy carismático, irresponsável e desapegado, dono de uma boate badalada próxima à cidade grande. Vive cercado de luxo, festas e prazer, mas sente um vazio constante que tenta ignorar.
A única pessoa que o mantém um pouco no eixo é Dolores, uma funcionária antiga da família que foi sua figura materna. No fundo, ele é cético quanto à maldição da cidade, mas prefere acreditar que ela existe a encarar a possibilidade de simplesmente ser incapaz ou indigno de amar. Seus relacionamentos são superficiais, e sempre que alguém chega perto demais, ele sabota tudo.
O único lugar onde ele realmente se sente em paz é seu sítio, onde cuida dos animais longe dos holofotes. Para os outros, é apenas uma jogada de marketing para melhorar sua imagem. Mas, para ele, é o único espaço onde pode ser sincero consigo mesmo.
O grito dela ficou preso na garganta quando a mão que a segurava foi arrancada com violência — e, por um instante, Olivia pensou que fosse mais um agressor, até reconhecer aquela voz rouca, furiosa, inconfundível. Tão irritado como ela nunca o tinha visto antes, talvez fosse coerente que tivesse medo daquela versão de Aleksander, mas ela só conseguia se sentir protegida por alguém cuidar dela com tanta ferocidade. Os olhos arregalados se ergueram, arregalados, ajeitando os cabelos que cobriam a face. — Alek... — murmurou, o alívio a atravessando como um sopro quente no peito. Olivia ajeitou o casaco que quase lhe foi arrancado, enquanto deixava escapar um riso curto ao ver os homens que a seguravam agora gemendo sob os socos de Aleksander. Parte dela, a parte mais crua e vingativa, se deliciava com a cena: cada rosto atingido, cada grito de dor, cada osso quebrado, era como um ajuste de contas pelo que ousaram fazer com ela. Os olhos marejados brilhavam, mas não de pena — e sim de satisfação.
Foi só quando notou o sangue na boca dele, o golpe desferido com precisão, cada vez mais descontrolados, que algo nela se rompeu. Olivia estendeu a mão, agarrou a barra de ferro caída no chão e, sem pensar, desferiu um golpe seco nas costas de um dos agressores que tentava se levantar. O estalo do impacto ecoou, brutal e libertador. Em seguida, puxou Aleksander pelo braço com urgência, antes que ele se cegasse ainda mais pelo ódio. Seus dedos trêmulos mas firmes puxaram-no para longe do agressor. — Chega, Alek. Já tá bom. Eu só quero ir embora daqui. — a voz dela saiu frágil, embargada. — Me leva pra algum lugar. Por favor. — ainda segurava o braço dele, um pedido desesperado para ir para longe e esquecer o que estava acontecendo aqui.
Alek estava ofegante, o peito subindo e descendo como se cada respiração fosse feita de fogo. O gosto metálico de sangue preenchia a boca, misturado com a sensação latejante no rosto onde havia sido atingido. O corpo inteiro gritava por mais — por não parar enquanto cada um deles estivesse no chão para nunca mais levantar. Mas foi o toque dela, a urgência nos dedos fincando no braço dele, que quebrou o transe. O olhar dele, ainda sombrio, caiu sobre Olivia. Ela estava ali, próxima demais, pedindo. E não era só um pedido — era um chamado de volta. A fúria rugia, mas a visão dela, os olhos marejados implorando, cortava fundo o suficiente para frear o instinto. Alek engoliu seco, o maxilar duro, tentando arrancar o ar da garganta. "Tá... tá bom." A voz saiu grave, arranhada, como se fosse difícil empurrar as palavras pra fora. Ele limpou o sangue do canto da boca com as costas da mão, desviando o olhar dos corpos no chão. "Acabou."
Por um instante, ficou parado, respirando fundo como se lutasse contra a necessidade de voltar a desferir outro golpe. O silêncio que restou era pesado, cortado apenas pelos xingamentos fracos e cuspidos dos agressores enquanto recuavam, cambaleando. Mas, em seguida, segurou a mão de Olivia — forte, quente, quase desesperado. "Respira. Eu tô aqui." A voz saiu baixa, rouca, quase um sussurro entre os dentes cerrados. Ele não tinha encontrado Matteo — ainda não. Mas tinha encontrado alguém que precisava dele. E, naquele instante, isso já era o bastante para Alek esquecer de si mesmo. "Vamos embora daqui." Passou o braço ao redor dos ombros de Olivia, puxando-a para perto, encolhendo-a sob seu corpo e sua proteção enquanto a arrastava a passos rápidos até o carro. Só então a olhou de verdade, com a fúria ainda acesa nos olhos. "Eles te machucaram?"
[o despertar da maldição | terceira semana de agosto de 2025]
"Quer parar de decidir as coisas por mim, Aleksander?" Matteo reclamou, soltando o ar rapido, com uma respiração seca. Era difícil assistir Aleksander querer destruir a relação deles — uma relação que ele sabia que era frágil e não podia ficar sendo testada de novo e de novo. Era novo e havia muitos obstáculos contra eles, mas eles só conseguiriam superar tudo aquilo se estivessem do mesmo lado. E, naquele momento, Aleksander estava lutando contra ele. "Que saco," resmungou ainda irritado. "Eu sou um homem adulto e capaz de tomar as minhas próprias decisões." Era quase ridículo que ele precisasse falar algo como aquilo quando ele tinha que olhar levemente para baixo para encarar o loiro. Ainda assim, era tratado como um incapaz, como se Aleksander precisasse tomar as decisões por ele naquele relacionamento, como se só Aleksander soubesse o melhor para eles dois. "E eu sei o que eu estou fazendo." Por mais que às vezes ele se questionasse se era a melhor coisa quando tudo que acontecia era ser empurrado para longe. "Eu sei que você me enlouquece, e que eu vou ficar com raiva de você às vezes. Mas eu preciso que você queira esse relacionamento também."
Matteo franziu as sobrancelhas, "pior do que trair, Alek?" Ele realmente não entendia como Aleksander pensava que ele poderia piorar a situação que tinham em suas mãos — a menos que ele estivesse planejando sair e fazer uma orgia. "E se não tiver mais nada para nos segurarmos, Alek, a gente termina," Matteo falou com certa objetividade, não porque queria ser casualmente cruel, mas porque no fim das contas, se chegassem naquele ponto, realmente teriam chegado ao ponto de terminar... Mas ainda não estavam lá. "Mas nesse momento eu quero estar com você — se você parar de dificultar," Matteo disse, segurando a outra mão de Aleksander com a sua mão livre. "Eu não vou mentir pra você e dizer que vou ficar independente do que você faça, Alek, mas nesse momento eu quero ficar," disse. Ambos erraram. Matteo poderia ter ficado na casa. Esperado Aleksander voltar para terem conversado. Podia não ter retribuído na mesma moeda. Mas no fim, não podiam mudar as coisas que já havia acontecido.
Respirou fundo, "Alek," murmurou, "eu não quero que ficar comigo seja uma batalha constante para você." Matteo não sabia muito sobre o amor, mas o pouco que sabia era que não deveria ser uma batalha constante. Obviamente eles precisavam crescer e se adaptar um ao outro, mas ele não queria que Aleksander precisasse lutar com todos os seus instintos sempre. "Eu não quero que o nosso relacionamento seja uma batalha para você," ele reiterou. "Você vai beijar outra pessoa?" Perguntou, levantando uma sobrancelha.
Alek deixou escapar um riso baixo, quase sem humor, passando a mão pelos próprios cabelos como se buscasse algum tipo de paciência que não tinha. O olhar fixo em Matteo queimava, não de raiva, mas de algo mais denso, mais desesperado. "Você acha mesmo que eu não quero isso?" A voz dele saiu firme, mas carregada de frustração. Ele avançou um passo, a proximidade quase sufocante, mas ao mesmo tempo protetora, como se quisesse colocar Matteo dentro de um espaço só deles dois. "Eu não tô tentando decidir por você, Matteo." A mão dele se fechou em punho ao lado do corpo, a contenção óbvia. "Eu tô tentando te proteger. De mim, dos outros, de tudo isso que parece só esperar a gente vacilar." O tom grave suavizou por um instante, deixando escapar a vulnerabilidade que ele odiava mostrar. "Eu sei que você é adulto, sei que você pode decidir por você. Mas, merda, eu não consigo simplesmente… não tentar segurar as rédeas. Não quando se trata de você." O olhar dele caiu, breve, como se admitisse um erro. Depois voltou, intenso, direto no do moreno. "Justamente porque eu quero isso. Porque eu nunca quis tanto nada na vida."
Alek fechou os olhos por um instante, como se precisasse de um segundo extra para digerir cada palavra. O jeito direto de Matteo batia fundo nele, como um soco que doía não pela violência, mas porque atingia exatamente onde ele tentava manter uma armadura. O peito dele pesava — não de raiva, mas de uma mistura estranha entre vergonha e necessidade. Quando abriu os olhos de novo, estavam turvos de algo que não sabia nomear. Ele respirou fundo, demoradamente, mas o ar parecia arranhar na garganta. "Eu… não quero que seja uma batalha também. Mas... Eu não aprendi a ter nada que não fosse à base de luta." A confissão saiu baixa, quase arrancada à força. "Desde moleque, eu só sei resistir. Defender. Atacar antes de ser atacado. Quando você fala que não quer ser minha batalha, eu entendo… mas eu não sei ser de outro jeito. É como se eu tivesse nascido com as mãos fechadas em punho."
Os olhos dele percorreram o rosto de Matteo, como se buscassem uma fresta de compreensão. "Mas o que eu tô tentando… o que eu prometi… é abrir essas mãos, pelo menos com você." A voz vacilou, mas não quebrou. "Não é porque eu não te quero, ou porque eu tô tentando te empurrar pra longe. É porque eu tenho medo de… não ser suficiente. De que você perceba que tá se prendendo a alguém quebrado, e que isso não vale o esforço." O polegar dele apertou de leve a mão de Matteo, como se estivesse tentando convencer o outro do que nem ele conseguia acreditar completamente. "Mas eu não vou beijar outra pessoa, não vou procurar em outro lugar aquilo que eu já sei que encontrei aqui." Soltou o ar devagar, um quase-riso cansado escapando. "Não vou estragar isso desse jeito, não mais." Houve uma pausa curta, carregada, antes dele concluir, baixo, quase como um sussurro: "A única coisa que eu preciso… é que você não desista de mim antes de eu conseguir aprender a não desistir de mim mesmo."
Forçou um riso. Não sabia se seria pior ou melhor se Aleksander quem fosse o pai de Romeo. E não convinha pensar nisso agora, ainda mais após sua decisão de se esconder. - É, eu sei. Nisso eu tenho quase certeza que você não me deixaria na mão. - Alek poderia ter muitos defeitos, mas sabia reconhecer também as qualidades, e ele jamais deixaria um criança de lado só por puro luxo. Os dois poderiam não ser pessoas tão boas no passado, mas tinham o mínimo de responsabilidade e com o histórico de pai que ele tinha, com certeza não iria querer refletir as mesmas ações.
Era bom saber que não havia o sentimento de pena ali entre os dois, porque odiaria se ele tivesse pena de si. No entanto, ainda se achava fraca por ter acatado tudo que seus pais queriam só para esconder uma criança e um "escândalo". E agora, Scarlet estava se preparando para jogar todos esses anos de esforços deles pela janela. - Você falar que não sou um monstro é quase um elogio. - Comentou naquele humor que sabia que só ele entenderia. Algo entre o cômico e o trágico. - Mudaram. Eu quero ser a mãe dele, de verdade... Não quero mais fingir ou esconder ele só pra não causar algo. Eu não me importo com o que vão pensar. - E talvez, se outra pessoa fosse sua alma gêmea, já tivesse o feito assim que passou a sentir o mínimo de carinho por Romeo. Mas ser a alma gêmea de uma estrela mundialmente famosa poderia causar muito mais situações complicadas do que gostaria. - Mas apesar do seu surto achando que era o pai... Obrigada por me ouvir. E se você contar pra alguém, eu te mato. - Sorriu, não ironicamente como de costume, de forma mais leve e com aquele leve tom de brincadeira. Helena, Matteo e agora Alek sabiam. E para que ficasse tranquila, agora faltava só uma pessoa para que conseguisse levar tudo adiante.
Ele escutou o resto em silêncio, com aquela calma estranha que escondia o turbilhão por dentro. Quando ela soltou o comentário sobre não ser um monstro, ele riu baixo, sem humor. "É, pode anotar: da minha boca, isso é quase um puta elogio mesmo." Deu um passo mais perto, baixando o tom da voz como se a conversa fosse um segredo guardado só entre eles. "Você não é fraca, Scarlet. Sabe qual é a diferença entre você e metade dos fodidos dessa cidade? Você ainda tá lutando. Tá tentando. E se agora decidiu ser mãe de verdade pra ele… então foda-se o resto. Que falem, que achem, que inventem. Quem tem que acreditar em você é ele. E eu sei que ele vai."
Houve uma pausa curta, os olhos dele suavizando só um pouco. "E não se preocupa, não vou abrir a boca. Não porque você ameaçou me matar…" arqueou uma sobrancelha, com aquele humor seco que só ele carregava, "…mas porque isso é teu. Tua história, tua decisão. Eu só tô aqui pra segurar a barra se precisar." Ele respirou fundo, como quem pesa as próprias palavras antes de largar. "Você não tá sozinha nessa merda toda, Scarlet. Nem um pouco." Alek pousou uma mão leve sobre o braço dela, um toque firme, mas cuidadoso, quase protetor.
Alek manteve a mão sobre o braço dela por mais alguns segundos, sentindo a tensão que ainda percorria o corpo de Scarlet. Soltou um suspiro contido, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado, medindo o momento certo para avançar. "Mas… deixa eu te perguntar uma coisa," começou, a voz baixa, quase um sussurro que parecia feito só para ela. "Se eu não sou o pai… então quem é?" Arqueou uma sobrancelha, tentando disfarçar o quanto a pergunta queimava na língua, mas era impossível esconder a curiosidade que brilhava nos olhos. Alek tentava montar mentalmente a linha do tempo — desde o fim do namoro até Scarlet desaparecer de Khadel, até finalmente descobrir o motivo de todo aquele silêncio e distância: a gravidez. Cada pedaço da história se encaixava agora, mas a revelação não diminuía a ansiedade que sentia.
Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos de tanto chorar, mas não conseguiam esconder o tremor nas mãos. O boné puxado até quase cobrir a testa e a cabeça baixa eram sua única armadura para atravessar aquelas ruas onde, dias atrás, tentaram arrombar a mansão dos Boscarino como se a caçula fosse um monstro a ser caçado. A pele de Olivia ainda ardia pelos arranhões e cortes, e ela não tinha forças para tratar direito dos ferimentos. As mensagens de ódio, as batidas na porta no meio da noite, os gritos de ameaça, nem na internet tinha paz nos raros momentos em que a internet funcionava — tudo ecoava como se estivesse presa num pesadelo sem fim. E, pior do que tudo, o silêncio absoluto: nenhuma notícia de Nicholas, de Lara… ela se perguntava se estavam vivos, se também estavam trancados, quebrados, sozinhos. Se fosse um pouco mais corajosa — ou louca — teria saído antes para buscar por eles.
Mas não podia mais se esconder. Precisava das medicações para dor e de pomadas para os ferimentos causados no momento da quase invasão. Quando chegou à porta da farmácia, quase tropeçou nos próprios pés ao esbarrar em alguém. O corpo congelou, e o coração disparou tão forte que pensou que fosse desmaiar de tanto medo. Sentiu o boné ser arrancado com brutalidade de sua cabeça, e os sussurros de "é a Olivia" ocupando o espaço. O óculos de sol também foi tirado de seu rosto, e ela cruzou os braços como se tentasse se proteger. De nada adiantaria a sua garra e seus anos de muay thai; tinham dois homens e uma mulher a cercando. — Por favor, eu só preciso de medicação. — quase gaguejou, a voz trêmula e os olhos enchendo de lágrimas de novo.
Deveria ter ficado em casa sozinha, como ficou nas últimas quase duas semanas. Sem nenhuma comunicação, um abraço, uma voz reconfortante. Ninguém queria vê-la, nem sua família, nem os empregados da casa dos pais. O homem a puxou com brutalidade pelo braço, enquanto a mulher pressionava o dedo nos seus ferimentos, arrancando um grito de dor de Olivia. — Não! Não! Por favor! Eu vou embora da cidade, como vocês pediram. Eu vou, eu juro que vou. Me deixa ir. — ela implorou. Uma Olivia frágil, como ela nunca mais havia sido desde a infância, quando era encurralada e humilhada por colegas de classe. — Tá me machucando. — o momento desbloqueava memórias dolorosas, e Olivia havia perdido suas forças para se livrar das mãos que a seguravam.
Alek não sabia muito bem o que esperava encontrar quando decidiu atravessar a estrada até Khadel. Talvez uma pista, talvez o próprio Matteo — qualquer coisa que desse sinal de vida. Mas não aquilo. Não Olivia, encolhida diante da farmácia, sendo puxada e pressionada como um bicho acuado. Por um instante, o mundo pareceu estreitar até caber apenas naquela imagem: os olhos dela marejados, os ombros trêmulos, o corpo marcado por arranhões abertos que alguém teve a crueldade de cutucar. Algo nele simplesmente… quebrou.
A dor que vinha carregando há dias, o vazio, o cansaço — tudo se juntou em um único estalo surdo, e o corpo reagiu antes que a mente acompanhasse. "Solta ela." A voz saiu grave, rouca, mais ameaça do que som. Não era um pedido. Um passo bastou para arrancar o braço do homem que a segurava, e nesse movimento Alek sentiu a fúria arder, cravando fundo como se queimasse cada músculo. Não havia espaço para diálogo, nem para cálculo. Só para o instinto, cru e feroz. Os três não pareciam recuar — ao contrário, havia um brilho nos olhos deles. Fanáticos. Predadores que viam nele mais uma presa rara: dois reencarnados, ali, ao alcance da mão. Mas Alek já não era presa.
O maxilar dele se fechou com tanta força que doeu. "Vocês não fazem ideia do que tão provocando." O tom baixo, gélido, precedeu o movimento seguinte: o punho disparando contra o rosto do homem que ousara machucar Olivia. Sentiu o impacto seco reverberar nos ossos, mas não parou. Não enquanto a raiva pulsava como um tambor no peito. Um segundo golpe, depois outro — cada um alimentado pela imagem dela sendo arrastada como se fosse nada. O instinto protetor queimava mais forte do que qualquer dor que ele carregava. Olivia não era apenas a "quase ex", nem um elo do passado: ali, vulnerável, ela era a prova de tudo que ele não podia perder mais.
Alek agarrou o braço de um deles com força e o torceu até ouvir o estalo seco de um osso cedendo, empurrando o homem para trás como se fosse apenas peso morto. O segundo não hesitou: o punho dele acertou em cheio a lateral do rosto de Alek, a cabeça virando com o impacto e um gosto metálico de sangue se espalhando na boca. Alek não recuou — devolveu o golpe com a mesma brutalidade, o punho esmagando o nariz do homem, que tombou com um gemido abafado. O terceiro avançou com um cano de ferro improvisado, e Alek não conseguiu se esquivar a tempo; o metal atingiu seu ombro, o choque vibrando até o osso. Rangendo os dentes, ele avançou mesmo assim, colidindo contra o corpo do adversário com violência. Os dois caíram no chão, mas Alek levou a melhor: cravou o joelho no peito do homem e desferiu um chute certeiro nas costelas até sentir o corpo dele amolecer sob o peso.
Revirou os olhos ao escutar a menção da mania doida. Não deveria ser a primeira vez em que ouvia de Aleksander algo parecido, e Dante duvidava um pouco de que seria a última — ainda que esta fosse a sua referência. “Cara, eu acho que você esquece que te conheço desde que você precisava usar um banquinho pra alcançar a pia e andava de bicicleta de rodinha.” retrucou, usando um pouco do senso de humor que nunca abandonava por completo as conversas de ambos. E não era um exagero: os dois eram amigos há vinte e quatro anos. Era uma vida inteira. “Então, eu sou a melhor pessoa pra opinar sobre isso. Inclusive melhor do que você, que você goste ou não. E a real é que você é a pior pessoa pra ser juiz de você mesmo. Você é péssimo nisso, principalmente porque se julga por momentos isolados.” apontou de um para o outro e continuou: “E a diferença é que eu te vejo pelo todo antes de julgar.”
Era muito mais fácil dar conselhos, opinar e tentar encontrar a luz em uma situação que enxergava por fora, mas Dante sabia que era seu papel escutá-lo e tentar ajudá-lo a ver que nem tudo estava perdido, que ainda existiria uma esperança para os dois. “O silêncio às vezes é só silêncio, Alek. Não uma sentença.” iniciou, suspirando. “Não precisa significar que o Matteo tenha seguido em frente, ou que tenha decidido que quer deixar por aí o que vocês tem. Pode ser simplesmente silêncio.” reiterou. Principalmente com o problema de comunicação que todos andavam tendo, não era uma boa ideia já sair assumindo tanto da ausência de Matteo. “Isso é a sua cabeça tentando te sabotar, te fazendo acreditar que tudo tá perdido. Como se não fosse possível alguém enxergar além dos seus erros e querer voltar pra você.” não tinha a menor dúvida de que era isso que acontecia. Alek já havia se provado anteriormente quase o campeão olímpico de auto sabotagem. E era o trabalho de Dante, como seu melhor amigo, tentar agir como sua voz da razão quando necessário. “Se quiser ‘se preparar pro pior’, tudo bem. Mas até agora você só assumiu o que ele pode achar ou fazer, não sabe de verdade. E vocês dois são pessoas completamente diferentes.”
Uma risada curta deixou os seus lábios com a resposta de Alek. “Não achei que a gente ‘tava tanto na vibe de voltar pro século passado que ia perder até o contato com o mundo exterior. Me sinto um viciado em internet, mexendo no celular toda hora pra ver se alguma coisa funciona.” só uma vez o sinal de telefone havia funcionado. De resto, era a mesma coisa que nada. Revirou os olhos com a brincadeira do urubu, e riu novamente — um tanto aliviado de vê-lo demonstrar um pouco daquele humor tão característico de Alek. “O urubu seria melhor que um bando de malucos se chamando de Protetores de Khadel. Quem criou esse nome, o chat GPT ou o filho de cinco anos?” ironizou. “Eu vim por você, cabeção. O sinal anda tão uma merda que nenhuma mensagem pra ela foi, aí dei um jeito. Precisei ir pra San Gimignano pra ver ela sem algum maluco daqueles aparecer e se jogar na nossa frente.”
Alek deixou escapar um sopro ruidoso de ar pelo nariz, entre riso e descrença, ao ouvir a menção do banquinho e da bicicleta. "Você realmente guarda esses detalhes só pra jogar na minha cara nas horas certas, né?", comentou, mas no fundo havia um fio de conforto em ser lembrado de quem era antes de todas as cicatrizes. Parte dele sentia vergonha, parte, uma estranha gratidão por ainda haver alguém que enxergava o garoto de antes sob os escombros. "Tá, você me conhece bem pra caralho, eu admito." A voz saiu com um meio sorriso cansado, mas sincero. "Só que, às vezes, parece que me conhecer tanto assim só te dá material pra me lembrar o quanto eu continuo preso nas mesmas merdas de sempre." Passou a mão pela nuca, como quem tentava aliviar a tensão que não passava nunca. A palavra sabotagem martelava dentro dele. Dante não estava errado, e isso doía ainda mais.
Alek apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos diante do rosto, e ficou um instante em silêncio. O que mais o corroía não era só a espera, mas o barulho interno que se erguia em cima dela. "Pra mim, silêncio sempre parece abandono. É foda desligar essa parte da cabeça, sabe?" Apertou as mãos uma contra a outra, quase como se buscasse conter a própria ansiedade. Ainda assim, a piada do "Protetores de Khadel" arrancou dele um riso breve, real dessa vez, quase como um estalo na escuridão. "Pior que você tem razão… esse nome soa tipo: 'decidido por votação no grupo da escola.' Aposto que até fizeram enquete." Balançou a cabeça, mas o humor logo se dissolveu no mesmo nó interno de antes.
Mesmo depois de quase uma vida inteira de amizade, Alek ainda se surpreendia que alguém tivesse coragem de se colocar em risco só para vê-lo. Havia nele uma gratidão muda por Dante, mesmo que não soubesse demonstrar. "San Gimignano?" Arqueou uma sobrancelha, deixando a voz carregada de ironia. "Como conseguiu convencer a Aylin a se soltar da coleira do pastor pra ir até San Gimignano?" Perguntou com real curiosidade, mas também torcendo para que o novo assunto o distraísse um pouco das próprias angústias.
Era difícil enxergar Aleksander daquela forma. Tão acabado, tão visivelmente assolado pela culpa que o acompanhava naqueles dias em que esteve sozinho. Se soubesse como o encontraria, Dante teria ido antes, independentemente do que precisasse fazer. “Você não ‘sabe só fazer merda’, Alek. Se você só fizesse isso mesmo, não ia estar nem aí pro que aconteceu, muito menos tentando encontrar um jeito de consertar.” levou a mão até a nuca, passando os dedos entre os fios curtos de seu cabelo, enquanto pensava em como poderia prosseguir; em como tentar ser útil ao amigo de algum jeito. “Todo mundo faz merda em algum momento. Cometer um erro não te define, principalmente se vem de um lugar de medo.” era o que Dante tinha certeza de ter acontecido: um clássico caso de auto sabotagem.
Escutou o restante do que Alek tinha a dizer com certa angústia, contraindo o maxilar de leve, e sem se permitir desviar o olhar para outro foco além do rosto do melhor amigo. “O que vocês têm não é algo tão pequeno que uma única coisa vá acabar com tudo, Alek.” sem necessidade alguma de não usar os termos corretos, eram almas gêmeas. E os primeiros do grupo a realmente terem desenvolvido uma relação mais séria, pelo visto. “Você errou, tudo bem, mas vocês… Depois de uma vida inteira sem sentir nada, conseguir encontrar isso com alguém, a pessoa certa pra você, e jogar tudo fora por um erro? Não sei se o Matteo faria isso.” conseguia ver como Matteo gostava de Alek, não só por tê-los visto juntos, mas pelas próprias conversas que tinha com o crossfiteiro, que mencionava o nome de Aleksander com um ar de quem guardava muito mais por trás que simplesmente um relacionamento normal. “Ninguém tá conseguindo falar com ninguém direito. Pode ser que ele nem tenha visto as suas mensagens, Alek.”
Respirou fundo e franziu o cenho, tentando alinhar os pensamentos. Era complicado tentar vasculhar a própria mente atrás de algum conselho decente, quando se preocupava só de enxergar o estado abatido de Alek. Então, inclinou o corpo um pouco na direção dele, tentando mostrar que estava ali. “Não acho que o Matteo simplesmente deixaria por isso, sem querer falar com você uma única vez depois. Tenta… Só ter um pouco de paciência. O que vocês têm não é algo que vale a pena esperar um pouco?” uma hora ou outra, Matteo teria de dar sinal de vida. “Dá mais uns dias. Talvez ele consiga entrar em contato, ou venha aqui te procurar de novo, peça pra alguém vir, sei lá.” então, um sorriso cansado veio aos seus lábios, e ele deu de ombros. “Cara, eu te mandei tanta mensagem nesse meio tempo, que é bem possível de pifar seu celular quando o sinal pegar de novo. Imaginei que não ia te achar em casa, mas aqui,” usou o indicador para mostrar o ambiente ao redor deles. “Era a minha melhor aposta. Aí vim ver se você ‘tava vivo, ou se algum urubu tinha vindo te levar embora.”
Alek soltou um riso breve, seco, que não tinha coragem de nascer como gargalhada. Era o tipo de som que saía quando a única alternativa era afogar um desconforto. "Cara… você tem uma mania doida de achar que eu sou melhor do que eu realmente sou." A frase veio junto de um gesto automático: as mãos passando pelo rosto, como se pudessem apagar a expressão cansada que Dante já conhecia bem. Por dentro, sentia o incômodo de quem não sabia se estava sendo visto com generosidade ou com uma ilusão perigosa. O peso de não corresponder à expectativa se colava à pele. "E eu não sei se isso ajuda ou se só me faz sentir mais um impostor nessa porra toda."
O olhar dele caiu para o chão. As ranhuras do piso de madeira viraram um mapa caótico onde ele tentava encontrar uma rota para fugir do assunto — mas não havia saída. Paciência, Dante tinha dito. Fácil de falar quando não se estava preso num silêncio que parecia vivo, sugando o ar de cada dia. "Eu sei que vale a pena esperar por ele." Disse, quase num tom de confissão, como se admitisse mais para si do que para o amigo. "Só que… enquanto eu espero, cada dia parece um lembrete de que talvez ele já tenha escolhido seguir sem mim." Uma pontada apertou o estômago, aquela sensação de beira de abismo que vinha sempre que imaginava Matteo construindo qualquer coisa sem ele. "E eu fico tentando decidir se é melhor me agarrar à esperança ou me preparar pra porrada."
Ergueu os olhos devagar, sentindo o peso do próprio movimento, e prendeu o olhar no de Dante. Ali havia uma mistura estranha: gratidão pelo amigo estar ali e um incômodo quase infantil de se deixar cuidar. "Eu não sei se o Matteo jogaria tudo fora por um erro… mas sei que eu já fiz isso antes." Um silêncio breve, como se a frase precisasse de espaço para assentar. "E é isso que me fode. Porque não importa o que você diga, parte de mim acha que eu sou esse cara." Tentou dar de ombros, mas o gesto saiu mais lento, preso pelo peso da própria admissão.
Quando Dante falou sobre o celular e as mensagens acumuladas, Alek respirou de forma mais leve pela primeira vez na conversa, como se aquele detalhe banal abrisse uma fresta no ar carregado. "Se o sinal voltar e chegar tudo de uma vez, acho que vou precisar de uma ambulância." O canto da boca se ergueu num meio sorriso quase tímido, mas real, um lampejo breve que não durou muito. "E sobre urubu…", soltou o ar, inclinando a cabeça de lado, "se tivesse aparecido, eu provavelmente teria negociado com ele pra me levar só por uns dias." Talvez a presença de Dante ali fosse o primeiro sopro de ar fresco que Alek recebia em dias. Prova disso era que aquela tinha sido a primeira vez, em todo aquele tempo, que conseguira arrancar de si algo que soasse remotamente como uma piada. "Tem certeza que só veio ver se eu ainda tô vivo?" Arqueou uma sobrancelha, deixando o sarcasmo mascarar o alívio de não estar sozinho. "Ou é porque você também não tá conseguindo falar com a Aylin?"
Dante sempre havia lidado com as questões mais problemáticas de sua vida de três jeitos: pensando de forma racional e séria, ignorando o problema, ou simplesmente levando tudo com um senso de humor quebrado. E as duas últimas alternativas eram as que mais utilizava. Naquele momento, então, sequer surpreenderia quem o conhecesse como estava rindo secamente com o comentário de Aleksander. Não era o melhor dos padrões, mas não negava a sua veracidade. Escutar tudo aquilo do melhor amigo não era nenhuma surpresa, não apenas por terem conversado ao longo da vida sobre as questões paternas — muitas vezes, tendo visto com os próprios olhos tudo, com a frequência em que estavam na vida um do outro desde o início de suas infâncias —, mas por Dante o conhecer bem o suficiente para entender mesmo o que não era dito.
“Às vezes eu acho que ia ter sido mais feliz se o meu só tivesse sumido e pronto, mesmo. Se ele só não aguentasse lidar comigo permanentemente e nunca mais fizesse questão de aparecer. Porque eu já tinha processado que era isso, até ele aparecer de novo pra bagunçar a minha vida.” como o grande capricho de Marco, que preferia fingir que suas ações não eram imperdoáveis, que poderia ter a vida que bem entendia em Khadel, com a nova esposa, e Dante teria de se adaptar. O homem havia ido embora por onze anos de sua vida, mas queria ser perdoado em um estalar de dedos por ter aparecido e querer cumprir seu papel. “E voltar por mim, não, impossível. Era só pela nova razão de viver dele mesmo. Imagine priorizar o próprio filho uma vez na vida.” revirou os olhos. Já havia dito tudo ao amigo incontáveis vezes, em diversas situações em que a frustração falava mais alto que o bom senso, em que, num tom quase culpado, Dante havia admitido a Alek que se considerava órfão de ambos seus pais, porque ter um pai que nunca aparecia era a mesma coisa que não ter mais sua mãe. Pelo menos, a ausência dela conseguia ser explicada. Não era por livre e espontânea vontade. “Aí agora, quem tem que aguentar o rombo sou eu, porque decidiu virar pai do ano. E não sei se consigo comprar essa história de mudar porque o amor entrou no coração dele.” passou a mão pelo cabelo. “Meio difícil achar um meio termo entre alguém ser um pai de merda ou só ser afetado por uma maldição, se é que existe. E não sei se tenho desenvolvimento emocional suficiente pra perdoar alguém assim, mesmo no segundo caso.” revirou os olhos. “Nem sei pra quê eles tiveram filho se iam agir assim.”
“Um vai se foder com mais convicção seria ótimo.” riu fraco, negando com a cabeça. Não conseguia ter o mesmo otimismo que Aylin possuía com sua família, com os pontos em que esperava que eles se tornassem mais abertos, sem guardar ressentimento caso se tornassem o que desejava. E gostava disso nela, só não enxergava em si próprio, mesmo sendo uma pessoa normalmente otimista. Só deixava que seu rancor entrasse na frente naquele ponto. Não adiantava seu pai se tornar o que ele queria durante a infância, aos quase vinte e nove anos de Dante. “Se eu fosse você, tomava cuidado com a sua caixa de emails. Daqui a pouco tá a secretária do seu pai mandando todo o roteiro da próxima viagem amorosa de pai e filho que vocês vão fazer.” brincou, porque era o que restava, e direcionou ao outro um meio sorriso. “Tô a fim de pedir alguma coisa da trattoria, essa conversa me deixou com um rombo no estômago. Quer o quê?”
Alek ficou um tempo em silêncio depois que Dante terminou. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque cada frase dele parecia bater em um ponto já sensível, como se Dante tivesse acendido, sem querer, um mapa inteiro de cicatrizes antigas. "Sumir de vez teria sido mais fácil…", repetiu, baixo, mais pra si do que pro amigo. Ele sabia que Dante não estava falando da mesma história que a dele, mas aquela ideia grudava na mente. Teria sido mais fácil se o pai dele tivesse sumido também? Se a presença não tivesse sido um lembrete constante do que ele não ia ter? Talvez. Mas então vinha aquela outra parte dele, a que ainda era criança, e que nunca teria aceitado isso sem lutar até o último fiapo de esperança. Era isso que irritava mais: a parte que queria acreditar, mesmo sabendo que ia se machucar de novo.
Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo antes de falar. "É uma merda, porque… eles voltam e não é por nós. Nunca é." O tom não era acusador com Dante, era quase uma constatação amarga, generalizada. "E aí sobra pra gente lidar com o estrago como se fosse escolha nossa. Como se a gente tivesse que ser maduro o suficiente pra administrar a crise que eles criaram." O rosto de Alek se contraiu, não num gesto de raiva pura, mas de um cansaço que vinha de muito antes dessa conversa. Ele olhou pro amigo, o semblante sério. "Sinceramente? Essa história de 'desenvolvimento emocional' é balela." Alek fez um gesto vago com a mão, como quem afasta um mosquito incômodo. "Não existe um nível onde isso fica mais fácil. Perdoar não devia ser meta só porque o mundo acha bonito colocar um laço na merda toda." Ele deu uma pausa curta, o olhar fixo no nada, antes de continuar. "Tem coisa que simplesmente não cabe no tipo de 'amor'…", reforçou as aspas no ar com os dedos, o tom carregado de ironia, "…que eles tão oferecendo agora. E ponto." Enquanto falava, Alek sentia aquele incômodo que sempre surgia nessas conversas: um nó entre a raiva e a vontade de proteger o amigo de algo que, ele sabia, era impossível evitar completamente. Porque não importava o quanto eles se blindassem, a expectativa sempre encontrava um jeito de entrar por uma fresta.
Ele suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos, inclinando-se um pouco pra frente. "Eu também queria saber pra quê escolhe colocar filho no mundo." Soltou um riso seco, quase sem som. "Acho que tem gente que tem filho do mesmo jeito que compra um cachorro de raça: porque acha bonito ter. E quando cansa, larga de lado. A diferença é que a gente não podia ser devolvido." Houve um momento de silêncio, no qual Alek desviou o olhar pro chão, pensando que aquela conversa estava mexendo em mais do que queria naquele dia. Deu graças aos céus quando o próprio Dante quebrou o clima da conversa com seus comentários engraçadinhos. "Ah, sim… a viagem de pai e filho vai ser paga com o orçamento de marketing da próxima campanha eleitoral do velho. Vai ter foto minha na varanda, segurando um cappuccino, olhando pro horizonte com cara de que minha vida finalmente fez sentido." Falou, teatralmente com uma risada e um sorriso no rosto, mas o sarcasmo tinha um fundo de ferrugem. "Trattoria então. Você que escolhe. Porque se depender de mim, eu vou pedir um litro de vinho e um prato de qualquer coisa que dê pra comer deitado." Deu um meio sorriso, cúmplice.
"A possibilidade mais caótica". Claro, realmente seria um caos se os dois tivessem tido um filho... Os dois mal sabiam cuidar de si mesmos, quem dirá de uma criança. Além de que o gênio dos Devereaux misturado ao dos Moretti seria um completo caos. - Se ele fosse seu, provavelmente eu não estaria chorando igual uma tonta. - Passou a mão em seu rosto, limpando aquelas lágrimas que teimavam a escorrer. - Eu estaria indignada por ter que criar um "mini Alek". - Tentou descontrair um pouco, com um riso forçado. Nunca tinha parado para pensar em qual opção seria pior dentre os relacionamentos e casos que tivera, e em todos eles, o rumo provavelmente teria sido o mesmo: esconder.
Não estou falando isso por desculpa, ou por... Pena. - A última palavra saiu até engasgada. Se tinha uma coisa que não gostaria — e não queria — era que sentissem pena de si, jamais admitiria isso. - Mas eu estava cansada de ter dar justificativas sem sentido todas as vezes que você me perguntava sobre eu ter ido embora, ou pra que eu voltei. E é um alívio você saber. - Ao menos agora, teria mais alguém para conversar sobre além de Helena, a qual parecia amar a criança, e Matteo, que julgava ter falado aquilo apenas por conta do feitiço de Zafira. - Queria concordar com você. Mas se eu fosse forte o suficiente não teria o escondido. - Mas só o fez porque também não sentia sequer amor pelo pequeno, não sentia absolutamente nada, ao menos até os dias atuais. - Meio que todo mundo já conhece ele, como meu irmão. O Romeo. Irônico, né? Eu ter me chamado Julieta na vida passada. - Era com certeza uma pegadinha do destino, e quando o nomeou, sequer sabia sobre a história de maldição que os rondava, muito menos sobre Julieta e Romena.
Alek deixou escapar um sopro curto de riso pelo nariz quando ela falou sobre o "mini Alek", mas o som não tinha exatamente leveza — parecia mais o reflexo de um pensamento sombrio. "É… provavelmente seria um desastre." Admitiu, arqueando uma sobrancelha, antes de balançar a cabeça. "Mas você sabe que eu encararia mesmo assim, né?" Não havia desafio na voz, só a constatação simples, quase resignada, de alguém que sabia reconhecer as merdas que toparia por quem importava. Alek sabia melhor do que deixar um filho ser criado sem um pai.
Ele passou uma mão pela nuca, observando-a com um olhar que misturava cautela e algo próximo de… compreensão. "Eu não sinto pena de você, Scarlet." Disse com firmeza, como se precisasse arrancar aquela possibilidade da cabeça dela de uma vez. "E nem acho que você me deve justificativa pra cada passo que deu. Você fez o que achou que precisava fazer pra sobreviver… e pra ele sobreviver. E eu sei que você acha que isso é fraqueza, mas não é. Fraqueza é se entregar. Você não se entregou." Deu um meio passo, diminuindo ainda mais a distância entre eles. A voz baixou, carregando mais honestidade do que ele costumava expor. "Você não sentir nada naquela época… não te faz um monstro. Só te faz mais uma humana nessa cidade amaldiçoada de merda." Seus olhos buscaram os dela, firmes. "E agora, pelo jeito, as coisas mudaram. Tá na sua cara." Alek soltou o ar devagar, um quase sorriso surgindo no canto da boca quando ela disse o nome. "Romeo…" Repetiu, o som carregando uma ponta de ironia e outra de algo mais quente, quase protetor. "É, o destino tem um senso de humor bem filho da puta. Mas…", deu de ombros, "as vezes o destino também dá seus acertos. Quem sabe não muda a história dessa vez."
Prestou atenção não apenas no que era dito por Aleksander, mas em tudo o que não era. Na postura, no cansaço exposto em quem não deveria estar dormindo direito — a partida de Matteo sendo somada aos tormentos que os sonhos agora carregavam, por conta do espelho —, e naquela vergonha de quem não sabia como verbalizar a bagunça em que a sua mente deveria estar. Dante o conhecia desde seus quatro anos, e, agora, percebia que não se recordava a última vez em que o vira acabado daquela forma. Uma parte sua queria quase sacudir o melhor amigo pelos ombros, e outra enxergava o quão perdido Alek estava, e algo apertava dentro de seu peito: detestava vê-lo assim, independentemente de tudo.
“Cara,” iniciou, suspirando, recostando o corpo no sofá após alguns instantes em silêncio, enquanto o que havia sido dito era processado em sua mente. Não era um assunto fácil, mas era a sua função estar ali para apoiar Aleksander da maneira que conseguia. Mesmo quando Dante não fazia a menor ideia de como ajudá-lo. “Eu não vou dizer que você não fez merda, porque nunca fui de mentir pra você e não é agora que eu vou começar.” tirou aquilo do caminho, e já tratou de continuar: “Mas não significa que não vou ficar do seu lado, independentemente de tudo. E... Sabe o que eu acho?” tentava elaborar os pensamentos da melhor forma, mas não era simples, quando o via em um estado como aquele, tão mal. Mas não achava que existia outra forma de cumprir o seu papel ali que simplesmente sendo sincero, mesmo que não fizesse sentido. “Que você 'tava, ou ainda tá, com medo. Você tá acostumado de tudo dar errado.” foi sucinto em um primeiro momento, mantendo o olhar nele. “Aí, quando as coisas aconteceram diferente, você ficou com medo e se auto sabotou pra não sentir a dor dele fazer isso primeiro.”
Dante sabia que Alek não precisava de respostas práticas, muito menos de um manual verbal do fazer ou não, mas de alguém que estivesse ao seu lado, que tentasse ajudá-lo a enxergar que não havia posto um ponto final em toda aquela história. “Você está se sentindo culpado, tudo bem. Mas pode usar essa culpa pra fazer alguma coisa. Ir atrás dele é uma ideia, e não é ruim tentar, pelo menos significa que você não tá só trancado aqui, se afundando o dia inteiro no sofá, chafurdando na merda. Só que talvez o Matteo esteja precisando de um tempo, pra entender tudo. Pensar no que vai fazer, e… Não falar ou fazer algo que vá se arrepender por estar tudo muito fresco.” se ele sabia das fotos, a mente do Bianchi provavelmente não estava no melhor lugar. “Tem certeza que ele recebeu as suas mensagens? Mas, olha, ele precisar de um tempo não é o fim do mundo, nem que não tenha conserto.”
Alek deixou a cabeça cair para trás no encosto do sofá, o olhar perdido no teto manchado e gasto. O peso das palavras de Dante — tão diretas, tão honestas — doía menos que o silêncio de Matteo, mas não menos que a própria culpa que insistia em corroer cada pedaço dele. Ele tentou respirar fundo, mas o ar parecia grosso demais para entrar direito, como se a dor tivesse se tornado um peso invisível no peito. "Eu sei que fiz merda, cara." A voz saiu baixa, rouca, carregada de uma fadiga que não tinha só a ver com o corpo. "Afinal, eu só sei fazer merda. Deve estar no meu DNA, sei lá." Uma risada amarga escapou, amarga demais para ser realmente engraçada. Talvez o problema não fosse só a maldição, pensou, mas a falha que carregava dentro de si, aquela incapacidade de deixar alguém se aproximar de verdade. Aleksander Moretti podia até amar, mas não sabia como se permitir ser amado.
Ele fechou os olhos, apertando as pálpebras com força, tentando afastar as imagens que não paravam de vir — o rosto fechado de Matteo, a porta se fechando, o vazio das mensagens não respondidas. "Nem sei se ele tá recebendo minhas mensagens…" Confessou, a voz baixa, cheia de uma angústia difícil de disfarçar. "Não consigo falar com ninguém direito. E o pior… não sei se ele ainda quer me dar uma chance. Se ele ainda quer alguma coisa comigo. Essa dúvida… essa porra de dúvida é o que mais me fode." Por um momento, a mão de Alek tremia, buscando apoio no braço do sofá, tentando se ancorar naquele instante. "Talvez ele precise de tempo. Eu sei disso." Respirou fundo, o peito subindo e descendo numa tentativa desesperada de se acalmar. "Mas eu não sei se aguento esperar sem ter a certeza de que vai valer a pena. Sem a certeza de que ele ainda tá lá, esperando por mim."
Levantou os olhos para Dante, quase como se pedisse ajuda para encontrar uma resposta que ele mesmo não sabia onde estava. "Me dá medo, mano." Disse, com a voz quase quebrando. "Medo de que eu tenha sido a última chance da gente, e que eu tenha cagado tudo. Que a gente seja só um sonho que eu vou acabar perdendo pra sempre." O silêncio que ficou depois foi pesado, um espaço onde palavras pareceram insuficientes demais para o que doía ali dentro. Alek não sabia o que fazer, mas sabia que não podia desistir — não ainda. "Que porra você tá fazendo aqui, afinal? Tentei te ligar e mandar mensagem várias vezes."
O ar pareceu preso nos pulmões de Olivia quando ele perguntou “Se é real?”. Um riso curto, quase incrédulo, escapou. Não porque achava graça, mas porque aquela dúvida queimava nela também. Continuou com os olhos mergulhados nos dele, ouvindo cada palavra entrar por seus ouvidos e atingir o corpo inteiro. Sentia que as pernas poderiam ceder a qualquer momento só de ouvir a voz dele, os lábios queimavam de desejo de selar nos dele de novo, os olhos mal piscavam, quase como se tivessem medo de perder qualquer reação. Porque a forma como ele reagia ao olhar dela a deixava presa. Cada palavra dele vinha carregada de tensão, e ela foi invadida por um calor incontrolável, uma mistura de raiva por não entender o que sentia e aquele desejo que ela conhecia bem. Quando ele falou sobre sumir, sobre voltar, ela sentiu os dedos se fecharem mais forte no tecido da camisa dele, puxando-o de leve. — Porque você é teimoso demais para deixar algo morrer sem tentar. E eu também. — Sussurrou a última parte, como uma confissão de que ela também estava curiosa para entender aquilo que acontecia entre os dois. Aquela energia forte, intensa, que parecia mudar de rumo, mas nunca diminuir, muito menos desaparecer. Mesmo após a confirmação de que não estavam destinados um ao outro, mesmo quando ainda se odiavam.
Ela inclinou o rosto quando ele falou sobre medo, livre-arbítrio e o desejo de conhecê-la agora, como mulher. Aquilo a atingiu mais fundo do que esperava. Também queria ter a chance de conhecê-lo, de verdade, dessa vez. Não julgar conversas ouvidas pela metade, não escutar comentários dos outros. Queria conhecer a versão que ele era de verdade, a que ele seria com ela. Abriu a boca como se quisesse dizer algo, mas era difícil se concentrar com os beijos em sua pele. Fechou os olhos para aproveitar o momento, tentando organizar alguma frase decente para expressar o que queria. A aproximação dos dois parecia um chamado inevitável, e ela suspirou contra sua boca durante o beijo. Ouviu seu murmúrio, deixando nas mãos dela a decisão de parar ou continuar. Ela sorriu de canto, a respiração acelerada. Como dizer que queria parar quando tudo dentro de si indicava para continuar? — Se eu não quisesse isso, não teria te chamado. — confessou, sussurrando contra seu ouvido. A intenção principal era passar um tempo juntos, conhecê-lo de verdade, criar laços. A história da maldição a deixava um pouco racional, e sabendo que eles não deveriam ficar juntos, achou melhor engolir qualquer desejo que sentia por ele. Mas era impossível pedir que se afastasse sentindo-o tão perto. As mãos deslizaram pela nuca dele, puxando-o para mais perto. — Então me beija como se eu fosse sua. — Pediu, a boca roçando na dele, numa mistura de pedido e provocação.
Alek permaneceu imóvel por um instante que pareceu esticar o tempo, os olhos fixos nos dela como se buscasse decifrar um segredo que escapava das palavras. O ar entre eles estava carregado, denso — não apenas pelo espaço físico que os separava, mas pelo peso invisível de tudo que tinham vivido e deixado pulsar no silêncio. Sentiu a pele se arrepiarem sob o toque leve dos lábios de Olivia, como uma promessa sussurrada. Foi ela, com a delicadeza das palavras e a urgência do desejo, quem o empurrou para o abismo onde queria se lançar.
Fechou a distância com um movimento lento, carregado de intenção, como se cada passo fosse parte de uma dança antiga que ele finalmente se permitia dançar. O beijo começou firme, cheio de controle, mas rapidamente se incendiou — uma urgência inquieta, um grito contido por anos de raiva, de provocações trocadas, de desencontros que tinham sido silêncios doloridos. Talvez não fossem almas gêmeas, talvez a maldição tivesse desenhado outro destino para eles, mas ali, naquela noite, Alek sabia que devia a si mesmo — e a Olivia — essa chance: uma oportunidade de tocar o que poderia ter sido, nem que fosse só por algumas horas. O beijo virou chama, um fósforo que acendeu o escuro, iluminando tudo ao redor com uma luz quente, quase sagrada.
Um gemido baixo escapou dos lábios dele, entregue ao toque da língua de Olivia, que dançava sob a sua com uma mistura de doçura e fome. Cada célula do seu corpo parecia em chamas, queimando de desejo e urgência, incapaz de conter o ímpeto. As mãos, antes hesitantes, ganharam confiança — cada toque era uma exploração, uma tentativa de gravar a pele dela em sua memória. Deslizou os dedos pelo pescoço delicado, sentindo o pulso acelerado pulsar sob a pele fina, e depois desceu, contornando os seios por baixo do tecido leve do vestido.
"Você é linda demais," sussurrou, a voz rouca carregada de reverência e desejo, enquanto seus dedos seguiam traçando o corpo dela. Havia um tremor ali, mas não era dúvida — era o prelúdio de algo imenso prestes a acontecer. "Não sabe por quanto tempo eu desejei isso." Com cuidado, a mão deslizou para a cintura, sentindo a curva perfeita sob a roupa, antes de avançar com delicadeza para o interior da saia. Alek podia sentir o calor dela, a umidade, e isso fez com que seu próprio corpo reagisse de maneira visceral. Seu pau latejava em suas calças, duro e dolorido, implorando para ser libertado. Entretanto, Alek não tinha pressa, queria devorar cada instante, cada suspiro, cada estremecer. Esperou muito tempo por aquilo, e pretendia fazer o momento durar.
Ele inclinou-se novamente, colando os lábios nos dela em beijos profundos e urgentes, enquanto seus dedos subiam lentamente, deslizando sob o tecido da calcinha fina. A impaciência se misturava ao controle. Num movimento suave, porém decisivo, Alek afastou a peça delicada de renda, deixando Olivia completamente exposta à sua admiração silenciosa. A visão da umidade brilhando nos lábios dela foi um estalo que o fez arrepiar dos pés à cabeça, e isso fez com que seu pau latejasse ainda mais. Deslizou um dedo entre suas pernas, sentindo o quão molhada ela estava. "Você está tão molhada," murmurou contra a pele dela, a voz embargada, quase reverente. "Tão pronta para mim."
[o despertar da maldição | terceira semana de agosto de 2025]
Não era apenas que algo como afeto não florescia em Khadel — era que Aleksander havia sido moldado desde cedo para acreditar que jamais poderia ser o centro seguro de alguém. Uma vida inteira de olhares frios, expectativas impossíveis e abandonos sutis haviam esculpido nele uma convicção silenciosa: a de que não era feito para ser escolhido. Não importava o quanto tentasse fingir que estava acostumado, que podia viver com isso, a ferida sempre estava ali, pulsando, esperando o momento certo para sangrar de novo. E agora, diante de Matteo, essa ferida parecia aberta até o osso. Era como se cada palavra dita, cada pausa entre elas, fosse um lembrete cruel de que, talvez, ele estivesse destinado a ver todos irem embora. Matteo via isso. Não precisava que Aleksander dissesse nada — estava tudo no modo como ele respirava, no jeito em que mantinha os ombros tensos, como se segurasse o próprio corpo para não se desmoronar. A situação toda gritava uma verdade dolorosa: Alek não sabia acreditar que alguém pudesse ficar. Ele esperava, no fundo, que Matteo se juntasse à lista dos que desistiram. Que provasse, como todos os outros, que ele não valia o esforço. E talvez por isso, justamente por isso, ele tentou explodir o que tinham. Depois dos dias que passaram separados e da tentativa estúpida de apagar o que tinham, Matteo sabia que eles tinham que romper o ciclo. "É, Aleksander," disse em tom baixo, "costuma ser dolorido quando alguém não quer nem ao menos sentar para conversar," suas palavras ainda soavam um pouco amargas, mas era bem mais difícil aceitar as desculpas do Alek que dizia que gostava dele do que o que antes o odiava. Deliberadamente, ele tinha escolhido não o respeitar.
Ele respirou fundo, "tudo que você precisava ter feito era não fugir, Aleksander." Sua voz soava cansada, porque o parecia bem óbvio. Matteo não se achava a pessoa mais madura do mundo — tinha terminado seu único relacionamento anterior com um joinha — mas o que fosse que estivesse dentro dele não queria perder o loiro, e a única coisa que o ajudava nisso era ficar — independente do que acontecesse. Quando Alek perguntou o porque ele ainda estava ali, Matteo não sabia como explicar sobre as promessas que haviam feito um ao outro antes daquela briga, e que aquelas não eram promessas para serem quebradas. Falaram que iriam ficar juntos mesmo que a maldição não fosse quebrada. Havia já o perdoado naquele cemitério. Ele não queria ficar indo em círculos. "Porque eu quero você nessa vida, Aleksander." As palavras escaparam firmes, mas com um peso que só existia quando se dizia algo que não podia mais ser retirado. Matteo pensou em James e Landon — nomes que carregavam histórias de perdas e cortes abruptos, de vidas arrancadas antes que houvesse tempo para consertar o que precisava ser consertado. Eles não tiveram a chance. E seria uma estupidez monumental desperdiçar a dele, deixar que tudo o que sentia fosse engolido por uma sucessão de erros que, por mais dolorosos que fossem, ainda não eram definitivos. Deu um passo. Depois outro. Sua mão se ergueu, hesitante por um instante — não porque não quisesse tocá-lo, mas porque tocar Alek naquele momento era como encostar numa ferida viva. Ainda assim, a palma encontrou o caminho até a bochecha dele. O calor da pele, misturado ao frio leve da tensão, fez Matteo inspirar mais fundo. "Aleksander…" disse, e o nome saiu como um sussurro carregado de tudo o que não cabia em frases. "Não importa o que você acha que merece. Eu quero você, e eu não vou deixar você estragar isso porque acha que tem que se punir."
Alek piscou devagar, como se as palavras de Matteo precisassem atravessar um corredor estreito e longo antes de chegarem até ele. O toque na sua bochecha queimava de um jeito estranho, não era dor e não era calor — era presença. Presença demais para alguém que passou a vida treinando o corpo a suportar ausências. Ele sentiu um impulso quase infantil de se inclinar contra aquela palma, como se pudesse absorver tudo o que Matteo não dizia. Mas ao mesmo tempo, o instinto oposto latejava: afastar antes que doesse mais. "Você não sabe o que tá dizendo…" A frase saiu baixa, não como defesa, mas como um reconhecimento cansado. Como se estivesse avisando que havia um território inteiro de sombras que Matteo ainda não tinha atravessado. Um lugar onde ele mesmo se perdia, onde tudo ficava confuso demais para explicar. Alek engoliu seco.
"Eu não estraguei isso agora, Matteo. Eu venho estragando desde antes de saber o que era ter você." E ali estava: a primeira pedra virada, deixando à mostra algo que preferia manter enterrado. A lembrança de todos os gestos que não fez, das palavras que guardou até apodrecerem, das oportunidades que deixou morrer porque era mais fácil se preparar para a perda do que acreditar na permanência. A respiração dele estava irregular. Não era só ansiedade, era como se o ar encontrasse resistência dentro do peito, como se precisasse convencer o próprio corpo de que era seguro inspirar. "Você diz que quer ficar… Mas e quando a parte ruim for maior que a boa? Quando não tiver mais nada aqui pra segurar?" As palavras não eram um desafio, eram quase uma súplica para que Matteo entendesse o que isso significava. Porque Alek sabia como era quando o que se desejava se tornava um peso, e sabia também que, quando isso acontecia, era sempre ele quem ficava com as mãos vazias. O polegar dele roçou de leve contra o dorso da mão de Matteo — um gesto tão pequeno que poderia ser confundido com acaso, mas que, para Alek, era quase um pedido: não solta agora. "Eu não sei o que eu faço com alguém que fica." Foi cru, quase áspero, como se confessar aquilo fosse despir-se de algo essencial. "Eu só sei como afastar. Como me preparar pra perder. E é isso que eu faço… até quando não quero." Riu, um som breve e sem qualquer humor, o tipo de riso que sai quando se reconhece numa tragédia particular. Foi isso que havia feito quando entrou no carro em direção a Khadel, sem antes dar a chance deles conversarem. Fugir era tão automático quanto respirar — e Alek odiava isso.
Deu um passo à frente, e a proximidade transformou o toque na bochecha num encaixe que parecia inevitável. O rosto de Matteo estava ali, perto o suficiente para que Alek sentisse o calor da respiração dele, e por um instante pensou que talvez toda a vida dele tivesse sido só uma longa caminhada até esse ponto — e que seria um desperdício covarde recuar agora. "Mas eu fiz uma promessa… pra você e pra mim mesmo. Então eu vou ter que aprender." Não havia qualquer traço de heroísmo naquelas palavras, apenas uma determinação silenciosa, moldada mais pelo medo do que pela coragem. Alek manteve os olhos presos aos de Matteo, não com a intensidade de um desafio, mas como quem encontra uma âncora em meio a uma correnteza. "Se você tá disposto a ficar, eu vou me obrigar a merecer isso." A frase ficou suspensa no ar, seguida por um silêncio que pesava como um segredo. "Nem que eu tenha que lutar contra mim mesmo todos os dias." E, preso naquele olhar, Alek entendeu que talvez estivesse diante da batalha mais longa da sua vida. Pela primeira vez, não parecia pronto a aceitar a derrota antes mesmo do primeiro golpe. Sua voz se tornou mais baixa, carregada de um peso real. "Você vai me aguentar nos meus piores dias? Ou quando eu errar de novo?" Sabia que o erro viria — dele, de Matteo — porque era da natureza deles tropeçar. Mas a pergunta não era um teste, nem uma armadilha. Era o medo nu do abandono, o tipo de medo que não se gritava, mas se confessava como um pedido quase sussurrado.
[o despertar da maldição | terceira semana de agosto de 2025]
Matteo sentiu as palavras de Alek se alojarem em lugares que ele vinha tentando manter dormentes por semanas — espaços que, apesar do tempo, ainda reagiam ao som daquela voz com uma familiaridade que doía. A vontade de ceder ao que anseava — ao toque, ao afeto, à promessa implícita de algo que ainda podia ser reconstruído — era quase insuportável, mas ele se manteve firme, os dedos ainda trêmulos e o corpo num estado de suspensão desconfortável. Ouvir que sua ausência tinha deixado marcas em Alek era um consolo cruel; queria ser perdoado, sim, mas parte dele ainda se sentia condenado demais para aceitar aquilo como redenção. As palavras 'você me faz querer ser um homem melhor' fez ele sorrir por um momento breve, passageiro. Então, em silêncio, apenas sustentou o olhar do outro com algo entre a dor e a ternura.
A pergunta de Alek reverberou dentro de Matteo como um eco vindo de algum lugar profundo, onde ele preferia não olhar. 'Você fez isso pra me esquecer? Ou pra me punir?' Aquilo não era uma acusação. Era um pedido. Uma tentativa desesperada de entender o inexplicável. E isso doía ainda mais. Matteo baixou os olhos, como se a própria presença ali já fosse um erro. Sentiu a garganta secar, e os ombros, antes rígidos, cederam um pouco — não em alívio, mas em exaustão. Ele respirou fundo — uma, duas vezes — tentando organizar os próprios pensamentos, mas tudo nele parecia bagunçado demais. As palavras que queria dizer não vinham prontas. Vinham partidas, desalinhadas, perigosas. E por isso hesitou. Não por desinteresse. Não por frieza. Mas porque tudo que carregava agora era feito de camadas difíceis demais de decifrar até mesmo para ele.
Como explicar uma falha que nem ele compreendia completamente? "Não foi pra te punir," murmurou, a voz rouca e fraca, como se cada sílaba pesasse mais do que devia. Ele passou uma das mãos pelo rosto, cobrindo os olhos por um instante, como se aquilo pudesse protegê-lo da força das próprias emoções. Seu corpo inteiro parecia tenso, como se estivesse preso entre o impulso de correr para os braços de Alek e o peso de tudo que havia acontecido. Ele queria dizer que não — que nunca faria algo para machucar Alek de propósito. Mas seria verdade? Ele mesmo já não tinha certeza. O coração dele estava um caos. Nada parecia simples. Nem puro. Nem certo. "Mas também não foi só um erro inocente. Eu tava machucado, Alek. Com raiva. Confuso. E, sim, parte de mim queria parar de sentir... qualquer coisa por você. Queria desligar. Anestesiar. Por alguns minutos, eu queria ser outra pessoa." Ele manteve o olhar baixo, encarando o chão como se quisesse sumir dentro dele. Sentia os batimentos no pescoço, o calor subindo pelo rosto, o constrangimento grudado na pele. Fechou os olhos por um instante, pressionando as pálpebras com os dedos, como se isso pudesse apagar a memória do que fez. "Não consegui. Só me senti mais eu mesmo do que nunca. Cheio de culpa. Estúpido." Ele engoliu em seco. Cada frase saía com o cuidado de quem atravessa um campo minado com os pés descalços. Suspirou e desviou o olhar, como se não conseguisse sustentar o peso do rosto de Alek naquele momento.
As mãos dele se entrelaçaram com força, como se ele precisasse se ancorar ali. A tensão entre os dedos refletia o nó em seu peito. "Eu me senti dispensável. Rejeitado." Fez uma pausa, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos, que vinham como fragmentos desconexos. “Ficar longe de você não foi melhor. Foi só mais doloroso. Foi como... perder o chão sem aviso.” Um passo. Só um. Matteo não se atreveu a avançar mais. O silêncio entre eles voltou a crescer, mas dessa vez Matteo não desviou. Encarava Alek com tudo exposto.
Alek sentiu o chão ceder. Não como numa queda brusca, mas como num deslizamento lento e inevitável — o tipo que começa por dentro e termina por arrancar tudo ao redor. As palavras de Matteo não cortaram. Elas esmagaram. Foram uma marreta contra o peito, derrubando o pouco de estrutura que ele ainda acreditava ter mantido de pé. Não era só sobre o beijo. Nem sobre a ausência. Era sobre a tentativa real, desesperada, de apagá-lo. Ainda que não tivesse funcionado. Ele tentou engolir a resposta que veio na garganta, mas ela era grande demais, doída demais para ser calada. O silêncio entre eles esticava, desconfortável, e o ar parecia rarefeito, como se ambos estivessem tentando respirar debaixo d’água. "Você queria parar de sentir por mim..." A frase saiu arrastada, mais constatação do que pergunta, como se estivesse mastigando cada palavra pra entender melhor o gosto amargo que deixava. Ele respirou fundo, tentando conter algo que ardia demais no peito. "Você não tem que se sentir culpado por nada. A única pessoa de quem eu sinto raiva agora é de mim mesmo... por ter deixado a gente chegar a esse ponto." Riu baixo, mas sem humor — um som rouco, amargo, que mais parecia cuspido do que emitido. Como quem debocha da própria ruína.
Finalmente, se moveu. Um passo, depois outro. Como se cada músculo estivesse mais pesado que o anterior. Caminhou até a janela ao lado da pia onde Matteo estava e encostou os dedos no vidro. Lá fora, tudo seguia. Indiferente, e aquilo foi quase cruel. Como o mundo ousava seguir em frente, enquanto tudo ali dentro implodia? "Você nunca foi dispensável pra mim, Teo." A voz saiu firme, mas com rachaduras — como porcelana antiga tentando resistir ao tempo. "Nunca. E talvez essa seja a parte mais fodida disso tudo. Porque eu não consegui te fazer acreditar nisso. Eu tentei, e falhei. Falhei com você. De novo. E de novo." Cerrou os punhos, e por um instante, teve que conter o impulso — aquele desejo irracional de socar o vidro, de sentir a dor física tomando o lugar da dor emocional. De sangrar por fora, porque por dentro já estava estraçalhado.
Se virou e encarou Matteo. E nos olhos dele, não havia só mágoa. Havia uma resistência bruta, moldada na dor, sustentada por um amor que simplesmente se recusava a morrer. Um amor que sangrava em silêncio, mas que ainda estava lá, vivo. "Se você tivesse me dito que me odiava... que não sentia mais nada... talvez fosse mais fácil." A risada que veio a seguir foi seca, pequena. Um reflexo de autopunição. "Mas você ainda tá aqui. Por quê?" A pergunta veio embargada, quase infantil na sua vulnerabilidade. Conseguia ouvir Matteo dizendo como ficar longe havia sido pior, mas não conseguia compreender. "Eu não te mereço, Matteo." E ainda assim, ele deu mais um passo. Não o suficiente para tocar, mas perto o bastante para que ambos sentissem a presença um do outro queimando no ar entre eles.
Pular pela janela não era a melhor forma de entrar na casa de alguém, reconhecia — apesar de, em um caso específico, ser exatamente a única opção que tinha —, mas imaginava que Aleksander teria visto a movimentação. Por isso, levou um susto com o avançar rápido da parte dele. “Calma aí, Rambo!” exclamou, um riso baixo, quase nervoso, deixando seus lábios enquanto franzia o cenho, estranhando toda a cena. Talvez surpreso demais para expressar alguma reação mais estruturada. Não conseguiam entrar em contato um com o outro já faziam mais de duas semanas, e não fazia a menor ideia de como o melhor amigo estava até colocar os pés ali dentro e estar tão próximo dele — e o vinco em seu cenho somente aumentou quando ele se afastou, enquanto Dante alisava a própria roupa, e ele constatava o estado de Alek. Pela primeira vez, percebia que tinha motivos de sobra pra ter se preocupado.
A voz, porém, foi o que o travou de imediato, mexendo ainda mais aquele sentimento estranho dentro dele, de que algo estava muito errado. “Cara, calma. Tá tudo bem. Você só se assustou.” tentou dar uma tranquilizada no melhor amigo, se virando apenas para fechar a janela outra vez. Então, olhou ele mais uma vez e percorreu o caminho familiar de uma casa em que já havia ido incontáveis vezes pelos anos de amizade de ambos, e sentou no mesmo sofá onde ele agora estava. Estava cansado da viagem, mas enxergava em Alek uma forma diferente de cansaço, de exaustão, aquela que vinha de noites mal dormidas e do abatimento de quem não estava, muito provavelmente, nem conseguindo colocar algum pensamento em ordem. E, se tinha alguma dúvida de que os boatos que tinha ouvido falar poderiam ter influência nisso, a menção de Matteo o fez ter certeza. “Não, não vi. Não vi praticamente ninguém.” explicou, passando a mão pela testa. “Nesse tempo todo, você é a terceira pessoa que eu consegui falar. Vim pra cá porque não tive notícias de você, e era o único lugar em que achei que podia estar. Sinceramente, andei quase só saindo de casa pra sair de Khadel.” como era o caso daquele dia. Estudou o semblante dele pelos segundos seguintes, suspirando. “Quanto tempo faz que ele saiu daqui?” a dúvida do que exatamente havia acontecido existia, mas o deixaria tomar as rédeas da conversa.
As palavras de Dante flutuaram pelo ambiente abafado da sala, mas demoraram para encontrar lugar dentro dele. Estava imóvel no sofá, como se ainda estivesse processando tudo — a presença do amigo, a ausência de Matteo, o peso imenso de todos os dias que vinham se acumulando sem uma única resposta. Seus olhos estavam fixos em algum ponto do tapete surrado à frente, mas nada do que ele via ali era real. Dentro de si, ele revivia cenas, sons e erros que se repetiam como um ciclo vicioso, e Dante acabara de reabrir a porta da memória. "Acho que uns dez dias," respondeu, por fim. A voz soou seca, rouca, como se tivesse sido tirada à força de dentro de um poço vazio. Ele inclinou os cotovelos sobre os joelhos, unindo as mãos diante do rosto, tentando conter um tremor que se instalava no corpo e não o deixava mais. Alek não sabia por onde começar, porque cada início parecia pior do que o anterior. Qualquer explicação era insuficiente para o tamanho da merda que ele fez. "Eu sinceramente não sei porquê faço as merdas que eu faço..." A confissão veio abrupta, quase seca, e carregava nas entrelinhas toda a vergonha que ele não conseguia pôr em palavras. As mãos deslizaram até o rosto, cobrindo os olhos. "Nem foi real. O beijo não significou nada. Eu só… queria perseguir o que o Matteo me faz sentir, entender se dava pra sentir com outra pessoa. E fiz a coisa mais estúpida que podia fazer." Havia um riso amargo preso na garganta.
Aleksander se recostou no sofá, jogando a cabeça para trás, os olhos fixos no teto branco. Tentava manter a pose, como se fosse possível ainda ter algum controle, mas seu corpo inteiro tremia sob o esforço de parecer intacto. Não estava. Estava caindo aos pedaços. Olhou para Dante, finalmente, e havia algo diferente ali. Não era só a culpa de quem errou, mas o desespero de quem não sabe se será perdoado. "E ele não fala comigo desde então. Nem uma palavra. Nenhuma mensagem. Eu fui até Khadel todos os dias, todos. E ele parecia que sempre dava um jeito de desaparecer antes que eu pudesse chegar perto." Fechou os olhos com força, um músculo na mandíbula se contraindo. Estava se segurando com tudo o que tinha para não quebrar ali mesmo, na frente do amigo. Mas havia rachaduras demais, e elas estavam começando a sangrar. "Eu não sei o que fazer, Dante." A voz falhou. Era uma verdade crua, rasgada. "Eu ferrei tudo por algo que nem significou nada. E acho que perdi ele pra sempre."
Ficar sem palavras, não ter uma só sílaba de ataque, ouvir e pensar antes de falar, nenhuma dessas coisas eram comuns para Scarlet. Estava mudando, ou pior, estava exposta de tudo que escondia atrás de sua armadura intocável. As rachaduras desta estavam expostas, a grande rocha estava prestes a se desfazer em pedaços. Era confuso, e como ele havia dito, a confusão e o medo andavam juntos, mesmo que tentasse negar com todas as suas forças. Ele sabia a ler muito bem, alguma coisa haviam aprendido sobre o outro no tempo que se relacionaram ao menos. E tinha certeza agora de que tinha ido ali exatamente por isso: ele a conhecia melhor do que ninguém.
Suas expressões estavam tensas, até mesmo quando ele tentava aliviar as coisas, os olhos avermelhados, a postura mais fraca do que nunca... Saber que tinha um coração parecia ser pior do que continuar sendo aquela pessoa do passado, porque lhe deixava daquela forma, e odiava se sentir tão indefesa. - Eu não sei mais o que sinto, ou quem eu sou, ou o que eu fui, e é muita informação, muita mudança em um tempo muito curto. Olhar pro que sou e ver que sou uma pessoa tão ruim, e que não faz sentido algum alguém me amar, porque eu mesma não me amaria... - As palavras eram falhas, a voz baixa e os pensamentos bagunçados. - Estou em busca de um sentimento que nem sei como é, e que está me deixando assim. - Apontou para si mesma, sabendo que ele entenderia o que ela queria dizer. Lhe deixando exatamente o oposto do que ela sempre foi.
Scarlet se aproximou de Alek, reconhecendo sua própria derrota e o abraçando, porque precisava daquilo, de um ombro amigo, de alguém que não fosse a julgar porque já sabia quem ela era. - Você só errou sobre uma coisa... Meu segredo é maior do que eu, porque se não fosse isso, eu não estaria aqui. - Não estaria em Khadel, não estaria atrás de achar sua alma gêmea, não estaria se esforçando para se apaixonar por Helena e fazê-la se apaixonar por si, e claro, não estaria ali, com Aleksander e ainda pior, chorando. - Eu cometi muitos erros... E o pior deles foi esconder uma parte de mim. E agora, eu não sei se deveria manter isso em segredo ou ser uma mãe de verdade. Isso está me assustando muito. - A palavra saiu em meio o choro e o rosto escondido no peito de outrem, porque contar sobre o olhando nos olhos a faria ficar num estado ainda pior.
Por um instante inteiro, Alek congelou. Não como alguém que estava tentando processar uma fofoca ou um drama qualquer — mas como quem escutava o chão ceder sob os pés e ainda assim tentava não cair junto. O corpo dela pressionado contra o dele, o choro abafado no peito, tudo aquilo era muito real. Intenso demais. E a palavra mãe continuava ecoando na cabeça dele com força, como se tivesse sido dita em alto-falante, mesmo que tivesse saído entre soluços.
Mãe. Scarlet. Demorou alguns segundos até ele conseguir mover os braços, que estavam suspensos no ar como se tivessem esquecido a função. Quando finalmente desceu as mãos pelas costas dela, foi com um toque hesitante. Quente. Humano. Alek era bom com explosões, com confrontos, com sarcasmo. Mas aquilo... aquilo era grande. E o pior: era inesperado. Um segredo tão colado à carne dela que ele nem tinha cogitado algo do tipo. Ela é mãe. E por um momento — um só, rápido, mas brutal —, a mente dele fez a pior pergunta possível: E se for meu? A resposta veio logo em seguida, interna, amarga, como um tapa: Ela teria me dito. Teria… certo?
Mas o silêncio longo entre eles — aquele tipo de silêncio onde ninguém respira fundo nem se move, só se aguenta — foi o suficiente pra ele entender que não havia garantias ali. Não de nada. "Scarlet…" Alek sussurrou, a voz quase falhando, algo que raramente acontecia com ele. "Você tem um filho? Ou filha? Há quanto tempo?" A pergunta saiu seca. Não por frieza, mas porque ele ainda estava tentando controlar a maré subindo por dentro. Aquilo o atingia em vários lugares que ele nem sabia que ainda estavam expostos.
Ela escondeu isso todo esse tempo.
E se for meu?
E se não for, mas ela criou isso sozinha, com todo esse peso?
Sentia o coração bater nas têmporas, acelerado, não por raiva, mas pela súbita consciência de que havia um mundo inteiro dela que ele não conhecia. E que talvez nunca tivesse conhecido, se ela não tivesse quebrado ali, nos braços dele. "Ei... ei, calma. Respira." Alek puxou o rosto dela com cuidado, as mãos quentes segurando as laterais do rosto choroso. "Eu preciso que você me diga com clareza agora, Scarlet. Porque isso não é pequeno. Isso muda tudo. Você é mãe. E...", ele engoliu seco "...existe alguma chance de eu ser pai?" O medo na pergunta estava ali, mas ele segurava firme. Não por si. Por ela. Porque ele conseguia imaginar a angústia de guardar um segredo assim. Mas precisava saber.
Aquele silêncio se via numa linha tênue entre o desconforto e o aconchego. Scar ainda não sabia mensurar seus sentimentos, e muito menos o que estava sentindo ali. Ela só precisava de um tempo para chorar, para respirar, e para desabafar as mentiras que vivenciou nos últimos tempos. Todas as vezes que era questionada sobre os motivos de ter ido embora, todas as vezes que também lhe perguntavam o motivo de ter voltado... Estava agora ali, escancarada a verdade nua e crua para Aleksander.
Sabia que aquele silêncio seria quebrado cedo ou tarde, porque o conhecia o suficiente para saber que seria questionada, que precisaria explicar, e foi por isso mesmo que seu subconsciente havia a levado até ali. Precisava colocar para fora tudo que vinha a deixando maluca, e se apaixonar nunca fora seu objetivo. Se desprendeu um pouco dos braços do homem, os olhos ainda marejados, uma lágrima teimando em escorrer por seu rosto, mas respirou fundo, organizando seus pensamentos. - Uhum, tenho um filho... - Seu raciocínio estava um pouco lento para conseguir dar todas as respostas assim tão rapidamente, ou ouvir direito as perguntas.
Realmente não era algo pequeno, algo que pudesse só ignorar em sua vida. Mas a pergunta a surpreendeu mais do que qualquer coisa que ele pudesse ter dito, e a expressão chorosa quase fora quebrada por uma leve risada a qual precisou segurar. Retirou as mãos dele de seu rosto, negando com a cabeça. - Sério que é essa a sua preocupação? - Afastou-se pouco, um passo para trás, era o suficiente, e então negou. - Não, não é seu. Não tem nem idade para ser. Ele só tem três anos. - E mesmo se fosse, Scar havia se acostumado tanto com a ideia dele ser apenas seu filho, que não sabia se acabaria dizendo a verdade. - Você queria saber o motivo de eu ter ido embora de Khadel... Fui porque precisei me esconder, porque os Devereaux não queriam um escândalo. E eu aceitei participar de tudo isso porque aquela criança não tem culpa de ter uma covarde como mãe e eu não quero o mesmo futuro pra ele. - As palavras eram duras, mas eram reais. Scarlet não queria que Romeo tivesse a vida infeliz e sem sentimentos que tivera, e sabia que se as coisas continuassem daquela maneira, o destino seria o mesmo que o seu.
Alek soltou o ar que não sabia que estava prendendo. Um suspiro longo, abafado, quase imperceptível. A tensão em seus ombros caiu alguns graus, como se ele tivesse se livrado de um peso que nem sabia carregar até aquele momento. "Tá…" murmurou, passando as mãos pelo rosto. "Tá. Não é meu." Repetiu, mais para si do que para ela. Como quem precisava ouvir de novo para acreditar. Não era alívio completo, mas era um tipo de alívio. Não por medo da responsabilidade, mas porque aquilo significava que Scarlet não o tinha excluído de algo que era dele. Alek encarou Scarlet com uma mistura de confusão e empatia. O olhar menos duro, mas ainda carregado do impacto do que ela acabara de revelar. "Scar, não é que essa seja minha preocupação. É que... você jogou um mundo novo em cima de mim em cinco segundos. E minha cabeça foi direto pra possibilidade mais caótica. Como sempre."
Ele deu um passo para trás e sentou no encosto do sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos. Ficou olhando para o chão por um instante, antes de falar de novo. "Mas não muda o peso do que você me contou." A voz estava baixa, mas firme. "Você é mãe. E fez tudo isso sozinha. Fugiu. Se escondeu. Carregou isso por três anos. E agora tá aqui... me contando como se ainda precisasse pedir desculpa por existir." Ele ergueu os olhos para ela, os traços agora marcados mais por cuidado do que por julgamento. "Você não é uma covarde, Scarlet. Covarde é quem vira as costas pra uma criança. Você lutou por ele. Tá lutando até agora." Alek se levantou e se aproximou de novo. Não encostou. Só ficou ali, a menos de um passo. O olhar firme no dela, exibindo um meio sorriso quase triste. "Você sempre foi mais forte do que queria admitir. E agora eu entendo por quê." Houve um segundo de silêncio. Então ele completou, com a voz mais baixa, mais íntima: "Qual o nome dele?"
Se não fosse pela companhia de Dante naqueles últimos dias, Alek provavelmente já teria apodrecido. Era assim que se sentia: em decomposição lenta, como se a culpa e a ausência estivessem corroendo de dentro pra fora. A privação de sono, o jejum quase absoluto — quebrado apenas por tragos nervosos de cigarro e goles de café forte —, o silêncio... tudo contribuía para uma deterioração que ele já não conseguia esconder nem de si mesmo. Tomava banho só quando precisava sair para sua peregrinação diária até Khadel, atrás de um rastro de Matteo. Voltava sempre de mãos abanando, coração mais vazio do que no dia anterior, e já tinha até parado de carregar o celular: era pior ver a tela acender e descobrir que não era nenhuma mensagem dele ou dos outros amigos.
Naquela manhã — ou talvez fosse noite, ou tarde, ou madrugada... ele já não sabia mais —, Alek ainda não tinha visto Dante. Supondo que o amigo tivesse finalmente cansado da função de anjo da guarda, achou que ele já devia ter voltado pra Khadel atrás de Aylin. O quarto estava escuro, abafado, parado no tempo. A luz filtrada pelas cortinas grossas deixava tudo com um tom de fim de mundo. O relógio marcava uma hora qualquer, irrelevante. Alek tentou fechar os olhos, mas mesmo o descanso era um campo minado. Dormir significava ver Matteo em versões distorcidas: machucado, partindo, o rosto cheio de mágoa, a voz rouca gritando por ele. Era insuportável. Por isso, quando ouviu a voz de Matteo vindo da cozinha, a primeira reação foi o pânico. Não o medo convencional — mas aquele tipo de susto que só se sente quando algo profundamente desejado parece prestes a acontecer, como se fosse bom demais pra ser real. O nome dito com tanta clareza. A entonação quente. Real. Diferente das vozes carregadas de dor nos seus pesadelos.
Alek se sentou de supetão, o peito disparando. Por um segundo, achou que estivesse alucinando. Passou a mão pelos olhos, pelo rosto, tentando desfazer o torpor.Levantou num impulso, os pés tropeçando no tapete do quarto enquanto atravessava o corredor. O coração batia tão alto que abafava os ruídos do resto da casa. Será que estava delirando? Será que já tinha passado do ponto de retorno? Mas lá estava ele. Matteo. Encostado na pia. Fisicamente presente, de carne e osso. Alek parou na entrada da cozinha, como se seu corpo tivesse travado ali, incapaz de se mover mais um centímetro sem permissão. E, por um momento, tudo que sentiu foi alívio. Um alívio cru, incontrolável, rasgando o peito de dentro pra fora. Seus olhos marejaram sem que percebesse, e o sorriso veio antes que pudesse contê-lo. Era um sorriso pequeno, hesitante, cheio de fissuras, mas verdadeiro. A presença de Matteo ali era o suficiente para arrancar um pedaço do peso que o esmagava. "Matteo... " O nome saiu num sussurro trêmulo, quase como uma oração. Quis correr até ele. Abraçá-lo, sentir o calor do seu corpo, agarrar-se à certeza de que ele realmente estava ali. Mas não sabia se ainda tinha esse direito. Matteo estava ali, sim mas por quê? O que o tinha trazido de volta? "Você...", engoliu em seco. "Você tá bem? Eu..." A voz falhou, e ele passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor. "Eu fui a Khadel todos os dias atrás de você. Todos os dias."
[o despertar da maldição | terceira semana de agosto de 2025]
O silêncio na cozinha pareceu se estender por horas, embora apenas alguns segundos tivessem passado. Matteo continuava parado, encostado na pia como se seu corpo fosse feito de pedra — tenso, contido, cada músculo se segurando para não desabar. O cheiro de café velho ainda pairava no ar, misturado ao resíduo de cigarro que impregnava as cortinas. Aquela era a casa de Alek. Familiar. Estranha. Intacta e, ao mesmo tempo, completamente diferente do que ele lembrava. Ver Alek ali, parado na porta, com os olhos úmidos e o rosto marcado por dias que certamente não pareciam fáceis, ativou algo dentro de Matteo que ele não soube nomear. Um instinto, talvez. Um ímpeto de correr até ele, de desfazer aquela distância absurda com um abraço que o protegesse do mundo. Mas ele não se moveu. Não ainda. Seu coração batia acelerado, não por alegria, mas por tudo que ainda estava entalado na garganta. O reencontro trazia mais perguntas do que respostas. Mais feridas expostas do que conforto.
"Eu sei," ele respondeu, baixo, quase sem encarar. Matteo baixou os olhos para as próprias mãos. Estavam trêmulas, ainda que ele tentasse esconder. Tudo nele doía. O corpo cansado das noites mal dormidas, a mente exausta das repetições mentais do que poderia ter feito diferente. Ele respirou fundo, o ar entrando com dificuldade, como se cada inspiração precisasse vencer uma barreira dentro do peito. "Eu lhe evitei todos os dias," ele continuou, a voz firme num esforço quase cruel. "Mesmo quando queria voltar."
Matteo pensou no beijo. Naquela noite desajeitada, no toque sem propósito, no gosto de alguém que não era Alek. Pensou no vazio que sentiu logo depois, no enjoo existencial que o perseguiu pelas horas seguintes. E em como tudo aquilo foi, de certa forma, uma resposta. Ele não queria explorar nada. Não queria descobrir quem era longe de Alek. Queria esquecer. Se anestesiar. E falhou. A presença de Alek ali, diante dele, era quase insuportável. Ver o rosto dele, magro, abatido, os olhos ainda acesos apesar de tudo, só tornava as coisas mais difíceis. Matteo sabia que não podia simplesmente jogar tudo pra debaixo do tapete. Que voltar era mais do que estar fisicamente presente — era reconhecer que os dois erraram. Que existia uma rachadura, e que ela não ia sumir só porque ele apareceu. Matteo ergueu os olhos. Encontraram os de Alek por um segundo longo demais. Um segundo carregado de tudo que não sabiam como dizer. "Você me perguntou se eu tô bem," ele riu, um riso breve e seco, que não era divertido, "não. Não tô. Mas acho que isso é o que acontece quando a gente machuca alguém que ama. Ou quando sente que foi machucado e não sabe direito o que fazer com isso." Finalmente levantou os olhos. Encontraram os de Alek com a intensidade de quem não quer fugir. "Eu beijei outra pessoa," confessou, sem rodeios. "Não porque quis. Ou melhor, talvez eu tenha querido, sim, mas não da forma certa. Foi... Raso. Vazio. E no segundo seguinte, eu já me arrependi."
A confirmação de que Matteo o havia evitado todos aqueles dias atravessou Alek como uma lâmina fria, fina e precisa. Um arrepio percorreu sua espinha e, por um segundo, ele não soube onde colocar as mãos, o corpo, os olhos. Aquilo era a materialização de um medo que Alek vinha tentando sufocar desde que Matteo partira — o medo de que, no fim, eles voltassem a ser estranhos. Alek apertou levemente os punhos, como se fosse possível conter a dor física que irradiava do peito. Não conseguia refrear a culpa por ter colocado aquela distância entre eles. O olhar dele desceu, pousando nas mãos de Matteo, trêmulas, e um impulso quase incontrolável o atravessou — vontade de tocá-lo, de oferecer conforto, de desfazer qualquer distância ainda existente entre eles. Mas não se moveu. Ainda não. Havia barreiras demais entre os dois, coisas que não estavam resolvidas só porque Matteo resolveu voltar ali. "Eu sei que talvez eu não merecesse te ver..." Alek começou, com a voz embargada, tentando manter o controle. "Mas eu precisava tentar. Não porque eu achava que podia te convencer a voltar… mas porque eu precisava que você soubesse o quanto eu tô arrependido, por tudo. Eu quero ser um cara melhor, Teo. Você me faz querer ser um homem melhor."
Estava prestes a continuar — o discurso que ensaiou incontáveis vezes em silêncio, entre um trago de cigarro e outro, entre os pesadelos e os retornos vazios de Khadel. Mas então Matteo falou e Alek congelou. Foi um instante só, mas nele todo o ar do ambiente pareceu se retirar. Seu peito afundou com um peso novo. Os olhos arregalaram-se por reflexo, como se tentassem assimilar, mas não havia lógica possível. Matteo. Outra pessoa. Um beijo. Alek não conseguia imaginar. Ou melhor, não queria. Não podia. Era como se aquele único pensamento ferisse mais do que tudo o que havia passado até então. Matteo se perdendo, mesmo que por um instante, em alguém que não era ele.
Alek abaixou os olhos, sem saber onde pousá-los. Procurou desesperadamente algo onde pudesse se ancorar: a quina da pia, os próprios pés, as sombras projetadas na parede. Tudo tremia. Tudo falhava. Mas então veio a parte mais difícil. Ou talvez a mais compreensível. Matteo confessou que foi raso. Vazio. Que se arrependeu no segundo seguinte. E isso foi, ao mesmo tempo, um alívio e uma ferida nova. Porque era exatamente o que Alek também tinha sentido quando beijou outra pessoa — uma tentativa desesperada de apagar, de se vingar da dor, de provar que podia viver sem ele. Mas não podia. Então por que doía tanto ouvir aquilo da boca de Matteo? "Por quê?" A palavra escapou quase sem força, como se fosse velha demais para ainda ser pronunciada. Sua voz falhou, tremida, carregada de tudo que ele ainda não sabia como dizer. "Foi por minha causa? Porque eu te feri primeiro?" Ele ergueu os olhos, e neles não havia raiva. Só a confusão devastadora de quem ainda ama mesmo depois da queda. Vulnerabilidade, sim. Insegurança, também. Mas acima de tudo, havia uma honestidade desarmada — a de alguém que já perdeu tudo, menos o sentimento que o mantém de pé. "Você fez isso pra me esquecer?" Ele perguntou, quase num sussurro. "Ou pra me punir?"
[o despertar da maldição | terceira semana de agosto de 2025]
O que tinha acontecido na noite anterior não era nada do feitio de Matteo. Ele havia beijado outra pessoa. Um beijo rápido, impulsivo, com um estranho que mal lembrava o nome. Havia beijado outro homem. E agora, à luz da manhã, a lembrança do momento parecia ainda mais fora de lugar. Não achava que tinha feito aquilo por vingança. Nunca foi esse tipo de pessoa. Mas, ao mesmo tempo, também tinha dificuldades em entender por que sequer havia feito. Talvez tenha sido uma tentativa patética de esquecer o outro. De calar o nó que crescia na garganta toda vez que pensava em Aleksander e em tudo o que não eram. Outra parte talvez quisesse experimentar, testar limites, da mesma forma que Aleksander parecia ter feito tantas vezes — livre, sem culpa, sem hesitação. Matteo nunca foi assim. Sempre pensava demais antes de agir, sempre ponderava sentimentos, consequências, gestos. Qualquer que fosse o motivo daquela noite, não era do tipo que beijava alguém por simplesmente beijar. E ainda assim… aconteceu. O beijo, no entanto, não havia significado nada. Nenhum calor. Nenhuma descarga elétrica. Nenhum arrepio familiar. Só um gosto amargo de deslocamento e arrependimento, que se arrastou madrugada adentro até finalmente adormecer.
Acordou na manhã seguinte com a cabeça pesada e um gosto metálico na boca. Sentia-se culpado. Sujo, até. Apesar de ele e Aleksander nunca terem exatamente rotulado o que tinham, aos olhos de Matteo, estavam juntos juntos. Namorando. Estavam tentando, mesmo com o mundo em colapso ao redor deles, mesmo com as incertezas pairando no ar. Ele havia se comprometido emocionalmente. E agora sentia como se tivesse traído algo invisível, mas ainda assim sagrado. E mesmo que Aleksander tivesse os quebrado primeiro, não era desculpa para seus próprios atos. Vestiu-se rápido e saiu sem café. O dia estava abafado, e o céu ameaçava tempestade. Caminhou em silêncio até a casa de Aleksander, as mãos suadas e o coração acelerado. Precisava vê-lo. Precisava… de algo. Perdão, talvez. Ou apenas confirmação de que aquilo entre eles ainda estava ali.
"Aleksander?" Matteo chamou ao entrar pela porta da cozinha, que estava destrancada. A madeira rangeu sob seus pés. O lugar não parecia tão ruim quanto imaginava. Não havia sinais de pressa, nem de abandono. A chaleira ainda estava morna no fogão. Matteo avançou alguns passos, os olhos percorrendo o ambiente em busca de qualquer indício. Parte dele torcia para que Aleksander não estivesse ali. Outra parte queria vê-lo imediatamente, resolver aquilo — ou ser punido por ter vacilado. "Sou um idiota", sussurrou para si mesmo, encostando-se na pia. Fechou os olhos por um segundo. O silêncio da casa parecia mais alto do que qualquer resposta que pudesse receber. @alekmoretti @khdpontos
Se não fosse pela companhia de Dante naqueles últimos dias, Alek provavelmente já teria apodrecido. Era assim que se sentia: em decomposição lenta, como se a culpa e a ausência estivessem corroendo de dentro pra fora. A privação de sono, o jejum quase absoluto — quebrado apenas por tragos nervosos de cigarro e goles de café forte —, o silêncio... tudo contribuía para uma deterioração que ele já não conseguia esconder nem de si mesmo. Tomava banho só quando precisava sair para sua peregrinação diária até Khadel, atrás de um rastro de Matteo. Voltava sempre de mãos abanando, coração mais vazio do que no dia anterior, e já tinha até parado de carregar o celular: era pior ver a tela acender e descobrir que não era nenhuma mensagem dele ou dos outros amigos.
Naquela manhã — ou talvez fosse noite, ou tarde, ou madrugada... ele já não sabia mais —, Alek ainda não tinha visto Dante. Supondo que o amigo tivesse finalmente cansado da função de anjo da guarda, achou que ele já devia ter voltado pra Khadel atrás de Aylin. O quarto estava escuro, abafado, parado no tempo. A luz filtrada pelas cortinas grossas deixava tudo com um tom de fim de mundo. O relógio marcava uma hora qualquer, irrelevante. Alek tentou fechar os olhos, mas mesmo o descanso era um campo minado. Dormir significava ver Matteo em versões distorcidas: machucado, partindo, o rosto cheio de mágoa, a voz rouca gritando por ele. Era insuportável. Por isso, quando ouviu a voz de Matteo vindo da cozinha, a primeira reação foi o pânico. Não o medo convencional — mas aquele tipo de susto que só se sente quando algo profundamente desejado parece prestes a acontecer, como se fosse bom demais pra ser real. O nome dito com tanta clareza. A entonação quente. Real. Diferente das vozes carregadas de dor nos seus pesadelos.
Alek se sentou de supetão, o peito disparando. Por um segundo, achou que estivesse alucinando. Passou a mão pelos olhos, pelo rosto, tentando desfazer o torpor.Levantou num impulso, os pés tropeçando no tapete do quarto enquanto atravessava o corredor. O coração batia tão alto que abafava os ruídos do resto da casa. Será que estava delirando? Será que já tinha passado do ponto de retorno? Mas lá estava ele. Matteo. Encostado na pia. Fisicamente presente, de carne e osso. Alek parou na entrada da cozinha, como se seu corpo tivesse travado ali, incapaz de se mover mais um centímetro sem permissão. E, por um momento, tudo que sentiu foi alívio. Um alívio cru, incontrolável, rasgando o peito de dentro pra fora. Seus olhos marejaram sem que percebesse, e o sorriso veio antes que pudesse contê-lo. Era um sorriso pequeno, hesitante, cheio de fissuras, mas verdadeiro. A presença de Matteo ali era o suficiente para arrancar um pedaço do peso que o esmagava. "Matteo... " O nome saiu num sussurro trêmulo, quase como uma oração. Quis correr até ele. Abraçá-lo, sentir o calor do seu corpo, agarrar-se à certeza de que ele realmente estava ali. Mas não sabia se ainda tinha esse direito. Matteo estava ali, sim mas por quê? O que o tinha trazido de volta? "Você...", engoliu em seco. "Você tá bem? Eu..." A voz falhou, e ele passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor. "Eu fui a Khadel todos os dias atrás de você. Todos os dias."